Dark Horse (de Tróia): O Fim do Mito Bolsonarista

Flávio Bolsonaro, no rastro sinuoso de seu pai, passou meses tentando esculpir uma imagem de homem público moderado e responsável, distante do insidioso e corrupto habitus político da Nova República, bastou a revelação de um áudio e algumas mensagens para que a estátua de sal desmoronasse.

A reportagem do Intercept Brasil expôs a reviravolta numa trama que até então parecia favorecer a oposição: o pré-candidato à Presidência da República, enquanto negociava milhões com um banqueiro hoje acusado de comandar a maior fraude financeira da história do país, tratava-o por “irmão” e implorava por “uma luz”.

O enredo é notável:

Flávio articulou pessoalmente com Daniel Vorcaro o repasse de 134 milhões de reais para um filme sobre seu pai. O contato ocorreu em novembro de 2025, um dia antes de Vorcaro ser preso no aeroporto de Guarulhos com o Banco Master já em estado terminal.

O banqueiro respondia por um rombo de 47 bilhões de reais ao Fundo Garantidor de Crédito, com vítimas que incluem fundos de pensão de servidores públicos e o Banco de Brasília. Sem censura, após a prisão, Flávio foi visitá-lo em casa para, segundo sua versão, “colocar um ponto final” na história. Um ponto final que, na prática, já havia rendido 61 milhões de reais em seis parcelas.

A defesa do senador é tão previsível quanto frágil. Alega que se tratava de “patrocínio privado para um filme privado”, repetindo o mantra da distância em relação à Lei Rouanet e a qualquer dinheiro público.

A tentativa de blindagem ignora o óbvio: o Banco Master estava afogado em recursos públicos e paraestatais. Foi através dos depósitos do Rioprev, o fundo de previdência dos servidores fluminenses, que a instituição se capitalizou pouco antes de quebrar. A origem do dinheiro, portanto, não tem nada de privada — ela é social, é dos trabalhadores, é da viúva que depende do benefício, é do contribuinte que sustenta o socorro ao sistema financeiro.

Não é a primeira vez que Flávio se enrosca com a suspeita de transformar o patrimônio alheio em projeto pessoal. O caso das “rachadinhas” jamais foi sepultado. Agora, o escândalo Vorcaro reacende o incômodo com a naturalidade familiar diante do jeitinho brasileiro que tanto criticaram. A rota internacional dos recursos escancara outra dimensão malpropícia: o dinheiro passou por um fundo offshore no Texas gerido por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, produtor-executivo do filme.

A Polícia Federal investiga se parte dos valores financiou despesas pessoais de Eduardo nos Estados Unidos. O “Havengate”, como já foi apelidado, transforma o clã num emaranhado de interesses difícil de explicar sem recorrer à palavra que o bolsonarismo sempre prometeu combater: corrupção.

Para contornar o caos, Flávio optou pela rota passivo-agressiva: gargalhou, chamou jornalistas de “militantes” e dobrou a aposta pedindo novamente pela CPI do Banco Master. Depois, acuado pelas evidências, admitiu o contato e atribuiu a intimidade com Vorcaro ao “jeito de falar”. A mesma ginga verbal que antes servia para desqualificar adversários agora tenta encobrir a promiscuidade entre poder político e capital financeiro.

Assim a hipocrisia atinge um grau elevado de desfaçatez. Flávio tentou ocupar o centro do palco como gestor austero e anticorrupção. A realidade entrega um político que se tremulou e materializou provas contra si ao sinal da perda dum benefício espúrio. A tragédia não está apenas no risco eleitoral que o caso representa. Está na confirmação melancólica de que o bolsonarismo é apenas outra faceta de uma estrutura política agonizante.

O filme Dark Horse pode, ironicamente, ser o grande Cavalo de Tróia que desfaz o engodo conservador-liberal da família Bolsonaro e implode seu já medíocre legado político.

Augusto Freddo Fleck
Augusto Freddo Fleck

Gaúcho, dissidente, bacharel em Ciências Sociais e tradutor.

Artigos: 58

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