O retorno do limite
O confronto entre Estados Unidos e Irã não representa apenas uma crise regional de alta intensidade, mas pode ser interpretado como um possível ponto de descontinuidade na capacidade americana de exercer hegemonia global. A questão central não diz respeito à distribuição do poder material — que permanece amplamente favorável a Washington — mas sim à sua tradutibilidade em resultados estratégicos coerentes com os objetivos declarados.
É justamente essa lacuna, entre superioridade militar e incapacidade de produzir desfechos resolutivos, que constitui um dos indicadores mais significativos das fases de transição no sistema internacional. As grandes potências raramente deixam de sê-lo em decorrência de uma derrota direta; mais frequentemente, o declínio se manifesta como perda progressiva da capacidade de transformar a força disponível em ordem política.
Nessa perspectiva, o paralelo com a Crise de Suez assume um valor analítico preciso. Em 1956, Reino Unido e França não foram derrotados no plano militar, mas foram forçados a interromper a operação sob pressão política internacional. O limite não foi imposto por uma superioridade inimiga no campo de batalha, mas por uma restrição sistêmica que tornou impraticável a continuação da ação.
Uma dinâmica análoga parece emergir no confronto com Teerã. O Irã não busca uma vitória convencional, mas uma estratégia de negação: impedir que os Estados Unidos obtenham um sucesso decisivo. Como evidenciado por análises estratégicas recentes, o conflito assume cada vez mais a forma de uma guerra de desgaste, em que Teerã visa superar a vontade política americana, em vez de sua capacidade militar[1].
Dentro desse quadro, o Estreito de Ormuz não representa simplesmente um ponto de estrangulamento energético, mas um dispositivo estratégico capaz de transformar uma crise regional em pressão sistêmica global. Seu fechamento ou interdição parcial afeta diretamente uma parcela significativa do comércio energético mundial, amplificando os efeitos econômicos do conflito muito além do teatro operacional[2].
Todo tentativa de controle esbarra, no entanto, em limites estruturais: vulnerabilidade a ameaças assimétricas, dificuldades operacionais e altos custos de limpeza e segurança. Segundo avaliações do Pentágono, a remoção de minas navais no estreito poderia levar meses, tornando impossível um rápido restabelecimento da plena navegabilidade[3].
Daí decorre uma dinâmica cumulativa de erosão estratégica. Não se trata de um único erro ou de uma decisão falha, mas de uma sequência de ações não resolutivas que reduzem progressivamente a margem de manobra americana: operações que não produzem efeitos decisivos, agravamentos do conflito que aumentam os custos sem modificar o equilíbrio, pressão militar que não se traduz em alavanca negocial.
Nesse contexto, a força do Irã reside menos na capacidade de destruição do que na capacidade de resistência no tempo e na possibilidade de transferir os custos do conflito para o adversário. O próprio conflito tende a se configurar como um impasse prolongado, com características cada vez mais semelhantes a uma competição de longo prazo, em vez de uma guerra decisiva.
O ponto de fratura emerge, por fim, no plano interno estadunidense. O reemergir de tensões entre Executivo e Congresso, somado ao aumento dos custos econômicos e políticos do conflito, sinaliza um problema crescente de sustentabilidade estratégica. O debate interno sobre a legitimidade e os custos da guerra tende a se intensificar justamente nas fases em que os resultados operacionais são limitados[4].
O “momento Suez” americano, se vier a se manifestar, não coincidiria com uma derrota militar em sentido estrito, mas com a impossibilidade de sustentar operações coerentes com o status hegemônico. Nesse cenário, os Estados Unidos não cessariam de ser uma grande potência, mas veriam reduzida sua capacidade de determinar os desfechos dos conflitos em contextos-chave.
Suez 1956: o precedente
A crise de 1956 representa um dos momentos mais claros em que uma grande potência descobre, de forma súbita mas irreversível, a existência de um limite à sua capacidade de ação. Não se tratou de uma derrota militar em sentido estrito, mas de algo mais significativo: a impossibilidade de traduzir uma operação militarmente sustentável em um resultado politicamente viável.
A intervenção anglo-francesa contra o Egito, em resposta à nacionalização do Canal de Suez por Gamal Abdel Nasser, foi concebida como uma operação rápida e resolutiva. Do ponto de vista estritamente militar, as forças envolvidas dispunham de uma superioridade líquida e não encontraram resistência capaz de comprometer o sucesso operacional. No entanto, o contexto internacional tornou impossível consolidar tal sucesso.
