Rumo a um Novo Ataque contra o Irã?

Introdução

No último ano, o sistema de segurança do Oriente Médio passou por uma fase de profunda transformação, marcada pela transição de uma longa temporada de conflitos indiretos para uma dinâmica de confronto cada vez mais explícita entre atores estatais. A guerra direta entre Israel e Irã em junho de 2025 representou uma ruptura histórica, interrompendo décadas de ambiguidade estratégica e abrindo uma fase em que a opção militar não é mais um tabu, mas um instrumento abertamente discutido nos principais centros decisórios. Nesse contexto, a questão iraniana voltou a ocupar uma posição central no debate geopolítico global, não apenas por suas implicações regionais, mas pela forma como se entrelaça com as estratégias das grandes potências.

As declarações feitas pelo presidente dos Estados Unidos Donald Trump durante um encontro oficial com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu contribuíram para cristalizar essa nova fase. Afirmar que uma ação israelense contra os mísseis balísticos iranianos seria “permitida” e que, em caso de avanços no programa nuclear, a resposta seria “rápida”, equivale a redefinir publicamente as regras de engajamento[1]. Não se trata de uma ameaça direta, mas de uma mensagem política de autorização prévia, destinada a reforçar a dissuasão mas também a legitimar, no plano internacional, uma eventual iniciativa militar israelense.

Esse tipo de linguagem marca uma descontinuidade em relação às formulações diplomáticas tradicionais dos EUA, normalmente pautadas por uma ambiguidade calculada. A escolha de explicitar linhas vermelhas e tempos de reação reduzidos sugere que a administração americana pretende manter o Irã sob uma pressão constante, aproveitando um contexto regional já altamente instável.

O alarme estratégico e a função das análises de cenário

Em 11 de agosto de 2025, a “Foreign Policy” publicou uma análise assinada por Trita Parsi que, sem anunciar um ataque iminente nem propor uma previsão cronológica vinculante, reconstruía o quadro estratégico no qual a hipótese de uma ação militar israelense contra o Irã era discutida como possibilidade concreta, descrevendo a existência de uma janela de risco que, segundo fontes regionais e ocidentais, era percebida como plausível tanto pelos aparatos decisórios israelenses quanto pelos líderes políticos iranianos, no contexto do impasse diplomático e da mudança das respectivas posturas dissuasórias[2].

No âmbito estratégico, esse tipo de análise desempenha uma função específica e frequentemente mal compreendida. Não se trata de antecipar eventos futuros com lógica preditiva, mas de tornar visível um debate que normalmente permanece confinado aos circuitos reservados da segurança nacional e do planejamento militar. Quando uma revista como a “Foreign Policy” decide publicar um cenário de guerra, não o faz para buscar o sensacionalismo ou a lógica da notícia de última hora, mas para sinalizar que essa possibilidade já é objeto de avaliações operacionais nos níveis mais altos do processo decisório. Nesse sentido, a análise de Parsi representava uma fotografia de um momento estratégico, não uma profecia.

O artigo destacava como, em Teerã, a hipótese de um novo ataque israelense era considerada crível, se não provável, à luz da experiência do conflito direto de junho de 2025 e do persistente impasse diplomático sobre o dossiê nuclear. Essa percepção de vulnerabilidade não era interpretada pela liderança iraniana como um risco abstrato, mas como uma possibilidade concreta que impunha uma revisão das doutrinas de resposta. Em particular, Parsi sublinhava como o Irã estava abandonando a ideia de uma reação gradual, calibrada ou simbólica, em favor de uma postura que previa uma resposta imediata e em larga escala, capaz de atacar desde as primeiras horas para demonstrar a impossibilidade de uma rápida neutralização do país.

O ponto central da análise não era, portanto, o “quando”, mas o “como” e o “porquê”. Um eventual conflito futuro não seria limitado nem facilmente contido, mas assumiria desde o início uma dimensão regional, envolvendo não apenas Israel e Irã, mas também uma multiplicidade de atores e teatros. O Hezbollah no Líbano, as milícias e as infraestruturas pró-iranianas no Iraque, a frente iemenita e as rotas marítimas estratégicas do Mar Vermelho e do Golfo Pérsico eram indicados como os principais vetores de escalada, capazes de transformar um ataque inicialmente circunscrito numa guerra regional de alta intensidade, enquanto o teatro sírio parecia agora marginal em relação às dinâmicas operacionais anteriores.

