Alain de Benoist defende que um imprudente “partido da guerra”, composto por líderes e instituições europeias, está a empurrar o continente para um confronto armado catastrófico com a Rússia por causa da Ucrânia.
Os tambores de guerra voltaram a soar. O Secretário-Geral da NATO, Mark Rutte, apela aos países da Aliança Atlântica para que se preparem para uma terceira guerra mundial. Na França, o decreto governamental n.º 2025-1030, de 31 de outubro de 2025, publicado no Journal officiel mas que passou despercebido, autoriza o recurso a empresas militares privadas para prestar assistência a “um terceiro país em situação de conflito armado”. O regresso dos mercenários. O serviço militar vai ser restabelecido em base voluntária, o que permitirá aumentar o número de reservistas. O general Fabien Mandon, Chefe do Estado-Maior da Defesa, anuncia uma guerra com a Rússia “dentro de três a quatro anos”. O seu predecessor, Thierry Burkhard, já tinha atribuído à Rússia uma declaração (inexistente) que designava a França como o seu “principal adversário na Europa”. Para completar, o general da reserva Michel Yakovleff assegura tranquilamente que Donald Trump é um “agente da KGB” (sic)! Um confronto armado com a Rússia deixa de ser apresentado como uma possibilidade, mas como uma certeza.
Marchando… rumo ao abismo
Durante mais de setenta anos, disseram-nos que “a Europa significa paz”. Hoje, a Europa significa guerra. Do lado do elenco de ópera cómica da União Europeia, temos os vocalises da estoniana Kallas, que repete mecanicamente que “a Ucrânia deve ganhar a guerra” — uma guerra que já perdeu —, enquanto Ursula von der Leyen (a Hiena?) declara com toda a seriedade que a Europa está “pronta para a ação”, quando não está pronta para nada (e a UE não tem qualquer competência em matéria de defesa). Os gansos do Capital!
A era da pós-verdade começou com a crise da Covid-19, já com o objetivo de instrumentalizar o medo transformando-o em pânico moral. Nos ecrãs de televisão, generais condecorados que recebem ordens substituíram os charlatães à maneira de Diafoirus [1], mas o princípio mantém-se o mesmo: fazer as pessoas aceitarem o que, sem o medo, apareceria claramente como inaceitável.
“Macron já não tem qualquer legitimidade. Tenta recuperá-la sonhando ser um Napoleão de segunda categoria. Depois de ‘França em marcha’, é agora ‘França, avante!’”
«Estamos em guerra!», proclama orgulhosamente o chefe de Estado (não aquele que acabou de sair da prisão — o outro, o psicopata), frase que tanto mais aprecia quanto, nunca tendo cumprido o serviço militar, nunca ouviu uma bala assobiar na vida. Declara também, com ingenuidade, que «a Rússia não deve ganhar esta guerra» — para alcançar a paz, é preciso prolongar a guerra! Para mobilizar a opinião pública atrás desta fantasia delirante, assegura-nos que «a Rússia constitui uma ameaça existencial para os europeus», enquanto em Washington, Moscovo e Pequim ninguem leva a seria suas fanfarronices. Detestado pelo povo, incapaz de formar um governo que se aguente ou de aprovar um orçamento enquanto a situação financeira do país é desastrosa, de proteger as suas fronteiras ou de pôr fim ao narco-terrorismo, Macron já não tem qualquer legitimidade. Tenta recuperá-la sonhando ser um Napoleão de segunda categoria. Depois de «França em marcha», é agora «França, avante!»
Existe hoje, portanto, um partido da guerra. Um partido que quer fazer a guerra à Rússia ao mesmo tempo que acusa a Rússia de querer fazê-la contra nós. O que é novo é que este partido da guerra não ocupa posições defensivas, como na época da Guerra Fria, mas posições ofensivas: procura deliberadamente a guerra e faz tudo o que pode para mobilizar a opinião pública. A mídia assume naturalmente o relevo. Desde o início do conflito na Ucrânia, já fomos submetidos a uma informação unilateral fabricada por cães de ataque e difundida por fantasmas. Os defensores da paz são apresentados, em ladainha, como «putinistas». Em breve denunciarão a «quinta coluna» (o eterno «partido estrangeiro»). Antigamente, na imaginação popular, via-se discos voadores; hoje vêem-se drones.
O partido da guerra afirma que a melhor forma de alcançar a paz é ajudar Zelensky a prosseguir uma guerra que ele é incapaz de ganhar. Afirma que, apoiando a Ucrânia por todos os meios, os europeus se protegeriam contra a «ameaça russa». Afirma que, após quatro anos passados a reconquistar a sua Alsácia-Lorena, os russos vão precipitar-se para o porto de Brest, antes de avançarem para Lisboa e Gibraltar! Afirma que o povo francês — que nunca será consultado sobre o que pensa — deve preparar-se desde já para ver os seus filhos morrerem na fronteira russa «dentro de três a quatro anos» em apoio, contra uma potência nuclear, de um país no qual a França não tem o menor interesse vital. É simplesmente grotesco. Como disse Luc Ferry, isto é pura loucura!
