Introdução
No debate político ocidental, a hipótese de um Irã dotado de armas nucleares é geralmente apresentada como um dos cenários mais perigosos para a segurança internacional. Segundo essa interpretação, a aquisição da bomba pela República Islâmica representaria um fator de desestabilização capaz de desencadear uma corrida armamentista no Oriente Próximo, aumentar o risco de conflitos regionais e, no pior dos casos, favorecer a disseminação de armas de destruição em massa para atores não estatais.\
Essa leitura domina há anos o discurso político e midiático ocidental. Declarações de líderes europeus e estadunidenses insistem regularmente na ideia de que um Irã nuclear constituiria uma ameaça direta não apenas para seus vizinhos regionais, mas também para a segurança da Europa e da ordem internacional. A posição recentemente expressa por Giorgia Meloni, segundo a qual não seria aceitável que a República Islâmica adquira a arma nuclear juntamente com uma crescente capacidade de mísseis, insere-se plenamente neste quadro interpretativo[1].
No entanto, essa representação não esgota o debate existente no campo dos estudos estratégicos. Dentro da teoria das relações internacionais existe, de fato, uma tradição de pensamento – reconduzível em particular à escola realista – que chega a conclusões muito diferentes. Alguns estudiosos sustentaram que, em determinadas condições, a disseminação da dissuasão nuclear pode contribuir para a estabilidade do sistema internacional, em vez de sua desestabilização. O raciocínio é conhecido: quando duas potências rivais possuem capacidade de destruição mútua garantida, o custo de um conflito direto torna-se tão elevado que a guerra se torna extremamente improvável.
Essa lógica caracterizou grande parte da segunda metade do século XX. Durante a Guerra Fria, a presença de vastos arsenais nucleares nas mãos dos Estados Unidos e da União Soviética não impediu a competição geopolítica entre as duas superpotências, mas contribuiu para reduzir drasticamente a probabilidade de um confronto direto entre elas. A partir dessa observação, alguns teóricos tiraram uma conclusão contraintuitiva: em determinadas circunstâncias, a proliferação nuclear pode produzir formas de equilíbrio estratégico mais estáveis do que sistemas caracterizados por fortes assimetrias de poder.
Aplicada ao Oriente Próximo, essa perspectiva levanta uma pergunta raramente enfrentada no debate político: a aquisição da arma nuclear pelo Irã tornaria realmente a região mais instável ou poderia contribuir para a formação de um novo equilíbrio de dissuasão?
O problema não é puramente teórico. No Oriente Próximo já existe há décadas uma potência nuclear, embora oficialmente não declarada. Israel mantém, de fato, uma política de ambiguidade estratégica em relação ao seu arsenal atômico, mas a maioria dos analistas concorda que o Estado judeu dispõe de um número significativo de ogivas nucleares. Nesse contexto, a eventual aquisição da bomba pelo Irã não introduziria a arma nuclear na região, mas poria fim a um monopólio estratégico que dura várias décadas.
Este ensaio não pretende defender que a proliferação nuclear represente por si só um fenômeno desejável. O objetivo é, antes, analisar de forma realista as implicações estratégicas de um cenário frequentemente descrito em termos exclusivamente normativos ou ideológicos. A relação entre armas nucleares e estabilidade internacional é, de fato, mais complexa do que sugerem muitas declarações políticas.
Para abordar essa questão, o ensaio procede em várias etapas. Em primeiro lugar, será examinada a narrativa dominante que apresenta o Irã nuclear como uma ameaça intrinsecamente desestabilizadora. Em seguida, será analisado o contexto do programa nuclear iraniano e o papel que as lideranças religiosas desempenharam no debate interno à República Islâmica. Nos capítulos seguintes, serão expostos os principais argumentos teóricos relativos à dissuasão nuclear e serão discutidos alguns casos históricos em que a proliferação contribuiu para a estabilidade estratégica. Por fim, será analisada a estrutura nuclear do Oriente Próximo e serão avaliados os efeitos que um eventual Irã dotado de armas nucleares poderia ter sobre os equilíbrios regionais.
O objetivo não é fornecer respostas definitivas, mas esclarecer os termos de uma questão estratégica que, no debate público, é frequentemente apresentada de forma simplificada. A história da dissuasão nuclear sugere, de fato, que a relação entre proliferação e estabilidade não é linear. Em alguns casos, a arma atômica contribuiu para reduzir a probabilidade de guerras entre grandes potências. Resta entender se uma dinâmica semelhante pode emergir também no contexto do Oriente Próximo.
