A Espanha e a Palestina: De Franco a Sánchez, uma Fidelidade Diplomática Incomum

Segunda-feira, 22 de setembro, o presidente francês Emmanuel Macron discursou na ONU para reconhecer oficialmente o Estado palestino, juntando-se assim a nações como Espanha, Bulgária, Chipre, Eslováquia, Hungria, Malta, Polônia, República Tcheca e Romênia.

Nesta assembleia, a Espanha ocupa um lugar à parte: fiel há décadas à causa palestina, distingue-se por uma constância que não pode ser atribuída ao acaso. Essa fidelidade ultrapassa as alternâncias políticas, sejam governos de esquerda ou de direita, e tem suas raízes em uma tradição que remonta à época franquista. Madri, apesar das transformações europeias e mundiais, soube manter, com obstinação e às vezes em silêncio, sua linha de apoio à Palestina.

É necessário nos determos nessa continuidade. A análise atenta dos meandros da diplomacia espanhola revela verdades há muito tempo silenciadas, realidades que muitos espanhóis desconhecem. Compreender a Espanha nesse assunto é iluminar um cálculo sutil: aqui se entrelaçam estratégia nacional e fidelidade histórica, e fica claro que Madri encontra no apoio à Palestina não apenas um interesse político, mas também o reflexo de uma identidade diplomática coerente, que se afasta de Israel para se voltar resolutamente para a causa palestina.

Para apreender essas constantes, é preciso voltar aos anos trinta, ou seja, ao tempo da Segunda República. Esse regime, que o cinema espanhol às vezes quis fazer parecer uma idílio, não era nada disso: era uma democracia formal, entregue aos confrontos violentos entre esquerda e direita, tanto nas urnas quanto nas ruas. Os cartazes de propaganda, que ainda hoje encontramos, são testemunhos evidentes dessa guerra civil latente.

Vejam, por exemplo, este cartaz da Acción Popular, grande partido da direita republicana. Podemos ler: “Marxistas, maçons, separatistas, judeus — todos querem aniquilar a Espanha”. É aí que se forma e se difunde uma expressão que ficou famosa na memória nacional: a famosa “conjuração judaico-maçônica”.

E dir-me-ão talvez: mas afinal, havia tantos judeus na Espanha para merecer tamanha animosidade? A verdade é bem outra: quase não havia. Enquanto na Polônia eles se contavam aos milhões, na Alemanha ainda eram centenas de milhares, na Espanha encontravam-se apenas alguns milhares. Ou seja, seria mais fácil avistar um jornalista honesto na LCI do que cruzar com um judeu nas ruas de Burgos ou Valladolid.

Por que então, nessas condições, esse ressentimento obstinado, essa obsessão que alguns classificariam como antissemita? É que na política a imitação é uma lei tão firme quanto a da gravitação. Hitler conquistara as massas com seu antissemitismo; os partidos que se assemelhavam a ele, em toda a Europa, imitaram sua postura, esperando com as mesmas palavras suscitar os mesmos entusiasmos. A Espanha não escapou a essa contaminação.

É preciso dizer também que o terreno estava preparado há séculos. Neste país, a memória histórica ainda se orgulha de 1492, ano em que os Reis Católicos, num gesto que se glorificou por muito tempo como vitória nacional, expulsaram a raça judaica da península. Mais tarde, certamente, a Constituição de 1869 abriu as portas para a liberdade de culto e algumas famílias retornaram. Mas os séculos haviam impresso na língua, nos usos populares, um fundo de ressentimento, uma ironia cruel, quase transformada em costume.

Em Castela e Leão – esta terra severa e pedregosa de onde venho – sobrevivem ainda, à sombra dos claustros e das aldeias agarradas às colinas, costumes cujo sentido escapa aos modernos, mas que testemunham com uma força implacável a permanência dos séculos. Na tradição espanhola, especialmente na Andaluzia e em Castela, existia uma faca, uma lâmina recurvada de bom tamanho, que se chamava cuchillo matajudíos (ver imagem abaixo). A palavra, tão crua para os nossos ouvidos delicados, significa literalmente: “mata judeus”. Para minha avó, esse vocábulo não tinha nada de provocação: pertencia à linguagem da terra, tão natural quanto os ditados sobre a vinha ou as invocações aos santos.

Em León, durante a Semana Santa, “saía-se para matar judeus” – mas não se enganem: nenhum sangue corria, nenhuma caça real se fazia. Era uma expressão cristalizada, que cobria um rito báquico: a absorção ritual de uma limonada. E, no entanto, o nome permanecia, como um vestígio de séculos mais ásperos.

