Em meu artigo anterior, analisei o fim progressivo da hegemonia americana tal como se construiu após a Segunda Guerra Mundial, confrontada com a ascensão da China, da Rússia e dos BRICS. Nele, sublinhei o pragmatismo estratégico de Donald Trump, que privilegia a defesa dos interesses vitais dos Estados Unidos e o controle das zonas de influência, em vez da busca de uma ordem mundial unipolar. A Europa e a OTAN apareciam como atores secundários, enquanto o mundo se recompunha em torno de blocos multipolares e rotas estratégicas. Esse quadro serve-me de pano de fundo para abordar aqui as dinâmicas complexas Israel–Irã–EUA e a maneira como se gerencia, ou se controla, o caos nessa região.
A aliança entre os Estados Unidos e Israel é frequentemente analisada como um bloco homogêneo, movido por uma convergência de valores, interesses e finalidades. Essa leitura é enganosa. Ela oculta uma dissimetria fundamental: se Washington age em uma lógica essencialmente pragmática, instrumental e reversível, Israel, por sua vez, é atravessado por uma dinâmica teleológica mais profunda, enraizada em um fundamento teológico-histórico que estrutura sua relação com o território, a segurança e o longo prazo.
Compreender essa aliança impõe romper com a ideia de uma fusão estratégica. Trata-se menos de um projeto comum do que de uma sobreposição temporária de interesses, destinada a durar enquanto o custo sistêmico permanecer aceitável para a potência americana.
O pragmatismo imperial americano: mudar sem reconstruir
Do ponto de vista dos Estados Unidos, Israel funciona antes de tudo como um relé estratégico regional: capacidades de inteligência, superioridade militar local, pressão permanente sobre o eixo iraniano e ponto de ancoragem estável em uma região fragmentada. Em troca, Washington fornece cobertura diplomática, ajuda militar e garantias de segurança. Uma estratégia de ganho mútuo, que se revela lucrativa além disso.
Contrariamente a algumas leituras messiânicas que viram em Donald Trump um ator providencial, o exame atento de sua trajetória política conduz a uma conclusão mais sóbria: Trump age sobretudo como gestor de relações de força. Seu objetivo nunca foi a conquista territorial ou a ocupação duradoura, mas a manutenção de uma dominação geoestratégica mínima, a custo controlado, em um contexto de fragilização do sistema dos petrodólares e de esgotamento do modelo das guerras longas.
Nesse quadro, e do ponto de vista da administração Trump, a questão central não é Israel enquanto tal, mas o Irã — ou mais precisamente o que o Irã conecta. Não como simples Estado-nação, mas como nó geopolítico: pivô energético, ator civilizacional xiita, profundidade estratégica regional e, sobretudo, elo de união potencial entre a Rússia e a China. O que Washington busca antes de tudo impedir não é a sobrevivência do Irã, mas sua integração em um bloco eurasiático estruturado, suscetível de questionar a ordem hegemônica herdada do pós-Guerra Fria.
De facto, Washington não se contenta em “conter” passivamente o Irã. Busca modificar a ordem política iraniana, inclusive por meio de estratégias de desestabilização interna, informacional e econômica. As tentativas de pressão sobre o regime, a instrumentalização das contestações sociais e a exposição midiática de figuras alternativas, tais como Reza Pahlavi, inserem-se em uma doutrina clássica de guerra política indireta, na qual a CIA e os serviços israelenses desempenham um papel central.
No entanto, essa vontade de mudança não se acompanha de um projeto de refundação regional integrada. Os Estados Unidos não buscam nem reconstruir um Oriente Médio estabilizado em torno de um Irã forte e pró-ocidental, nem assumir os custos de tal ordem. A estratégia americana visa antes a desideologizar, neutralizar e fragmentar o Irã, impedindo qualquer estruturação eurasiática autônoma.
Em outras palavras: trata-se de mudar o regime sem reconstruir a ordem, produzindo um enfraquecimento estratégico duradouro, mas sem criar um novo Estado ou polo regional autônomo. Ordo ab chao?
Caos controlado versus caos total
Essa estratégia implica que um certo nível de caos é aceito, quando não funcional, como no Iraque ou na Líbia, embora não seja necessariamente buscado como finalidade absoluta.
O objetivo americano não é fazer colapsar o Estado iraniano ao ponto de perder todo controle sobre a região.
O objetivo é um desordem orientado: enfraquecimento, fragmentação interna, incapacidade de projetar uma potência coerente, mas sem desencadear uma guerra regional incontrolável nem um colapso global.
Nessa lógica, as tentativas de desestabilização gradual, as sanções, o sabotagem direcionado e a exposição midiática de figuras alternativas servem para controlar o caos. Permitem testar a resistência do regime, fragmentá-lo, mas sem se engajar em uma aventura militar direta de consequências incalculáveis.
O Irã distingue-se aqui do Iraque ou da Líbia por seu tamanho, sua identidade civilizacional e suas redes regionais. Um colapso iraniano total seria exponencialmente mais perigoso, afetando o Cáucaso, a Ásia Central e as rotas energéticas mundiais. Washington avança, portanto, prudentemente, aceitando um caos relativo, mas evitando o caos total.