A narrativa dominante: por que o Ocidente teme um Irã nuclear
Grande parte da análise estratégica ocidental considera a eventual aquisição da arma nuclear pelo Irã como um desenvolvimento inaceitável, com base em uma série de argumentos frequentemente tratados como autoevidentes. Essas argumentações constituem o núcleo da posição adotada nas últimas décadas pelos Estados Unidos, pelos países europeus e por seus principais aliados regionais.
O primeiro elemento diz respeito à natureza do sistema político iraniano. Em muitas interpretações ocidentais, a República Islâmica é apresentada como um ator ideológico, guiado por uma liderança religiosa cujo comportamento seria menos previsível do que o dos Estados laicos tradicionais. Nessa perspectiva, a posse da arma nuclear por Teerã não seria avaliada apenas em termos de capacidades militares, mas sobretudo em relação às intenções políticas atribuídas ao regime. A ideia implícita é que um sistema político baseado em uma legitimação religiosa possa tomar decisões estratégicas menos vinculadas à lógica da dissuasão em comparação com as potências nucleares tradicionais.
Um segundo argumento diz respeito à estrutura geopolítica do Oriente Próximo. A região é caracterizada por rivalidades profundas, conflitos não resolvidos e competição entre diferentes potências regionais. Segundo muitos analistas ocidentais, a entrada do Irã no grupo das potências nucleares poderia acentuar essas dinâmicas, induzindo outros Estados a também se dotarem de capacidades nucleares militares. Nessa perspectiva, a eventual proliferação não pararia no Irã, mas poderia se estender progressivamente a outros atores regionais, transformando o Oriente Próximo em uma das áreas mais densamente nuclearizadas do sistema internacional.
Um terceiro elemento de preocupação diz respeito ao papel dos atores armados não estatais presentes na região. A política externa iraniana frequentemente se baseou na construção de redes de alianças com movimentos armados operando em diferentes contextos regionais. Na leitura dominante no Ocidente, essa dimensão alimenta o temor de que a aquisição de tecnologias nucleares por Teerã possa aumentar o risco de disseminação de materiais sensíveis ou de conhecimentos tecnológicos para fora do controle direto do Estado.
Essas três linhas argumentativas – a natureza ideológica do regime, o risco de proliferação regional e a presença de atores armados não estatais – constituem o quadro interpretativo dentro do qual a questão nuclear iraniana é geralmente colocada. Nessa perspectiva, o objetivo de impedir que o Irã adquira a arma atômica torna-se uma prioridade estratégica, justificando o recurso a instrumentos de pressão econômica e diplomática, mas também a operações de sabotagem, ciberataques e ações militares diretas. Nesse quadro se insere também a campanha militar atualmente em curso entre Israel, Estados Unidos e Irã, denominada Operação Epic Fury, lançada em fevereiro de 2026 como uma operação conjunta israelo-estadunidense contra alvos militares iranianos com o objetivo declarado de destruir as capacidades de mísseis e impedir o desenvolvimento de uma arma nuclear por Teerã.
Do ponto de vista dessa interpretação, o problema central não é apenas a possibilidade de o Irã usar diretamente a arma nuclear. A preocupação principal diz respeito, antes, ao efeito sistêmico que sua aquisição poderia produzir sobre os equilíbrios regionais. Um Irã nuclear seria percebido como um fator de transformação da estrutura estratégica do Oriente Próximo, capaz de alterar profundamente as relações de força entre os Estados da região.
Embora essa posição constitua hoje a chave de leitura dominante no debate político ocidental, uma parte da literatura estratégica interpreta a relação entre proliferação nuclear e equilíbrio internacional em termos muito diferentes.
Para compreender essa perspectiva alternativa, é necessário, antes de tudo, analisar o contexto concreto em que se insere o programa nuclear iraniano e o papel que ele assumiu na política interna da República Islâmica. É a esse tema que será dedicado o próximo capítulo.
O programa nuclear iraniano e a questão da fatwa
Para compreender a questão nuclear iraniana, é necessário distinguir entre as representações políticas que dominam o discurso internacional e o quadro jurídico e institucional dentro do qual se desenvolveu o programa nuclear da República Islâmica.
O Irã é, de fato, signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), que entrou em vigor em 1970 e constitui ainda hoje o principal instrumento internacional voltado a limitar a disseminação de armas nucleares. Com base nesse acordo, os Estados que não possuem armas nucleares comprometem-se a não desenvolvê-las, mantendo, no entanto, o direito de utilizar a energia nuclear para fins civis sob o controle das instituições internacionais competentes.