Conquistar a Europa? O Kremlin não tem nem o desejo nem os meios. A «ameaça russa», diz Philippe de Villiers, é «a fantasia de alguém que já não tem bem a cabeça no lugar». É uma «crença para a qual não existe a menor prova», acrescenta o estudioso de geopolítica John Mearsheimer. Os mesmos que há quatro anos nos explicavam doutamente que a Rússia estava prestes a colapsar a qualquer momento asseguram-nos agora que ela se prepara para invadir a Europa; em suma, que está a perder, mas que é preciso impedir que vença — que é ao mesmo tempo um urso sanguinário e um tigre de papel. Interprete-se como se quiser.
«Observando que a Ucrânia perdeu a guerra apesar do apoio americano, os europeus tiram a conclusão surrealista de que ela vencerá com a ajuda deles — sem compreender que, quanto mais a guerra durar, menos a Ucrânia poderá negociar.»
A guerra que grassa há quatro anos na Ucrânia é simultaneamente uma guerra de secessão, uma guerra de autodefesa, uma guerra fratricida e uma guerra por procuração entre a NATO e a Rússia. Já causou centenas de milhares de mortos entre jovens europeus, russos e ucranianos. Nunca deveria ter ocorrido e poderia ter terminado há muito tempo. A sua causa principal é bem conhecida: a determinação dos Estados Unidos em empurrar a NATO até às fronteiras da Rússia. A NATO não o fez por simpatia pelo nacionalismo ucraniano, que apenas instrumentalizou em seu benefício, mas para quebrar o grande continente eurasiático, separar a Europa do poder russo com o qual é naturalmente complementar e, evidentemente, impedir a formação de um eixo Paris-Berlim-Moscovo. Os americanos conceberam este projeto desde o próprio colapso do sistema soviético. Os russos tinham, no entanto, feito saber em abril de 2008, há mais de quinze anos, que a extensão da NATO à Ucrânia representaria para eles uma linha vermelha e um casus belli. Decidiu-se ignorar isso. Decidiu-se, assim, usar a Ucrânia contra a Rússia. O infeliz povo ucraniano caiu na armadilha, e eis-nos aqui.
Os europeus entraram nesta guerra com relutância. Ao tomarem partido por um dos dois campos em vez de se posicionarem como mediadores — que teria sido a única postura razoável —, ao procurarem identificar «culpados» em vez de agirem de acordo com os seus próprios interesses, ao preferirem valores morais abstratos aos princípios concretos do realismo geoestratégico, ao deixarem-se arrastar para uma guerra anglo-saxónica na qual não tinham qualquer interesse existencial ou vital próprio, puseram por sua vez a mão nas engrenagens de uma escalada aos extremos. Quanto mais o tempo passa, mais aparecem, por sua própria vontade, como cobeligerantes. Hoje, enquanto os americanos querem desengajar-se e o exército ucraniano já não é capaz de lançar a menor ofensiva, eles embarcam numa escalada belicista que arrisca arrastar toda a Europa para uma escalada que poderia culminar num confronto armado com uma potência nuclear. É difícil ser mais irresponsável.
A coisa mais difícil numa guerra é saber como pará-la. O objetivo de toda a guerra é a paz, mas um cessar-fogo não é a paz (como se vê pelo que continua a acontecer em Gaza e na Cisjordânia). Uma guerra só termina quando um acordo de paz tiver determinado as condições políticas para resolver os problemas que a geraram.
Num momento em que todas as sociedades ocidentais estão à beira da implosão, uma Europa endividada e meio arruinada forneceu mais de 200 mil milhões em ajuda à Ucrânia. Esta ajuda maciça não serviu para mais nada senão aumentar o número de mortos. Permitiu à Ucrânia continuar a guerra, mas nunca lhe deu a possibilidade de a ganhar. Sem ajuda militar ocidental, esta guerra teria terminado há muito tempo. Observando que a Ucrânia perdeu a guerra apesar do apoio americano, os europeus tiram a conclusão surrealista de que ela vencerá apenas com a ajuda deles — sem sequer compreenderem que, quanto mais a guerra durar, menos a Ucrânia poderá negociar.