O fator decisivo não foi a capacidade egípcia de repelir o ataque, mas a pressão política exercida pelos Estados Unidos e pela União Soviética. Washington, em particular, interpretou a operação como um elemento desestabilizador no quadro da competição global e impôs a Londres e Paris um custo político e econômico insustentável, chegando a usar instrumentos financeiros para forçar o Reino Unido a se retirar.
Essa passagem é crucial: o limite não foi imposto pelo campo de batalha, mas pelo sistema internacional. A superioridade militar não desapareceu; desapareceu a possibilidade de exercê-la de forma coerente com os objetivos políticos. Em outras palavras, a força permaneceu, mas deixou de ser utilizável como instrumento eficaz de domínio.
A crise de Suez marcou assim o fim da pretensão britânica e francesa de agir como potências hegemônicas autônomas. Não porque se tornaram subitamente fracas, mas porque o contexto sistêmico não mais lhes permitia transformar a força em ordem política.[5] A partir de então, sua ação internacional se deu necessariamente dentro de um quadro mais amplo, dominado por outras potências.
O que torna o paralelo com a situação atual particularmente relevante não é a identidade dos contextos, mas a similaridade da dinâmica. Também no confronto entre Estados Unidos e Irã, o problema central não é a capacidade militar americana em sentido absoluto, mas sim a possibilidade de utilizá-la sem incorrer em custos políticos, econômicos e estratégicos superiores aos benefícios obtidos.
Como em 1956, o limite tende a se manifestar não como derrota, mas como restrição. É o sistema — entendido como o conjunto de atores, interdependências e riscos de progressiva intensificação do conflito — que define o que é efetivamente possível fazer. Quando essa restrição se torna severa, até mesmo uma potência superior se vê forçada a interromper ou redimensionar sua ação.
No caso atual, essa restrição assume formas diferentes, mas funcionalmente análogas: risco de envolvimento de potências como a China, impacto sistêmico nos mercados energéticos, vulnerabilidade das linhas de comunicação marítimas e crescente pressão interna sobre o processo decisório americano.
A lição de Suez, portanto, não diz respeito simplesmente ao declínio de duas potências europeias, mas a um princípio mais geral: a hegemonia não se mede apenas na capacidade de vencer uma guerra, mas na possibilidade de escolher quando e como travá-la. Quando essa possibilidade desaparece, o limite já foi alcançado.
É nesse sentido que a crise de 1956 pode ser lida como um precedente útil para interpretar a fase atual. Não como modelo a ser mecanicamente sobreposto, mas como chave para compreender uma dinâmica recorrente: o momento em que o poder disponível deixa de ser poder efetivo.
A nova natureza da guerra
A guerra contemporânea apresenta características que tornam cada vez menos relevante a superioridade militar no sentido tradicional. Não se trata de uma redução do poder disponível, mas de uma transformação das condições em que ele pode ser empregado eficazmente. Nessa mudança, a capacidade de destruição permanece elevada, mas sua tradutibilidade em resultados estratégicos mostra-se cada vez mais incerta.
No modelo clássico, a guerra era concebida como um instrumento por meio do qual se obtinham decisões políticas através da destruição da capacidade militar do adversário. Esse esquema pressupunha uma relação relativamente direta entre vitória no campo e resultado político. Hoje, essa relação aparece progressivamente enfraquecida.[6]
Um dos principais fatores dessa transformação é o aumento da complexidade dos sistemas militares. As plataformas avançadas exigem longos tempos de produção, custos elevados e cadeias logísticas articuladas, tornando difícil sustentar operações prolongadas de alta intensidade sem incorrer em problemas de reposição e desgaste.[7] Nesse contexto, a guerra tende a se transformar em um processo de consumo progressivo dos recursos disponíveis, em vez de uma sequência de decisões rápidas e resolutivas.