No caso iraniano, o programa nuclear tem origens anteriores à revolução de 1979. Durante o período monárquico, o xá Mohammad Reza Pahlavi havia iniciado um ambicioso projeto de desenvolvimento da energia nuclear com o apoio tecnológico de vários países ocidentais[2]. Após a Revolução Islâmica, muitas dessas iniciativas sofreram uma fase de desaceleração, mas ao longo dos anos 1990 e 2000, o programa nuclear iraniano voltou progressivamente ao centro das políticas de desenvolvimento científico e tecnológico do país.
Desde o início das controvérsias internacionais sobre a questão nuclear iraniana, as lideranças da República Islâmica sustentaram que as atividades nucleares do país tinham finalidades exclusivamente civis. Em apoio a essa posição, Teerã frequentemente invocou um elemento particular do seu sistema político: a fatwa, ou seja, um pronunciamento religioso de uma autoridade islâmica considerado vinculante para os fiéis, emitido pelo Guia Supremo Ali Khamenei, que declarava as armas nucleares incompatíveis com os princípios do Islã.
Segundo essa interpretação, a produção e o uso de armas de destruição em massa constituiriam uma violação das normas éticas e religiosas que deveriam guiar a conduta do Estado islâmico. Por anos, as autoridades iranianas citaram essa decisão religiosa como prova de que a República Islâmica não pretendia se dotar de um arsenal nuclear[3].
No debate internacional, a relevância dessa fatwa tem sido frequentemente objeto de interpretações contrastantes. Alguns observadores a consideraram um elemento significativo da doutrina estratégica iraniana, enquanto outros sustentaram que uma decisão de natureza religiosa poderia ser modificada ou reinterpretada caso o contexto político e estratégico o tornasse necessário.
Os desdobramentos mais recentes da política iraniana tornaram essa questão ainda mais complexa. Com a morte do Guia Supremo Ali Khamenei durante a guerra regional e a subsequente ascensão à liderança da República Islâmica de seu filho Mojtaba Khamenei, o quadro político interno de Teerã entrou em uma nova fase[4]. Do ponto de vista formal, a fatwa emitida pelo líder anterior não vincula necessariamente o seu sucessor, que poderia decidir mantê-la, reinterpretá-la ou revogá-la.
Essa evolução introduz um paradoxo estratégico. As operações militares que levaram à eliminação da figura que havia reiterado diversas vezes a proibição religiosa da arma nuclear podem ter removido um dos principais elementos simbólicos e doutrinários utilizados por Teerã para justificar sua posição oficial contra a bomba atômica.
Em outras palavras, os desdobramentos recentes da crise regional correm o risco de ter modificado justamente um dos fatores que no passado foram citados como prova da ausência de intenções nucleares militares por parte da República Islâmica.
Para entender se e em que medida essa mudança pode influenciar a estratégia iraniana, é necessário, no entanto, considerar uma questão mais geral: qual papel a arma nuclear realmente desempenha na lógica das relações internacionais.
É a essa dimensão teórica que será dedicado o próximo capítulo.
A teoria da dissuasão nuclear
Para avaliar as possíveis implicações estratégicas de um Irã dotado de armas nucleares, é necessário considerar o papel que a arma atômica desempenhou no sistema internacional desde meados do século XX. O surgimento das armas nucleares transformou profundamente a natureza da guerra entre Estados.
Diferentemente das armas convencionais, a arma nuclear possui uma capacidade destrutiva tal que torna potencialmente catastróficas as consequências de um conflito entre potências dotadas desses instrumentos. É precisamente essa característica que deu origem ao conceito de dissuasão nuclear, ou seja, à capacidade de um Estado de dissuadir um adversário de empreender um ataque graças à perspectiva de uma retaliação devastadora.
Durante a Guerra Fria, esse princípio foi formalizado na doutrina da destruição mútua assegurada. Em um contexto em que ambas as superpotências possuíam arsenais nucleares capazes de sobreviver a um primeiro ataque e de atingir o território do adversário, o uso da arma nuclear teria inevitavelmente levado à destruição de ambas as partes.
Esse equilíbrio não eliminou a competição geopolítica entre as duas superpotências, mas contribuiu para reduzir drasticamente a probabilidade de um confronto direto. Durante grande parte da segunda metade do século XX, os Estados Unidos e a União Soviética permaneceram envolvidos em uma rivalidade global intensa, que se manifestou através de crises regionais, conflitos por procuração e competição ideológica. No entanto, nenhuma das duas potências ousou jamais empreender uma guerra convencional em larga escala contra a outra.
