Introdução
A morte de Saif al-Islam Gaddafi, ocorrida em Zintan em fevereiro de 2026 em circunstâncias ainda obscuras, não constitui um episódio isolado do caos líbio, mas representa um ato político de alcance sistêmico.[1] Num país em que a violência armada se tornou uma componente estrutural da gestão do poder, a eliminação de uma figura de primeiro plano não pode ser lida como um simples fato de crônica, mas sim como o produto de relações de força consolidadas e de interesses convergentes, internos e externos.
O assassinato de Saif al-Islam marca a eliminação física e simbólica da última figura capaz de encarnar uma possível continuidade estatal líbia após o colapso de 2011.[2] Não se trata apenas do desaparecimento de um indivíduo, mas da remoção definitiva de uma opção política que colocava em discussão a narrativa dominante segundo a qual a Líbia pós-Gaddafi não teria alternativa à fragmentação permanente, à divisão territorial e à tutela externa.
Filho e herdeiro político de Muammar Gaddafi, Saif al-Islam não era simplesmente um resíduo do passado, nem uma figura marginal sobrevivente à margem da nova ordem líbia. Ele representava, ao contrário, uma perspectiva alternativa em relação à atual configuração do poder: uma possível recomposição nacional fundada na memória de um Estado unitário, no legado simbólico da Jamahiriya e em redes sociais e tribais que o conflito nunca dissolveu completamente.
O seu desaparecimento deve, portanto, ser interpretado como o encerramento violento de uma janela histórica que colocava em questão a configuração geopolítica imposta à Líbia no período pós-intervenção da OTAN. Neste sentido, a morte de Saif al-Islam não é um evento contingente, mas o desfecho coerente de um processo iniciado em 2011, visando impedir a reconstituição de uma soberania líbia autônoma, capaz de se subtrair tanto ao domínio das milícias quanto à dependência estrutural dos atores internacionais.
A dinâmica do assassinato: um homicídio político num sistema sem Estado
As reconstituições sobre a morte de Saif al-Islam Gaddafi convergem para um ponto essencial: não se tratou de violência casual.[3] As versões divulgadas nas horas seguintes ao evento – confrontos entre milícias rivais, emboscada direcionada, invasão armada da sua habitação – divergem nos detalhes, mas coincidem em delinear um contexto de violência organizada e seletiva, dificilmente atribuível a um episódio espontâneo ou acidental.
Quer o assassinato tenha ocorrido durante um confronto a tiro ou mediante uma ação planeada, resta o fato de que as modalidades operacionais remetem para as típicas dos homicídios políticos no contexto líbio pós-2011: rapidez da ação, ausência de reivindicações, imediata dispersão das responsabilidades. Neste sentido, a eliminação de Saif al-Islam insere-se numa práxis consolidada, na qual a violência funciona como instrumento ordinário de regulação das relações de força.
O dado politicamente mais relevante não diz respeito, no entanto, à dinâmica técnica do homicídio, mas sim à incapacidade – ou à falta de vontade – das autoridades líbias de produzirem uma verdade oficial credível. A ausência de uma investigação eficaz não é uma anomalia contingente, mas o reflexo estrutural de um Estado desarticulado, privado do monopólio da força e atravessado por uma multiplicidade de centros de decisão armados.
Numa Líbia fragmentada entre governos concorrentes, milícias locais e aparelhos de segurança paralelos, a distinção entre criminalidade comum, violência política e ação paramilitar torna-se cada vez mais ténue. Nesse contexto, o assassinato de uma figura de primeiro plano como Saif al-Islam não produz um choque institucional, mas é absorvido como um evento quase ordinário, destinado a deslizar rapidamente na névoa da impunidade.
Esta normalização da violência seletiva constitui um dos elementos-chave do sistema de poder líbio contemporâneo. A eliminação física do adversário substitui o confronto político, enquanto a ausência de uma autoridade central reconhecida permite a cada ator negar o seu envolvimento. Deste modo, a responsabilidade dissolve-se e o ato violento torna-se parte integrante da gestão quotidiana do conflito.
A morte de Saif al-Islam Gaddafi, lida nesta perspectiva, não aparece como um evento excecional, mas como um passo coerente dentro de uma ordem política fundada na precariedade permanente. Uma ordem na qual a sobrevivência das figuras políticas não depende do consenso ou da legitimidade, mas da sua compatibilidade com os equilíbrios armados e geopolíticos do momento.
