O Marquês de Sade: Pai do Liberalismo e maior dos Iluministas

Quando se fala nos pais do liberalismo ou nos pensadores mais representativos da teoria política fundacional da Modernidade, é comum falar em John Locke, John Stuart Mill e Voltaire. Os de predileções mais coletivistas recordarão o papel de Rousseau. Os economicistas creem que o pai do liberalismo é Adam Smith. Os de interesses mais puramente filosóficos rastreariam o liberalismo retrocedendo de Immanuel Kant a René Descartes. E, naturalmente, os interessados pela aurora do liberalismo na literatura rapidamente ressaltariam o papel do Crusoé de Daniel Defoe.

O que eu vou afirmar não é tão usual, mas me parece necessário não apenas recordar a influência de um certo personagem subestimado, mas apontar para a centralidade do infame Marquês de Sade. E, por “centralidade”, estou querendo dizer que Donatien Alphonse François de Sade é não apenas patriarca do liberalismo, mas que o seu pensamento e valores são a mais completa encarnação do liberalismo e que foi ele o pensador da aurora do liberalismo que melhor conseguiu vislumbrar as consequências derradeiras e inevitáveis do liberalismo – vendo-as como positivas, até mesmo magníficas.

Mesmo em alguns dos pais do liberalismo, como em Rousseau, é possível encontrar ecos de uma leitura teleológica ou essencialista da história – uma perspectiva que quase sempre remete a uma nostalgia inconsciente da Idade de Ouro. É daí que derivam, por exemplo, concepções liberais que especulam sobre um estado primevo pré-estatal e protossocial marcado pela ingenuidade e pela liberdade, com a inauguração da história sendo marcada pela corrupção do homem e pelo nascimento do Estado. Mesmo leituras marxianas iniciais absorvem bastante dessa “nostalgia da Idade de Ouro” – a qual é, aliás, a mãe de todas as utopias políticas.

Não é assim com Sade. Mais do que qualquer outro dos pais do liberalismo, a concepção sadeana da natureza é niilista. A natureza é caótica e sem sentido. Nela há apenas fortes e fracos, e os fracos estão e devem estar permanentemente à mercê dos fortes. Portanto, nenhum “contrato social” é possível ou mesmo desejável e necessário. Um “contrato social” só pode existir como ficção para mascarar a opressão dos fracos pelos fortes ou para espalhar a infelicidade pela limitação do gozo, que é onde Sade identifica o núcleo da liberdade. Mesmo o fraco pode ter a esperança de se vingar do seu opressor, de modo que nem ele se beneficia realmente do “contrato social”.

Ser livre é poder satisfazer os próprios desejos individuais por todos os meios à disposição, mesmo que esses desejos levem ao comportamento predatório sobre o “outro”. E isso não viola a liberdade do “outro” porque a liberdade individual, para Sade, não é uma norma abstrata e igualitária, mas puro poder individual. De modo que mesmo no ser vítima, no ser morto, escravizado, torturado, abusado, há liberdade, a liberdade da natureza.

O homem é puramente indivíduo. Ele nasce sozinho e a única coisa importante é que ele persiga seus próprios interesses egoístas, sendo isso aquilo que é determinado pela natureza. Mesmo de uma perspectiva utilitarista, preocupada com a “maior felicidade possível”, como ele reflete em “Justine”, é impossível conceber qualquer satisfação dos próprios desejos que não envolva, em algum grau, causar prejuízo a terceiros. Como todos, mesmo os fracos, têm a esperança de conseguirem se vingar dos fortes ou sobrepujar outro ainda mais fraco, a natureza se equilibra, e a felicidade geral pode ser alcançada pela busca generalizada dos próprios fins egoístas.

Ademais, levando a razão às últimas consequências, Sade afirma a impossibilidade de recompensa ou punição “após a morte”, pela própria impossibilidade de um “pós-morte” e da existência de um “Deus”. Ele até concebe a possibilidade de um “Deus” que não fosse nada além de um “motor imóvel”, porém cego e amoral. O “bem” e o “mal”, portanto, se dissolvem no nada junto do cadáver humano, não há “ninguém” que possa ser objeto de recompensa ou punição ou julgamento divino, o que torna toda moralidade impossível e irrelevante.

