À procura do Logos Branco, parte 2

por Novas

Na segunda parte de três, Novas nos convida para um mergulho mais perigoso e complexo nas profundezas da Noomaquia Duginiana, conhecendo os Logos, suas naturezas e como podem ser percebidos no mundo. A busca pela posição da alma entre essas três posições é um momento decisivo, que envolve uma negação do mundo que nos cerca e difíceis decisões que nos colocam sob a égide de nossa verdadeira causa.

NOOMAQUIA

A Noomaquia, abrangendo 28 volumes, pode ser a maior realização intelectual de Alexandr Dugin; que é – no final de Kali Yuga – uma visão geral de todas as grandes civilizações que se desenrolam até hoje; a grande narrativa para um mundo multipolar. Aqui ele estabelece a chave mestra com a qual podemos compreender a estrutura das diferentes mentes, povos, civilizações, mitos e filosofias: os três logoi, três reinos imagéticos lutando entre si pela implementação de seu modelo.

Temos o Logos Branco de Apolo, que corresponde à masculinidade, idealismo, o eterno, hierarquia, transcendência, distinções agudas e verticalidade. Ele é simbolizado pelo Sol, e eminentemente representado por mentes como as de Platão e Plotino, e mais recentemente, por Guénon e Evola.

Temos o Logos Negro de Cibele, correspondendo à feminilidade sem transcendência, à queda no tempo, inércia, igualitarismo, quantidade e materialismo. No reino de Cibele, o agudo é embotado, distinções borradas, a paz nasce da inclusão e transigência. Cibele é a mãe tolerante que tudo abraça, até as coisas mais monstruosas e contraditórias — caso precise, invertendo significados. O modelo aqui é a espera por coisas boas enquanto segue-se — passivamente — o fluxo, evitando os excessos de levar qualquer coisa muito a sério. Os titãs servem como seus filhos, produzindo filosofias materialistas como as de Demócrito e Lucrécio, além de uma lógica falida cada vez mais distante do sagrado, culminando no cientificismo, cibernética e I. A., tendendo ao objetivo de segurança máxima e falta de responsabilidade pessoal.

Cibele domina o mundo contemporâneo, premiando ricamente seus servos pragmáticos. Os seguidores de Apolo estão, em maioria, escondidos, lutando uma guerra metafísica de guerrilha em posições quase perdidas. Estes são os últimos guardiões da medida, convidados de pedra lutando através do desapego e atacando de longe.

O Logos Sombrio é o de Dionísio, andrógino e flexível, um logos que conhece os picos solares de Apolo, mas ao contrário de Apolo, pode chegar a qualquer lugar, até mesmo adentrar o mundo de Cibele. Dionísio representa a luz e a masculinidade no mundo da escuridão. Ele é o deus que enfrenta Cibele e os titãs, morre e ressuscita, renovando os caminhos aos picos apolíneos da luz, desde o fundo. Filosoficamente, o logos sombrio corresponde a correntes como o hermetismo, fenomenologia e Heidegger (no mundo contemporâneo).

Enquanto o Logos Branco começa com o ideal e exige que o mundo se esforce nessa direção, o Logos Sombrio começa com o mundo em estado decaído e goza da iniciativa heroica de trazer a luz aos seus cantos mais obscuros. É também aqui que, no crepúsculo do reino dionisíaco, o dramático, como tal, acontece — incluindo o drama do romance. Mesmo que o objetivo seja um amor eterno, olímpico, é difícil que ele atinja tais picos sem a musicalidade de Dionísio, que preocupa-se não somente com o ideal, mas com o ideal contextualizado na situação concreta do ser no mundo. O perigo para Dionísio, no entanto, é que ele seja puxado tão fortemente pelas trevas de Cibele, e fique incapaz de ascender. Há também um duplo sombrio de Dionísio, aquele que, na falta da orientação vertical, juntou-se ou emergiu do domínio de Cibele, uma figura conectada ao Anticristo.

Ao tentar imaginar tal figura, meus pensamentos são atraídos, talvez injustamente, para um pensador abertamente tomando o lado dos titãs contra os deuses. Um homem interessado no oculto de formas que René Guénon e Julius Evola nos alertaram sobre. Um homem que busca desconstruir as grandes tradições e filosofias ao expor suas mentiras fundamentais. Ele deseja criar um “estado mundial de emergência”, posicionando-se, com sorriso mercurial, como o arauto do Anticristo, que surgirá da civilização Iraniana ressuscitada, um leviatã iraniano, como ele diz. Eu falo de Jason Reza Jorjani. Ele reflete Dugin em seu amor pela filosofia, sua apreciação de Heidegger como polo central da filosofia contemporânea, e no entendimento de que o Iranismo é uma peça-chave para o entendimento e vitória do drama escatológico; vejo suas posições, no entanto, como opostas. Este poderia ser um campo muito promissor para um verdadeiro encontro intelectual, uma guerra de mentes.

