“Nas Trevas”: reflexões de Léon Bloy escritas à época da Primeira Guerra Mundial

Entre autores que não pertencem propriamente aos entornos da Revolução Conservadora, mas parecem respirar uma atmosfera semelhante, poderíamos citar Léon Bloy, um polemista católico francês que era um dos autores contemporâneos favoritos de Ernst Jünger (que começou a lê-lo por instigação de Carl Schmitt).

Recentemente eu li “Nas Trevas”, que consiste numa coletânea de reflexões de Bloy escritas à época da Primeira Guerra Mundial.

Alguns temas vão e voltam no livro, como a noção de que o homem (incluindo o clero) teria abandonado Deus e ignorava as profecias dos santos, que Bloy tem em alta conta. Ele constantemente enfatiza a compaixão e o sofrimento, bem como a beleza do martírio. Algumas de suas reflexões soam nietzscheanas, enquanto outros soam como respostas a Nietzsche. Em alguma medida ele pretende reafirmar o valor fundamental de uma mística cristã da dor contra o pano de fundo dessa sensação de “abandono” metafísico num mundo em que “Deus está morto”.

A guerra, claramente, afetou bastante também Bloy. Ele perdeu diversos amigos durante ela e transparece nos textos seu ódio pelos alemães e seu desprezo por um povo que ele considera “bárbaro” e “asiático”, uma horda que pretendia afundar a civilização no abismo. Em meio a essas reflexões sobre a guerra aparecem também alguns arroubos de devoção mariana, como sempre focados na dor, nas lágrimas e no sofrimento, bem como na redenção.

Particularmente interessantes, para mim, foram as reflexões de Bloy sobre o papel da técnica na guerra (e ele bota ênfase principalmente na artilharia), e como o novo formato da guerra praticamente eliminava o lugar do heroísmo guerreiro, transformando o homem em massa meramente instrumental num massacre protagonizado por máquinas titânicas. Aqui é bem fácil ver como Bloy influenciou Jünger, ainda que o próprio Jünger ressaltasse sempre a interpretação bloyana do niilismo como aquilo que mais lhe havia chamado a atenção no pensamento do francês.

Raphael Machado
Raphael Machado

Advogado, ativista, tradutor, membro fundador e presidente da Nova Resistência. Um dos principais divulgadores do pensamento e obra de Alexander Dugin e de temas relacionados a Quarta Teoria Política no Brasil.

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