A análise destacava ainda como os Estados Unidos, apesar de permanecerem o principal aliado estratégico de Israel, pareciam conscientes dos riscos de uma escalada incontrolável. Washington, segundo Parsi, temia que um novo conflito pudesse escapar rapidamente a qualquer tentativa de gestão política, arrastando os EUA para um cenário de guerra regional com custos militares, econômicos e diplomáticos elevadíssimos. Essa consciência explicava a ambivalência americana: por um lado, o apoio à segurança de Israel; por outro, a busca de margens de contenção e de dissuasão preventiva.

O não acontecimento do ataque dentro da janela temporal indicada não refuta esse quadro analítico. Pelo contrário, sugere que o alarme foi levado a sério e que fatores políticos, diplomáticos e estratégicos congelaram temporariamente a opção militar. Em lógica estratégica, a preparação de um ataque não implica sua execução automática: uma operação pode ser adiada, recalibrada ou suspensa em função de variáveis externas, sem que por isso seja eliminada do perímetro decisório.

Nesse sentido, a análise da Foreign Policy mantém sua relevância mesmo a posteriori. Ela não descrevia um calendário, mas uma dinâmica estrutural: a existência de uma janela operacional israelense, a convicção iraniana de que o próximo conflito não seria contido e a preocupação norte-americana com uma guerra regional fora de controle. Todos elementos que, meses depois, continuam a caracterizar o contexto estratégico do Oriente Médio e a tornar a opção militar contra o Irã uma possibilidade suspensa, mas não arquivada.

A mensagem russa e a legitimação da opção guerra

Um elemento interpretativo fundamental adicional é fornecido pelas declarações do ministro das Relações Exteriores russo Sergey Lavrov, que em setembro de 2025 falou abertamente sobre discussões em curso, entre “pessoas informadas”, sobre a possibilidade de novos ataques contra o Irã[3]. A linguagem utilizada pelo chefe da diplomacia russa é particularmente significativa, tanto pelo que afirma explicitamente quanto pelo que subentende. Lavrov excluiu que se tratasse de simples retórica ou de hipóteses especulativas, situando a opção militar no campo das avaliações práticas e operacionais. Desse modo, a ideia de uma nova guerra contra o Irã é subtraída à dimensão dos boatos ou do alarmismo midiático e reinserida dentro do perímetro do planejamento estratégico.

Do ponto de vista russo, esse tipo de declaração cumpre uma função precisa de legitimação do quadro analítico. Quando um ministro das Relações Exteriores de uma potência global utiliza tal registro, ele não está “prevendo” a guerra, mas atestando que ela foi seriamente discutida nos circuitos decisórios. A escolha de evocar “pessoas informadas” não é casual: ela remete a um nível de conhecimento que ultrapassa o debate público e sugere a existência de intercâmbios reservados, avaliações cruzadas e planejamentos preliminares. Nesse sentido, Lavrov contribui para normalizar a ideia de que a opção militar contra o Irã é parte integrante do leque de escolhas consideradas por Washington e Tel Aviv.

A declaração russa constrói ainda uma moldura preventiva de responsabilidade política. Ao sinalizar que a hipótese de novos ataques já é objeto de discussão, Moscou afirma implicitamente que uma eventual escalada não poderia ser apresentada como uma resposta improvisada ou forçada a eventos inesperados. Ao contrário, ela apareceria como o resultado de uma decisão deliberada, amadurecida ao longo do tempo e avaliada de forma consciente. Desse modo, a Rússia se posiciona antecipadamente no debate internacional, preparando o terreno para atribuir as responsabilidades por um eventual conflito aos atores que o tiverem escolhido.

A mensagem de Lavrov é, porém, dirigida também a Teerã. Na linguagem diplomática russa, o convite implícito é o de não subestimar os sinais provenientes de Washington e Tel Aviv e de considerar seriamente a possibilidade de que a pressão verbal se traduza em ação militar. Historicamente, Moscou tende a utilizar esse registro quando considera que um aliado ou parceiro estratégico corre o risco de interpretar de modo excessivamente prudente ou tranquilizador as intenções ocidentais. Nesse sentido, a declaração funciona também como um aviso prévio, destinado a reforçar a postura dissuasória iraniana e a incentivar uma preparação adequada para o pior cenário.