Saif al-Islam como fator de perturbação sistêmica
Como mencionámos na introdução, Saif al-Islam Gaddafi tinha-se tornado um problema não tanto pelo que fazia no presente, mas pelo que representava no longo prazo. Numa Líbia fragmentada entre governos concorrentes, milícias armadas e patrocínios externos, a sua figura introduzia um elemento de descontinuidade dificilmente absorvível dentro da ordem pós-2011.
Ao contrário dos principais atores emergidos após a queda do regime, Saif al-Islam dispunha de uma legitimidade que não derivava nem do controle militar de um território nem do reconhecimento internacional, mas de uma continuidade histórica e simbólica com o Estado líbio anterior à guerra. Tal legitimidade não era uniforme nem maioritária, mas revelava-se suficiente para abalar a narrativa segundo a qual a Jamahiriya estava definitivamente relegada ao passado e desprovida de qualquer resíduo de consenso.
O seu regresso à cena política, culminado com a candidatura às eleições presidenciais de 2021, depois anuladas, tinha demonstrado que uma parte significativa da população líbia não percebia 2011 como uma cesura irreversível. Em particular, o consenso recolhido no Sul do país e em algumas áreas periféricas evidenciava a existência de um eleitorado excluído dos novos equilíbrios de poder, mas ainda ligado à ideia de um Estado unitário e redistributivo.
Precisamente este potencial eleitoral tornava Saif al-Islam incompatível com o frágil ordenamento político fundado na fragmentação permanente. A sua eventual participação num processo eleitoral verdadeiramente competitivo teria introduzido um fator de imprevisibilidade dificilmente controlável pelos atores internos e externos que beneficiam do status quo. Neste sentido, a sua presença constituía um risco sistêmico, não um simples problema de segurança.
Numa perspectiva mais ampla, o assassinato de Saif al-Islam foi também interpretado no estrangeiro num quadro de tensões geopolíticas entre potências globais e regionais. Segundo um relatório do Serviço de Inteligência Estrangeiro Russo (SVR), retomado por alguns meios de comunicação internacionais, a sua morte teria ocorrido num momento em que a França se preparava para operações de tipo “neocolonial” em África e para oportunidades de “vingança política” no continente, com o objetivo de contrariar a perda de influência nos países africanos outrora coloniais e de atingir líderes considerados “indesejáveis”.[4] O relatório citado afirma que Paris teria autorizado os seus serviços especiais a lançar planos para eliminar tais figuras, alinhando-os a pretensas tentativas de golpes de estado e de desestabilização em Estados como Burkina Faso, Mali, República Centro-Africana e Madagáscar.[5]
Esta dimensão internacional, ainda que controversa e não verificável de forma autônoma, evidencia como a figura de Saif al-Islam era percebida, em certos círculos estratégicos, não só como um elemento de perturbação interno à Líbia, mas como um símbolo de alteridade em relação às lógicas de influência e competição geopolítica em África e no Mediterrâneo. A sua presença não podia ser suficiente para definir por si só um conflito entre grandes potências, mas o contexto em que a sua eliminação ocorreu mostra um cenário internacional no qual as narrativas de influência, controle e hegemonia regional se entrelaçam com as da política interna líbia.
A função política do mandado do Tribunal Penal Internacional
O mandado de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional contra Saif al-Islam Gaddafi operou, no contexto líbio, como um instrumento de exclusão política mais do que como um efetivo mecanismo de justiça internacional. Desde a sua emissão, tal mandado situou-se numa zona cinzenta, suspensa entre o plano jurídico e o geopolítico, resultando desprovido das condições materiais necessárias para se traduzir num procedimento judicial concreto.
Na ausência de um Estado soberano funcionante, capaz de exercer o monopólio da força e de cooperar estavelmente com as instituições internacionais, o mandado não produziu nem um processo nem uma verdade judicial. Ao contrário, ele contribuiu para cristalizar uma situação de suspensão permanente, na qual o acusado permanece formalmente passível de ação penal, mas substancialmente inalcançável e, portanto, excluído de qualquer percurso de normalização política.
Neste sentido, o mandado do Tribunal desempenhou uma função eminentemente política: tornar Saif al-Islam permanentemente não legitimável no plano internacional. A sua simples existência constituiu um vínculo estrutural, impedindo que a figura de Saif pudesse ser reintegrada num processo político reconhecido, mesmo que tivesse gozado de consenso interno ou de legitimidade eleitoral. A jurisdição penal internacional agiu assim como um mecanismo de veto preventivo, capaz de delimitar a priori o perímetro do politicamente aceitável.
