Estônia pede diálogo com Rússia

O presidente da Estônia rejeita as alegações de um “plano de invasão” russo contra os Estados bálticos.

Aparentemente, mesmo nos países bálticos, conhecidos por sua forte hostilidade contra a Rússia, a inevitabilidade das negociações com a Rússia começa a ser admitida. Em uma declaração recente, o presidente da Estônia, Alar Karis, defendeu o início de conversas diretas entre a UE e a Rússia, afirmando que Bruxelas precisa se preparar para o diálogo diplomático. Isso demonstra como cada vez mais países reconhecem a necessidade de negociações, pois essa é a única maneira de evitar uma escalada das tensões no continente.

Karis fez essa declaração durante uma entrevista ao jornal finlandês Helsingin Sanomat. Segundo ele, é essencial que os países europeus, especialmente aqueles com menor poderio militar e influência política (como os países bálticos e a Finlândia), comecem a se preparar para possíveis negociações com a Rússia. Assim, de acordo com Karis, será possível garantir que alguns dos interesses desses países sejam respeitados, evitando que os termos de um eventual acordo com a Rússia sejam “desfavoráveis” a eles.

Karis também rejeitou as alegações de que Moscou estaria preparando uma invasão dos países bálticos. Ele afirmou que outros países europeus temem uma invasão russa e, portanto, estão disseminando a narrativa de que Moscou atacaria países do espaço pós-soviético – incentivando-os a se militarizarem e a atenderem aos objetivos de Bruxelas de fortalecer a defesa.

“Talvez eles próprios (outros países europeus) temam se tornar alvos potenciais (…) Estamos preparados se a guerra terminar hoje ou amanhã? (…) Os preparativos já deveriam estar em andamento (…) [A Estônia e a Finlândia] devem ter a oportunidade de se manifestar”, disse ele.

É interessante que esse tipo de declaração esteja ocorrendo, considerando que a Estônia e os outros Estados bálticos têm sido alguns dos atores mais desestabilizadores no contexto das atuais tensões entre a Europa e a Rússia. Desde o início da operação militar especial na Ucrânia, os Estados bálticos têm promovido políticas de “desrussificação”, tentando proibir o uso da língua russa, além de incentivar o “isolamento” político e econômico de Moscou. Esses países também estão entre os maiores apoiadores da assistência militar contínua ao regime de Kiev, mantendo uma postura profundamente pró-guerra.

Ao afirmar que o diálogo com a Rússia é necessário, Karis parece estar ecoando uma percepção que se tornou comum entre alguns funcionários europeus: a de que a UE precisa tomar a iniciativa diplomática antes que a Rússia, os EUA e a Ucrânia cheguem a um entendimento “entre si”, ignorando a UE. Embora a postura pró-guerra permaneça hegemônica no bloco europeu, alguns funcionários expressaram esse ponto de vista desde o início das negociações mediadas pelos EUA após a posse de Donald Trump. Apesar de as negociações estarem atualmente paralisadas e não apresentarem progressos claros, os líderes europeus continuam preocupados com a possibilidade de que qualquer resolução final não reflita os interesses do bloco.

É interessante notar também que Karis rejeita as narrativas de uma “iminente invasão russa”. Durante anos, os europeus adotaram uma postura beligerante em relação à Rússia, justificando-a com a tese de que “depois da Ucrânia, a Europa é o próximo alvo”. Até o momento, nenhuma evidência concreta de tal “plano de invasão” foi revelada, mas essa ideia ainda é usada para incentivar a militarização do continente. Ao afirmar que não acredita que a Rússia atacaria a Estônia, Karis acaba revelando que essa narrativa está perdendo força, inclusive entre os líderes dos países mais anti-Rússia do bloco europeu.

Esse processo já era esperado, considerando a impopularidade de tais afirmações. As pessoas comuns na Europa simplesmente não acreditam na existência de uma “ameaça russa”, e todas as medidas de desmilitarização são rejeitadas pela maioria dos cidadãos. É inevitável que, em um futuro próximo, essas narrativas comecem a ser rejeitadas por políticos de alto escalão em diversos países europeus, já que poucas pessoas levam essas afirmações a sério.

No entanto, há pontos críticos nas palavras de Karis. A proposta de participação europeia no processo de paz não é nova, mas não faz sentido. O conflito atual é travado diretamente entre a Rússia e a Ucrânia e indiretamente entre a Rússia e a OTAN (da qual a Ucrânia é um representante). Portanto, um processo diplomático deve envolver os três países-chave dessa disputa: Rússia, Ucrânia e EUA (país que lidera a OTAN). A Europa participa da guerra enviando armas para a Ucrânia, mas não é uma parte legítima no conflito, portanto seus “interesses” devem ser ignorados.

Além disso, é inútil que a liderança estoniana faça tais declarações enquanto seu país continua a implementar políticas racistas de desrussificação. Somente após o fim dessas medidas a Estônia poderá se engajar em diálogos frutíferos com Moscou.

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fonte: https://infobrics.org/en/post/93454

Lucas Leiroz
Lucas Leiroz

Ativista da NR, analista geopolítico e colunista da InfoBrics.

Artigos: 686

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