ESCRAVIDÃO SALARIAL

Encontrar o campo de ideias conectado ao polo Tradicionalista correspondeu externamente à pior posição da minha vida. Eu vivo e ajo de forma vivaz somente quando sigo a estreita clareira da inspiração. Fora desse caminho sou uma casca frágil e inútil, bom em particularmente nada, e péssimo com puritanismos e ajustes a realidades econômicas. Coisas que muitas pessoas fazem com facilidade, só consigo realizar de forma oblíqua e com grande esforço.

Meus vinte anos foram uma aposta e uma corrida contra o tempo: Ou eu encontraria uma expressão no mundo correspondente a minha verdadeira vontade, que como efeito colateral resolveria o problema econômico, ou o mundo inercial se vingaria das minhas tentativas de desafiá-lo.

No fim das contas, o labirinto se provou muito longo. Quando eu realmente queria algo, portas se abriam, mas eu constantemente perdia a fé no sentido de minhas ações. No princípio de meu encontro com o polo Tradicionalista, eu encontrei as referências intelectuais necessárias para ações significativas. Agora, no entanto, as forças inerciais do mundo se tornaram tão esmagadoras que, após manter distância dos escravocratas salariais pelo máximo de tempo que pude, eles finalmente me alcançaram. Ainda pior: Eu me degradei ao ponto de procurar ser pego, algo para o qual eu não me preparei, e era péssimo.

Quando se é jovem, é perfeitamente legítimo abrir a mente para experimentar diferentes direções até encontrar sua tendência central, e você possui uma certa flexibilidade sobre o que fazer. A situação muda quando você já atravessou um longo processo de afinação do seu propósito a um alto degrau, realizando grandes sacrifícios e dolorosas separações de pessoas e ambientes para ser o mais fiel possível ao dito propósito. Um propósito afinado é em algum sentido sua maior realização; ser forçado para fora deste grande campo de propósito é uma experiência desagradável.

A única maneira de sobreviver era mentindo. Declarar entusiasmo e competência – sem convicção ou credibilidade, e em lucidez dolorosa – por um trabalho que, eu bem sabia, estava fora das minhas competências e que não devia fazer. O medo de ser “exposto” em situações assim era constante, e em alguns casos isso se concretizava. Não havia como vencer, mesmo que, até certo ponto, “obtendo êxito”; apenas esforços para minimizar os danos. Grande parte do meu tempo a partir de agora seria roubado de mim por coisas sem sentido: trabalhando, preocupando-me — sem dormir — com o trabalho ou em recuperação depois de ter trabalhado.

Eu me senti como um instrumento frágil, altamente especializado para um raro propósito, sendo agora jogado descuidadamente de acordo com as leis da inércia, para as tarefas mais servis. Erros levariam a novos erros, me empurrando cada vez mais para longe do centro; eu me desprezava. Onda após onda de situações impossíveis sem qualquer solução autêntica senão escapar. Muitas vezes tentei melhorar minha situação através de mudanças físicas para outros locais, normalmente só para substituir a chapa de fritura pelo fogo. As outras possibilidades de escapar que considerei foram expandir meu horizonte intelectual, contemplar o suicídio, ou tentar cooperar com outras mentes não conformistas.

Contemplar o suicídio proporciona uma certa intensidade espiritual, um foco agudo e inspirado no que é essencial ou não. O que vem menos naturalmente são os esforços que requerem disciplina; trabalho discursivo sistemático, cultivar o corpo, aquisição de novos idiomas importantes para o interesse próprio. Quando você contempla o suicídio com seriedade, investir no futuro torna-se irrelevante. Eu me perguntava a que história eu pertencia. Talvez o suicídio fosse agora o mais próximo que eu chegaria de minha expressão, ou representaria a descentralização final? Eu seria como o samurai desgraçado cujo único dever restante é cometer seppuku, ou eu seria como o cavaleiro do Graal, cuja humilhação pode fazer parte de um caminho autêntico, um teste? Quando contemplava seriamente a possibilidade de acabar com tudo, sempre haviam revelações de esperança na borda, me movendo além.

Eu investi parte do meu tempo livre em uma revista online, ao lado de alguns outros não conformistas. Começou como um pequeno experimento, mas minha esperança era de que a revista não só mudasse o discurso mainstream ao introduzir horizontes intelectuais diversos, como Evola e Dugin, mas que constituísse um local de encontro e um think tank para boas pessoas criarem poderosas sinergias. Com o tempo, talvez uma rede orgânica e economicamente sustentável pudesse emergir, consistindo de pessoas pragmáticas e intelectuais. Eu também podia antever uma tempestade no horizonte, fazendo dessa rede algo ainda mais importante.