A isso se soma a crescente importância da dimensão assimétrica. Atores com capacidades inferiores no plano convencional podem compensar essa desvantagem por meio de estratégias que visam evitar o confronto direto, atacar seletivamente e prolongar o conflito. O objetivo não é vencer no sentido clássico, mas impedir que o adversário obtenha uma vitória.[8]
Essa transformação afeta diretamente a capacidade das grandes potências de exercer seu predomínio. A superioridade militar não desaparece, mas perde parte de sua eficácia como instrumento decisivo. Em particular, ela se torna cada vez mais difícil de ser utilizada em contextos nos quais o adversário é capaz de diluir o confronto, distribuir os custos no tempo e explorar as restrições políticas e operacionais da contraparte.
Um elemento adicional diz respeito à interdependência econômica global. As operações militares, especialmente em áreas estratégicas como o Oriente Próximo, produzem efeitos imediatos nos mercados energéticos, nas cadeias de abastecimento e na estabilidade financeira. Isso introduz um nível de restrição que limita a liberdade de ação mesmo das potências mais fortes, forçando-as a considerar não apenas os efeitos militares de suas decisões, mas também suas consequências sistêmicas.
Nesse contexto, a distinção entre guerra e competição estratégica tende a se esfumar. O conflito não se esgota no confronto militar direto, mas se estende a uma pluralidade de dimensões — econômica, tecnológica, informativa — que contribuem para determinar seu desfecho global. A guerra torna-se, assim, menos decisiva e mais prolongada, menos concentrada e mais difusa.
Para as grandes potências, isso implica uma transformação profunda no modo como a força pode ser empregada. Não se trata mais apenas de vencer uma batalha ou uma campanha, mas de sustentar no tempo um confronto complexo, no qual os custos tendem a se distribuir e se acumular sem produzir necessariamente um desfecho claro.
É nesse quadro que a superioridade militar americana encontra seus limites. Não porque desapareça, mas porque se insere em um ambiente estratégico no qual a vitória, no sentido tradicional, torna-se cada vez mais difícil de alcançar.
O Irã e a estratégia do desgaste
No confronto com os Estados Unidos, o Irã não busca uma vitória no sentido convencional, nem dispõe dos instrumentos para obtê-la. Sua estratégia baseia-se, antes, em um princípio diferente: impedir que o adversário alcance um resultado decisivo. Nesse sentido, o conflito se configura como uma competição de duração, em que o tempo se torna uma variável estratégica central.
Essa abordagem não é nova na história militar, mas assume hoje uma forma particularmente eficaz em contextos caracterizados por elevada interdependência econômica e por restrições políticas internas às grandes potências. O objetivo não é destruir a capacidade militar americana, mas tornar seu emprego cada vez mais difícil de forma sustentável e politicamente aceitável.
A estratégia iraniana se articula em vários níveis. No plano militar, ela privilegia instrumentos assimétricos — mísseis, drones, minas navais — que permitem infligir custos significativos sem se expor a um confronto direto. No plano operacional, evita a concentração das forças e favorece a dispersão, tornando mais complexo para o adversário identificar alvos decisivos.[9]
Um elemento central dessa abordagem é a capacidade de transformar a vulnerabilidade em alavanca estratégica. O Irã não pode competir frontalmente com os Estados Unidos, mas pode explorar seu contexto geográfico e político para amplificar os custos do conflito. Em particular, a proximidade do Estreito de Ormuz e a possibilidade de afetar as rotas energéticas globais permitem a Teerã estender os efeitos do confronto muito além do plano militar.
Nesse quadro, a guerra tende a perder seu caráter decisional e a assumir uma dimensão progressiva. Cada ação militar americana produz efeitos que se refletem não apenas no campo, mas também nos mercados energéticos, nas relações internacionais e na estabilidade interna. O Irã, embora sofra danos, é capaz de redistribuir esses custos, transformando o confronto em um processo de desgaste recíproco.
A lógica subjacente é a do atrito. Não se trata de obter uma vitória rápida, mas de prolongar o conflito até que os custos para o adversário se tornem superiores aos benefícios esperados. Nesse sentido, a estratégia iraniana visa diretamente a vontade política americana, mais do que sua capacidade militar.
Um elemento adicional diz respeito ao uso de atores indiretos e de uma rede de alianças regionais. Sem necessariamente entrar em um confronto direto em larga escala, Teerã pode multiplicar os pontos de pressão, estendendo o teatro do conflito e tornando mais difícil para os Estados Unidos obter um controle geral da situação.[10]
O resultado é uma configuração estratégica em que a superioridade militar americana é progressivamente esvaziada de sua eficácia. Não porque seja neutralizada, mas porque é constantemente contornada. Cada tentativa de impor uma solução rápida esbarra na capacidade iraniana de prolongar o confronto, deslocar seus custos e se adaptar às condições mutantes.