Como se trata aí de uma filosofia absolutamente individualista e egoísta, o “outro” entra em cena apenas como objeto. O “outro” é sempre instrumento do prazer do “déspota” que se revela perante sua vítima na esfera privada, onde todas as máscaras sociais são arrancadas. A análise que Sade faz do gozo é como momento de afirmação absoluta do indivíduo, de modo que por trás da fruição existiria sempre um desejo secreto de aniquilação de tudo que está para além de si. Não se trata apenas de fruir, mas de subtrair a fruição aos “objetos” do próprio prazer, de modo que o prazer autêntico e máximo só pode existir na desconstrução do outro e em seu rebaixamento a nada, mera carne ou em termos agambianos, “vida nua” à disposição.

Ademais, e reforçando o que é defendido em “Justine” em “A Filosofia na Alcova” Sade reitera que como a razão desconhece limites e como ela ordena a busca da autossatisfação como única lei natural, o excesso é um imperativo. Não se trata, nunca, da busca de um “prazer moderado”, mas sempre de, transgredindo toda moralidade, perseguir o excesso, o pico do prazer.

Sade, portanto, inverte Hobbes, no sentido de que ele reconhece a premissa hobbesiana do caráter predatório do estado de natureza, mas rejeita a crença na necessidade de um pacto para impor a ordem e a paz através do Estado. Mas se ele inverte Hobbes ele é, propriamente, antitético a Rousseau ao negar a possibilidade de que uma ordem social regulada por normas possa preservar a liberdade; mais ainda, como toda desigualdade é boa em si mesma, por ser conforme à natureza, a existência de qualquer tipo de “lei geral” oprime o homem. Como ele pergunta, ainda em “A Filosofia na Alcova”, “não seria iníquo que homens de caráteres desiguais se curvem a leis iguais?” Alguns homens, portanto, sempre serão vitimados, azarados e mesmo oprimidos, e isso é bom na medida em que isso sirva para satisfazer o desejo de alguém, e se é que pode-se tolerar a existência de um Estado, ele jamais deveria se intrometer para impedir que as coisas seguissem o seu “curso natural”.

Até aqui podemos dizer, com tranquilidade, que o Marquês de Sade representa a radicalização e purificação de todos os princípios iluministas e liberais: a crença no poder absoluto e ilimitado da razão, a afirmação do indivíduo sem mediações ou conciliações, a cisão mais absoluta entre sujeito (o qual é entronizado para além de todos os limites) e objeto (este, abarcando a totalidade de tudo que é não-eu, sendo então reduzido a nada), o egoísmo como essência do homem e o prazer/satisfação como único valor, a mais extrema dessacralização do mundo, a mais pura concepção do significado da liberdade como inexistência de impedimentos exteriores à livre manifestação do próprio poder.

Em alguma medida, o “pecado” de Sade, numa perspectiva modernista, foi tão somente o de querer rápido demais e cedo demais, aquilo que o liberalismo precisava amadurecer para implementar. Afinal, o mundo não é, hoje, mais próximo das concepções sadeanas do que o mundo no qual ele próprio viveu? Dugin escreve sobre esse tema em “Os Templários do Proletariado”, onde ele comenta sobre os “heróis” sadeanos como personagens que se esforçam por levar a liberdade às suas últimas consequências, contra as limitações impostas pela “democracia ilustrada” repleta de reminiscências da velha ordem teocrática, estatista e moral. Sade é, segundo Dugin, o “limite interior” do liberalismo, e os outros liberais não são, nesses termos, senão covardes que recusam-se a abraçar imediatamente a plenitude das possibilidades do liberalismo, aceitando, porém, que tudo isso se desdobre de forma gradual.

