Desmistificando Paulo Freire

Recentemente, várias figuras da direita brasileira resolveram atacar a memória do educador Paulo Freire, que vem sendo bombardeada com calúnias por Bolsonaro e sua trupe desde a campanha eleitoral. Weintraub (Ministro da Educação) e Bolsonaro quiseram ainda remover de Paulo Freire o título de “Patrono da Educação”, conferido a ele em 2012. Mas o que tem movido esses ataques? Quem eles pensam que é Paulo Freire e, principalmente, quem ele realmente é? Tentaremos brevemente responder a essas questões enquanto mergulhamos um pouco em sua filosofia.

Tópicos:
• Das calúnias
• Das causas
• Das respostas
• Paulo Freire, um filósofo da educação
• Paulo Freire e sua filosofia política
• Conclusão

Das calúnias
O que o presidente Bolsonaro [e seus filhos], o Ministro da Educação, Abraham Weintraub, o colunista da Veja, Rodrigo Constantino, e o humorista do SBT, Danilo Gentili, têm em comum, além de serem liberais? Nenhum deles leu Paulo Freire, mas se arrogam do direito de “criticá-lo”.
Eduardo Bolsonaro, na Câmara dos Deputados, disse: “Paulo Freire era aquele teorólogo (sic) que gostava de pegar fatos simples e encher linguiça em suas obras. “pedagogia do excluído” (na verdade, “Pedagogia do Oprimido”), dentre outros livros que ele escreveu. O que ele fez foi levar para dentro das escolas a cultura de Karl Marx[i]. Disse, ainda, que Freire é a “versão brasileiro (sic)” de Antonio Gramsci.

Danilo Gentili, quando pego de surpresa em uma entrevista a respeito do tweet que fez sobre Paulo Freire (dizendo que o educador fez estragos na educação), admitiu que leu apenas algumas frases de Freire no Google, mas que elas não fazem sentido: “Pega as frases dele, parece coisa de estelionatário, não faz sentido… ‘Eva viu a uva’, parece alguém enrolando alguém, entende?”. Acontece que a frase não é de Paulo Freire, o educador apenas a usou para fazer uma crítica, veja: “Não basta saber ler que ‘Eva viu a uva’. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.”.

Rodrigo Constantino, por sua vez, escreveu um artigo, que se encontra na Gazeta do Povo, intitulado “Pedagogia do Oprimido: uma resenha devastadora do mais famoso livro de Paulo Freire” [ii]. Quando esperamos encontrar uma resenha crítica feita por Constantino sobre a obra, com o que nos deparamos? Com breves linhas de Constantino xingando Paulo Freire e fazendo as mesmas acusações de sempre, como aquela clássica que diz que Paulo Freire é responsável por uma “doutrinação marxista” nas escolas. Logo após as vergonhosas linhas, Constantino passa a bola para Marcelo Centenaro, verdadeiro autor da resenha. O mesmo confessa que nunca havia lido o livro [mesmo criticando] e que resolveu lê-lo somente para criticá-lo com “propriedade” após uma amiga alfinetá-lo por criticar o que não conhece.

Pois bem, o que ele disse [além de denunciar o marxismo] é que o que escreveu Paulo Freire não fez o menor sentido para ele (disse ainda que não é uma leitura fácil e que demorou dois meses para ler o livro – que, de acordo com ele mesmo, tinha pouco mais de 100 páginas). Ele citou trechos da obra de Freire desafiando o leitor a encontrar algum sentido neles. Basicamente, Centenaro não entendeu bulhufas de Pedagogia do Oprimido, tomou o autor por confuso e no fim, bradou os seguintes chavões: “Chega de doutrinação marxista! Fora Paulo Freire!’.

A partir desse panorama, já dá para saber o nível dos “críticos” de Paulo Freire. É no mínimo curioso como mesmo quando alguém da caricata direita brasileira resolve finalmente ler Paulo Freire, continua não o compreendendo.