A partir dessa experiência histórica, alguns estudiosos das relações internacionais desenvolveram uma tese contraintuitiva: a disseminação de armas nucleares não leva necessariamente a uma maior instabilidade. Em determinadas condições, ao contrário, a presença de arsenais nucleares pode contribuir para estabilizar as relações entre potências rivais.
Entre os defensores mais conhecidos dessa interpretação está o teórico realista Kenneth Waltz. Segundo Waltz, a lógica da dissuasão tende a tornar os Estados nucleares particularmente prudentes, pois os custos de uma guerra tornam-se potencialmente insustentáveis. Nessa perspectiva, a proliferação nuclear pode, dentro de certos limites, produzir formas de equilíbrio estratégico mais estáveis do que sistemas caracterizados por fortes assimetrias de poder[5].
Uma visão semelhante emerge também na reflexão de John J. Mearsheimer, um dos principais expoentes do realismo contemporâneo. Em seu trabalho sobre a competição entre grandes potências, Mearsheimer sublinha como a estrutura do sistema internacional leva os Estados a buscar formas de equilíbrio estratégico voltadas a prevenir ameaças existenciais, tornando a dissuasão um dos instrumentos fundamentais da estabilidade entre potências rivais[6].
Essa posição não é, no entanto, universalmente compartilhada. Outros estudiosos, entre eles Scott D. Sagan, sustentaram que a disseminação de armas nucleares poderia aumentar os riscos de erro, de escalada descontrolada ou de uso acidental das armas atômicas. Segundo essa interpretação, quanto mais Estados possuem armas nucleares, maior se torna a probabilidade de que uma crise política ou militar fuja ao controle[7].
O confronto entre essas duas perspectivas – por um lado, a tese de que a dissuasão nuclear tende a estabilizar as relações internacionais, por outro, a posição que vê na proliferação uma fonte de instabilidade – constitui um dos debates mais importantes da literatura estratégica contemporânea.
Compreender essa controvérsia teórica é essencial para analisar o caso do Oriente Próximo. A questão central não diz respeito apenas às intenções da liderança iraniana, mas também ao modo como a presença de armas nucleares poderia influenciar o comportamento dos Estados da região.
Antes de abordar diretamente esse problema, no entanto, é útil examinar alguns casos históricos em que a proliferação nuclear contribuiu para redefinir os equilíbrios estratégicos entre potências rivais. É a essa análise empírica que será dedicado o próximo capítulo.
Quando a proliferação produziu estabilidade: alguns casos históricos
A teoria da dissuasão nuclear não nasce apenas de reflexões abstratas sobre a natureza da guerra moderna. Ela também se baseia na observação de algumas experiências históricas em que a presença de armas nucleares contribuiu para transformar a dinâmica das relações entre potências rivais.
Um primeiro exemplo, já mencionado nos capítulos anteriores, é representado pela rivalidade entre Estados Unidos e União Soviética durante a Guerra Fria. Após o fim do monopólio nuclear americano em 1949, quando a União Soviética conseguiu desenvolver seu próprio arsenal atômico, o sistema internacional entrou em uma fase caracterizada por um equilíbrio estratégico completamente novo. Ao longo das décadas seguintes, ambas as superpotências acumularam vastos arsenais nucleares e desenvolveram sistemas de lançamento cada vez mais sofisticados, capazes de atingir o território do adversário mesmo após terem sofrido um primeiro ataque.
Essa situação criou as condições para o que os estudiosos definiram como um equilíbrio de dissuasão. Embora Estados Unidos e União Soviética permanecessem envolvidos em uma competição global intensa, nenhuma das duas potências empreendeu jamais uma guerra convencional direta contra a outra. As crises mais graves da Guerra Fria, como a dos mísseis de Cuba em 1962, demonstraram o quanto a presença de arsenais nucleares podia induzir os líderes políticos a evitar a escalada militar quando o risco de uma guerra total se tornava concreto.
Um segundo caso frequentemente citado na literatura estratégica é o do Sul da Ásia. Índia e Paquistão são dois Estados que travaram várias guerras convencionais desde sua independência em 1947 e que mantêm ainda hoje uma rivalidade geopolítica muito intensa, em particular pela disputa sobre a Caxemira. No entanto, a situação estratégica entre os dois países mudou profundamente após os testes nucleares conduzidos por ambas as partes em 1998, que marcaram a entrada oficial da Índia e do Paquistão no grupo das potências nucleares.