A Europa num estado de embriaguez
Os europeus queixam-se de não terem sido incluídos nas propostas de acordo de paz negociadas primeiro entre os russos e os americanos. Esta queixa seria mais credível se, no passado, tivessem tentado interpor-se ou desempenhar o papel de mediadores. Sonham agora com um acordo de paz que ignore a realidade do equilíbrio de forças no terreno — isto é, um acordo em que vencedores e vencidos fossem ambos vencedores, algo que obviamente nunca se viu (em 1918, a Alemanha já não estava em condições de ditar as suas condições). Gostariam que a Ucrânia, com pouco mais de 25 milhões de habitantes, pudesse manter em tempo de paz um exército de 800 mil homens — mais do que os exércitos britânico, francês e alemão juntos. Falam de «garantias de segurança» para a Ucrânia sem compreenderem que a única verdadeira garantia para ela é a sua neutralidade.
«Estamos a marchar para a guerra como sonâmbulos», havia escrito Henri Guaino a 15 de maio de 2022. Quatro anos depois, os sonâmbulos ainda não acordaram. Desde o início, estão em negação da realidade («a Rússia está isolada», «a Ucrânia vai ganhar», «as sanções são muito eficazes», etc.) e pretendem permanecer nela. Recusam-se a ver que, no terreno, os dados estão lançados — a missa está dita! Ainda não compreenderam que as relações internacionais não são uma questão de princípios morais, mas de relações de força. Não compreendem que novas relações de força se impõem por todo o mundo. Ainda acreditando estarem na era da Guerra Fria, não se apercebem de que a derrota ucraniana é também a do «Ocidente coletivo» e que este «Ocidente» já desapareceu, juntamente com o atlanticismo que era a sua base.
A Europa é hoje conduzida por fantasmas ou sonâmbulos convertidos ao belicismo. Os três aliados (França, Alemanha, Inglaterra) batem com os pés e competem em fanfarronices como crianças numa caixa de areia, ameaçando reencenar a Operação Barbarossa — desta vez sem a Wehrmacht (mas com a Bundeswehr). Tão credíveis como a rã que pretende passar por boi, fingem acreditar que têm os meios para influenciar a situação quando não têm sombra do começo de tais meios. Na verdade, estão completamente nus. Como pequenos galos que batem as asas à procura dos músculos, como patos sem cabeça que correm em todas as direções, multiplicam as gesticulações, os palavreados, as poses e as invocações, os compromissos insustentáveis e as reuniões inúteis. A sua «coligação dos dispostos» faz lembrar os figurantes do Châtelet que cantam «Marchemos, marchemos!» enquanto permanecem no mesmo lugar. Para «ajudar mais a Ucrânia», vão cortar orçamentos, roubar bens russos, comprar armas aos americanos que a NATO dará depois à Ucrânia, isentar as despesas militares dos critérios de Maastricht, enviar Rafale que não têm, emitir empréstimos pagáveis em moeda de brincar, destacar tropas não se sabe onde, nem porquê nem como. A verdade é que simplesmente não têm os meios para tomar conta da situação — e estão longe de os ter. Um espetáculo lamentável.
Entretanto, os franceses que lutam para chegar ao fim do mês perguntam-se como é possível encontrar tantos milhares de milhões para um país estrangeiro que já têm dificuldade em localizar no mapa, enquanto se encontra tão pouco para melhorar a sua própria situação. Os mais perspicazes veem também que as sanções contra a Rússia provocaram uma explosão nos preços da energia e aceleraram a desindustrialização alemã, sem sequer abalar a economia russa, e que em França o seu efeito mais claro foi obrigar-nos a comprar gás liquefeito dos Estados Unidos a quatro vezes o preço do gás russo. Quanto às «ameaças», por enquanto só veem uma: a que não vem do Leste, mas do Sul.
Donald Trump é um homem temperamental, mas um temperamental realista. Tomando a direção oposta ao seu predecessor, quer acabar com esta guerra o mais rapidamente possível porque sabe muito bem quem tem as cartas e qual é a realidade no terreno. A guerra impede-o de fazer negócios e atrasa a reconstrução da Ucrânia, da qual a empresa americana BlackRock será a grande beneficiária. O que ele teme não é a «ameaça russa» nem as «ambições imperiais» do Kremlin, mas o fortalecimento da aliança China-Rússia. Os europeus, que ele despreza — infelizmente, com razão —, são aos seus olhos apenas uma peça na sua guerra comercial contra a China. Quando a guerra terminar, tornar-se-á evidente que há um pequeno vencedor (Putin) e um pequeno vencido (Zelensky), mas que o grande vencedor é a América e o grande vencido a União Europeia.
«Não é a ameaça russa, mas o desengajamento americano, que obriga a Europa a refletir novamente sobre as condições da sua autonomia estratégica.»