Das causas
Com a missão de alfabetizar trabalhadores adultos, Paulo Freire, com sua experiência, notou que a abordagem de alfabetização para crianças e jovens era inadequada para adultos. Desenvolveu, então, um de seus trabalhos mais memoráveis: “Criou um método que permitiu alfabetizar um grupo de 200 cortadores de cana-de-açúcar em apenas 45 dias.” [iii]

“[…] Seu trabalho no Nordeste chamou a atenção do então presidente da República, João Goulart, que pediu a ele que expandisse sua metodologia para um plano nacional de alfabetização (grifo meu).”[iv]
Porém, todos os programas foram cancelados com o golpe militar de 1964 e Freire (após ter sido preso) foi exilado do país.
“No relatório de inquérito que acusou Freire de ser ‘um dos maiores responsáveis pela subversão imediata (grifo meu) dos menos favorecidos’, o tenente-coronel Hélio Ibiapina Lima afirmou que o educador era ‘um cripto-comunista encapuçado sob a forma de alfabetizador’”. [v]

Um fato interessante é que nem Pedagogia do Oprimido (1968) nem qualquer outra obra mais famosa de Paulo Freire tinham sido publicadas antes de seu exílio. O que, então, motivou a perseguição? Além do fato de ter sido convidado por João Goulart – outro “cripto-comunista”, segundo os articuladores do golpe – a expandir seu método de alfabetização, Freire desenvolveu um método nada ortodoxo, que consistia em uma aproximação do educando com sua realidade social. Freire defendia o ensino do repertório social e cultural de cada alfabetizando: em vez de aprender a escrever palavras distantes de sua realidade, o alfabetizando deve aprender as que fazem parte de seu contexto social, pois a identificação, segundo Freire, com o conteúdo torna a aprendizagem mais prazerosa e natural.

Já era de se esperar que a metodologia adotada por Freire fosse vista como “subversiva”, como “alienadora” dos menos favorecidos – argumentos que são velhos conhecidos contra toda ameaça à estabilidade do status quo – pois, nada mais temeroso ao establishment que o pensamento crítico advindo da consciência da realidade imposta.

Desde então, Paulo Freire é o grande vilão da educação para os defensores da ditadura e figurões da direita como Olavo de Carvalho. Com a ascensão de Bolsonaro, grande defensor da Ditadura Militar, os ataques só se intensificaram.

Das respostas
As acusações contra Paulo Freire são sempre as mesmas:

  1. “Paulo Freire é responsável pelo atual estado da educação pública brasileira”;
  2. “Paulo Freire é contra a autoridade do professor”
  3. “Paulo Freire é comunista e inimigo de Deus”;
  4. “Paulo Freire levou o marxismo para dentro da sala de aula”.

Mas será que essas acusações se sustentam?

  1. Nunca, jamais, em hipótese alguma qualquer método de Paulo Freire foi ou é aplicado nas escolas públicas brasileiras. Aliás, o único “método” que Paulo Freire desenvolveu foi aquele que aplicou nos trabalhadores de cana-de-açúcar, alfabetizando-os em apenas 45 dias. Fora esse, nenhum outro método foi desenvolvido, e suas obras são obras de Filosofia da Educação, que também nunca foram “aplicadas” nas escolas.

• Rigorosidade metódica;
• Criticidade;
• Superar a ingenuidade e instigar a curiosidade epistemológica;
• Reconhecimento da identidade cultural.

Quais desses pontos acima foram “aplicados” nas escolas? Alguma coisa aí está em uma cartilha a ser seguida? Certamente que não. E se estivesse, a educação não estaria como está.

2. Paulo Freire jamais afirmou que a autonomia do aluno significava o fim da autoridade do professor. Pelo contrário, Freire era bastante conservador nesse quesito. Em seu livro, “Pedagogia da Autonomia”, no capítulo intitulado “Ensinar exige liberdade e autoridade (grifo meu), Freire descreve discussões que teve com professores progressistas que diziam que a liberdade do aluno não pode ter limites, que todo limite imposto pelo Professor é autoritarismo, então Freire responde que não, que é um absurdo pensar assim: “A liberdade sem limite é tão negada quanto a liberdade asfixiada ou castrada” (p.40). A autonomia em Freire nada mais é que a autonomia do Ser do educando. Autonomia para desenvolver suas potencialidades; para passar da curiosidade ingênua para a epistemológica, do conhecimento depositado para o refletido e criativo, do pensamento irrefletido para o crítico. Nesse processo, a autoridade do professor é indispensável como motor instigador da criticidade nos educandos.

3. Paulo Freire, como Filósofo [da Educação], naturalmente bebeu de várias fontes, da qual uma delas foi Marx. Qualquer escritor, filósofo ou intelectual sabe que a leitura de um autor, a absorção de algum conhecimento ou ideia de um autor não faz da pessoa fã, “seguidora”, admiradora integral de suas obras. Aliás, Freire foi infinitamente mais influenciado por Hegel do que por Marx, embora tenha feito críticas a ambos. Freire jamais foi adepto do materialismo histórico. Ele acreditava na transcendência e no Cristo, como já afirmou diversas vezes, inclusive em vídeo. Freire se aproximava mais de um comunitarismo cristão do que qualquer outra coisa. Jamais foi comunista.

