Em Defesa das Atividades e Interesses Inúteis

Nas últimas semanas vi muitas pessoas discutindo sobre idiomas, hobbies e uma série de outras coisas da perspectiva de sua utilidade e inutilidade. De vez em quando aparece quem defenda “aprender chinês porque é a língua do futuro”, outros respondem que “não, na verdade, aprender chinês é inútil porque o inglês continuará sendo a língua dos negócios por um bom tempo”.

É impressionante como toda atividade tornou-se funcionalizada e, portanto, quantificável. A música é “útil” para uma série de coisas, do crescimento das plantas ao relaxamento. A literatura é “útil” para expandir a imaginação, aumentar o vocabulário ou aprender a escrever. Passeios são “úteis” para reduzir o estresse (que também é quantificável numa escala de cortisol). Artes marciais são “úteis” para defesa pessoal no caos urbano ou para emagrecer ou para jovens ávidos por competição. Cursos são “úteis” porque dão diplomas que melhoram o currículo. E poderíamos seguir infinitamente.

As pessoas, muito ocupadas com “coisas sérias” (as quais podem ser resumidas a “trabalho/estudo”), não podem desperdiçar o tempo com inutilidades e, portanto, só podem se dedicar a algo se conseguirem traduzir esse algo na linguagem da “função”: Estou fazendo X para elevar/melhorar o meu Y, o que resultará num aprimoramento da minha performance como NPC.

Na época da faculdade, anos atrás, época em que também estudava alemão (porque sim, porque é um idioma estético, porque era divertido), sempre me perguntavam em entrevistas o “porquê” de estudar alemão. E eu, conscientemente, sempre frustrava as expectativas, que provavelmente iam no sentido de eu querer, talvez, fazer um mestrado ou MBA na Alemanha ou me especializar em alguma área comercial/empresarial em voga na Alemanha. Sinceramente, eu mal conseguia evitar um certo desprezo por essa mentalidade do “mas por que você está estudando isso? isso vai servir pra quê?”

Creio que deveríamos fazer um esforço ativo na direção contrária. Aqui, o que direi, não está dirigido para as pessoas que por suas condições sociais, realmente, não têm alternativa e gastam a maior parte do dia vendendo sua força de trabalho para sobreviver ou que além de trabalhar ainda estudam algo “útil” para tentar melhorar as próprias condições. Essas não têm alternativa.

Mas muitas pessoas têm alternativa ou mesmo conseguem ascender socialmente, mas a mentalidade burguesa (e burguesa porque é a burguesia a classe do “cálculo” e da preocupação com a utilidade/inutilidade) permanece, e a ascensão não se torna senão oportunidade para encher ainda mais o currículo, aprimorar ainda mais a performance, etc.

O bem viver me parece fundamentalmente atrelado não a um quantum de “coisas úteis” que conseguimos fazer e acumular, mas pela disposição de ócio suficiente para o desfrute desinteressado de uma miríade de atividades integralmente desvinculadas de qualquer preocupação com o mundo do “útil”. Ou seja, no cultivar uma atitude “estética” diante da vida.

É o superar a preocupação com qual é a “língua do futuro” que você “precisa aprender”, para aprender húngaro, persa ou vietnamita. Por que? Porque sim. Porque a sonoridade lhe agrada. Porque é divertido. Porque te encanta a hipótese de ler poesia na língua nativa deitado numa rede. É se exercitar não por “saúde” ou para “competir”, mas como fim em si mesmo, como cultivo de si para a contemplação e fruição de si. É fazer um curso ou uma nova faculdade por diversão porque lhe agrada uma determinada matéria, sem ter a menor pretensão de transformar aquilo numa profissão. É ler livros sem qualquer vínculo com seu trabalho ou seu estudo “útil”, porque sim. É aprender algum ofício artesanal não para “ganhar a vida”, mas para criar coisas belas, demoradamente, e mais para depois contemplá-las e dá-las de presente, gratuitamente, do que para vendê-las.

É claro que há aqui algo de dandismo (e é típico do dândi buscar estetizar a vida), mas em alguma medida trata-se também de um meio sincero e autêntico de se rebelar, de forma pessoal, existencial, contra a ordem contemporânea e sua obsessão pela funcionalização do homem e sua redução do homem a “homo oeconomicus”, que se já era visível sob o mundo burguês tornou-se sufocante sob a tecnocracia.

Não é de forma alguma um exagero falar aqui em rebelião porque através do “inútil” você está criando dentro de si e em sua própria vida um espaço inacessível para a lógica do Capital, numa adaptação da lógica das “zonas autônomas” de Hakim Bey. Você está “perdendo tempo”, sendo que “time is money”.

Perder tempo, portanto, é fundamental. E para isso penso que inclusive vale a pena perder seu tempo inclusive em hobbies que nada tenham a ver com alta cultura, erudição ou desporto. É belo e adequado gastar 1 hora do seu dia jogando videogame, tirando uma siesta, fumando na varanda, à toa na praia em dia de semana, montando maquetes ou miniaturas, jogando RPG, ou qualquer outra coisa que possa ser subtraída às tentativas constantes da Sinarquia de esquadrinhar e comodificar cada segundo de nossas existências.

Eu coloco, porém, o ócio aplicado à busca pelo conhecimento e à criação e contemplação estéticas como superiores a outras atividades inúteis, naturalmente, por suas características intrínsecas. Ainda assim, é preferível dormir “fora de hora” do que ter uma vida completamente tomada pela lógica da utilidade.

É claro, não obstante, que existem esforços imensos para também financeirizar o ócio, os hobbies, etc., através principalmente da criação de necessidades imaginárias. Também não vale, aqui, querer substituir a arregimentação total do tempo por maratonas de séries, filmes e novelas, onde se estabelece uma relação fundamentalmente passiva e consumerista com a indústria cultural, que também arregimenta e mobiliza o seu tempo fora de seu próprio controle.

Em tudo, mesmo no desperdício de tempo, é necessário ser moderado o bastante para não se tornar escravo e manter a relação de “senhor” e “dominador” com o mundo.

Se interessar desinteressadamente por de tudo um pouco, sem ser dominado por absolutamente nada, sem jamais se viciar em nada. Me parece uma maneira bela, superior, de se conduzir a vida.

Raphael Machado
Raphael Machado

Advogado, ativista, tradutor, membro fundador e presidente da Nova Resistência. Um dos principais divulgadores do pensamento e obra de Alexander Dugin e de temas relacionados a Quarta Teoria Política no Brasil.

Artigos: 59

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *