Biopolítica do Coronavírus (Parte XI) – Globesidade: A Outra Pandemia

Em tempos de pandemia do Covid-19, a obesidade é a outra pandemia que mais contamina e mais mata ao redor do mundo. Para piorar, e também fazer repensarmos nossas prioridades e desconfiar do terrorismo midiático, 80% dos mortos pelo coronavírus tinha sobrepeso ou eram obesos. Não obstante, existe toda uma indústria trilionária dedicada a seguir empanturrando a humanidade, até que nos transformemos nos personagens da animação Wall-E.

Dizem as más línguas que Deus inventou os Estados Unidos para se vingar dos ingleses. No primeiro dia ele criou a Coca-Cola, no segundo os hambúrgueres triplos, no terceiro os chicken nuggets, no quarto a pipoca, no quinto os ice creams e no sexto os muffins de chocolate. No sétimo dia, ele viu que as coisas não iam bem e se retirou para um asilo para um longo e revigorante sono digestivo. O Adão puritano do outro lado do Atlântico se consola empanturrando-se cada vez mais e vagabundeando por seu novo domínio, os grandes espaços americanos assimilados a um novo Éden, mas em tamanho XXL. Ali, flanqueado por sua Margarida – uma Eva castradora com sotaque estridente, uma mistura de mastigação de chiclete, de gemido sexual e de latido marcial – ele descobriu a receita do fruto proibido: o casamento entre doces e salgados, que ele cultivou em monoculturas transgênicas até onde a vista alcançava. O fruto proibido, o único verdadeiro, a árvore do conhecimento! Ele mordeu-o com todos os dentes. Gênesis do obeso.

Este fruto proibido era lisa, brilhante e perfeitamente calibrada, um pouco como a maçã venenosa que a Branca de Neve morde. Um verdadeiro coquetel tóxico, geneticamente modificado e cheio de aditivos químicos. Para o homem artificial, nutrição artificial. A siliconização da alimentação, um novo capítulo da dietética, começava. A obesidade emergiu – “a globesidade”, o último estágio da globalização: Homo adipus, uma monstruosa derivação da linhagem européia ancestral decaída.

No país do “Bigness”

Gênio da América, a primeira nação a experimentar esta banalidade da abundância. Daí a democratização do tamanho. Georges Bernanos observou que reconhecemos uma civilização pelo tipo de homem que ela formou – ou deformou. Ele não estava pensando especificamente no país do Mickey Mouse. No entanto, algo semelhante a uma mutação antropológica ocorreu ali.

A América tem sido há muito tempo a terra dos super-heróis e dos mutantes, dimensão central de sua psique que Tocqueville ignorou em sua famosa análise da Democracia na América. Hormônios de crescimento desde o início. O que está em jogo aqui não é tanto um experimento político, mas um experimento genético. Ou como fazer, a partir dos peregrinos do Mayflower (1620), super-homens capazes de caminhar sobre a Lua. O problema hoje em dia é que os super-heróis não são mais chamados de Neil Armstrong ou Batman, mas Fat Man e Maxi-Girl, de acordo com a dinâmica do liberalismo selvagem, de tal forma que sua redundância multiplicada reflete o mito americano do gigantismo. Os gurus do marketing chamam isto de “Bigness”.

Morte por Saciedade

Objetivo empanturramento. Entre os romanos, na época da decadência, as pessoas se entupiam de comida em orgias caras, mas isso acontecia na alta sociedade. Como disse Sêneca, “os romanos comem para vomitar e vomitam para comer”. A democracia alimentar mudou tudo isso para nós. A orgia de massa tornou-se a norma, escolheu seu local de eleição: os fast-foods e distribuição massificada. Supers, hipers e outros gigas homogeneizaram tudo. Hoje, é aqui que Petrônio situaria seu Satíricon e Marco Ferreri seu A Grande Farra (1973) no qual Mastroianni, Noiret e Picolli cometem suicídio gastronômico. Ferreri queria encenar a glutonaria da sociedade de consumo emergente. Mas ele ainda estava filmando uma crise hepática em uma delicatessen de luxo. Os descontos radicais colocam isso ao alcance do estômago de todos.