Outro exemplo insólito: até 2015, existia na província de Burgos uma aldeia que se chamava, sem vergonha, Castrillo de Matajudíos. E adivinha-se, claro, que nenhum filho de Abraão vivia entre as sessenta almas daquele vilarejo pedregoso.

Não se pense que prego aqui o “politicamente correto”, nem que reclamo a reforma da língua em nome de uma moral importada. Mas é verdade, e todos podem concordar, que a linguagem é o espelho fiel da cultura, e que a cultura é memória longa. Ela não se apaga de repente, porque um filme de Spielberg teria enternecido nossas consciências.

Assim, nada de espantoso se, nos anos trinta, alguns políticos jogaram a carta do antissemitismo. Parecia-lhes então tão natural quanto outros argumentos eleitorais. A República Espanhola, de qualquer forma, haveria de terminar na tragédia. Dois campos se ergueram: os insurgentes, liderados pelo general Franco, apoiados pela Itália fascista e pela Alemanha hitlerista; e os republicanos, enquadrados por Moscou e suas brigadas internacionais. Franco triunfou. E eis por que, durante a guerra mundial, a Espanha se encontrou no “lado errado”, o que não significa que tenha realmente lutado ao lado do Reich. Franco, prudente, multiplicou as piruetas diplomáticas: enviou a Divisão Azul para a frente russa, mas evitou um comprometimento maior.

Nem por isso: ter estado sentado à mesa errada valeu à Espanha um longo isolamento. Quando os vencedores fundaram a ONU, deixaram a Espanha de Franco na soleira. Uma resolução de 1946, severa como uma sentença de proscrição antiga, declarou-a pária: convidaram-se as nações a recolher seus embaixadores. A Espanha se viu relegada à penumbra, tal qual uma Coreia do Norte antes da hora.

E como respondeu Madri? Com uma daquelas piruetas diplomáticas que Franco tinha como segredo, uma ginástica de habilidade rara, e que lhe permitiu vestir subitamente a máscara de “salvador dos judeus”. Acreditam que exagero? Que invento? Então releiam esses jornais da época. Em fevereiro de 1970, o jornal Le Monde estampava “Segundo a Newsweek, o general Franco teria salvo sessenta mil judeus durante a Segunda Guerra Mundial”.

Schindler salvou mil e duzentos e fizeram dele um drama lacrimoso para Hollywood; Franco, se acreditarmos nesses números, mereceria não um filme, mas uma trilogia inteira.

Poderíamos também mencionar o caso do diplomata espanhol Ángel Sanz Briz (foto abaixo), apelidado de “Anjo de Budapeste”. Ele mobilizou com astúcia admirável todos os subterfúgios de uma chancelaria para proteger milhares de homens condenados. Que se discuta agora os motivos – humanidade sincera ou cálculo político – não tem nada de espantoso: poderíamos fazer a mesma pergunta sobre Schindler.

Para aqueles que não se satisfazem com a lenda oficial e querem perscrutar, por trás do véu das narrativas consagradas, a verdade de um personagem que nos foi dado como salvador providencial, a leitura da obra de Yves Leblond, A Lista de Schindler: Mito e Realidade, impõe-se como um passo necessário. É aí que o pesquisador atento descobrirá, não a auréola dourada de um herói de cinema, mas as sombras, as contradições e a verdade nua que quiseram relegar para longe do alcance das consciências dóceis.

E eis, para selar o paradoxo, a declaração de um ministro israelense, Shlomo Ben-Ami, em 1991: “O poder judeu foi incapaz de modificar a política de Roosevelt em relação aos judeus. O único país europeu que verdadeiramente prestou ajuda foi um país onde a influência judaica era inexistente: a Espanha, que salvou mais judeus do que todas as democracias juntas.” [1] Isso deveria constar nos manuais, mas em nenhum lugar se lê. Por quê? Porque ninguém tinha interesse em dizê-lo.

Na própria Espanha, nos anos quarenta, Franco edificava seu nacional-catolicismo, ditadura de baionetas e incensários, e não iria, portanto, gabar-se de manobras que se operavam fora de suas fronteiras. E depois, outra ironia: a “conjuração judaico-maçônica” que as propagandas da Falange ostentavam antes da guerra civil, desapareceu como por encanto após a vitória. Restava apenas a conjuração maçônica e comunista, pois Franco sabia, ele, que os Aliados sairiam vitoriosos do conflito. Resultado: o Ocidente, já na guerra fria, perdoou os “pecados” do Caudilho, em troca de seu anticomunismo.

