Por que Trump fez o que nenhum outro presidente dos EUA teve coragem de fazer? Atacar o Irã, desde que o mundo é mundo, sempre significou brincar com o preço da energia. O fechamento do Estreito de Ormuz, a guerra regional, a entrada no conflito do Eixo da Resistência sempre foram cenários que impediram os EUA de atacar o Irã. Por que, então, Trump arriscou tanto?
Vou tentar dar algumas respostas.
1) Trump está à mercê de Israel. Diferentemente de Clinton, GW Bush, Obama etc., Trump está completamente nas mãos de Netanyahu e das lobistas israelenses. Como os israelenses, com razão ou não, acreditam que o Irã está numa posição de fragilidade, este seria o momento ideal para afundar o Irã. No entanto, a capacidade de mísseis iraniana mais uma vez provou o contrário. Além disso, se o Irã está fraco, como ele controla o Estreito? O mesmo vale para o Eixo da Resistência, que muitos já davam como liquidado, sem falar na resiliência do governo e da sociedade, apesar de anos de sanções e da eliminação física dos líderes políticos e militares da República Islâmica. Nesse contexto, admitindo-se a validade das avaliações israelenses, Trump pode entrar para a história como aquele que, depois de cerca de cinquenta anos, conseguiu eliminar um Estado pária, na verdade o príncipe de todos os Estados párias do Oriente Médio, vingando finalmente Carter.
2) No contexto do grande jogo entre EUA e China, eliminar o Irã significa eliminar o maior fornecedor de energia para Pequim no Golfo Pérsico que está fora do controle ocidental. Todos os outros fornecedores de energia da região (Arábia, Emirados, Iraque etc.) estão sob domínio formal ou substancial americano. Sem o Irã, Pequim dependeria do petróleo “americano” do Oriente Médio. Um golpe e tanto para Washington…
A combinação dos dois pontos acima levou Trump, tanto por egocentrismo megalomaníaco, quanto por dívida para com as lobistas israelenses — que certamente não apoiam o presidente dos EUA por caridade gratuita —, quanto pelo futuro da nova guerra fria Washington-Pequim, a desencadear esse conflito. Ele provavelmente ainda durará muito tempo, com fases alternadas de guerra propriamente dita, bloqueios navais, crises econômicas globais, cessar-fogo, negociações, sanções, sabotagens recíprocas e tudo o mais que se possa imaginar. Se é verdade que, por enquanto, a tentativa de subversão política fracassou, também é verdade que Trump (ou quem quer que venha depois dele) dificilmente soltará o cerco sobre o Irã. Do meu ponto de vista, a partir de 2025 (guerra dos 12 dias), começou um período de guerra aberta (em surtos) entre o bloco ocidental liderado pelos EUA e Israel (sem esquecer o papel fundamental das potências regionais árabes) contra a República Islâmica do Irã. Agora estamos apenas no começo. Ao final desse período mais ou menos longo (nos moldes dos conflitos na Síria (2011-2024) e no Iraque (1991-2003)), ou a América encontrará um acordo com a República Islâmica reconhecendo um papel regional para Teerã (nos moldes das atuais relações EUA-Vietnã, embora no caso iraniano seja preciso considerar a incógnita Tel Aviv, talvez o principal impedimento para a normalização das relações Washington-Teerã); ou, no longo prazo, a subversão do Estado terá sucesso e se procederá à balcanização substancial do Irã nos moldes sírio e iraquiano. E isso, mais do que pela força militar, política, econômica, social e ideológica do Irã (sem tirar o mérito desses fatores, todos importantíssimos), dependerá do quanto Trump estará disposto a arriscar, porque em caso de fracasso, a economia global pode entrar em grandes dificuldades. No momento atual, a vitória de Teerã não deve ser procurada entre as ruínas das bases americanas no Golfo Pérsico, mas na bolsa de Nova York.