Nesse contexto, a vitória perde seu significado tradicional. O sucesso não consiste em prevalecer no campo, mas em não ceder no tempo. É essa transformação do próprio conceito de vitória que torna a estratégia do desgaste particularmente difícil de ser combatida por uma grande potência habituada a operar segundo lógicas decisionais.
Ormuz: o limite do poder
O Estreito de Ormuz constitui um dos pontos de estrangulamento mais relevantes do sistema energético global. Uma parcela significativa do tráfego mundial de petróleo transita por essa passagem estreita, tornando-a um nó estratégico onde uma crise regional pode produzir efeitos imediatos em escala global.
Nesse contexto, o controle do estreito representa, ao menos aparentemente, um objetivo prioritário para uma potência como os Estados Unidos. No entanto, é justamente aqui que emerge com maior evidência o limite da superioridade militar. O problema não é a capacidade de intervir, mas a possibilidade de exercer um controle pleno e sustentável no tempo.
Um bloqueio total do estreito mostra-se dificilmente praticável sem produzir consequências sistêmicas. A distinção entre tráfego civil e alvos hostis é intrinsecamente complexa, e toda tentativa de interdição corre o risco de atingir interesses de terceiros, incluindo parceiros econômicos e potências externas. Nesse sentido, o controle do espaço marítimo se entrelaça inevitavelmente com dinâmicas políticas e econômicas que limitam sua eficácia.
No plano operacional, a vulnerabilidade do estreito a instrumentos assimétricos representa um fator adicional de restrição. Minas navais, mísseis antinavio e sistemas não tripulados permitem dificultar até mesmo uma força naval tecnologicamente superior. A limpeza de uma área contaminada por minas exige longos prazos e recursos significativos, tornando impossível um restabelecimento imediato da plena liberdade de navegação.
Essa condição gera um paradoxo estratégico. Os Estados Unidos podem garantir a segurança do estreito apenas a custos elevados e com resultados necessariamente parciais. Não existe uma solução definitiva que permita eliminar a ameaça sem, ao mesmo tempo, amplificar o risco de uma ampliação do conflito.
O problema se estende também ao nível sistêmico. Qualquer interrupção prolongada do tráfego no estreito produz efeitos diretos nos mercados energéticos globais, com consequências sobre a inflação, o crescimento econômico e a estabilidade financeira. Dessa forma, o teatro operacional local se transforma em um multiplicador de pressão global, limitando ainda mais a liberdade de ação da potência interventora.
Nesse contexto, o Irã não precisa exercer um controle estável do estreito para obter uma vantagem estratégica. Basta manter a capacidade crível de interromper ou limitar seu funcionamento. A própria ameaça torna-se um instrumento de pressão, capaz de influenciar as decisões do adversário mesmo na ausência de uma ação direta contínua.
Daí decorre uma configuração em que a superioridade militar americana se confronta com uma restrição estrutural. Não se trata de uma fraqueza contingente, mas de uma característica intrínseca do teatro operacional. Quanto mais os Estados Unidos buscam impor um controle total, mais se expõem a custos crescentes e a riscos sistêmicos que limitam sua eficácia.
O Estreito de Ormuz torna-se assim o ponto em que o poder encontra o limite. Não porque desapareça a capacidade de intervir, mas porque se reduz drasticamente a possibilidade de transformar a intervenção em um resultado estável e politicamente sustentável.
A erosão estratégica americana
A crise entre Estados Unidos e Irã não produz um ponto de ruptura imediato, mas inicia uma dinâmica progressiva de erosão estratégica. O problema não reside em uma única decisão errada ou em um fracasso operacional circunscrito, mas sim em uma sequência de ações que, embora racionais no curto prazo, não conduzem a um desfecho resolutivo.
Essa dinâmica se manifesta por meio de um acúmulo de efeitos parciais. As operações militares produzem resultados limitados e temporários; os agravamentos do conflito aumentam os custos sem modificar o equilíbrio geral; a pressão exercida sobre o adversário não se traduz em uma alavanca negocial suficiente para impor condições favoráveis.