Tal dinâmica não é uma anomalia exclusiva do caso líbio, mas assume aqui uma particular relevância devido ao vazio institucional posterior a 2011. Num contexto em que a soberania estatal é fragmentada e o poder efetivo é exercido por atores armados não estatais, o direito internacional penal não consegue desempenhar a função para a qual é formalmente concebido, mas acaba por interagir seletivamente com os equilíbrios geopolíticos existentes.
O resultado é um paradoxo: enquanto o Tribunal reivindica uma jurisdição universal fundada em princípios de justiça e responsabilidade individual, na prática a sua intervenção contribui para congelar o quadro político líbio, impedindo a emergência de figuras capazes de colocar em questão a ordem pós-guerra. Deste modo, a dimensão judicial sobrepõe-se à estratégica, e a distinção entre justiça internacional e gestão política dos conflitos torna-se cada vez mais ténue.
No caso de Saif al-Islam Gaddafi, o mandado do Tribunal não representou a antecâmara de um processo, mas um dispositivo de exclusão duradoura. Ele funcionou como uma espécie de interdição permanente, que tornou supérflua qualquer alternativa menos radical à sua neutralização política, contribuindo para restringir ainda mais o espaço das possibilidades no já frágil cenário líbio.
Continuidade de destino: Saif al-Islam e a sorte do pai
A trajetória política e pessoal de Saif al-Islam Gaddafi reproduz, com modalidades diferentes mas com uma surpreendente coerência estrutural, a do pai.[6] Ambos foram eliminados no momento em que a sua existência política deixou de ser compatível com a configuração geopolítica dominante imposta à Líbia pelo exterior.
Muammar Gaddafi não foi eliminado porque governava de modo autoritário, condição partilhada por numerosos regimes da região tolerados ou apoiados pelo Ocidente, mas porque tinha progressivamente transformado a renda energética líbia num instrumento de autonomia política, econômica e estratégica. A sua política externa, o controle soberano dos recursos e a ambição de redefinir as relações entre África, Mediterrâneo e Europa tinham tornado a Líbia um ator não alinhável.
Do mesmo modo, Saif al-Islam não foi neutralizado pelo que fora, mas pelo que poderia ainda representar. A sua sobrevivência política constituía uma anomalia num sistema construído para impedir o regresso de uma liderança política nacional unitária. Enquanto herdeiro político e simbólico da Jamahiriya, ele encarnava uma continuidade histórica que contradizia a narrativa do “fim definitivo” do projeto gaddafista em 2011.
A violência com que Muammar Gaddafi foi morto em Sirte e o assassinato de Saif al-Islam em Zintan, embora distantes no tempo e nas modalidades, aparecem assim como dois momentos de um mesmo processo. Em ambos os casos, a remoção física do líder desempenhou uma função exemplar: não só eliminar um adversário, mas sinalizar a inadmissibilidade de uma determinada ideia de soberania.
Esta continuidade de destino sugere que a questão líbia não pode ser reduzida a uma contraposição entre autoritarismo e aspirações democráticas, mas deve ser lida como um conflito mais profundo sobre a própria possibilidade de um Estado independente no Mediterrâneo central. Pai e filho foram atingidos quando a sua presença começou a representar um obstáculo estrutural à gestão externa da Líbia como espaço fragmentado, desprovido de uma vontade política autônoma.
Nessa perspectiva, a sorte dos Gaddafi assume um valor paradigmático. Ela mostra como, no sistema internacional contemporâneo, a soberania real é tolerada apenas dentro de limites bem definidos, e como qualquer tentativa de os ultrapassar – seja através do controle dos recursos, seja por meio de um projeto político alternativo – é neutralizada com meios que vão muito além do confronto político ordinário.
A morte de Saif al-Islam Gaddafi encerra assim um ciclo iniciado com a queda violenta do pai, mas não resolve as contradições que esse ciclo abriu. Pelo contrário, confirma a sua natureza não resolvida, deixando a Líbia privada não só de uma liderança política, mas também da possibilidade de recompor o seu passado numa forma política reconhecida.