Para que um empreendimento tão ambicioso obtivesse sucesso, a precondição seria ter um forte núcleo de pessoas dedicadas a esse projeto de forma prioritária, inicialmente sacrificando muito e tolerando desconforto e estresse. Há um limiar que precisa ser atingido: ou você alcança momento suficiente para começar a redefinir as coordenadas e regras do jogo, tornando-se um centro que atrairá recursos e inspiração para si; ou você simplesmente acabará como uma abertura para o sistema social. Ademais, se representar ideias que podem fazer uma verdadeira diferença, também se tornará – possivelmente – um alvo para a “polícia do pensamento” e acabará em uma posição pior do que se não fizesse nada.

Infelizmente, nos faltava uma ideia comum que pudesse motivar a maior parte de nossos colaboradores para além de um hobby. Além disso, apesar de editor-chefe, eu estava – como de costume – mais interessado em seguir ideias de forma intransigente do que focado em motivar ou atrair mais colaboradores. A revista não conseguiu atingir o limiar necessário e acabou na zona crepuscular entre se tornar uma abertura e um alvo para as fofocas pagas do sistema.

Eu não sei dizer se conseguimos provocar qualquer mudança significativa em qualquer pessoa de importância, mas a atenção da polícia do pensamento debilitou minha já diminuta chance de relações indolores com o mundo dos “empregos”. Tudo considerado, posso argumentar que gozamos de alguns sucessos quantitativos moderados, mas para mim todo o processo tornou-se um comprometimento muito grande com o morno espírito contemporâneo para simbolizar uma ação significativa de expressão do meu propósito.

O lado bom desse empreendimento foi conseguir o contato de bons homens. Além disso, constituiu uma experiência educativa que me mostrou não ser o momento correto tanto para cooperação quanto tentar atingir um público maior. Apesar do fato de não poder esperar qualquer gratidão de meu povo — para dizer o mínimo — eu cumpri meu dever ao tentar descobrir se havia espaço lá fora para ideias que façam a diferença. Agora eu tinha desafios mais que suficientes meramente tentando sobreviver em um emprego sem sentido, acorrentado a um computador na ilha mediterrânea para a qual fugi. Eu abandonei o cargo de editor-chefe, me desconectando novamente do mundo, de todo o mundo.

SOROR MYSTICA

No fundo do poço, que outra opção existe se não mirar da forma mais reta possível na direção de seus sonhos? Enquanto minha primeira profunda experiência transformativa com a beleza feminina tenha sido uma confusa tentativa de misturar meus sonhos com uma garota aparentemente normal, desta vez eu escolhi uma garota cujas expectativas e medidas para a vida e amor eram as maiores possíveis, disposta a lutar contra o mundo contemporâneo no processo. Essa jovem possuía uma combinação de seriedade, talento artístico, amor pela filosofia e uma divertida atitude diante do mundo. No entanto, seus atributos não eram realmente a questão. A questão é que ela despertou algo em mim, conectou-me ao meu eu mais verdadeiro.

No mundo exterior eu me tornei quase imperceptível e sem muito o que mostrar; apesar disso tudo, essa moça – no que não pode ter sido uma decisão racional – atendeu minhas preces ao acreditar em mim. Como no poema unicórnio de Rilke, das Tier, das es nicht gibt, ela cedeu espaço para algo emergir. Na sinistra escuridão da minha mina de carvão eletrônica, ela se tornou meu uno raio de luz espiritual; a criança-estrela transformando minha prisão em Avalon, onde passamos um curto verão e Natal como rei e rainha. Com ela, tudo era experimentado na trajetória entre nós, e não mais na solidão despropositada. Agora, no fim da história, o mundo inteiro, com toda sua poesia, filosofia, música, histórias, aleatoriedade, miséria e loucura, estava à nossa disposição; um local de possibilidades, sementes, no qual podíamos escolher os materiais para a construção de um novo mundo. Havia uma pureza em nossa interação transcendendo nossos entes condicionados, uma força excessiva, testemunhando nossa presença – ao longo do tempo – através de novas revelações.

No fim, entretanto, excederíamos nosso tempo em Avalon. Para mim, essa queda revelou uma luta ainda não resolvida entre diferentes tendências da minha mente. Descrevendo-a em termos da noomaquia, Apolo e Dionísio acabaram brigando pelo trono de meu ser, retardando uma conduta coerente no mundo exterior contra o desafio da inércia Cibeliana, afastando-a. Enquanto Dionísio encontrava inspiração interpretando nossa relação como um empreendimento órfico que exige tempo, Apolo tinha pouca paciência para romantismo crepuscular. Quando as coisas não eram diretas, só podia significar desprendimento e guerra, com tentativas esporádicas de reconciliação dionisíaca. No fim, após um fútil gesto de aproximação, Dionísio desistiu. Apolo demarcou o limite, um fim para essa história, e tornou-se o governante indisputado de meu trono interior. Agora Apolo era livre para me guiar ao Logos Branco em sua pureza.

Fonte: The Autistic Mercury

Tradução: Augusto Fleck

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