Nesse contexto, a superioridade militar americana continua a garantir a capacidade de intervir, mas não a de concluir. A distinção entre capacidade de ação e capacidade de decisão torna-se cada vez mais evidente. Os Estados Unidos podem atacar, conter, reagir; mas encontram crescentes dificuldades em transformar essas ações em resultados estratégicos estáveis.
Um elemento central dessa erosão é a relação entre custos e benefícios. Cada operação exige recursos significativos — militares, econômicos e políticos — enquanto os resultados obtidos tendem a ser limitados e reversíveis. Com o tempo, esse desequilíbrio produz uma redução da margem de manobra, tornando cada vez mais difícil sustentar o confronto nas mesmas condições iniciais.
A isso se soma o problema da duração. Em um conflito prolongado, a capacidade de sustentar o esforço torna-se mais relevante do que a capacidade de infligir danos. O Irã, por meio de uma estratégia de desgaste, visa justamente a isso: transformar a superioridade americana em um custo crescente, diluindo no tempo os efeitos das operações e tornando mais difícil a manutenção do consenso político interno.
A dimensão econômica reforça ainda mais essa dinâmica. As tensões no Estreito de Ormuz e no Oriente Próximo produzem efeitos nos preços da energia e na estabilidade dos mercados globais, transferindo parte dos custos do conflito também para os aliados e parceiros dos Estados Unidos. Dessa forma, a pressão exercida sobre Teerã tende a se refletir indiretamente sobre o próprio sistema que Washington pretende preservar.
Um fator adicional diz respeito à dispersão da atenção estratégica. O engajamento em um teatro complexo e de alta intensidade limita a capacidade americana de operar simultaneamente em outros contextos, introduzindo um elemento de vulnerabilidade em relação a outras grandes potências. Mesmo na ausência de um confronto direto, esse efeito contribui para reduzir a margem geral de ação.
O resultado é uma configuração em que o poder não desaparece, mas perde progressivamente eficácia. Não ocorre uma derrota evidente, mas uma redução gradual da capacidade de determinar os desfechos do confronto. É justamente essa forma de erosão — lenta, cumulativa e dificilmente reversível — que representa o traço distintivo da fase atual.
Nesse quadro, o principal risco para os Estados Unidos não é ser derrotado em campo, mas ver-se preso em um conflito que não pode vencer no sentido tradicional e do qual se torna cada vez mais difícil sair sem custos políticos e estratégicos elevados.
A restrição interna
A dimensão interna representa o ponto em que a dinâmica de erosão estratégica se torna politicamente vinculante. Se nos capítulos anteriores o limite emergia como produto do sistema internacional, aqui ele se traduz em uma restrição concreta da capacidade decisória.
No caso dos Estados Unidos, a relação entre Executivo e Congresso constitui um elemento central dessa restrição. Em um contexto de conflito prolongado e desprovido de resultados decisivos, o Poder Legislativo tende a reativar seu papel de controle, impondo condições cada vez mais rigorosas sobre o uso da força, os financiamentos e os objetivos estratégicos.[11]
Esse processo não é automático, mas se intensifica com o tempo. Nas fases iniciais de uma crise, o Executivo pode se beneficiar de uma margem de ação relativamente ampla, justificada pela urgência e pela necessidade de resposta. No entanto, com o prolongamento do confronto e a ausência de resultados claros, essa margem tende a se reduzir.
A questão central torna-se então a da sustentabilidade. Uma guerra que não produz desfechos visíveis exige justificativas crescentes, enquanto os custos — econômicos, militares e políticos — continuam a se acumular. Nesse contexto, o consenso interno torna-se um recurso limitado, sujeito à erosão no tempo.
Um elemento relevante é representado pela percepção pública do conflito. Na ausência de um objetivo claramente definido e alcançável, a guerra tende a ser percebida como indefinida e desprovida de uma conclusão plausível. Essa percepção afeta diretamente o comportamento dos atores políticos, aumentando a pressão sobre o Executivo para que reduza ou redefina seu engajamento.[12]
A isso se soma o papel das restrições institucionais. O Congresso não se limita a expressar uma orientação política, mas dispõe de instrumentos concretos para influenciar a conduta do conflito, particularmente através do controle dos financiamentos. Mesmo na presença de uma vontade política do Executivo de prosseguir as operações, a disponibilidade de recursos pode se tornar um fator determinante.