A Líbia antes de 2011: dados sociais e remoção histórica
Quando Muammar Gaddafi tomou o poder em setembro de 1969, a Líbia era um dos países socialmente mais atrasados do Mediterrâneo[7]. A taxa de analfabetismo situava-se em torno de noventa e quatro por cento, o acesso aos serviços de saúde era limitado a restritos segmentos urbanos e a expectativa de vida era sensivelmente inferior à de muitos países da região. A renda petrolífera, embora já relevante, estava concentrada em poucas mãos e era escassamente redistribuída.
Ao longo das décadas seguintes, o regime líbio iniciou um processo de construção estatal centrado no uso da renda energética como instrumento de transformação social. Às vésperas de 2011, a taxa de alfabetização tinha atingido níveis próximos de oitenta e oito por cento, um dado que colocava a Líbia entre os países com os melhores indicadores educacionais do continente africano e do Oriente Próximo. A educação, da infância à universidade, era garantida pelo Estado, assim como o acesso a bolsas de estudo e programas de formação no estrangeiro.
Um perfil redigido pela Federal Research Division da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos – uma instituição dificilmente suspeita de indulgência para com o regime de Gaddafi – descreve um sistema de welfare articulado e difuso.[8] A saúde básica era fornecida a todos os cidadãos líbios, enquanto saúde, formação, reabilitação, habitação, apoio às famílias, aos deficientes e aos idosos eram regulamentados por um conjunto estruturado de serviços assistenciais. O sistema de saúde não era exclusivamente público, mas fundado num modelo misto público-privado que permitia uma certa flexibilidade e um nível de qualidade competitivo também no confronto regional[9].
No período compreendido entre 1970 e 1985, o número de médicos e dentistas aumentou cerca de sete vezes, atingindo uma proporção de um médico para cada 673 cidadãos. No mesmo arco temporal, o número de leitos hospitalares triplicou e a malária foi completamente erradicada. As campanhas de vacinação infantil cobriam quase a totalidade da população, enquanto o acesso à água potável e as condições higiênicas registaram uma melhoria constante. Em 2004, a taxa de mortalidade era estimada abaixo dos 20 por mil.
Estes dados não constituem uma operação de reabilitação ideológica do regime, mas representam um elemento essencial para compreender as razões profundas do consenso social que a Jamahiriya soube construir e que continua a sobreviver, apesar de tudo, na sociedade líbia, esclarecendo por extensão o papel simbólico atribuído a Saif al-Islam Gaddafi. Eles mostram a existência de um Estado funcionante, capaz de fornecer serviços, planear políticas públicas e garantir um mínimo de segurança social, em nítido contraste com a fragmentação institucional posterior a 2011.
Neste quadro, a memória material do período pré-2011 não sobrevive apenas como nostalgia ideológica, mas como confronto concreto entre dois modelos de organização política: um estatal, centralizado e redistributivo; o outro fragmentado, privatizado e subordinado a interesses externos. É dentro desta fratura que a figura de Saif al-Islam assume um significado que vai muito além da sua trajetória pessoal, tornando-se o depositário de uma demanda de Estado que a Líbia pós-guerra não conseguiu satisfazer.
A questão do dinar de ouro e a soberania monetária africana
Um dos elementos mais sistematicamente removidos na narrativa dominante sobre a intervenção de 2011 diz respeito ao projeto gaddafista de uma moeda pan-africana, o chamado dinar de ouro. Tal projeto não constituía um simples exercício retórico ou uma provocação ideológica, mas inseria-se numa estratégia mais ampla visando redefinir as relações de dependência econômica e financeira entre a África e o sistema monetário internacional.
A ideia de fundo era a de ancorar uma moeda africana às reservas de ouro, subtraindo-a à volatilidade das moedas fiduciárias e ao controle exercido pelas grandes instituições financeiras ocidentais. Nesta perspectiva, o dinar de ouro deveria tornar-se não só um instrumento de integração econômica continental, mas também um meio de pagamento para os recursos estratégicos africanos, em particular petróleo e gás natural.
Um cenário deste tipo teria tido consequências disruptivas na arquitetura monetária global construída no pós-Segunda Guerra Mundial. O sistema fundado nos acordos de Bretton Woods, e subsequentemente reorientado em torno do dólar como moeda de referência para o comércio energético, depende em grande medida do fato de as matérias-primas estratégicas serem denominadas e trocadas em dólares. A hipótese de uma parte significativa das transações energéticas africanas poder vir a ocorrer numa moeda alternativa, ancorada ao ouro, representava, portanto, uma ameaça estrutural a esse equilíbrio[10].
