A esquerda brasileira na defesa dos traficantes em nome da “soberania nacional”

A esquerda brasileira acha que dá pra repetir, nesse caso do CV/PCC como terroristas, aquela movimentação contra as tarifas utilizando o discurso da “soberania nacional” e com os mesmos resultados.

Não é assim que vai funcionar.

A diferença fundamental aí é que todo o empresariado nacional, a classe média e boa parte dos trabalhadores sacaram de forma imediata que a decisão das tarifas poderia prejudicá-los de forma bem direta e imediata. E tudo isso por causa de uma questão puramente familiar dos Bolsonaros, já que nada no Brasil demandava essa medida. É óbvio que vários setores ficariam revoltados com os Bolsonaros e fariam um aceno favorável ao Lula, o que se refletiu, naquela época, nas intenções de voto e índices de aprovação.

No caso da designação do CV e do PCC como terroristas é exatamente o caso oposto. Em primeiro lugar, existe um problema real de domínio territorial por parte dessas organizações, tornando as vidas de pessoas comuns um inferno. Existe uma leniência de décadas do governo federal e dos governos estaduais em relação a esse problema, o governo federal se recusando a tornar nossas leis mais rigorosas e impedindo a militarização do conflito, os governos estaduais fazendo operações pontuais e se recusando a ir com tudo pra cima e ocupar os territórios do inimigo. O Judiciário persegue a polícia e bloqueia operações. Todas as pessoas comuns percebem que temos um problema endêmico aí e que a situação brasileira é insustentável. Brasileiros fogem do país por causa da criminalidade e veem a questão da segurança como um problema imediato.

Ademais, ninguém enxerga como essa designação poderia afetar suas vidas pessoais ou causar algum prejuízo pessoal ou material. A não ser que os EUA queiram se meter com o Pix, por enquanto não há no horizonte nada que possa mobilizar a população ao redor do governo em cima da pauta da “segurança nacional” contra a decisão dos EUA.

Isso significa que todo discurso sobre “soberania nacional” contra essa designação será visto como uma piada e como defesa dos criminosos. O péssimo é que essa insistência em papagaiar sobre “soberania nacional” nesse caso vulgariza o conceito, sendo que a melhor resposta possível que o Lula poderia dar seria intensificar ainda mais o combate às organizações criminosas, preferencialmente fazendo um dos braços estaduais de uma dessas organizações de exemplo, como o CV do Ceará, por exemplo.

Mas nada disso vai acontecer. Pelo que vimos, a diretriz do governo é defender “os nossos traficantes” em nome da “soberania nacional”.

Raphael Machado
Raphael Machado

Advogado, ativista, tradutor, membro fundador e presidente da Nova Resistência. Um dos principais divulgadores do pensamento e obra de Alexander Dugin e de temas relacionados a Quarta Teoria Política no Brasil.

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