Nesse sentido, a restrição interna não representa um elemento separado da dimensão estratégica, mas constitui uma componente essencial dela. A capacidade de sustentar uma guerra depende não apenas dos recursos materiais, mas também da solidez do sistema político que a torna possível.
O resultado é uma convergência entre limite externo e restrição interna. As dificuldades operacionais, os custos econômicos e as tensões sistêmicas refletem-se no plano político, reduzindo progressivamente a liberdade de ação dos Estados Unidos. Quando essa dinâmica atinge um certo nível de intensidade, a continuação do conflito nas condições iniciais torna-se impraticável.
É nessa passagem que o confronto com o Irã assume uma dimensão qualitativamente diferente. Não se trata mais apenas de gerir uma crise externa, mas de enfrentar as consequências internas de um conflito que não oferece soluções rápidas. O problema não é mais se intervir, mas até que ponto é possível continuar fazendo isso.
O “momento Suez”
O “momento Suez” não coincide com uma derrota militar em sentido estrito, mas com uma transformação mais profunda: a passagem de uma potência capaz de impor o desfecho dos conflitos a uma potência obrigada a negociá-lo. É essa lacuna — entre capacidade de ação e capacidade de decisão — que marca o verdadeiro ponto de ruptura.
Em 1956, Reino Unido e França descobriram que sua superioridade militar não era mais suficiente para garantir o sucesso político. Não foram derrotados em campo, mas forçados a parar. O limite manifestou-se como restrição sistêmica, imposta pela interação entre atores internacionais, condições econômicas e riscos de ampliação do conflito.
No confronto entre Estados Unidos e Irã, uma dinâmica análoga pode emergir em formas diferentes, mas funcionalmente equivalentes. Não se trata de estabelecer uma identidade entre os dois contextos, mas de reconhecer uma estrutura recorrente: a perda progressiva da capacidade de traduzir o poder em resultados estratégicos.
Essa passagem não ocorre por meio de um único evento, mas através de uma sequência de decisões que reduzem gradualmente a margem de ação. As operações militares produzem efeitos limitados, os agravamentos do conflito aumentam os custos sem modificar o equilíbrio, a restrição interna restringe as opções disponíveis. Em certo ponto, a continuação da ação nas condições iniciais torna-se impraticável.
É nesse momento que o poder encontra seu limite. Não porque desapareça a capacidade de intervir, mas porque se reduz drasticamente a possibilidade de obter um resultado coerente com os objetivos declarados. A superioridade militar permanece, mas perde sua função decisiva.
Um elemento central dessa passagem é a percepção. A hegemonia não se funda apenas na força, mas na convicção difusa de sua eficácia. Quando essa convicção desaparece, mesmo em contextos específicos, abre-se espaço para comportamentos mais autônomos por parte de outros atores.[13]
No caso dos Estados Unidos, o “momento Suez” não marcaria o fim de seu poder, mas uma transformação de sua natureza. Washington continuaria sendo um ator central do sistema internacional, mas veria reduzida sua capacidade de determinar unilateralmente os desfechos dos conflitos em áreas estratégicas.
As implicações dessa passagem são relevantes. A perda da capacidade de impor resultados não implica necessariamente um reequilíbrio imediato do sistema, mas introduz um elemento de maior incerteza. Os outros atores não precisam substituir a potência hegemônica; basta que ela não seja mais capaz de exercer seu papel de forma eficaz.
Nesse sentido, o “momento Suez” representa uma porta, mais do que um evento. Não um ponto preciso no tempo, mas uma condição que se manifesta quando a distância entre o poder disponível e os resultados obtidos se torna estrutural. A partir desse momento, a gestão dos conflitos não pode mais ocorrer segundo as modalidades anteriores.
O confronto com o Irã, pelas características que assume, pode constituir um dos contextos em que tal porta se torna visível. Não porque ele sozinho determine uma transformação global, mas porque torna evidente uma dinâmica já em curso.
O início do fim
O confronto entre Estados Unidos e Irã, pelas modalidades através das quais se desenvolve, evidencia uma transformação mais ampla na natureza da hegemonia contemporânea. Não se trata de uma perda súbita de poder, mas de uma progressiva redução da capacidade de utilizá-lo de forma eficaz e coerente com os objetivos estratégicos.