O projeto gaddafista não se limitava à dimensão monetária. Ele implicava também o uso coordenado dos fundos soberanos líbios, acumulados graças às rendas petrolíferas, como alavanca de investimento e de influência econômica no continente africano. Neste sentido, a Líbia propunha-se como pivô financeiro de uma África menos dependente do crédito externo, das políticas de ajustamento estrutural e dos mecanismos de endividamento controlados por atores extra-continentais.
É significativo que Gaddafi, na qualidade de chefe da União Africana, tivesse relançado com força este projeto nos dias imediatamente anteriores ao início das operações militares contra a Líbia. A coincidência temporal entre o anúncio de uma possível reforma monetária africana e a intervenção armada alimentou, nos anos seguintes, interpretações que leem o conflito de 2011 não como uma operação humanitária falhada, mas como um ato visando neutralizar uma ameaça econômica e financeira emergente.
Neste quadro, Saif al-Islam Gaddafi assume um papel que vai muito além do de herdeiro político. Ele representava a continuidade geracional de um projeto inacabado de soberania monetária e financeira, a possibilidade – ainda que apenas teórica – de reativar uma linha estratégica que colocava em questão a relação de subordinação da África ao sistema monetário global.
A sua eliminação, lida à luz desta dimensão, não aparece como um evento isolado ou contingente. Ela insere-se numa lógica mais ampla de prevenção estrutural, na qual não é atingido apenas um líder, mas a própria ideia de que um Estado africano possa promover uma alternativa sistêmica à ordem econômica existente.
O fracasso do projeto do dinar de ouro e a remoção dos Gaddafi marcam assim o fim de uma das mais ambiciosas tentativas de redefinição da soberania africana no século XXI. Uma tentativa que, independentemente do juízo sobre a sua exequibilidade, mostrou os limites de tolerância do sistema internacional perante quem tenta intervir não só no plano político, mas naquele, bem mais sensível, da moeda e do controle dos recursos estratégicos.
A Líbia depois de Saif al-Islam: fragmentação e protetorado informal
Com a morte de Saif al-Islam Gaddafi, a Líbia perde a última figura capaz de representar uma possível síntese nacional alternativa à configuração emergida após 2011. A sua eliminação não produziu uma estabilização do quadro político, mas consolidou antes uma condição de fragmentação permanente, na qual nenhum ator possui a força, a legitimidade ou o interesse em reconstituir um Estado unitário.
O país permanece dividido entre um Oeste formalmente reconhecido pela “comunidade internacional”, sustentado em larga medida pela Turquia, e um Leste dominado por uma autoridade militar apoiada por potências regionais e globais. A esta fratura sobrepõe-se uma constelação de milícias locais, clãs armados e grupos paramilitares que exercem um controle de facto sobre territórios, infraestruturas e fluxos econômicos, tornando ilusória qualquer ideia de soberania centralizada.
Neste contexto, a ausência de Saif al-Islam não cria um vazio, mas elimina uma anomalia. A sua presença constituía um elemento estranho a um sistema que funciona justamente graças à ausência de um centro político reconhecido. A fragmentação, longe de ser uma fase transitória, transformou-se numa condição estrutural, funcional tanto aos equilíbrios internos quanto aos interesses externos.
A Líbia contemporânea aparece assim cada vez mais como um protetorado informal, desprovido de uma administração colonial formal mas submetido a uma multiplicidade de vínculos políticos, militares e econômicos. As decisões estratégicas em matéria de segurança, recursos energéticos e gestão dos fluxos migratórios resultam fortemente condicionadas por atores estrangeiros, enquanto o Estado líbio, na sua dimensão institucional, permanece incapaz de exercer um controle efetivo sobre o território.
A eliminação de Saif al-Islam contribui para tornar esta configuração ainda mais rígida. Desaparecendo uma figura capaz de evocar um passado estatal partilhado e de mobilizar uma demanda de recomposição nacional, o sistema líbio perde uma das poucas variáveis potencialmente desestabilizadoras para o status quo. A estabilidade que daí resulta é, no entanto, uma estabilidade negativa, fundada no equilíbrio do caos e na reprodução da instabilidade controlada.
Neste cenário, as perspectivas de eleições nacionais credíveis parecem cada vez mais remotas. Não tanto pela ausência de procedimentos formais, mas pela falta de um contexto político em que o voto possa realmente traduzir-se numa transferência de poder. A remoção de figuras como Saif al-Islam reduz ainda mais o espetro das opções políticas disponíveis, restringindo o campo a atores já integrados nos mecanismos da fragmentação.