Desde então, as tensões entre os dois Estados não desapareceram e as crises militares continuam a ocorrer periodicamente ao longo da linha de controle que divide a Caxemira. No entanto, nenhum dos dois países empreendeu uma guerra convencional em larga escala contra o outro. Nesse contexto, a presença de arsenais nucleares contribuiu para introduzir um patamar de risco que torna extremamente perigosa qualquer escalada militar não controlada.
Um terceiro caso interessante diz respeito à península coreana. A Coreia do Norte desenvolveu armas nucleares ao longo dos anos 2000, entrando progressivamente no restrito grupo dos Estados dotados de capacidades nucleares militares. A presença dessas armas modificou profundamente o quadro estratégico do Nordeste Asiático. Embora a tensão entre Pyongyang, a Coreia do Sul e os Estados Unidos permaneça elevada, a dissuasão nuclear contribuiu para reduzir a probabilidade de uma intervenção militar direta voltada a derrubar o regime norte-coreano.
Esses exemplos não demonstram que a proliferação nuclear produza automaticamente estabilidade. Em todos os casos citados, a presença de armas nucleares continuou a coexistir com crises políticas, tensões militares e conflitos indiretos. No entanto, eles mostram como a introdução da dissuasão nuclear pode modificar profundamente o cálculo estratégico dos Estados, aumentando os custos potenciais de uma guerra e induzindo os líderes políticos a adotar comportamentos mais cautelosos.
À luz dessas experiências históricas, a questão nuclear iraniana assume uma dimensão diferente. Se a presença de armas nucleares contribuiu para estabilizar algumas rivalidades estratégicas particularmente intensas, é legítimo perguntar se uma dinâmica semelhante poderia emergir também no Oriente Próximo.
Para abordar essa questão, é necessário considerar uma característica fundamental da estrutura estratégica da região: a existência de uma potência nuclear já presente há décadas, embora oficialmente não declarada. É a essa realidade que será dedicado o próximo capítulo.
O Oriente Próximo nuclear: o monopólio israelense
Para compreender plenamente as implicações estratégicas de um eventual Irã dotado de armas nucleares, é necessário considerar a estrutura nuclear já existente no Oriente Próximo. No debate internacional, a questão é frequentemente apresentada como se a aquisição da bomba pelo Irã introduzisse pela primeira vez a arma nuclear na região. Na realidade, a situação é mais complexa.
Há várias décadas, existe de fato no Oriente Próximo um Estado que possui capacidades nucleares militares, embora oficialmente não declaradas. Israel mantém uma política de ambiguidade estratégica em relação ao seu arsenal nuclear: o Estado israelense nunca confirmou nem negou formalmente a posse de armas atômicas. Apesar dessa posição oficial, a maioria dos analistas e das instituições especializadas considera já comprovado que Israel dispõe de um arsenal nuclear significativo.
As origens do programa nuclear israelense remontam aos anos 1950 e 1960, quando o governo de Tel Aviv iniciou um programa científico e tecnológico destinado a garantir ao Estado judeu uma capacidade de dissuasão estratégica. O centro desse programa foi o complexo nuclear de Dimona, construído no deserto do Neguev com o apoio tecnológico da França.
Ao longo das décadas seguintes, Israel desenvolveu uma capacidade nuclear que, segundo inúmeras estimativas independentes, compreende várias dezenas de ogivas atômicas e uma variedade de sistemas de lançamento. Entre eles, figuram mísseis balísticos de médio alcance, aeronaves capazes de transportar artefatos nucleares e, segundo algumas avaliações, também sistemas baseados em submarinos.
A particularidade da posição israelense reside justamente na escolha de manter uma política de ambiguidade. Essa estratégia permite a Israel beneficiar-se dos efeitos dissuasores associados à posse da arma nuclear sem ter que enfrentar as implicações políticas e diplomáticas de uma declaração oficial. Ao mesmo tempo, tal ambiguidade contribuiu para manter a questão nuclear israelense à margem do debate internacional.
Do ponto de vista estratégico, isso significa que o Oriente Próximo foi caracterizado por décadas por uma forma de assimetria nuclear. Israel pôde contar com uma capacidade de dissuasão que nenhum outro Estado da região possuía. Em um sistema internacional em que o equilíbrio de poder tende a desempenhar um papel central, essa situação contribuiu para definir a estrutura das relações de força regionais.