A obesidade exige um moralista. Seria preciso um Gibbon para consagrar uma História de Decadência Culinária e da Queda do Império Gastronômico do Ocidente a ela. Pois existe, no entanto, uma loucura sem precedentes neste fenômeno. Essa não é apenas uma pandemia, de acordo com a classificação da Organização Mundial da Saúde, é uma espécie de doce e irrisória coroação na longa história da evolução. Lá se vai! Passamos fome há dezenas de milhares de anos. A linha de nosso primo, o Homem de Neanderthal, que dominava a cadeia do frio, chegou mesmo a morrer. Mudança de dieta e de perspectiva: a partir de agora a obesidade será mais mortal que a fome; a partir de agora os sete pecados capitais, incluindo a gula, serão as virtudes do capital.

Obesidade Mórbida, as “38 Toneladas” da Adiposidade

A obesidade nos fascina como as mulheres barbadas ou os corpos de tronco duplo que uma vez foram exibidos em feiras. Até 500 kg, e às vezes mais em pessoas extremamente obesas. Acima de 200 kg, você só pode sair de sua casa com uma grua depois de ter quebrado o telhado. Nesta fase, diz-se que a obesidade é mórbida – morte da barriga, diriam os lacanianos, cujos trocadilhos nunca foram muito felizes. Os membros rechonchudos e os corpos flácidos são cobertos apenas pelo movimento ondulante e sísmico da gelatina presa nas dobras subcutâneas. Esta é a história do Elephant Man na época de sua reprodutibilidade técnica, dietética e finalmente diabética.

Nada de zombaria aqui. Os obesos são as vítimas – mais infelizes do que consentidas (como veremos) – de nosso modelo de consumo. Como podemos censurá-los? Eles apenas reproduzem nossa bulimia patológica. Consumir, consumir, até morrer. Assim exige um mundo saturado de vícios e toxicodependências, a drogas como a alimentos. A mercadoria conquistou tudo, até os corpos que ela metamorfoseou. Os obesos são apenas a versão alimentar desta loucura coletiva, um espelho mal deformado do que nos tornamos. O acúmulo de gordura é apenas a tradução fisiológica do processo de acúmulo de capital. Um fenômeno puro de concentração, não mais de ativos líquidos, mas de lipídios. Uma bolha mais. Que vai estourar. Esta é a assinatura do neoliberalismo.

A Forma da Ausência de Forma

A obesidade como parábola de nossos tempos, que se teria cristalizado, metabolizado, digamos, nestes corpos hipertrofiados. Ninguém falou disso com tanta precisão e presciência como Jean Baudrillard, já em 1983, em As Estratégias Fatais, que descrevia nosso futuro, já ocorrido do outro lado do Atlântico: a “deformidade por excesso de conformidade” dos volumes obesos, “seu total esquecimento da sedução”, aqueles que “exibem algo do sistema, de sua inflação vazia”. Baudrillard torna inútil a leitura da ficção científica: nós já estamos lá. Sua obra é a trilha sonora de nosso apocalipse viral, seu voice-over supremamente inteligente, com escrita branca, desdobrando o relatório da autópsia da sociedade de consumo.

E quanto à arte contemporânea? Ela também se reconheceu na obesidade, que tem a vantagem adicional de contrabalançar seu minimalismo anoréxico (a outra tentação da época). De uma para a outra, é o mesmo desaparecimento do corpo, a mesma proliferação de signos, a mesma abolição da anatomia. De uma para a outra, é a mesma escolha do amorfo, do disforme e do conforme: os três níveis que definem a forma como nossa era representa sua relação com a Forma: a forma da ausência de forma. Veja os balões inchados e sombrios de Niki de Saint Phalle, as esculturas pesadas de Botero e suas telas aerofágicas transbordando as molduras, os Balloon Dogs metálicos de Jeff Koons. Os castelos de arte contemporânea, suas instalações, suas obras cilíndricas, são estruturas obesiformes e insufláveis. Pschitt!