Mas o país do “Nem perdão nem esquecimento”, esse, não perdoou. Em 1948, nasce o Estado hebreu e reclama o reconhecimento de todos. Todos, exceto dois: a Alemanha derrotada e a Espanha de Franco. E o verdadeiro choque ocorreu em 1950, quando a Assembleia Geral das Nações Unidas votou a suspensão do boicote diplomático contra Madri. Quem se opôs? Todo o bloco comunista… e Israel. O delegado israelense Abba Eban, veemente, fustigou sem cerimônia a antiga aliança do regime espanhol com o Eixo.

É aí, nessa ferida, que se deve buscar a origem de uma constante: a Espanha franquista, humilhada pela recusa de Israel, voltou-se dali em diante para a causa palestina. Memória rancorosa do Caudilho. Mas havia mais. Franco, para levantar o veto que fechava à Espanha as portas da ONU, precisava de votos, e especialmente dos votos das nações árabes. E desse pacto decorreu uma dupla vantagem: apoio diplomático e contratos de petróleo.

A manobra funcionou: em 1955, Madri obteve seu assento nas Nações Unidas. E se ainda procuramos um terceiro motivo para essa convergência hispano-árabe, ele é bem simples: a religião. Já se disse: o regime de Franco baseava-se inteiramente no alicerce da religião católica. Tanto que se poderia qualificar sua ideologia de nacional-catolicismo. Ora, como a Providência quis, os Lugares Santos da cristandade – Belém, Jerusalém – encontravam-se então sob tutela jordaniana. A Espanha, fiel à sua missão espiritual, defendia na ONU a resolução 181, que previa que essas terras fossem colocadas sob um mandato internacional. E quem deveria velar por esse depósito sagrado, senão as potências católicas da Europa? França, Bélgica, Itália… e, claro, a Espanha. Sim, houve um momento singular, quase surrealista, em que Madri vislumbrava tornar-se novamente a guardiã de Jerusalém. Nunca pararam para ler o título completo do rei da Espanha? Felipe VI não é apenas rei da Espanha, mas também… rei de Jerusalém. Herança das cruzadas, relíquia de um passado glorioso, hoje desprovida de substância jurídica, mas que ainda faz efeito numa conversa de botequim.

Nessa lógica, a Espanha cultivava uma prudência oriental. Pois era preciso contar com o vizinho do Sul, o Marrocos, sempre pronto a reivindicar Ceuta, Melilha e até as Ilhas Canárias, territórios espanhóis muito antes do nascimento do sultanato xerifiano. Assim, acariciar os países árabes era também conter os arroubos marroquinos.

Deve-se concluir que a Espanha franquista sucumbiu ao antissemitismo? Muito ao contrário. Na mesma época, por um paradoxo que é apenas aparente, ela facilitou a emigração dos judeus marroquinos para Israel, apesar dos obstáculos impostos por Rabat. Mais ainda: durante a Guerra dos Seis Dias, embora Franco se alinhasse ao lado árabe, recebeu de Washington uma súplica singular: interceder junto ao Egito, onde as comunidades judaicas eram perseguidas. E a Espanha, usando de suas boas graças junto ao Cairo, obteve que elas pudessem seguir para Israel.

Depois vieram os anos setenta, onde tudo mudou ao mesmo tempo na Espanha e em Israel. Se se deve fixar uma virada decisiva, seria a Guerra do Yom Kippur, em 1973. Israel, surpreendido pelo ataque egípcio-sírio, reagiu com uma vigor fulminante. Mas dessa provação, reteve uma lição definitiva: que sua salvação passava dali em diante pela aliança americana. Na ordem da Guerra Fria, Israel pendia assim para o lado ocidental. Esse pendor acompanhou-se de uma mutação interna: o jovem Estado, até então socializante, abriu-se às práticas do liberalismo e do capitalismo.

E o que se passava na Espanha? Uma revolução bem mais profunda: Franco morre em 1975, e três anos depois o país se dota de uma Constituição democrática. Contudo, a política no Oriente Médio permanece congelada: apoiar o campo árabe continuava vantajoso, tanto por razões econômicas quanto para neutralizar o Marrocos. É nesse contexto que, em 1977, a OLP abre uma representação em Madri, e que Arafat, recebido por Adolfo Suárez, encontra ali uma hospitalidade fraterna. Ironia: Suárez, homem de centro-direita, muito distante das esquerdas, não hesitava em acolher a ícone da causa palestina. É algo como – guardadas as devidas proporções – se Jordan Bardella, em vez de cumprimentar Meyer Habib, se ajoelhasse diante de Rima Hassan!

