À Procura do Logos Branco, parte 3

por Novas

Na conclusão de sua saga, Novas finalmente nos coloca à par da busca pela benção solar do Logos Branco de Apolo. Aqui nos é mostrado que neste período decadente, a procura pela força Solar, O Graal de nossa história, parte também de uma dialética dionisíaca, caracterizada pela relação entre o masculino e o feminino. O guerreiro solar deve, além de dominar o seu ser, dominar as matizes de seu tempo, e aguardar o momento para o grande salto, a restauração do espírito do mundo.
À PROCURA DO LOGOS BRANCO

Haviam variadas opções a explorar na busca pelo Logos Branco e sua expressão mais adequada para alguém como eu no mundo contemporâneo. Muitas delas relacionadas à herança da última grande mente apolínea: Julius Evola. Ao testar seu destino, caminhando pelas ruas de Viena durante um bombardeio na Segunda Guerra Mundial, Evola acabou imobilizado em uma cadeira de rodas. Seria essa a forma do mundo mítico de expressar, dentro do mundo da história, que Evola assumiu a posição real no Mito do Graal? Afinal, ele era, em seu tempo, a voz mais próxima do construtor de pontes entre o espiritual e o político, o papel do rei Tradicional. No mito do Graal, o cavaleiro deve perguntar ao rei o que causou sua ferida. Isso significa que ele deve entender intimamente a posição do rei, entender seu erro, falha ou desequilíbrio. Dessa forma, o cavaleiro pode encontrar o remédio adequado para curar o espírito régio, assim curando a terra. A falha do rei no mito do Graal é o seu desejo.

O tantrismo interessava Evola, e poderíamos argumentar que essa corrente refletia seu comportamento em, pelo menos, dois aspectos. O primeiro aspecto é a ênfase na vontade como faculdade fundamental do pensamento, o segundo é uma ênfase no que representamos como tipos, e não indivíduos. O homem no caminho espiritual não deve se preocupar com a forma condicionada da mulher, e sim com a mulher absoluta, um tipo que pode se manifestar em muitas mulheres. O que importa para o vira tântrico é o despertar da força sexual e seu domínio através do desapego e vontade. Também é mais simples realizar esse desapego fora de uma relação monogâmica, sem ligação com uma única mulher.

Um caminho interessante a considerar em relação a isso – que penso ser uma resposta ao tantrismo Evoliano –, é o mistério do Sacro Amore, revelado em Graal – Saggio Sul Mistero del Sacro Amore, de Massimo Scaligero, aluno e amigo de Julius Evola. Nesse ensaio, explorando o Graal e o mistério do amor sagrado, Scaligero critica a abordagem tântrica como um caminho previamente valido, mas que perdeu essa validade no presente. As condições presentes são caracterizadas por uma corrupção das faculdades do pensamento, vontade e sentimento, causada pelas trevas espirituais do mundo corpóreo. A faculdade do pensamento, no entanto, é capaz de livrar-se dessa condição.

Portanto, apesar de sua imediata falta de vida, o deserto do pensamento conceitual é o lugar com o qual o iniciado deve – primeiramente – se familiarizar. Isso serve para, primeiro, atingir um frio distanciamento do imediatismo pertencente ao mundo corpóreo, e então, com tempo, encontrar uma abertura para o espírito. O espírito pode, então, vivificar o pensamento, ressuscitar o pensamento conceitual sem vida em pensamento vívido, e através deste, penetrar as faculdades da vontade e do sentimento.

No entanto, há um limite para essa ação no caso do asceta solitário. Todos os níveis de nossa existência são inicialmente dominados pela força sexual, em estado impuro e corpóreo de desejo. Devemos aprender a dominar essa força, mas a faculdade do pensamento, sozinha, não é forte o bastante, e a vontade já está comprometida pela força sexual corpórea. O que devemos fazer é transformar essa indisciplinada força sexual em amor, em todos os níveis. Como em uma cirurgia corporal, esse é um processo que requer considerações muito precisas sobre as particularidades de uma pessoa e sua constituição, já que deve ocorrer de forma orgânica, para crescimento natural. Esse é um caminho que apenas o casal monogâmico pode percorrer. Caminhando juntos de nível a nível, purificando o desejo com amor, estabilizado pela condição única do outro – o que também é um caminho de autoconhecimento.