Nesse sentido, não seria Sade precursor da ordem liberal contemporânea? Seu idealizador e profeta? Afinal, Sade defendia a legalização do roubo, e o sistema econômico que se desenvolveu após a Revolução Francesa não fez senão legalizar e regulamentar inúmeras formas de roubo, como a usura. Ele, ademais, seria extremamente simpático ao abolicionismo penal, que tornou-se vigente no Ocidente liberal. Em sua época, ele defendia o fim da pena de morte e, de fato, eras depois isso foi alcançado. Sade defendia, ainda, a normalização de todas as perversões sexuais possíveis e imagináveis, como infinitas formas distintas de gozo, igualmente “amorais”. E não é isso, na prática, o que já se instaurou? O que resta de ainda proibido? Quase apenas a pedofilia (crescentemente relativizada).

Pior: a terrível percepção que temos, com a recente liberação de maiores informações sobre a rede de Epstein é de que os círculos que circundavam Epstein era composto de sadeanos conscientes. O contexto de cooptação consciente de crianças e adolescentes para a prostituição, o próprio estupro de crianças e adolescentes, a sujeição dessas moças (e não esqueçamos dos meninos) à escravidão, a tortura, o assassinato, o canibalismo, tudo isso implementado como forma de demonstração despótica do próprio prazer e para a maximização do próprio prazer através da transgressão de todos os limites morais. O mundo epsteiniano é a realização mais pura da distopia sadeana, buscada de forma acelerada enquanto a própria esfera pública, mais lentamente, vai convertendo-se nesse inferno. Não haveria, quiçá, um esquema de “normalização” aí, visando nos entorpecer para essa sadeanização do mundo através do choque sensorial e mental da tomada de consciência das atrocidades epsteinianas, na condição de absoluta impotência de submeter os monstros à lei?

Retornando à “Filosofia na Alcova”, é possível encontrar dentro do livro um “panfleto político” iluminista, o qual apresenta o “programa” sadeano.

Ele começa pela necessidade de executar o rei e eliminar a monarquia. Mas, para ele, a religião é indissociável da monarquia por seu papel como limitador moral e legitimador da opressão política. Quanto à religião, porém, Sade não defende a violência, mas a profanação e blasfêmia. É necessário legitimar e intensificar o ataque contra tudo que é sagrado, para garantir a dessacralização do mundo. O escárnio neutraliza, elimina a “aura” de respeitabilidade do objeto e, assim, essa é a maneira mais eficaz de destruir as religiões. A pedagogia defendida por ele se fundamenta exclusivamente no exemplo, em exclusão de qualquer consideração principiológica. A educação, portanto, deve servir tão somente ao “útil” e ao “interesse”.

Os autênticos valores republicanos, ademais, jamais poderiam ser reminiscências dos valores formados durante o período monárquico. Por isso, é necessário legalizar todos os crimes. Os crimes contra a honra são bons porque expõe os maus e inspiram os bons a serem melhores. Os crimes contra a propriedade são legítimos porque são meios pelos quais o pobre pode buscar a igualdade defendida pela república. Os crimes sexuais são legítimos porque conformes à natureza e, com isso, ordenados pela razão. Não apenas isso, mas estando ligados à vitalidade natural, os crimes sexuais mantêm o cidadão num estado de agitação e insurreição permanentes, o que é essencial para a preservação da república em sua pureza original, jacobina. O assassinato, por sua vez, deveria ser legalizado porque não causa mal algum. A morte é apenas uma mudança de forma e não causa qualquer impacto na sociedade. Politicamente, a morte é uma ferramenta útil para o povo. Para os cidadãos que conduzem a república, ademais, o assassinato pode ser usado para controlar o excesso populacional. Assim, se alguém se incomodar com um assassinato, que vingue-se pessoalmente matando o assassino.

Quem poderia negar que o Marquês de Sade foi um liberal e iluminista honesto e consistente? Talvez ele tenha sido o único, enquanto os outros foram e são ainda reprimidos e limitados por complexos morais e psicológicos derivados do “obscurantismo” cristão.

Quem poderia negar, portanto, que, à luz do caso Epstein, o Marquês de Sade deve ser considerado o pai, profeta e precursor do mundo em que vivemos?

Raphael Machado
Raphael Machado

Advogado, ativista, tradutor, membro fundador e presidente da Nova Resistência. Um dos principais divulgadores do pensamento e obra de Alexander Dugin e de temas relacionados a Quarta Teoria Política no Brasil.

Artigos: 56

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