Ao mesmo tempo, a Rússia evita cuidadosamente comprometer-se com um envolvimento direto. Lavrov não anuncia contramedidas, não formula ameaças e não evoca alianças militares automáticas. Moscou se credencia antes como um ator consciente, informado e capaz de ler antecipadamente as dinâmicas de escalada, mantendo uma posição que lhe permite capitalizar diplomaticamente e estrategicamente eventuais erros ocidentais. Em caso de conflito, essa postura permitiria à Rússia apresentar-se como potência responsável, que havia sinalizado a tempo os riscos de uma escolha militar, reforçando ao mesmo tempo sua influência no sistema internacional.

Nesse sentido, as palavras de Lavrov não devem ser lidas como um anúncio ou uma previsão, mas como um ato político intencional. Elas certificam que a opção guerra contra o Irã nunca saiu do perímetro decisório e que, mesmo nos meses em que a escalada não se materializou, ela continuou a ser avaliada como possibilidade concreta. A legitimação dessa hipótese, pronunciada por Moscou, contribui para tornar o contexto estratégico ainda mais instável, pois confirma que a aparente paz não coincide com o encerramento do dossiê, mas com sua suspensão temporária.

Crise interna iraniana e instrumentalização geopolítica

A fase de tensão internacional entrelaça-se com uma crise interna de natureza econômica e social que atingiu duramente a República Islâmica do Irã, criando um contexto de forte vulnerabilidade percebida mas também de crescente rigidez política. O colapso do rial, a inflação real sobre os bens essenciais e a erosão constante do poder de compra desencadearam protestos difusos em inúmeras cidades do país, caracterizados pela ausência de uma direção política unificada e pela centralidade de reivindicações econômicas, sem se traduzir em uma plataforma política organizada. O aumento dos preços de alimentos, combustíveis, aluguéis e serviços básicos afetou de modo transversal amplos setores da população, alimentando um descontentamento que tem suas raízes em fatores estruturais, agravados pelas sanções internacionais e pelas dificuldades de abastecimento.

No entanto, como frequentemente ocorre em contextos de forte pressão externa, o mal-estar social interno entrou rapidamente no perímetro do confronto geopolítico. As declarações estadunidenses sobre a possibilidade de “salvar o povo iraniano” em caso de repressão dos protestos, somadas ao apoio expresso por círculos políticos e midiáticos israelenses, contribuíram para reforçar, em Teerã, a percepção de uma ameaça híbrida. Nessa leitura, instrumentos econômicos, informativos e políticos somam-se à pressão militar, compondo uma estratégia de desestabilização multinível destinada a explorar as dificuldades internas do Irã[4].

Com a persistência dos protestos, as autoridades iranianas denunciaram uma progressiva degeneração de algumas mobilizações em episódios de violência. Segundo as versões oficiais, parte dos distúrbios teria sido alimentada por grupos organizados e por interferências externas. Nesse quadro inserem-se as prisões anunciadas pela polícia e pelos Guardiões da Revolução de indivíduos encontrados em posse de armas e explosivos, acusados de danificar infraestruturas públicas e de incitar distúrbios em várias províncias, incluindo Lorestan, Isfahan e Qom. O chefe da polícia, Ahmad Reza Radan, declarou que alguns dos detidos teriam recebido financiamento do exterior, reforçando a narrativa governamental de um protesto parcialmente instrumentalizado[5].

O Líder Supremo Ali Khamenei reconheceu publicamente a legitimidade das reivindicações econômicas, distinguindo-as, porém, dos episódios de violência e sabotagem, uma separação que foi reiterada pelas autoridades ao descrever o gerenciamento dos protestos e as intervenções no plano da segurança interna.