Foi preciso esperar a chegada ao poder do socialista Felipe González para ver a Espanha reconhecer Israel. Essa virada, iniciada já na presidência de Calvo Sotelo, coincidia com a marcha da Espanha para a OTAN e depois para a Europa. No final dos anos oitenta, o socialismo no poder acolheu Israel com calor, mantendo excelentes relações com a Palestina: situação ideal para desempenhar o papel de mediador. Assim se explica que a primeira conferência de paz em que israelenses e palestinos se sentaram à mesma mesa se realizou… em Madri, em 1991.

Os espanhóis podem se orgulhar dessa trajetória. Em poucas décadas, a Espanha passou do status de isolada franquista ao de ator diplomático central. Contemplem essa imagem: Felipe González, no meio de George Bush pai e Mikhail Gorbatchov, trabalhando para uma solução do conflito israelo-palestino. Eis o sinal evidente da metamorfose espanhola. O atual chefe de Estado ibérico, Pedro Sánchez, para obter um instantâneo lisonjeiro na companhia de Donald Trump e Vladimir Putin, cederia sem hesitar o quadro Guernica. Pois, do outro lado dos Pirenéus também, o político tem essa incomparável habilidade: vender a herança coletiva com o ar tranquilo de um almocreve, trocando a memória de um povo pelo brilho efêmero de um clichê.

Mas se voltarmos à Espanha dos anos 1990, o país, certamente, se modernizou e mantém agora relações diplomáticas normais, tanto com Israel quanto com os Estados árabes. Mas o que não muda quase nada é a sociedade. A sociedade espanhola permanece profundamente estranha a qualquer sentimento pró-israelense. Basta observar que a comunidade muçulmana se aproxima dos dois milhões de indivíduos, enquanto a comunidade judaica mal ultrapassa os cinquenta mil almas. Em outras palavras, os espanhóis nunca aprenderam a “conviver” com os judeus; a familiaridade lhes falta. É raro encontrar um espanhol que tenha um amigo judeu, enquanto cada um conhece pelo menos alguém exibindo o famoso keffiyeh palestino. Esse símbolo, tornado emblema ideológico da esquerda, ilustra melhor do que qualquer estatística a orientação moral dessa sociedade.

Mas como explicar esse paradoxo? A ditadura de direita – o franquismo – mostrava-se claramente favorável aos árabes e só reconheceu Israel tardiamente, sob um governo de esquerda. Como então se dá que seja agora a esquerda a se fazer campeã da causa palestina? A resposta se resume a uma palavra: o antiamericanismo. Com o colapso da União Soviética, tudo o que se relaciona aos Estados Unidos suscita uma rejeição visceral na esquerda espanhola, uma rejeição levada ao auge quando o presidente conservador José María Aznar apoia George W. Bush na invasão do Iraque. A consequência é límpida: para a esquerda espanhola, Aznar e Bush encarnam o mal absoluto, enquanto Israel não passa de um fantoche nas mãos do Tio Sam.

Assim sendo, a Espanha permanece fiel a uma linha que nada deve aos caprichos da moda, mas tudo à longa memória de uma nação. Não é por acaso que Madri prefere a bandeira da Palestina à estrela de Israel: essa escolha mergulha suas raízes nos rancores do franquismo, nas ilusões de um catolicismo conquistador, e até nos costumes populares que cantavam, sem pensar, a permanência dos séculos. E ainda se espantam? A Espanha não é a França, que esquece logo que perdoa, nem a Alemanha, que se ajoelha diante de suas faltas. Ela é esta terra teimosa, orgulhosa, que transforma suas humilhações em fidelidades duradouras. Chamem-lhe cálculo ou instinto, rancor ou estratégia, pouco importa: a verdade é que a Espanha, desde Franco até Sánchez, fez da Palestina um espelho onde contempla sua própria imagem. E nesse espelho, não é apenas o Oriente que se reflete, mas a Espanha mesma, eterna em sua constância, obstinada em suas inimizades, fiel ao seu destino até nas alianças mais paradoxais.

Fonte: Egalité et Réconciliation

Fernand le Béréen
Fernand le Béréen
Artigos: 57

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