De Gaulle disse: «A defesa é a razão primeira da existência do Estado.» Tinha razão. O rearmamento que os diversos países europeus dizem agora estar determinados a empreender é, portanto, perfeitamente justificado. Mas com duas condições. A primeira é que este rearmamento não decida de antemão um inimigo de princípio, mas considere todas as eventualidades: a Europa não tem mais vocação para ser americanizada do que para ser russificada, sinizada ou islamizada. Além disso, não foi a Rússia, mas os Estados Unidos, que recentemente reivindicaram a anexação de um território sob jurisdição europeia — a Groenlândia, no caso. É preciso voltar à autonomia estratégica «em todos os azimutes» teorizada pelo general de Gaulle [2].
A segunda é reconhecer o desacoplamento que pôs fim à Aliança Atlântica, perceber que se a Europa está hoje desarmada, se até agora dedicou tão pouco à sua defesa, é sobretudo porque descarregou no «irmão mais velho» americano a tarefa de assegurar a sua segurança. A NATO, deste ponto de vista, nunca foi mais do que a garantia duradoura de que nenhuma Europa de defesa alguma vez veria a luz do dia. Sabemos hoje qual era a realidade e como o «guarda-chuva» militar americano foi, na maior parte, inexistente.
Mas os Estados Unidos conservam, apesar de tudo, o controlo de praticamente todos os armamentos europeus: todos dependem em maior ou menor grau de Washington, que continua a assegurar o seu controlo técnico, sistémico ou operacional. Em 2022, 69% dos armamentos importados para a Europa vinham dos Estados Unidos (contra 43% em 2018). Um rearmamento europeu que não procurasse libertar-se desta dependência e cortar o que resta do elo transatlântico não teria qualquer sentido. Por outras palavras: não há defesa europeia sem preferência europeia, não há potência militar autónoma sem soberania política.
Vassalos da América
Não é, portanto, a ameaça russa, mas o desengajamento americano que obriga a Europa a refletir novamente sobre as condições da sua autonomia estratégica em matéria de defesa e sobre a possibilidade de chegar a um sistema de equilíbrio e segurança coletiva baseado num entendimento entre a Europa e a Rússia — um entendimento capaz de desarmar as turbulências suscetíveis de surgir nas zonas fronteiriças.
Infelizmente, não parece que este caminho esteja a ser trilhado, uma vez que, em vez de se perguntarem que tipo de potência podem recriar pelos seus próprios meios, os europeus procuram desesperadamente «restabelecer laços com os Estados Unidos» e não perdem uma oportunidade de se apresentarem como ansiosos por permanecer seus aliados. O que mostra que, mais uma vez, não compreenderam o que se passa diante dos seus olhos. Tendo abandonado as cruzadas ideológicas e morais em favor de um «realismo pragmático e transacional», os americanos desistiram de fazer de polícia do mundo, mas querem manter a sua hegemonia sobre o Ocidente. Já não querem aliados, mas apenas vassalos e clientes.
Um verdadeiro rearmamento dos países europeus levará pelo menos quinze anos, o que significa que a situação na Ucrânia não será de modo algum afetada por ele. Exigirá muito dinheiro (o roteiro europeu de preparação para a defesa até 2030 está dotado de 800 mil milhões de euros), mas ainda mais energia moral e vontade política. Como resume Bill Durodié: «A guerra é tanto uma questão de mentalidade como de equipamento. Quadruplicar as despesas de defesa não tem qualquer consequência se ninguém estiver pronto para combater.» Uma das ironias da história é que aqueles que, durante mais de setenta anos, alertaram contra o espectro do «militarismo alemão» celebram agora o facto de a Alemanha — o único país ao lado da Polónia a investir maciçamente na sua defesa — estar prestes a tornar-se o primeiro exército da Europa.
Num momento em que todos citam o máximo Si vis pacem para bellum, vale a pena recordar que este famoso adágio não significa que é preciso preparar a guerra para a fazer, mas que é preciso prepará-la para preservar a paz. Em tais momentos, a única questão que vale a pena colocar é: onde reside o interesse de França? Onde reside o interesse da Europa? O resto é mero palavreado.
Então, a ameaça russa? Citemos mais uma vez aquele belo provérbio georgiano: «O pastor fez a ovelha temer o lobo toda a vida, mas no fim é o pastor quem a devora》
Publicado originalmente em Éléments, edição nº 218, fevereiro-março de 2026.
Tradução para o inglês via Alexander Raynor.
Notas
[1.] Nota do tradutor: refere-se ao estilo pedante, antiquado e absurdamente técnico da prática médica retratado por Molière em sua peça de 1673, Le Malade imaginaire.
[2.] Nota do tradutor: “todo o azimute” é uma referência à estratégia de Charles de Gaulle de direcionar armas nucleares para garantir a independência da França, tratando efetivamente tanto a União Soviética quanto os Estados Unidos como inimigos potenciais e iguais.