Aqueles engajados nesta iniciação constituirão o centro dos novos mistérios. Esse é o centro de onde derivam todos os tipos de amor, empatia e bondade. O que, na opinião de Scaligero, faltava à equação pessoal de Evola, era uma apreciação adequada do pensamento como precondição para a iniciação, e o amor por uma única pessoa como poder mais (e não menos) fundamental que a sexualidade impessoal. A singularidade da pessoa é fundamental para a experiência sagrada em nosso tempo. Na abordagem de Scaligero à espiritualidade, a influência de Rudolf Steiner é bastante forte, o que dá razão para alguma cautela, mas considero a visão de tal caminho atraente e próxima às minhas próprias intuições sobre o amor.

Outra abordagem à herança Evoliana – que considero digna de nota – em anos recentes, é o trabalho do Tradicionalista húngaro András László. Sua coleção de aforismos, Solum Ipsum, é o extrato mais afiado e concentrado de sabedoria Tradicionalista do qual estou ciente. Aqui a abordagem solipsista do idealismo mágico de Evola e as doutrinas tradicionais de Guénon parecem perfeitamente integradas. Enquanto Dugin representa a tendência mais expansionista e centrífuga do impulso Tradicionalista atual, László representa uma tendência centrípeta, em contração.

Outro pensador que segue os passos de Evola é o advogado italiano Giadomenico Casalino, que faz um contraste interessante entre Dugin e László. Casalino busca purificar o que é típico da tradição indo-europeia, particularmente as partes grega e romana, daquilo que ele considera a tradição asiática. Uma importante diferença entre as espiritualidades indo-europeia e a asiática é a diferenciação do que representa sua experiência máxima. Para os indo-europeus, trata-se da revelação do mundo como um todo ordenado e equilibrado, como vemos nas exaiphnes de Platão, e mais recentemente na filosofia de Hegel – que Casalino lê como um iniciado hermético. A espiritualidade asiática, por outro lado, procura o apeiron, o infinito além do controle e compreensão humanas. Casalino enxerga em Guénon um representante da metafísica sobrenatural asiática. Onde Dugin evoca Heidegger para conectar o mundo de fenômenos múltiplos e o mundo ideal da Tradição, Casalino invoca Hegel para purificar as partes mais apolíneas e indo-europeias da Tradição. Sem o conhecimento do público em geral, os encontros dialéticos entre essas grandes mentes são uma das atividades mais decisivas para determinar o curso futuro.

Miguel A. Fernandez, que faz as coisas do seu jeito fora dos grandes discursos, é outra figura a quem, em anos recentes, dei atenção e de quem me tornei amigo. A julgar pelas capas de seus livros do Guerreiro Solar, parece que Fernandez não está interessado em chamar a atenção dos acadêmicos, mas sim de jovens procurando aventuras. Fernandez é um pensador profundo e bastante original, particularmente preocupado em extrair o impulso guerreiro do mundo da Tradição e buscar expressões para o mesmo no Zeitgeist contemporâneo. Seu trabalho continua, até certo ponto, a trilha deixada por Revolta Contra o Mundo Moderno e Cavalgar o Tigre, de Julius Evola, publicados há cinquenta anos, com o desenvolvimento de sistemas técnicos, cibernética e pico do petróleo sendo levados em conta como grandes fatos, mais fundamentais do que o drama das arenas políticas.

A resposta de Fernandez ao desafio de nosso tempo, desenvolvido em seus últimos trabalhos, Tradições Operativas, repousa sobre o encontro entre a filosofia e idealismo mágico de Julius Evola, expressas principalmente em Teoria do Indivíduo Absoluto e Fenomenologia do Indivíduo Absoluto, e o Operador de Ernst Jünger (traduzido por Evola como Der Arbeiter). Fernandez enfatiza a necessidade de profundas transformações pessoais, buscadas não através da especulação intelectual, mas através do povo que testa e expande seus limites na ação e no domínio sobre uma arte ou ofício.

O que o mundo eminentemente precisa é de novos líderes, centros negentrópicos de integração e estabilidade que possam prosperar no caos. Líderes que aprenderam a se dominar de tal forma que, aquilo que – sutil e espontaneamente – sinalizam ao mundo em gestos, gera ordem e inspiração através de sua presença. Se tal homem – o Guerreiro Solar – além do domínio de si, adquire uma grande compreensão dos principais poderes operantes do Zeitgeist, será capaz de dominá-los e restaurar o que Fernandez denomina “Império Solar”.

