De mortuis nihil nisi bene, dos mortos só se pode falar bem. No caso de Jürgen Habermas, falecido em 14 de março passado aos 96 anos, justifica-se uma exceção.
Habermas foi um dos principais arquitetos do alinhamento da Alemanha com o Ocidente após 1945. Alcançou esse objetivo contaminando a esquerda política com um marxismo modernizado, enriquecido por correntes intelectuais americanas e judaicas, direcionando-a assim de forma decisiva para uma posição pró-ocidental. Nesse papel, tornou-se um dos mais influentes propagadores da “reeducação” alemã do pós-guerra. Nascido em Düsseldorf, Habermas – que durante a guerra foi um jovem líder da juventude nazista (Jungvolk) – logo se tornou um produto dessa mesma reeducação e se firmou como autoridade moral da jovem República Federal. Nenhum intelectual moldou a autopercepção política e civil da sociedade alemã ocidental do pós-guerra de forma tão profunda.
Habermas ensinou os alemães a repudiar suas próprias tradições e a buscar a redenção na linguagem dos “valores ocidentais”. Em 1999, durante o ataque da OTAN à Iugoslávia, aplaudiu abertamente a intervenção, apresentando-a como pouco mais que uma “assistência de emergência legitimada pelo direito internacional”. 1 Ao mesmo tempo, entregou-se à especulação grandiloquente segundo a qual o mundo estava se movendo “do direito internacional clássico dos estados soberanos para o direito cosmopolita de uma sociedade de cidadãos do mundo”. 2 As consequências desse modo de pensar são agora evidentes. Quando a Alemanha se reunificou em 1989, Habermas reagiu com aborrecimento, advertindo que a unidade nacional alemã poderia se chocar com “as regras universalísticas que regem a coexistência de estilos de vida iguais”. 3 No entanto, mesmo então, foram principalmente as construções teóricas de Habermas que se chocaram com a realidade.
Após obter o doutorado em 1954 sob a orientação do ex-ativista nacional-socialista Erich Rothacker e depois de publicar uma das primeiras críticas a Martin Heidegger, 4 Habermas foi levado ao Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt por Theodor W. Adorno, 5 figura central do que viria a ser conhecido como Escola de Frankfurt. Lá, transformou a chamada Teoria Crítica de Adorno numa elaborada doutrina da comunicação, desempenhando assim um papel decisivo no restabelecimento do prestígio intelectual do marxismo na Europa Ocidental, moldando uma nova geração de acadêmicos e pensadores de esquerda. Sua obra principal, a Teoria da Ação Comunicativa em dois volumes (1981), promete a emancipação através do conceito de “discurso”, um discurso supostamente “livre de dominação”. No entanto, na prática, o discurso habermasiano funciona ele mesmo como um mecanismo de dominação. Quem se recusa a aceitar suas regras é excluído da participação. 6 É uma teoria da exclusão que grande parte da esquerda interiorizou a ponto de se desconectar completamente da realidade. Isso se evidencia claramente no ostracismo quase religioso que hoje é reservado ao partido AfD (Alternativa para a Alemanha).
Ao mesmo tempo, em Habermas, o discurso se torna um substituto da ação: discussões intermináveis tomam o lugar de ações concretas. Uma geração inteira, marcada pelos movimentos estudantis, absorveu essa mentalidade e chegou a ocupar posições de topo em escolas, universidades, burocracias partidárias e sindicatos: funcionários insuportáveis e em grande parte improdutivos. Ter permitido que esse tipo de pessoa dominasse por décadas a transformação da sociedade da Alemanha Ocidental levou o país ao seu estado atual: intelectualmente, assemelha-se a um terreno baldio. A pretensa filosofia de Habermas é uma construção puramente cerebral. Sua linguagem – labiríntica, tortuosa e frequentemente no limite do incompreensível – é um jogo infinito de termos abstratos. Na realidade, não oferece nem conhecimento nem discernimento moral. Não contribui em nada para a compreensão de ninguém. O fato de essa obra ter suplantado nas universidades alemãs a tradição filosófica de Platão a Heidegger representou, para a terra dos poetas e pensadores, uma espécie de morte cerebral intelectual.7
Nesse contexto, vêm à mente as palavras atemporais de Confúcio: “Se os nomes não são corretos, a linguagem não corresponderá à realidade. Se a linguagem não corresponde à realidade, os negócios não podem prosperar. Se os negócios não prosperam, a moral e a arte não podem florescer. Se a moral e a arte não florescem, as punições serão ineficazes. Se as punições são ineficazes, as pessoas não saberão o que fazer. Portanto, a pessoa nobre assegura que seus conceitos possam sempre ser expressos em palavras e que suas palavras possam sempre ser realizadas através das ações. Tudo depende disso.”
Habermas ocupa um lugar de destaque na história intelectual: o de destruidor do pensamento, de perturbador de mentes e almas. Por décadas, foi considerado a autoridade moral e intelectual da República Federal Alemã. Durante a disputa entre os historiadores nos anos 1980, arvorou-se o poder de estabelecer o que deveria ser considerado “dizível” na Alemanha. Qualquer tentativa de interpretar a história alemã de uma perspectiva diferente da da culpa coletiva 8 era descartada como “apologia”. Cunhou o conceito de patriotismo constitucional, 9 que logo se tornou um slogan preferido pelos apoiadores de esquerda da dissolução da Alemanha. No entanto, a escolha é simples: ou o patriotismo ou a Constituição. Os patriotas constitucionais já perderam. As consequências gerais da influência de Habermas foram devastadoras. Ele formou gerações de acadêmicos voltados a transformar conflitos sociais reais em discursos abstratos, ao mesmo tempo que obscurecia o pensamento crítico. Até mesmo o movimento estudantil, que inicialmente visava a uma mudança concreta, degenerou sob sua influência numa seita dedicada exclusivamente à comunicação. Graças ao predomínio cultural da esquerda nos meios de comunicação e nas instituições, essa mentalidade moldou a vida pública por décadas. Em última análise, Habermas foi sobretudo o maior manipulador da mente alemã desde 1945. Há muito poucos motivos para chorar sua morte.









O discurso de Jürgen Habermas foi o complemento verbal da prática de destruição da Alemanha.