Alexander Dugin: Minha Filha – Aletheia

Nossos amigos — os amigos italianos da Dasha, amigos da Rússia, amigos da minha família — decidiram honrar a memória de Daria Dugina neste 20 de agosto de 2026, o aniversário de sua morte trágica, com um festival intelectual — um festival filosófico, musical, criativo.

Comove-me que a memória da Dasha não esteja se desvanecendo. Seus textos estão sendo publicados, suas ideias continuam a ser discutidas, sua figura não está definhando.

Platão disse que as ideias ou se elevam ou morrem. As ideias da Dasha estão se elevando. Elas estão inspirando outros a grandes feitos. Não acho que estejamos falando das massas, embora na Rússia praticamente todos agora conheçam a Dasha. Ruas foram nomeadas em sua homenagem; monumentos a ela foram erguidos; canções e poemas, ilustrações e festivais, museus e exposições são dedicados a ela.

Não obstante, a Dasha permanece um símbolo incomum. Ela inspira, acima de tudo, aquelas pessoas diferenciadas que, embora habitem no mundo moderno, não pertencem a ele e estão separadas dele em virtude da diferença em sua natureza interior.

A própria Dasha era diferenciada. E ela expressou essa consciência em uma de suas principais ideias: o otimismo escatológico — sendo ativa no mundo, e até parcialmente aberta a ele, com a clara consciência de que o fim deste mundo está mais próximo do que nunca.

Ademais, Dasha é um símbolo filosófico. Não é coincidência que o escultor Dmitry Alexandrov, seu amigo, tenha criado um monumento a ela que a retrata com um livro. O livro não tem título, mas acho que é Platão.

Dasha tinha muitos talentos e facetas, mas a filosofia era primordial para ela. Se uma pessoa consegue encontrar uma entrada para o palácio fechado da filosofia, ela nunca preferirá qualquer outra coisa. A Dasha encontrou tal entrada. E ela se estabeleceu para sempre no palácio fechado da filosofia.

O festival que está sendo realizado em sua homenagem neste agosto foi chamado de “Dasha-Aletheia.” Com esse nome, os organizadores muito provavelmente desejaram enfatizar a dimensão filosófica da figura da Dasha. Desta vez, não se trata de sua religião, de sua visão de mundo política, de sua criatividade musical e poética, ou de seu patriotismo ativo, mas precisamente da filosofia.

Tentarei compartilhar alguns pensamentos nessa direção.

Heidegger interpretou a palavra grega aletheia como “desocultamento” (Unverborgenheit). Se a verdade é desocultamento, então é o ocultamento que vem primeiro. A verdade nunca nos é simplesmente dada. Ela deve ser buscada. A verdade exige esforço, descoberta, revelação, a abertura da revelação. O que é primário sobre Ísis é seu véu. Mas o véu de Ísis não é uma máscara, como se estivéssemos meramente lidando com um sujeito vestido de outro. Ninguém sabe o que está verdadeiramente oculto atrás do véu.

O mundo ortodoxo conhece a Mãe de Deus de Kikkos, um ícone que se encontra em um mosteiro no Monte Kikkos em Chipre. Este ícone é único pelo fato de que seu rosto está permanentemente oculto dos olhos humanos por um sudário e moldura especiais. Segundo a tradição, contemplar o ícone pode ser perigoso. Há o relato bem conhecido do Patriarca Gerasimo de Alexandria, que em 1699 ousou levantar ligeiramente o sudário e ficou imediatamente cego. Ele foi curado somente após sincero arrependimento. Segundo outro relato, acredita-se que o ícone possui uma graça tão poderosa que é simplesmente perigoso para uma pessoa vê-lo em sua totalidade.

Da mesma forma, a verdade, aletheia, é aquilo que é perigoso ver por completo. Ninguém sabe o que há atrás do véu…

Quando uma pessoa morre, ela vai além do véu. Não se deve perturbar os falecidos de maneira muito insistente. Deve-se aprender a honrar reverentemente o véu. Portanto, o “desocultamento” da verdade deve ser compreendido não como ousar olhar atrás do véu, mas como circundar reverentemente em torno dele. É uma dança hermenêutica.

