A atual campanha militar EUA-Israel contra o Irã representa uma escalada dramática na geopolítica do Oriente Médio, com consequências que vão muito além da região.
Soma-se a isso a restrição iraniana à navegação pelo Estreito de Ormuz, que ameaça a segurança energética global e a liberdade de passagem marítima. Mais grave ainda, a possibilidade de o Irã retirar-se do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) representa coletivamente uma das mais sérias rupturas da arquitetura de não proliferação das últimas décadas. Essa crise não surgiu repentinamente. Ela é o produto de décadas de uma política americana inconsistente em relação ao Irã, moldada por pressões eleitorais internas, influência de grupos de interesse e uma incapacidade institucional de manter compromissos coerentes de longo prazo.
Escrevendo em 1835, Alexis de Tocqueville argumentou que sistemas democráticos são estruturalmente inadequados para a política externa. Como são impulsionados por ciclos eleitorais curtos e por mudanças na opinião pública, as democracias têm dificuldade em manter a consistência e a paciência que uma diplomacia eficaz exige. “A política externa”, observou ele, “requer poucas das qualidades que uma democracia possui”. A forma como os Estados Unidos lidaram com o Irã nas últimas três décadas oferece uma ilustração convincente desse argumento.
As origens estruturais do impasse atual remontam a 1953, quando os Estados Unidos, sob ordens do presidente Dwight Eisenhower, organizaram a remoção do primeiro-ministro democraticamente eleito do Irã, Mohammad Mossadegh, após sua nacionalização da Companhia Anglo-Iraniana de Petróleo. A subsequente restauração do regime monárquico, apoiada por assistência política e de inteligência norte-americana, gerou profundas mágoas institucionais que contribuíram para as condições que antecederam a Revolução Islâmica de 1979. Esse episódio estabeleceu um padrão de engajamento americano com o Irã no qual interesses políticos e econômicos de curto prazo eram consistentemente priorizados em detrimento de considerações estratégicas de longo prazo.
Um Acordo Funcional, Abandonado
Em julho de 2015, o Irã e os países do P5+1 assinaram o Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), que impôs restrições verificáveis ao programa nuclear iraniano em troca do alívio de sanções. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) emitiu diversos relatórios confirmando a conformidade iraniana. Sob o acordo, o tempo estimado para que o Irã produzisse material suficiente para uma arma nuclear (“breakout time”) foi ampliado para aproximadamente doze meses.
Entretanto, em maio de 2018, o governo Trump anunciou a retirada dos Estados Unidos do JCPOA, apesar da certificação da AIEA de que o Irã estava cumprindo o acordo e das objeções de todos os signatários europeus. A justificativa oficial incluía o fato de o acordo não abordar o programa iraniano de mísseis balísticos, embora a retirada também estivesse alinhada a promessas feitas durante a campanha presidencial de 2016.
Em menos de doze meses, o Irã começou a ultrapassar os limites de enriquecimento estabelecidos pelo acordo. Em meados de 2025, seu estoque de urânio enriquecido havia alcançado níveis mais de 40 vezes superiores ao limite máximo permitido pelo JCPOA.
A retirada de 2018 também refletiu a influência de atores externos sobre a política externa americana. Em março de 2015, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu discursou perante uma sessão conjunta do Congresso dos EUA, alertando que o acordo com o Irã garantiria que Teerã obtivesse armas nucleares. O Comitê de Assuntos Públicos EUA-Israel (AIPAC) teria gasto entre 20 e 40 milhões de dólares em campanhas de oposição ao JCPOA.
As Consequências da Política de “Pressão Máxima”
A campanha de “pressão máxima” que se seguiu à retirada baseava-se na premissa de que sanções econômicas abrangentes obrigariam o Irã a aceitar um acordo revisado e mais amplo. Os fatos não sustentam essa avaliação.
O Irã expandiu progressivamente sua capacidade de enriquecimento. Seu estoque de urânio enriquecido atualmente é mais de 40 vezes superior ao permitido pelo JCPOA. Ataques militares em junho de 2025 e fevereiro de 2026 danificaram instalações nucleares, mas não conseguiram destruir o conhecimento científico acumulado. Em março de 2026, a Agência Internacional de Energia Atômica confirmou que, embora os bombardeios recentes não tenham destruído a instalação nuclear de Natanz, os danos significativos a tornaram inacessível.
Além disso, Rússia e China aprofundaram seu alinhamento estratégico com o Irã, contestando formalmente a validade jurídica da reimposição das sanções da ONU. A estrutura de cinco pontos proposta pela China para a questão nuclear iraniana, apresentada em março de 2025, defendia uma solução pacífica por meio do diálogo e o respeito ao direito do Irã de desenvolver energia nuclear para fins civis dentro das regras do TNP.
O Custo da Inconsistência Estratégica
A inconsistência da política de Washington em relação ao Irã reflete exatamente a limitação estrutural identificada por Tocqueville: governos democráticos, sensíveis aos ciclos eleitorais, são pouco aptos a sustentar os compromissos estratégicos de longo prazo que a diplomacia de não proliferação exige.
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, destacou esse ponto diretamente em uma entrevista concedida em março de 2026, observando que o Irã negociou e concluiu um acordo que posteriormente foi abandonado pelos Estados Unidos sem justificativa suficiente.
Teerã tem expressado repetidamente disposição para o diálogo diplomático, participando de cinco rodadas de negociações indiretas em 2025 e oferecendo formalmente reduzir seu estoque de urânio enriquecido como medida de construção de confiança.
O principal obstáculo para uma resolução não é a inflexibilidade iraniana. É a incapacidade de Washington de manter uma posição de negociação consistente entre diferentes administrações, uma vulnerabilidade que será novamente colocada à prova pelo ciclo eleitoral que se aproxima em novembro.