A Líbia do pós-Saif al-Islam não é, portanto, um país à espera de reconstrução, mas um espaço geopolítico estabilizado na sua instabilidade. Um território estratégico no Mediterrâneo central, desprovido de uma soberania plenamente reconhecida, no qual a ausência de um projeto nacional partilhado não representa uma disfunção temporária, mas o próprio pressuposto do seu atual equilíbrio.
Conclusão
A morte de Saif al-Islam Gaddafi não representa o fim de uma trajetória pessoal, mas a confirmação de uma dinâmica estrutural que atravessa a história recente da Líbia. Ela sanciona a remoção definitiva de uma alternativa política que, com todos os seus limites e ambiguidades, colocava em questão a configuração imposta ao país depois de 2011.
A eliminação de Saif al-Islam encerra um ciclo iniciado com a queda violenta de Muammar Gaddafi e marcado pela sistemática neutralização de qualquer hipótese de continuidade estatal. Pai e filho foram atingidos em momentos diferentes, mas segundo uma lógica coerente: ambos se tornaram incompatíveis com uma ordem regional e global que tolera a soberania apenas dentro de limites rigidamente controlados.
A Líbia que emerge deste processo não é um Estado em transição, mas um Estado falhado, estabilizado na sua própria fragmentação e funcional aos equilíbrios regionais e internacionais que gerem os seus recursos, segurança e fluxos migratórios. A ausência de uma classe dirigente nacional reconhecida, a multiplicação dos centros de poder armados e a dependência estrutural de atores externos não constituem desvios temporários, mas sim os elementos portadores de uma configuração funcional à gestão dos recursos, da segurança e dos fluxos migratórios no Mediterrâneo central.
Neste quadro, a remoção de Saif al-Islam Gaddafi não produz ordem, mas reduz ainda mais o campo das possibilidades políticas. Ela elimina uma variável potencialmente desestabilizadora para o status quo, mas ao preço de consolidar uma estabilidade negativa, fundada na ausência de alternativas e na reprodução do conflito de baixa intensidade.
A questão do dinar de ouro e do projeto de soberania monetária africana, permanecida inacabada com a queda do regime gaddafista, representa o nó mais profundo desta trama. Ela mostra como o limite último de tolerância do sistema internacional não reside tanto nas formas de governo, mas na possibilidade de um Estado ou conjunto de Estados colocarem em questão as hierarquias econômicas e financeiras existentes.
Nessa perspectiva, o destino dos Gaddafi assume um valor paradigmático. Não se trata de uma única tragédia nacional, mas de um caso emblemático dos mecanismos através dos quais são neutralizados os projetos de autonomia que excedem as margens consentidas pela ordem global. A Líbia, privada dos seus líderes e do seu projeto estatal, permanece assim suspensa entre passado e futuro, incapaz de recompor a sua soberania e destinada a permanecer, enquanto nada mudar no plano internacional, um território governado mais pelos equilíbrios externos do que pela vontade dos seus cidadãos.
Notas
[1] Il manifesto, Saif al-Islam Gheddafi ucciso nel caos libico, “il manifesto”, 4 febbraio 2026.
[2] Mauro, S., Saif al-Islam, la terza via libica eliminata da un commando, “il manifesto”, 5 febbraio 2026.
[3] Rejichi, D., Libya: Gaddafi supporters left without rallying figure after Saif al-Islam’s killing, “Middle East Eye”, 5 febbraio 2026.
[4] The Cradle, Muammar Gaddafi’s son assassinated in Libya amid reports of French meddling in Africa, “The Cradle”, 3 febbraio 2026.
[5] TASS, France preparing neo-colonial coups in Africa — Russian Foreign Intelligence Service, TASS, 2 febbraio 2026.
[6] Repaci, G., Libia: dal colonialismo all’“intervento umanitario”, “Das Andere”, 23 ottobre 2017.
[7] Aruffo, A., Gheddafi. Storia di una dittatura rivoluzionaria, Roma, Castelvecchi Editore, 2011.
[8] Federal Research Division, Libya: Country Profile, Library of Congress, aprile 2005, consultabile online:
https://www.justice.gov/file/272711/dl?inline=.
[9] Ibid.
[10] Sensini, P., Libia. Da colonia italiana a colonia globale, Milano, Jaca Book, 2017.