Se formos falar da aletheia da Dasha, sobre a verdade da Dasha, então aproximar-se dela exige que mantenhamos alguma distância.

Acredita-se que os textos mais comoventes da história tenham sido escritos sobre o amor. Isso provavelmente é verdade. No entanto, pensadores e poetas alcançaram o pináculo de sua capacidade de descrever a dor emocional quando perderam suas filhas. Com respeito à profundidade absoluta da tragédia, nada se compara à Consolatio de Cícero. Ela foi inspirada no tratado Sobre a Dor (Περὶ πένθους) do platonista grego Crantor. Crantor escreveu esse texto como uma condolência para seu amigo Hipócles. Lactâncio disse muito apropriadamente de Cícero — e eu poderia facilmente aplicar essas palavras a mim mesmo:

M. Tullius in sua Consolatione pugnasse se semper contra fortunam loquitur eamque a se esse superatam cum fortiter inimicorum impetus retudisset: ne tum quidem se ab ea fractum cum domo pulsus patria caruerit; tum autem, cum amiserit carissimam filiam, victum se a fortuna turpiter confitetur: “Cedo” – inquit – “en manum tollo.”

[Marco Túlio Cícero] em sua Consolatio fala de como ele sempre lutou contra o destino e prevaleceu, como quando corajosamente repeliu os ataques de seus inimigos; que mesmo quando exilado de sua casa e privado de sua pátria, o destino não o quebrou. Mas quando perdeu sua filha mais amada, ele vergonhosamente admitiu a derrota para o destino: “Eu desisto,” diz ele, “eu levanto as mãos”.

John Donne também dedicou uma das maiores obras da poesia inglesa e mundial à morte da filha de seu amigo Robert Drury, Elizabeth. Ele a chamou de “Uma Anatomia do Mundo” e escreveu sobre a “decadência do mundo.” Após a morte de uma filha amada, o mundo se desfaz nas costuras. Ele não é mais inteiro; está fragmentado e disperso em todas as direções. Para um homem, nada pode substituir a aletheia de sua filha. O mundo não existe mais. Nós não existimos mais. Nós não somos mais o que éramos.

Sua morte nos ensinou, dolorosamente, que tu [o mundo és]
corrupto e mortal em tua parte mais pura.

A morte de uma filha está no cerne de todo o gênero da Consolatio. Em russo, a palavra é uteshenie. Na língua russa, o Espírito Santo, a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, é chamado de Uteshitel’, o “Consolador”. Somente o Consolador é capaz de ajudar um homem a suportar a perda mais terrível.

Os cátaros tinham um ritual chamado Consolamentum: beijar a testa de Sophia, a Sabedoria, que é a Consolatrix, a Consoladora. É nela que Nerval pensa em seus versos trágicos:

mon front est rouge encore du baiser de la reine.
min fronte ainda está vermelha do beijo da rainha.

Para Dante, a Consoladora era Beatriz.

A notável e sensível Princesa Vittoria Alliata, que era amiga de Daria, disse que Daria pertence ao arquétipo de Beatriz, à Tradição da Donzela.

Quando aquilo que é de maior importância e que amamos foi ocultado ou desapareceu, o consolo deve ser buscado no próprio ocultamento. Este é o mistério do véu. A Tradição é bela quando existe, mas é mil vezes mais bela quando não existe — e, ainda assim, contra todas as probabilidades, permanecemos fiéis a ela. Todos se esqueceram; nós nos lembramos. Todos se conformaram com a partida de Sophia, mas, para nós, isso provoca um sofrimento inimaginável. Não precisamos de um mundo sem a sua luz. Somente uma dor selvagem pode nos consolar. Este é o otimismo escatológico.

Aleksandr Dugin
Aleksandr Dugin

Filósofo e cientista político, ex-docente da Universidade Estatal de Moscou, formulador das chamadas Quarta Teoria Política e Teoria do Mundo Multipolar, é um dos principais nomes da escola moderna de geopolítica russa, bem como um dos mais importantes pensadores de nosso tempo.

Artigos: 58

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