4. Paulo Freire não levou nem seu método de alfabetização para dentro da sala de aula, quem dirá o marxismo, que nem era sua ideologia política. Essa afirmação é simplesmente uma loucura, um devaneio total. E isso é devido à péssima interpretação que se faz de suas obras. Alguém com o mínimo de conhecimento filosófico jamais faria tal conclusão absurda.

Enfim, essa histeria por parte da direita em relação a Paulo Freire é simplesmente injustificável. Paulo Freire é uma interessante leitura filosófica àqueles que sabem ler.

Paulo Freire, um filósofo da educação
Para entender melhor Paulo Freire, é necessário ler suas obras com certa bagagem filosófica. O porquê de Freire ser ainda tão mal interpretado – tanto pela direita quanto pela esquerda – não é um mistério; se deve principalmente à falta de leitura no campo da filosofia (principalmente moderna).

Das correntes filosóficas, Paulo Freire é profundamente influenciado pela fenomenologia. Hegeliana, husserliana, heideggeriana. Seu “oprimido” não é o da esquerda ortodoxa – o proletário – muito menos o da nova esquerda – as chamadas “minorias” – mas o “ser menos”, o homem a quem falta autonomia e liberdade para realizar suas potencialidades. Veja um trecho de uma fala de Freire sobre a busca do homem pelo “Ser Mais”:

Eu acho que nós somos homens e mulheres, seres inacabados, mas com uma diferença radical em face do inacabamento das árvores, do inacabamento dos outros bichos, por exemplo. E no momento mesmo em que nos tornamos capazes de nos saber inacabados, seria uma imensa contradição se ao mesmo tempo não nos inseríssemos num movimento que é permanente, que é um movimento de busca, um movimento de procura. O processo em que nos inserimos de permanente busca, eu venho chamando de ‘vocação do ser mais’. Na busca ou no processo de busca da completude dessa ‘vocação do ser mais’ nos perdemos também. Quer dizer, estamos a uma indiscutível possibilidade de distorcer o processo de busca do ‘ser mais’ e a essa distorção eu chamo de ‘desumanização’. A desumanização por isso mesmo não é virtuosa, a desumanização é um acidente trágico a que nós estamos sujeitos no processo de buscar a nossa humanização crescente. O que temos pela frente é exatamente essa caminhada em que ser e deixar de ser se embatem. Haverá sempre a possibilidade das trágicas desistências de ser. (…) A grande tarefa nossa de passar pelo mundo é exatamente a da briga constante, permanente, pela busca do ‘ser mais’. [vi]

Nessa simples fala já fica clara a influência heideggeriana na filosofia de Freire: o homem como o único capaz de fazer a pergunta pelo Ser. Podemos traduzir “desumanização”, ou seja, a “desistência de ser”, de Freire, por “esquecimento do Ser”, de Heidegger. Quando Freire trata da humanização do homem em oposição à desumanização, ele se refere à relação Ser Mais/Ser Menos, e não a Opressor/Oprimido – o Ser Mais não é o opressor e está muito longe de sê-lo. Além disso, Freire trabalha com os conceitos heideggerianos de autenticidade e inautenticidade, citando-os inúmeras vezes ao longo de sua maior obra, “Pedagogia do Oprimido”. A Pedagogia autêntica é crítica e radical, a inautêntica, “bancária”, neutra e inerte.

Além de tratar de autêntico/inautêntico e da consciência do inacabamento do homem, Freire trabalha com outro conceito heideggeriano, o Dasein (ser-aí). Ele diz que o homem é um ser inacabado, jogado no mundo (ser-no-mundo), inserido em uma cultura, sociedade e em um momento histórico e que, portanto, deve ser lido e interpretado a partir de um ponto de vista crítico. Além de ser-no-mundo, o homem é ser-com, ser com os outros. “Não há um sem os outros, mas ambos em permanente integração” (Pedagogia do oprimido, p.20), […] homens, como seres no mundo e com o mundo” (p.17). O homem se encontra com os outros e nos outros, no seu “pequeno círculo de cultura” e “mundo comum”, como diz Freire (p. 6), e, portanto, a libertação do homem, a busca pelo “Ser Mais” depende do ser-com.