Fernandez sintetiza campos intelectuais largos e diversos, num estilo fresco, ousado e não acadêmico, enquanto emprega conceitos diversos que demandam certo esforço. O estilo, com sua mistura incomum de diversão não acadêmica e sofisticação conceitual, pode impedir muitas pessoas de dar a esses trabalhos a atenção que merecem. No entanto, talvez eles alcancem exatamente os que devem alcançar: aqueles que cresceram sem jamais renunciar a grandeza de He-Man, esperando silenciosamente pela liberdade exterior e poder intelectual da idade adulta e encontrar expressão para o espírito secreto de Eternia em nosso tempo. O que importa para Fernandez é encontrar homens de ação, agora, e de forma urgente; não ser discutido por connoisseurs intelectuais daqui mil anos.

Eu compartilho do interesse de Fernandez pelo idealismo mágico de Evola, que pode constituir um ponto de partida melhor para um recomeço, no lugar da filosofia Heideggeriana. Evola realiza algo semelhante ao que Marx faz com o idealismo de Hegel: Ele transfere a ênfase da filosofia: da missão de compreender o mundo, para a de mudar o mundo. Mas o produtor fundamental da realidade e ator da história aqui não é o proletário, mas o indivíduo absoluto, o iniciado, o pontifex; o movedor imóvel, que no mundo da Tradição é o rei legítimo. Sua tarefa não é agir em concordância com uma ordem ideal por trás de todos nós, mas criar esta ordem do caos à nossa frente.

Da forma que um templo dá suporte para a experiência sagrada, Evola busca conceder esse apoio sagrado através de um sistema conceitual correspondente a um estado que Evola já possui como iniciado natural. Enquanto Heidegger busca desviar-se do antigo vocabulário metafísico com palavras novas,

Evola, em sua filosofia, parece menos preocupado com as implicações metafísicas de conceitos modernos problemáticos como “poder”, “indivíduo”, “vontade” e “valor”. Para Evola, o método é aproximar – ativa e sutilmente – estes conceitos modernos através de um sistema correspondente a uma visão de mundo mágica. Podemos realizar isto ao ir além dos picos do idealismo, sem a necessidade de inventar linguagens idiossincráticas distantes do uso comum, como Heidegger e pós-modernos fazem.

O idealismo mágico não é importante somente para Fernandez. Acredito que ele constitui o centro da obra Evoliana, o núcleo esotérico. Em seus primeiros trabalhos filosóficos, Evola apresenta o indivíduo absoluto em sua forma conceitual pura. O resto do trabalho de Evola nos mostra como este aparece em diferentes contextos culturais, na política, e diferentes correntes iniciáticas. Talvez nós, nesses primeiros trabalhos filosóficos, também encontremos a “cura” para o que Scaligero considerou uma abordagem excessivamente tântrica em Evola. Julius Evola pode ter subestimado suas obras filosóficas, considerando-as mais como escadas para a Tradição a serem jogadas fora depois de atingir esse objetivo, do que como os pilares que realmente podem ser.

O indivíduo absoluto parece intimamente ligado ao sujeito radical que constitui o centro do projeto de Dugin, mas com alguma diferença na ênfase. Enquanto a liberdade incondicional é o principal tema do indivíduo absoluto, assim como ação e expressão de puro excesso, o sujeito radical parece ser mais como um instrumento de sagrada necessidade bem afinado, inspirado pela dor. Onde Evola considera o movedor de ideias mais importante, Dugin pensa nas ideias mesmas como mais importantes do que seus representantes. Assim, parece que o indivíduo absoluto corresponde a Apolo, e o sujeito radical a Dionísio.

LITERATURA ABSOLUTA

Roberto Calasso é uma figura interessante, em seus papéis combinados de editor, conhecedor de literatura e antiga espiritualidade indiana, e como autor de trabalhos como O Matrimônio de Cadmo e Harmonia e Literatura e os Deuses. Calasso traça linhas entre o antigo Rigveda, através de poetas como Hölderlin, Novalis, Baudelaire e Mallarmé, até Nabokov, a fim de localizar o ardor da Tradição, manifesto na literatura. Sua tese é de que os deuses podem ter abandonado as religiões organizadas e outras esferas controladas por forças sociais, mas buscaram refúgio no que Calasso chama de literatura absoluta, para despertarem pelo ato solitário da leitura.

Em Literatura e os Deuses, Calasso escreve que o gesto fundamental da literatura é a conquista das águas das ninfas, as águas mentais da inspiração pura. Apolo deve permitir-se ser possuído pelo amor da ninfa para mergulhar nessas águas. Do conhecimento dessas águas ele impõe sua medida, sua ordem, e finalmente estabelece seu centro. O ninfoléptico de Nabokov que busca esse poder em Lolita, tornando-se o caçador encantado, é um dos últimos ecos na literatura dessa missão, indicando o quão traiçoeiro o empreendimento fundacional se torna na modernidade tardia.