Nesse contexto, a crise interna não enfraquece automaticamente o Irã no plano estratégico. Pelo contrário, ela pode reforçar a convicção do grupo dirigente de que uma postura de firmeza, inclusive militar, seja necessária para evitar que as dificuldades econômicas se transformem em vulnerabilidade geopolítica. A leitura predominante nos centros decisórios iranianos parece ser aquela segundo a qual uma resposta percebida como fraca, tanto na frente interna quanto na externa, arriscaria incentivar pressões e interferências adicionais. Nesse sentido, a crise social torna-se paradoxalmente um fator que impulsiona em direção a uma maior rigidez estratégica, reforçando a lógica da dissuasão e a disposição para reagir duramente a qualquer ação considerada parte de um projeto de desestabilização mais amplo.

Israel, Estados Unidos e o precedente venezuelano

O contexto internacional foi ainda mais influenciado pela operação militar estadunidense contra a Venezuela, culminando com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua transferência forçada para os Estados Unidos. Para além das justificativas oficiais fornecidas por Washington, o episódio representou uma descontinuidade relevante nas práticas de intervenção dos EUA, mostrando uma disponibilidade para o uso direto da força contra um chefe de Estado formalmente em exercício fora de um mandato internacional explícito. Em círculos israelenses e entre os setores mais intervencionistas da política americana, essa ação foi interpretada como um precedente estrategicamente significativo, indicativo de um abaixamento do limiar político e jurídico para operações militares contra governos considerados hostis[6].

Essa leitura não implica uma transposição automática do “modelo venezuelano” para o contexto iraniano, mas contribui para redefinir o perímetro do possível. Se até poucos anos atrás uma ação direta contra os líderes de um Estado soberano parecia uma opção extrema, hoje ela é novamente discutida como instrumento viável, pelo menos sob determinadas condições. Para Israel, que há muito considera o programa nuclear iraniano uma ameaça existencial, essa mudança do contexto estratégico estadunidense assume um valor particular. A percepção de que Washington está disposta a apoiar ou cobrir operações de alto risco reforça a credibilidade da opção militar israelense, mesmo na ausência de um consenso internacional formal.

Segundo fontes midiáticas israelenses, o aparato político-militar acompanha com atenção a evolução da crise interna iraniana e avalia diferentes cenários de conflito, não como resposta automática aos protestos, mas como possível exploração de uma fase de vulnerabilidade percebida. Nessa lógica, a instabilidade econômica e social iraniana não é por si só a causa de uma ação militar, mas pode constituir um fator que modifica o cálculo custo-benefício de um ataque. Um Irã ocupado em gerir tensões internas é por vezes retratado, no debate estratégico israelense, como menos capaz de sustentar um conflito prolongado, embora tal avaliação permaneça objeto de controvérsia.

Paralelamente, os movimentos logísticos e aéreos estadunidenses em direção ao Oriente Médio, incluindo transferências de aeronaves de transporte estratégico e ativos de apoio, sugerem a vontade de manter prontas opções militares críveis sem anunciá-las abertamente. Esse tipo de postura, típica das fases de dissuasão reforçada, permite a Washington enviar sinais tanto aos aliados quanto aos adversários, preservando ao mesmo tempo margens de negação plausível. Para Israel, tal presença representa uma garantia implícita de apoio logístico e político, mesmo no caso de uma operação ser formalmente atribuída apenas à iniciativa israelense.

O precedente venezuelano, nesse sentido, não deve ser lido como um modelo operacional a ser replicado, mas como um indicador do clima político-estratégico atual. Ele sugere que a administração estadunidense está disposta a considerar ações de alto impacto simbólico e jurídico se julgadas funcionais para seus interesses estratégicos. Para Israel, isso amplia o espaço do possível, sem no entanto eliminar os riscos de uma escalada incontrolável. Para o Irã, ao contrário, essa mudança reforça a convicção de que a pressão ocidental não se limita a instrumentos econômicos ou diplomáticos, mas pode se traduzir em ações diretas, mesmo sob a cobertura de crises internas ou pretextos humanitários.

Nesse quadro, a ligação entre o precedente venezuelano e o dossiê iraniano não é de natureza mecânica, mas simbólica e política. Ela contribui para redefinir as expectativas dos atores envolvidos, tornando a opção militar menos impensável do que era no passado e inserindo-a de forma estável no cálculo estratégico de Israel e dos Estados Unidos.