À luz dessa realidade, a eventual aquisição da arma nuclear pelo Irã não representaria tanto a introdução da dissuasão nuclear no Oriente Próximo, mas sim o fim de um monopólio estratégico que dura várias décadas. Em outras palavras, a hipótese de um Irã nuclear modificaria a distribuição da dissuasão na região, transformando um sistema caracterizado por uma forte assimetria em um sistema potencialmente mais equilibrado.
Naturalmente, essa mudança poderia produzir consequências complexas e difíceis de prever. No entanto, ela também levanta uma questão fundamental: se a presença de arsenais nucleares contribuiu para estabilizar algumas rivalidades entre grandes potências no sistema internacional, é possível que um equilíbrio semelhante possa emergir também no contexto do Oriente Próximo?
Antes de abordar essa questão, é necessário examinar outra objeção frequentemente avançada no debate estratégico: a ideia de que um Irã nuclear desencadearia inevitavelmente uma corrida armamentista atômica na região. É a essa questão que será dedicado o próximo capítulo.
A corrida armamentista nuclear é realmente inevitável?
Um dos argumentos mais frequentemente avançados no debate estratégico diz respeito ao risco de que a aquisição da arma nuclear pelo Irã possa desencadear uma proliferação em cadeia no Oriente Próximo. Segundo essa interpretação, o surgimento de uma nova potência nuclear na região levaria outros Estados a também se dotarem de capacidades nucleares militares para equilibrar o poder iraniano.
Em linha teórica, esse cenário não pode ser excluído. A história das relações internacionais mostra que os Estados tendem a reagir às mudanças no equilíbrio de poder adotando medidas voltadas a reforçar a sua própria segurança. No entanto, a ideia de que uma proliferação nuclear regional represente uma consequência inevitável merece ser examinada com maior atenção.
O primeiro país frequentemente citado nesse contexto é a Arábia Saudita. Riade representa há muito tempo um dos principais rivais regionais do Irã e a competição entre os dois países se manifesta em diferentes áreas do Oriente Próximo. Alguns analistas aventaram a hipótese de que um Irã nuclear poderia levar a Arábia Saudita a desenvolver um arsenal atômico próprio.
No entanto, a realização de um programa nuclear militar requer recursos tecnológicos, infraestruturas científicas e capacidades industriais extremamente complexas. Embora a Arábia Saudita disponha de consideráveis recursos financeiros, o país não possui atualmente um sistema científico e tecnológico comparável ao necessário para desenvolver autonomamente um arsenal nuclear no curto prazo.
Um segundo Estado às vezes mencionado é a Turquia. Ancara é uma potência regional com ambições geopolíticas relevantes e um aparato industrial mais desenvolvido do que muitos outros países da região. No entanto, a Turquia é membro da OTAN e abriga há décadas armas nucleares estadunidenses no âmbito do sistema de compartilhamento nuclear da Aliança Atlântica. Essa situação reduz significativamente os incentivos para o desenvolvimento de um programa nuclear militar independente.
Um terceiro país frequentemente citado é o Egito. O Cairo é historicamente um dos principais atores políticos do mundo árabe e defendeu no passado a ideia de uma zona livre de armas nucleares no Oriente Próximo. Apesar dessas posições diplomáticas, o Egito não empreendeu nas últimas décadas um programa nuclear militar comparável ao de outros Estados.
Esses elementos não significam que uma proliferação nuclear regional seja impossível. No entanto, sugerem que tal processo seria muito mais complexo e incerto do que frequentemente é representado no debate político. A decisão de desenvolver armas nucleares não depende apenas da percepção de uma ameaça, mas também de fatores tecnológicos, econômicos e institucionais que podem exigir décadas para serem realizados.
Um elemento adicional a ser considerado diz respeito à experiência de outras regiões do mundo. No Leste Asiático, por exemplo, a Coreia do Norte desenvolveu armas nucleares sem que isso tenha levado automaticamente à proliferação atômica entre países como a Coreia do Sul ou o Japão, embora ambos disponham das capacidades tecnológicas necessárias para desenvolver um arsenal próprio.
Esses precedentes históricos sugerem que a disseminação de armas nucleares não segue necessariamente uma dinâmica linear ou automática. As escolhas dos Estados dependem de uma combinação complexa de considerações estratégicas, restrições institucionais e cálculos políticos.