Outra relação interessante de Freire com a filosofia heideggeriana se dá quando o mesmo afirma que não há docência sem discência, pois, para Heidegger, o essencial sobre o ensinar é também aprender, especialmente “aprender a pensar” (Freire usa o termo “pensar certo”). Paulo Freire defendia a criticidade e rejeitava o mecanicismo e a metodologia educacional que ele chama de “bancária”. Para ele, ensinar e aprender se correlacionam na medida em que os educandos vão assumindo a posição de sujeitos curiosos e críticos enquanto o educador indaga sobre sua própria prática, o que implica na crítica do próprio ato de ensinar. Assim, o ensinar deixa de ser uma simples “transferência” ou “depósito” de conhecimento, como em uma transação bancária, e passa a ser não apenas crítico, mas também o que instiga a criticidade nos educandos.

Podemos fazer aqui uma breve relação entre “educação bancária” e a concepção nietzschiana de “cultura filisteia” da educação – que é mecânica, homogênea, utilitarista, castradora – pois ambos, Freire e Nietzsche, criticam fortemente esse tipo de sistema educacional. Ouso dizer, ainda, que a maior parte da crítica freiriana à educação tem relevante influência nietzschiana. A “Moral de Rebanho” (de massa), conceito criado por Nietzsche que diz respeito ao homem sem reflexão crítica, ao educando submisso que não reflete sobre o que aprende e não busca o aperfeiçoamento de suas potencialidades (e por vezes é privado delas e da cultura autêntica), se relaciona com o “ser menos” de Paulo Freire que, além de ser privado de tudo isso, não tem consciência, e por não ter consciência, não busca. Já o “Ser Mais”, de Freire, é um forte correspondente ao Übermensch (Super-Homem ou Além-Homem), de Nietzsche, pois o Ser Mais é o Ser liberto, é a afirmação da vida de forma integral e radical.

Influenciado pela ciência da consciência de Hegel, Freire trabalha muito com o tema da consciência-de-si, pois é através dela que se dá o reconhecimento do outro e a consciência de sua inserção e afirmação no mundo como sujeito da história: “[…] a conscientização, que lhe possibilita [ao homem] inserir-se no processo histórico, como sujeito, […] o inscreve na busca de sua afirmação” (p.12). Ou seja, o processo da busca pelo Ser Mais começa com a consciência. Consciência de si, do outro, do inacabamento do homem e do homem manifesto no mundo, com o mundo e com os outros.

Voltando a Heidegger, em sua Carta Sobre o Humanismo, o filósofo da floresta negra afirma que a essência do homem é “ser mais” do que simples homem, e que esse “ser mais” não implica quantitativamente, mas qualitativamente: “O “mais” significa: mais originário e por isso mais radical” (p. 51). Esse é exatamente o Ser Mais de Freire, que afirma a radicalidade do mesmo em toda sua obra. Aliás, o humanismo em Freire é no sentido mais antigo da palavra, que, segundo Heidegger, é “a essência do homem [que] deveria ser apreendida de maneira radical” (p.56).
Há várias outras influências e relações, mas podemos concluir que Freire é verdadeiramente heideggeriano.

Paulo Freire e sua filosofia política
O motor da história, para Paulo Freire, não é a classe ou o conflito de classes, como o é para o marxismo, muito menos o indivíduo do liberalismo, mas o homem enquanto ser-no-mundo e ser-com-os-outros, ou seja, o Dasein de Heidegger – curiosamente, o Dasein é proposto por Aleksandr Dugin como sujeito da Quarta Teoria Política, da qual nós, da Nova Resistência, somos adeptos.

• Do Homem

“Nenhuma teoria da transformação político-social do mundo me comove, sequer, se não parte de uma compreensão do homem e da mulher enquanto seres fazedores da História e por ela feitos, seres da decisão, da ruptura, da opção.” (Pedagogia da Autonomia, p. 48)

Paulo Freire chama sua pedagogia do oprimido de Pedagogia do Homem, do homem enquanto sujeito da pedagogia, da história e único possuidor da vocação para o Ser Mais.

