O que se tinha o hábito de chamar de “wokismo” desde cerca de dez anos resultava da convergência de três ou quatro famílias ideológicas no seio das sociedades ocidentais, com a ambição de desenvolvê-las em todo o mundo.
Feminismo, antirracismo, memória anticolonial – a distinguir da luta anticolonial real e atual –, luta a favor dos direitos LGBTQIA+, principalmente. Essas lutas eram incontestavelmente legítimas nos anos 60 a 80 do século XX. E elas haviam, já no final do século XX, triunfado no plano legal e político, e seus fins progrediam nas mentalidades, não sem desenvolver reações contrárias e contradições – a principal sendo que se tratava agora, por uma escalada extremista, de contestar o Estado em si, considerado patriarcal e racista, ao mesmo tempo em que se apoiava nas instituições mais normativas desse Estado – polícia, justiça, educação, etc.
Mas o que as caracterizou, desde Black Lives Matter e Me Too, é que elas adquiriram rapidamente um status oficial, que foram, ao invés de serem – um pouco – reprimidas, ou ignoradas, encorajadas pelas autoridades ocidentais no mais alto nível, assim como pela mídia de referência mais conformista em Paris, Londres, Nova York, Bruxelas…
Elas convergiam também com os movimentos ecologistas radicais cuja linguagem se tornara no período recente, a torto ou a direito, cada vez mais apocalíptica, embora nunca houvesse senão uma coerência lógica bastante frouxa entre essas correntes – o ecologismo sendo perfeitamente compatível com a extrema-direita –, e com os movimentos ativistas de extrema-esquerda sem-fronteiristas pró-migrantes.
É preciso firmar o princípio de que o arquipélago político eco-wokista constituía uma falsa oposição ao capitalismo e ao imperialismo – e, nesse sentido, que foi seu instrumento objetivo, e até mesmo roteirizado.
Ele contribuiu, até a ruptura brusca marcada pela guerra de Gaza e o retorno triunfal de Trump, para o discurso oficial de autocontemplação do Ocidente como paradigma insuperável da civilização mundial dos livres indivíduos livres e do progresso moral, que fazia passar a Ás o poder de compra dos trabalhadores e a luta de classes – e o desenvolvimento econômico e social do Sul e do Leste. E como efetivamente a dominação do Ocidente estava gravemente ameaçada, era mais do que urgente reconstruir seu discurso de justificação.
Não era a primeira vez que a linguagem da contestação radical do capitalismo era recuperada e que era tanto mais recuperada quanto mais radical: a linguagem marxista-leninista havia ela mesma sofrido esse destino pouco invejável nos anos 1960, e incorreu, por conta disso, em uma terrível perda de influência popular, na esteira de Maio de 68, e essa recuperação sob a forma de discursos excessivos e inofensivos acompanhou o fim do reformismo da “sociedade de consumo” dos Trinta Gloriosos.
No fundo, o wokismo era um novo reformismo que se queria qualitativo e não quantitativo, idealista e não materialista, e que era, portanto, perfeitamente compatível com o neoliberalismo e a exploração reforçada dos trabalhadores no mundo. Não era mais necessário aumentar o salário mínimo ou defender a seguridade social quando os indivíduos das multidões pós-modernas se tornavam principalmente preocupados com a questão de saber com o que eles “se identificavam”.
O Plano Marshall distribuía meios de produção, a Renault distribuía automóveis, e agora se distribuíam quartos de hora de celebridade. Podia-se encontrar aí novos modelos sedutores ou transgressivos.
As três funções do wokismo nessa conjuntura, à revelia da maioria de seus adeptos, foram as seguintes:
- fornecer aos estudantes radicais teorias inaplicáveis, isolá-los e enfiá-los em um impasse político;
- separá-los da classe operária e, mais amplamente, dividir as classes populares em comunidades opostas entre si sobre questões de modo de vida;
- e, sobretudo, constituir um dos principais pilares da ideologia de justificação do neo-imperialismo americano-ocidental, apresentando-o fraudulosamente como antirracista e libertador.
Graças a essas novas tendências ideológicas, largamente propagadas pelo canal da USAID, entre muitos outros, o Ocidente podia e devia continuar a dominar o planeta porque representava a realização de um ideal ético de igualdade simbólica que preservava e relançava o capitalismo para o século vindouro.
A reação sionista genocida que provocou uma repressão em grande escala nos campi e na mídia ocidentais, o repli protecionista e a renúncia americana – ao menos aparente – ao papel de gendarme mundial provocaram a obsolescência súbita desse modelo ideológico.
Vê-se que, ao contrário do que imaginavam os adversários conservadores ou de extrema-direita do wokismo, que agora estão em ascensão, não se tratava absolutamente de um sinal fatal da decomposição do Ocidente, mas ao contrário, com suas contradições – não era preciso empurrá-lo muito longe se ainda se quisesse poder recrutar soldados –, de uma manifestação de sua vitalidade ideológica, e de uma arma utilizada para a ingerência e a dissolução interna de seus adversários potenciais, internos e externos.
É o triunfo momentâneo de seus adversários, sob a égide de Donald Trump, que seria antes esse sinal fatal de decomposição.