À luz dessas considerações, a hipótese de uma corrida armamentista nuclear no Oriente Próximo não pode ser considerada uma consequência inevitável da aquisição da bomba pelo Irã. Ela representa, antes, um dos possíveis cenários que poderiam emergir de uma mudança no equilíbrio estratégico regional.
Para compreender melhor as implicações desse cenário, é necessário examinar diretamente o caso do Irã e avaliar como a presença de armas nucleares poderia influenciar o comportamento dos atores regionais. É a essa questão que será dedicado o próximo capítulo.
Irã nuclear e equilíbrio regional
À luz das considerações teóricas e dos precedentes históricos examinados nos capítulos anteriores, a questão central diz respeito às possíveis implicações estratégicas de um Irã dotado de armas nucleares para o equilíbrio do Oriente Próximo.
Contrariamente à tese prevalecente nas chancelarias ocidentais, segundo a qual a posse da bomba pela República Islâmica tornaria a região inevitavelmente mais instável, a experiência empírica sugere que a aquisição de armas nucleares tende a modificar profundamente o comportamento estratégico dos Estados. A posse de capacidades nucleares introduz, de fato, uma dimensão de vulnerabilidade recíproca que torna extremamente arriscado qualquer confronto militar direto entre potências dotadas desses instrumentos.
No caso do Oriente Próximo, essa dinâmica dizeria respeito, em primeiro lugar, à relação entre Irã e Israel. Atualmente, a estrutura estratégica da região é caracterizada por uma forte assimetria: Israel possui capacidades nucleares enquanto nenhum outro Estado do Oriente Próximo dispõe oficialmente de um arsenal atômico. Nesse contexto, a eventual aquisição da bomba pelo Irã transformaria uma situação de monopólio nuclear em uma relação de dissuasão recíproca.
Uma tal transformação não eliminaria a rivalidade geopolítica entre os dois países. Irã e Israel continuariam com toda a probabilidade a se perceber como adversários estratégicos e a competir pela influência regional. No entanto, a presença de capacidades nucleares de ambos os lados introduziria um vínculo muito mais forte contra a escalada militar direta.
Em outras palavras, a possibilidade de uma retaliação nuclear tornaria extremamente arriscada qualquer decisão voltada a empreender um conflito em larga escala. Esse tipo de lógica já foi observado em outras rivalidades estratégicas entre potências nucleares, onde a presença de capacidades de destruição recíproca contribuiu para manter os conflitos em níveis indiretos ou limitados.
Naturalmente, esse cenário não implicaria o desaparecimento das tensões regionais. A competição entre Irã, Israel e outros atores do Oriente Próximo continuaria provavelmente a se manifestar através de formas indiretas de confronto político, econômico e militar. No entanto, a presença de um equilíbrio nuclear poderia reduzir a probabilidade de uma guerra convencional em larga escala entre as principais potências da região.
Nesse sentido, a questão nuclear iraniana pode ser interpretada também como um problema de distribuição da dissuasão no sistema regional. Por várias décadas, o Oriente Próximo foi caracterizado pela presença de apenas um Estado dotado de capacidades nucleares militares. A eventual aquisição da bomba pelo Irã modificaria essa configuração, introduzindo uma forma de balanceamento estratégico que poderia contribuir para redefinir as relações de força regionais.
Isso não significa que a proliferação nuclear represente uma solução isenta de riscos. A introdução de novos atores nucleares acarreta inevitavelmente novos desafios em termos de gestão de crises e estabilidade estratégica. No entanto, a história das relações internacionais mostra que a dissuasão nuclear tem frequentemente contribuído para reduzir a probabilidade de conflitos diretos entre potências rivais.
À luz dessas considerações, a hipótese de um Irã nuclear não pode ser interpretada exclusivamente como um cenário de desestabilização regional. Ela representa, antes, uma possível mudança na estrutura do equilíbrio estratégico do Oriente Próximo, cujas consequências dependeriam em larga medida do modo como os atores regionais escolhessem se adaptar a essa nova realidade.
Conclusão
Como se viu nos capítulos anteriores, o debate sobre o programa nuclear iraniano é frequentemente dominado por representações que descrevem a eventual aquisição da arma atômica pela República Islâmica como um cenário inevitavelmente desestabilizador para o Oriente Próximo e para a ordem internacional. Essa interpretação tornou-se nos últimos anos uma das premissas mais difundidas nas discussões políticas e diplomáticas sobre a segurança regional.
A análise desenvolvida neste ensaio sugere, no entanto, que a relação entre proliferação nuclear e estabilidade internacional é mais complexa do que geralmente é representado no debate público.