“A pedagogia do oprimido, que busca a restauração da intersubjetividade (isto é, do Ser-com, do reconhecimento do outro), se apresenta como pedagogia do Homem. Somente ela, que se anima de generosidade autêntica, humanista e não “humanitarista”, pode alcançar este objetivo.” (Pedagogia do Oprimido, p. 22)

• Do capitalismo, liberalismo e globalismo

“Sou professor contra a ordem capitalista vigente que inventou esta aberração: a miséria na fartura.” ( Pedagogia da Autonomia, p. 40)

“É uma imoralidade, para mim, que se sobreponha, como se vem fazendo, aos interesses radicalmente humanos, os do mercado.” (p. 39)

“O sistema capitalista alcança no neo-liberalismo globalizante o máximo de eficácia de sua malvadez intrínseca.” (p. 48)

Freire identifica o modus operandi do liberalismo (a ideologia opressora) para dominar e castrar o homem sem que o mesmo tenha consciência disso. Ele afirma que essa ideologia, que é dominante, se comporta como apolítica e neutra, inclusive nas escolas, e nos faz acreditar que a realidade imposta por ela é dada.

A capacidade de nos amaciar que tem a ideologia [dominante] nos faz às vezes mansamente aceitar que a globalização da economia é uma invenção dela mesma ou de um destino que não poderia se evitar, uma quase entidade metafísica e não um momento do desenvolvimento econômico submetido, como toda produção econômica capitalista, a uma certa orientação política ditada pelos interesses dos que detêm o poder. (p. 47)

Por isso, Freire defende a radicalidade contra a neutralidade (que é liberal), porque a neutralidade não é a maneira humana de se estar no mundo:

“[…] o espaço pedagógico […] é aquele em que se treinam os alunos para práticas apolíticas, como se a maneira humana de estar no mundo fosse ou pudesse ser uma maneira neutra.” (p.38)

• Do Marxismo

Freire não apenas não é marxista como também critica o fundamento máximo do marxismo [e do idealismo hegeliano], o materialismo histórico.

Para contextualizar, a filosofia de Marx é a filosofia de Hegel invertida, como o próprio Marx afirma:

Meu método dialético, por seu fundamento, difere do método hegeliano sendo a ele inteiramente oposto. Para Hegel, o processo do pensamento – que ele transforma em sujeito autônomo sob o nome da ideia – é o criador do real, e o real é apenas sua manifestação externa. Para mim, ao contrário, o ideal não é mais do que a matéria transposta para a cabeça do ser e por ele interpretada. (Manuscritos Econômicos Filosóficos, p. 17).

Portanto, aqui, Freire mata dois coelhos – Marx e Hegel – com uma cajadada:

De um lado, a compreensão mecanicista da História, que reduz a consciência a puro reflexo da materialidade, e de outro, o subjetivismo idealista, que hipertrofia o papel da consciência no acontecer histórico. (Pedagogia da Autonomia, p.38)

E completa:

[não somos] seres simplesmente determinados nem tampouco livres de condicionamentos genéticos, culturais, sociais, históricos, de classe, de gênero, que nos marcam e a que nos achamos referidos. (p. 38)


Freire propõe, ainda, a superação do marxismo, como afirma na sua Pedagogia da Autonomia:

Há um século e meio Marx e Engels gritavam em favor da união das classes trabalhadoras do mundo contra sua espoliação. Agora, necessária e urgente se Fazem a união e a rebelião das gentes contra a ameaça que nos atinge, a da negação de nós mesmos como seres humanos submetidos à “fereza” da ética do mercado. (p. 48)
Podemos concluir, portanto, que Paulo Freire não se encaixa na Segunda Teoria Política, mas na Quarta.

Conclusão

Dado o exposto, fica clara a distorção que tanto a direita quanto a esquerda fazem da filosofia de Paulo Freire. Fica óbvio, ainda, que Freire não é marxista e não é responsável pelo atual estado da educação pública brasileira.

Também fica evidente a influência do pensamento de Martin Heidegger na obra de Paulo Freire. Levando em consideração a importância de Heidegger para a formulação da Quarta Teoria Política, resta-se evidente o alinhamento do filósofo brasileiro com o projeto político dissidente da Nova Resistência.

Paulo Freire é um autor interessantíssimo que precisa ser redescoberto à luz do pensamento político dissidente e quarto-teórico.

i https://oglobo.globo.com/sociedade/entenda-quem-foi-paulo-freire-as-criticas-feitas-ele-pelo-governo-bolsonaro-23604772

ii https://www.gazetadopovo.com.br/rodrigo-constantino/historico-veja/pedagogia-do-oprimido-uma-resenha-devastadora-do-mais-famoso-livro-de-paulo-freire/

iii Op. Cit.

iv idem

v idem

vi https://www.youtube.com/watch?v=fBXFV4Jx6Y8

Suriane Leiroz

Graduanda em Pedagogia pela UNIRIO e vice-diretora da NR-RJ.

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