Israel: uma teleologia incompatível com a prudência americana
Essa leitura, no entanto, só vale para a racionalidade americana. Do lado israelense, a aliança inscreve-se em uma temporalidade diferente. A própria existência do Estado de Israel repousa sobre um fundamento teológico-histórico que ultrapassa o simples cálculo geopolítico. O projeto do “Grande Israel” funciona como um mito político operante, orientando as escolhas estratégicas de certas correntes — sionismo religioso nacionalista e sionismo revisionista radical — hoje sobrerrepresentadas nas coalizões governamentais e nos aparatos de segurança.
Nessa perspectiva, o Irã não é apenas o adversário estratégico. Constitui um obstáculo existencial e simbólico. Centro civilizacional do xiismo e apoio estruturante das forças regionais hostis a Israel, o Irã representa a única potência capaz de contestar duradouramente o projeto sionista no plano ideológico e geopolítico. Para as correntes messiânicas israelenses, a derrubada do poder iraniano não é uma escolha tática, mas uma necessidade histórica.
Essa divergência cria uma tensão potencial maior, ilustrada pelas reações extremamente medidas de Donald Trump durante a recente guerra dos Doze Dias. A contenção e a precisão dos ataques americanos, coordenados de antemão com Teerã, contrastaram fortemente com as veleidades israelenses. Lá onde Washington busca enfraquecer o Irã sem desencadear um caos incontrolável, Israel poderia ser tentado a empurrar para um colapso mais rápido.
Gaza: desordem útil, não pivô econômico
A situação em Gaza ilustra essa divergência. Os Estados Unidos têm interesse em não contrariar frontalmente a postura israelense, pois Gaza funciona como um espaço de conflitualidade contida, fragmentando os atores palestinos e mantendo uma pressão indireta sobre o eixo iraniano.
Por outro lado, penso agora, com um pouco de distanciamento, que Washington não tem nenhum interesse estratégico em transformar Gaza na chave de um projeto econômico estruturante ou de um hub regional. A lógica americana permanece, portanto, estritamente negativa e defensiva: impedir, ou conter e enfraquecer, mas sem construir uma ordem regional integrada.
Até onde Washington freia Israel
Evidentemente, os Estados Unidos apoiarão Israel enquanto este: não arrastar Washington para uma guerra direta contra o Irã, não provocar um incêndio regional incontrolável e não impor uma reconfiguração territorial irreversível.
O Irã constitui a linha vermelha. Qualquer tentativa israelense de acelerar um confronto direto expõe, portanto, a aliança a uma tensão maior.
Influência das redes pró-israelenses e limites
A influência das redes pró-israelenses nos Estados Unidos é real, institucionalizada e poderosa, mas não é nem homogênea nem onipotente. Ela atua por meio do lobby, do financiamento político, do enquadramento midiático e dos think tanks, mas não penso que ela possa constranger duradouramente o Estado americano a agir contra seus interesses vitais. Não se trata de uma fusão dos projetos, mas de uma sobreposição de interesses, válida enquanto o custo sistêmico permanecer aceitável para Washington.
Essa convergência é, todavia, facilitada por um ambiente cultural e político específico dos Estados Unidos. Uma parte importante do eleitorado de Trump é evangélica, portanto estruturalmente pró-israelense, às vezes por razões teológico-escatológicas. A isso somam-se redes de influência diversas — lobbies institucionais como o AIPAC, think tanks neoconservadores, mecenas — que contribuem para criar uma forte inércia pró-israelense no interior do sistema político americano. Mas essa inércia não é nem monolítica nem todo-poderosa. O executivo americano permanece um árbitro pragmático, capaz de recadrar um aliado se este se tornar um passivo estratégico.
O exemplo dos movimentos religiosos judeus, como o Chabad-Lubavitch, ilustra bem essa nuance. Sua influência real nos Estados Unidos é antes de tudo comunitária, cultural e simbólica. Eles dispõem de uma rede densa, de recursos financeiros importantes e de um capital relacional transversal, mas não constituem nem um lobby político centralizado nem um ator decisório da política externa americana. Seu poder é horizontal, difuso, relevando do soft power identitário mais do que da geopolítica operacional.
Conclusão
A aliança americano-israelense repousa sobre uma equação instável: um parceiro gerencia seu declínio por meio de uma desordem controlada, o outro persegue um projeto de realização histórica e teológica.
Os Estados Unidos buscam enfraquecer o Irã sem criar uma ordem estável e autônoma, aceitando um caos relativo, mas evitando o colapso total. Israel busca neutralizar o Irã para levantar um obstáculo existencial. Gaza permanece um teatro geoestratégico secundário, o Irã é o nó central e, como ilustrou a anterior guerra dos Doze Dias, é nesse intervalo entre pragmatismo imperial e horizonte messiânico que se aloja o principal risco geopolítico futuro.