Em primeiro lugar, a literatura teórica sobre relações internacionais mostra que a presença de armas nucleares pode, em determinadas circunstâncias, contribuir para estabilizar as relações entre potências rivais. A lógica da dissuasão introduz, de fato, um nível de risco tal que torna extremamente custoso qualquer confronto militar direto entre Estados dotados de capacidades nucleares.
Em segundo lugar, a experiência histórica mostra que a aquisição da bomba por novos atores nem sempre produziu a instabilidade prevista por muitas análises políticas. Em diversos contextos, a presença de arsenais nucleares contribuiu para transformar rivalidades potencialmente explosivas em formas de competição mais contidas.
Por fim, a estrutura estratégica do Oriente Próximo apresenta uma característica frequentemente negligenciada no debate internacional: a presença de um Estado dotado de capacidades nucleares militares há várias décadas. Nesse contexto, a eventual aquisição da arma nuclear pelo Irã não introduziria pela primeira vez a dissuasão nuclear na região, mas modificaria, antes, a distribuição da dissuasão já existente.
Isso não significa que a proliferação nuclear represente um fenômeno isento de riscos. A entrada de novos atores no clube das potências nucleares acarreta inevitavelmente novos desafios em termos de gestão de crises e de estabilidade estratégica. No entanto, a história das relações internacionais sugere que os Estados dotados de armas nucleares tendem a se comportar com uma prudência maior justamente devido às consequências potencialmente catastróficas de um conflito.
À luz dessas considerações, a hipótese de um Irã nuclear não pode ser analisada exclusivamente através da lente da desestabilização. Ela representa, antes, uma possível mudança na distribuição do poder e da dissuasão no Oriente Próximo, cujas consequências dependeriam em larga medida do comportamento dos atores regionais e das dinâmicas do equilíbrio estratégico.
A pergunta feita no início deste ensaio – se um Irã dotado de armas nucleares tornaria o Oriente Próximo mais estável – não admite, portanto, uma resposta simples. No entanto, uma coisa parece clara: a relação entre proliferação nuclear e equilíbrio internacional não é linear. Em alguns casos, a arma nuclear contribuiu para aumentar os riscos, em outros tornou menos prováveis conflitos diretos entre potências rivais.
Compreender essa ambivalência é essencial para analisar com maior realismo uma das questões estratégicas mais controversas do nosso tempo.
Notas
[1] Rai News, Meloni al Senato su crisi in Medio Oriente e stabilità dei mercati energetici: comunicazioni al Parlamento, 11 marzo 2026, http://www.rainews.it/maratona/2026/03/meloni-al-senato-su-crisi-in-medio-oriente-e-stabilita-dei-mercati-energetici-comunicazioni-parlamento-a9c9ec70-cced-4273-96ae-be161b3d2ba7.html
[2] David Patrikarakos, Nuclear Iran: The Birth of an Atomic State, I.B. Tauris, London 2012, pp. 17-25; Mark Fitzpatrick, Iran’s Nuclear, Chemical and Biological Capabilities: A Net Assessment, International Institute for Strategic Studies, London 2011.
[3] Islamic Republic of Iran, Statement of the Islamic Republic of Iran to the International Atomic Energy Agency, Vienna, agosto 2005, cit. in IRNA, “Fatwa of Ayatollah Khamenei forbidding nuclear weapons”, disponibile all’indirizzo:
https://www.juancole.com/2005/08/irna-carries-iran-statement-to-iaea-on-khamenei-fatwa-forbidding-nuclear-weapons.html.
[4] Reuters, Iran names Khamenei’s son, Mojtaba, as new supreme leader, state media report, 8 marzo 2026, disponibile all’indirizzo:
https://www.reuters.com/world/middle-east/iran-names-khameneis-son-mojtaba-new-supreme-leader-state-media-report-2026-03-08/
[5] Kenneth N. Waltz, Why Iran Should Get the Bomb: Nuclear Balancing Would Mean Stability, «Foreign Affairs», vol. 91, n. 4, luglio–agosto 2012, pp. 2–5, disponibile all’indirizzo: https://www.acsu.buffalo.edu/~fczagare/PSC%20504/Waltz.pd.
[6] John J. Mearsheimer, The Tragedy of Great Power Politics, W.W. Norton, New York 2001.
[7] Scott D. Sagan, More Will Be Worse, in «The Spread of Nuclear Weapons: A Debate Renewed», W.W. Norton, New York 2003.