Na obra Sanção, de Roman McClay, uma exploração ousada do impulso guerreiro na literatura contemporânea dá ilustrações vívidas dos temas que Nietzsche, Evola, Dugin e Fernandez descrevem em figuras como Übermensch, o Indivíduo Absoluto, o Sujeito Radical e o Guerreiro Solar. Aqui encontramos uma versão particularmente americana dessa figura, explorada como o Macho Sigma. Sanção parece emergir dos humildes subúrbios da manosfera e do autoaperfeiçoamento do Twitter, mas estende suas raízes de volta à autoconfiança Emersoniana e ao misticismo Melvilliano, e ainda mais atrás ao régio Highlander escocês, ao poeta guerreiro viking e ao norte Rimbaudiano. Ele estende seus galhos adiante, até um futuro dominado por desenvolvimentos em inteligência artificial, nanotecnologia e engenharia genética, culminando em um trabalho literário para definir um século.

Sanção é um trabalho instigante, alimentado pela ira e pela dor sagradas; questões perigosas são contempladas. Enquanto Raskolnikov, de Dostoiévski, acabaria apaixonando-se pela moralidade cristã dos escravos, o protagonista de Sanção – Lyndon – percebeu que basta, o limite foi atingido. Deus precisa de espaço, uma clareira. O Holzweg do místico já não basta, não é Lebensraum suficiente para um Deus querendo fazer diferença no mundo. Infelizmente, muitas pessoas permanecem no caminho. Ainda não estão prontas para o Logos? Que pena; aí vem ele, como uma britadeira, enobrecendo o que é dourado, destruindo o que é base. A dor exige uma resposta.

Para além do tema central da dor exigindo uma resposta, encontramos um ethos cavalheiresco centrado na sacralidade e proteção da beleza e pureza femininas. McClay disseca o relacionamento moderno entre homens e mulheres de forma não menos impiedosa do que um Houellebecq ou um Delicious Tacos, mas também encarna um espírito intransigente que ousa exigir tudo, ousa sonhar com o ideal, reafirmar a medida. O centro dos mistérios de hoje, nosso Graal, é a percepção do verdadeiro relacionamento entre o homem e a mulher. Erros nesse domínio corromperão, enquanto condutas apropriadas enobrecerão nossas palavras e feitos em outros domínios. Talvez a principal razão que faz de Sanção uma obra literária tão boa é meu amigo Roman possuir uma medida tão precisa do que não apenas o homem, mas também a mulher pode ser. Ele se atreveu a vislumbrar Sofia, cujo encontro com um mundo sem Liebensraum sanciona a guerra.

Por mais severo que seja, Sanção é o tipo de literatura que Novalis teria que escrever se vivesse hoje. É o que Roberto Calasso denominaria literatura absoluta; Harold Bloom, teurgia literária; Joséphin Péladan, simplesmente mágica. É também a renovação e celebração da Palavra em inglês, a Lingua Latina do Ocidente Contemporâneo, da barriga do Leviatã. No princípio não havia Nietzsche, Evola, Dugin, ou qualquer outro pensador, mas a Palavra. Na medida em que dominamos a palavra, podemos dominar o caos, ao assumirmos o controle de nossa própria história. O Sanção de Roman McClay é um grande lembrete disso. E existem certas palavras e pessoas descontentes com o confinamento da literatura.

O ÚLTIMO DEUS

“Somente um deus pode nos salvar” são as famosas palavras de Heidegger em sua última entrevista. Quem é esse deus? Para Alexandr Dugin, esse deus é Dionísio; para Jason Reza Jorjani, Prometeu e Atlas; mas nós podemos mudar o contexto para a mitologia nórdica. Odin representa o Logos Dionisíaco, que toma forma em um líder de sabedoria e guerra, uma figura que me lembra mais do que Dionísio do papel ao qual Dugin tende. Jorjani nos lembra do Loki mercurial, que em Lokassena acusa os velhos deuses, de forma semelhante ao que Jorjani faz ao tentar desconstruir o que ele considera as mentiras fundamentais por trás dos grandes pilares da religião e filosofia.

Oferecendo espaço para Loki e ouvindo atentamente está Vidar, o andarilho que se prepara silenciosamente para um único gesto de violência e verticalidade, para matar o lobo e iniciar um novo mundo. Ainda desconectado está Heimdall, guardião da ponte entre os deuses e os homens, o vigia que tudo observa, pronto para soar a trombeta.

Fonte: The Autistic Mercury

Tradução: Augusto Fleck

Deixe uma resposta