O Esplendor Perdido do Ventre

Nada a ver com as anatomias maciças do passado, cuja prodigalidade prometia esconjurar a escassez e a fome. Rotundos, plenos de amistosidade, os gordos avançavam triunfantes. Era um progresso. Durará até o Cenas da Vida Parisiense de Balzac, tal como na fisionomia de Dumas pai, de Daudet filho, de Henri Béraud. Para mim, quando criança, era a glória de meu pai. E o que dizer dos ogros dos contos infantis? Ah, esses bons ogros. Nosso último espécime é Depardieu, que herdou o apetite de Obélix, o golpe de garfo de Pantagruel e o trato digestivo de Gargantua. Esplendor do ventre. Depardieu nos chega diretamente da época dourada da opulência, dos tempos do “glutão medieval”, das cenas aldeãs de Brueghel, da sanguinidade tonitruante de Falstaff, a cerveja na boca, a salsicha na mão, que desfilava pelas tavernas inglesas.

Através de todos esses personagens, se celebrava a munificência dos gordos e os banquetes. As últimas chamas desse mundo brilharão com Rabelais. Depois disso, será apenas um lento colapso da gordura, como em A Queda dos Amaldiçoados de Rubens. Georges Vigarello retratou as principais etapas deste declínio em As Metamorfoses do Gordo (2010). Foi durante a Renascença que o horizonte cultural das pessoas gordas se escureceu. Eles serão culpados por sua indolência. O corpulência começou a murchar. E se a tradição popular continua a ligar os corpos generosos à boa saúde, os médicos, por outro lado, já estão forçando seus pacientes ricos a seguir a “dieta magra”. Já no início do Grande Século, as coquettes e preciosas começaram a realizar regimes e outras práticas de compressão pélvica: espartilhos, cintas e toda a gama de ferramentas de tortura. Enquanto o prestígio social dos gordos permanecia, suas formas eram cada vez mais associadas a críticas aos abastados. As barrigas dos burgueses resistirão por um tempo, não as de suas esposas, que derreterão como neve ao sol, pelo menos nas capas das revistas.

O resto da história é bem conhecida: anorexia como modelo estético e obesidade como realidade social. Os ricos se tornaram magros e os pobres enormes. Daumier perderia seu golpe de lápis. Desde então, temos oscilado entre as dietas de emagrecimento do “beautiful people” e os menus supersize do povo, a dietética e os lipídios, Laurel burguesa e Hardy plebeu.

A Terra com Excesso de Peso

A Terra passou de esférica a obesa. A obesidade quase triplicou desde 1975. Dois bilhões de adultos acima do peso, mais de 650 milhões de obesos. Em 40 anos, os casos de obesidade em crianças e adolescentes aumentaram dez vezes. Até 2030, haverá 250 milhões de crianças obesas. Dois em cada cinco adultos nos Estados Unidos já são obesos. O México está à beira de ultrapassar seu vizinho desde que o Acordo de Livre Comércio Norte-Americano foi adotado em 1993.

A obesidade continua sendo o melhor item de exportação dos Estados Unidos, o único que pesa em sua balança de pagamentos. Poderia ser esse o futuro da humanidade? Quem já viu o WALL-E da Pixar Studios, produzido por Walt Disney, não tem dúvidas sobre isso. É uma pequena jóia da animação, que certamente pesa um pouco demais no ecologicamente correto, o que não estraga nada seu sucesso. Ela mostra uma população americana uniformemente obesa, lutando para se locomover em qualquer coisa que não seja uma cadeira de rodas. No início do século XXII, a Terra tornou-se inabitável e a humanidade pacidérmica, nossos distantes descendentes se refugiaram no espaço onde vivem sob o controle de um consórcio econômico, Buy’n’Large, uma paródia transparente do Walmart, a maior cadeia de supermercados do mundo, aliás, o maior empregador dos Estados Unidos.

Pandemia entre os Roceiros

A obesidade pode começar a ser explicada por estilos de vida sedentários, pela inação assistida e pela superalimentação. Esqueça a genética, ela não conta muito, exceto para crer que o gene da obesidade foi lançado de pára-quedas no Texas há 50 anos, um pouco como a garrafa de Coca-Cola em Botsuana em Os Deuses devem estar loucos (1980). Nos Estados Unidos, a urbanização vertical (o mundo dos negócios) e a urbanização horizontal (os mega-subúrbios urbanos) coincidiram, ou seja: elevadores e carros. Um mundo no qual não é mais necessário viajar a pé. As calçadas desapareceram em muitos lugares. Como as frutas e os legumes. Como as mercearias.