Ao longo do ensaio, emergiu uma dinâmica recorrente: a dificuldade de traduzir a superioridade militar em resultados decisivos. A transformação da guerra, a estratégia de desgaste adotada pelo Irã, as restrições operacionais ligadas ao Estreito de Ormuz, a erosão cumulativa da margem de manobra e o peso crescente da restrição interna concorrem para definir um contexto em que a decisão estratégica se torna cada vez mais difícil.
Nesse quadro, a força não desaparece, mas muda de função. De instrumento capaz de determinar desfechos claros e relativamente rápidos, ela se transforma em um recurso cujo emprego acarreta custos elevados e resultados incertos. A guerra não produz mais necessariamente decisões, mas tende a se prolongar no tempo, distribuindo seus efeitos em vários níveis.
O ponto central não diz respeito, portanto, à capacidade dos Estados Unidos de prevalecer em um confronto direto, mas à possibilidade de sustentar no tempo um confronto complexo sem ver erosionada sua posição geral. Quando a relação entre custos e benefícios torna-se sistematicamente desfavorável, até mesmo uma potência superior se vê forçada a reconsiderar seus objetivos.
Esse processo não implica um colapso imediato nem uma perda total de influência. Os Estados Unidos continuam sendo uma potência central, dotada de recursos militares, econômicos e tecnológicos sem equivalentes diretos no sistema internacional. No entanto, sua capacidade de impor unilateralmente os desfechos dos conflitos parece cada vez mais limitada em contextos caracterizados por elevada complexidade e interdependência.
Nesse sentido, a crise analisada não representa um evento isolado, mas um indicador de uma transformação mais ampla. A hegemonia não desaparece no momento em que o poder se reduz, mas quando se torna mais difícil convertê-lo em ordem política.
Apenas a posteriori é possível reconhecer com clareza o significado de determinadas passagens históricas. A crise de Suez de 1956, para Reino Unido e França, não marcou o fim imediato de seus respectivos impérios coloniais, já submetidos a pressões econômicas e políticas relevantes; representou, antes, o momento em que se tornou evidente a impossibilidade de exercer seu papel segundo as modalidades anteriores. Desse ponto em diante, o declínio foi menos uma escolha do que uma trajetória.
Um confronto direto com a situação atual exige cautela, mas o paralelo sugere uma reflexão. Também no caso dos Estados Unidos, o problema não é o desaparecimento do poder, mas sua progressiva perda de eficácia como instrumento hegemônico. Se essa dinâmica se consolidar, o “momento Suez” não marcaria o fim da centralidade americana, mas o início de uma fase em que ela não poderia mais ser exercida nas formas que caracterizaram o período anterior.
Notas
[1] Byman, D., Iran’s Strait of Hormuz Gambit and the Limits of U.S. Military Power, CSIS, Washington, 2026.
[2] Loft, P., US-Iran ceasefire and nuclear talks in 2026. UK Parliament Research Briefing., London, 2026.
[3] Nakashima, E., Clearing Strait of Hormuz of mines could take months, Pentagon says, “The Washington Post”, 2026.
[4] Hegseth will be grilled by Congress for the first time since the Iran war began, Associated Press, 2026.
[5] Kyle, K., Suez: Britain’s End of Empire in the Middle East. London, I.B. Tauris, 2011.
[6] Freedman, L, Strategy: A History. Oxford, Oxford University Press, 2013.
[7] Cancian, M., Industrial Constraints in High-Intensity Warfare. Washington, Center for Strategic and International Studies (CSIS), 2023.
[8] Pape, R. A., Dying to Win: The Strategic Logic of Suicide Terrorism. New York, Random House, 2005.
[9] Cordesman, A. H., Iran and the Changing Military Balance in the Gulf. Washington, Center for Strategic and International Studies (CSIS), 2020.
[10] International Institute for Strategic Studies, The Military Balance, London, IISS, 2023.
[11] Howell, W. G., Pevehouse, J. C., While Dangers Gather: Congressional Checks on Presidential War Powers. Princeton, Princeton University Press, 2007.
[12] Gelpi, C., Feaver, P. D., Reifler, J., Paying the Human Costs of War: American Public Opinion and Casualties in Military Conflicts. Princeton, Princeton University Press, 2009.
[13] Ikenberry, G. J., Liberal Leviathan: The Origins, Crisis, and Transformation of the American World Order. Princeton, Princeton University Press, 2011.