Há uma geografia da obesidade do outro lado do Atlântico – e em outros lugares – pelo menos de acordo com o mapa de “desertos alimentares” publicado pelo governo dos EUA. Ele engloba famílias de baixa renda sem veículos e sem lojas de alimentos acessíveis em um raio de dois quilômetros. É surpreendente ouvir o termo “desertos alimentares” aqui: isto é América, não Darfur. Esse é o problema. Milhões de crianças vivem nessas áreas, comendo apenas batatas fritas, doces e refrigerantes. Todos comprados… em postos de gasolina… Como resultado, o maior fardo da obesidade mórbida é sobre as crianças. Isso é promissor. O cenário é uma conclusão inevitável: do lanche à ponte de safena tripla.

Uma Overdose de Açúcar

“Podemos um dia descobrir que a comida enlatada é uma arma muito mais mortal do que as metralhadoras”, disse George Orwell em A Caminho de Wigan. Ele não poderia ter dito melhor. O neoliberalismo escolheu sacrificar pessoas, não exterminando-as como Stálin ou Mao, mas entupindo-as com alimentos altamente processados de qualidade nutricional quase nula e densidade calórica exponencial – exceto… exceto que são “calorias vazias”, características do junk food.

Em 1976, um jovem pesquisador, Anthony Sclafani, adicionou um punhado de Fruit Loops, um cereal nojento, mas altamente adocicado, à gaiola de um rato de laboratório. O roedor saltou sobre ele à velocidade do Ligeirinho sem se certificar se havia ou não algum perigo. Sclafani tinha acabado de descobrir inadvertidamente os processos de dependência agro-industrial. Ele repetiu a experiência com todos os tipos de alimentos adulterados, glucosados e aromatizados. A cada vez, os ratos avançavam imprudentemente, indo contra a prudência incorporada em seu comportamento evolutivo. Em poucas semanas, eles se tornaram obesos. Os ratos de hoje somos nós.

Comer Mata!

Algum tempo antes, no cruzamento das décadas de 60 e 70, ocorreu uma revolução silenciosa. A epidemia de acidentes cardíacos – o grande ceifeiro dos Trinta Gloriosos, juntamente com os acidentes rodoviários – levou nutricionistas, médicos e políticos a abandonar as dietas de carne rica em gordura animal em favor dos carboidratos, cereais, alimentos ricos em amido, batatas, etc. Sem saber, tínhamos acabado de passar da metamorfose da gordura, o antigo regime da gordura, para a metamorfose do açúcar, o novo regime da obesidade. Os industriais não hesitaram. O açúcar é barato, viciante e não cria uma sensação de saciedade porque aniquila o sinal de saturação enviado pelo cérebro. Os gigantes do agronegócio cumpriram a promessa de um crescimento infinito – até o AVC sistêmico. Conclusão em forma de oclusão: a obesidade é apenas o resultado de um modelo de desenvolvimento enlouquecido, privatizado em benefício de uma oligarquia. Além disso, não se trata de apontar o dedo para os obesos, mas de observar em seus corpos martirizados os estigmas do capitalismo terminal. Obesidade da população, bulimia dos mercados financeiros, hipertensão da bolsa de valores, bolha imobiliária. É todo um sistema ameaçado por ataques cardíacos, por perfurações intestinais, por um apocalipse diabético tipo 2. A partir de agora, sim, comer mata!

Fonte: Revue Éléments

Artigos Precedentes

Biopolítica do Coronavírus (I) – A Lição de Michel Foucault
Biopolítica do Coronavírus (II) – O Paciente Zero é a Globalização
Biopolítica do Coronavírus (III) – Tempo Ruim para os “Sem Fronteiras”
Biopolítica do Coronavírus (IV) – A Imunodeficiência das Elites
Biopolítica do Coronavírus (V) – O Caso Griveaux: Paris vale uma Epidemia
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François Bousquet

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