A transformação da dissuasão iraniana

Ao contrário das crises anteriores, o Irã enfrenta hoje esse cenário com uma capacidade dissuasória significativamente reforçada, fruto de um processo de aprendizado estratégico acelerado após o conflito direto de junho de 2025. A consciência de não poder mais contar exclusivamente com a profundidade geográfica ou com a dissuasão indireta exercida por meio de atores aliados levou Teerã a investir de forma prioritária na proteção direta de seu próprio território e de suas infraestruturas críticas. Nesse quadro insere-se a aquisição do sistema de defesa aérea russo S-400, que permite ao Irã construir uma defesa multinível capaz de cobrir locais sensíveis como instalações nucleares, bases militares, centros de comando e nós logísticos estratégicos[7].

A introdução do S-400 representa um salto qualitativo em relação aos sistemas anteriormente disponíveis. A capacidade de interceptar mísseis balísticos em fase terminal, de engajar simultaneamente múltiplos alvos e de operar em coordenação com radares avançados amplia significativamente o raio e a eficácia da defesa aérea iraniana. Esse fator impacta diretamente o planejamento operacional de eventuais ataques aéreos israelenses ou estadunidenses, aumentando a complexidade das missões, o risco de perdas e a necessidade de campanhas prolongadas de supressão de defesas. Mesmo em relação a ativos furtivos, a presença de um sistema integrado e estratificado introduz elementos de incerteza que reduzem a confiabilidade de um ataque rápido e “cirúrgico”.

Paralelamente, o interesse iraniano pelos caças multifunção chineses J-10C sinaliza a vontade de enfrentar outra vulnerabilidade histórica de seu aparato militar, representada pela obsolescência da força aérea. Embora não possa competir diretamente com plataformas de quinta geração como os F-35 israelenses, o J-10C oferece capacidades radar AESA e ferramentas de guerra eletrônica que melhoram sensivelmente as capacidades de interceptação, defesa e interdição local. Em um contexto defensivo, essas aeronaves podem operar em sinergia com os sistemas de defesa aérea, contribuindo para saturar o espaço operacional do adversário e complicar ainda mais as operações de ataque[8].

A integração entre defesa aérea avançada e uma força aérea modernizada não deve ser interpretada como a busca de uma paridade tecnológica com Israel ou os EUA, mas como uma estratégia de negação de acesso e de aumento de custos. O objetivo iraniano não é impedir absolutamente um ataque, mas torná-lo suficientemente caro, arriscado e politicamente oneroso para desencorajar sua execução ou limitar sua eficácia. Nesse sentido, a dissuasão iraniana configura-se cada vez menos como passiva e cada vez mais como ativa, fundada na capacidade de resistir ao primeiro golpe e de manter intacta uma capacidade de resposta.

Esse reforço militar insere-se em uma convergência estratégica mais ampla entre Irã, Rússia e China, que fornece a Teerã uma profundidade geopolítica inédita. O acesso a tecnologias avançadas, a coordenação diplomática e a inserção em uma arquitetura eurasiática alternativa à ordem atlântica reduzem o isolamento estratégico do Irã e ampliam o número de variáveis que Washington e Tel Aviv devem considerar em seu cálculo. Em um contexto semelhante, uma ação militar contra o Irã não seria mais uma operação relativamente circunscrita, mas um evento com potenciais repercussões sistêmicas.

Em definitivo, a transformação da dissuasão iraniana não elimina o risco de guerra, mas modifica profundamente sua natureza. Se no passado o Irã podia parecer um alvo vulnerável a uma ação rápida e limitada, hoje ele se apresenta como um ator capaz de absorver o choque inicial e de prolongar o confronto. Essa mudança impõe a Israel e aos Estados Unidos uma revisão de suas doutrinas operacionais e contribui para tornar a decisão de atacar não apenas mais complexa no plano militar, mas também mais custosa no plano político e estratégico.

Conclusão

O conjunto dos elementos analisados sugere que a guerra contra o Irã não seja uma decisão iminente, mas uma decisão possível, preparada e constantemente reavaliada dentro dos circuitos políticos e militares dos atores envolvidos. As declarações do presidente estadunidense Donald Trump, as análises publicadas pela “Foreign Policy”, os avisos formulados por Sergey Lavrov, a crise interna iraniana e a postura estratégica israelense não constituem episódios isolados, mas partes de um mesmo quadro. Elas convergem para delinear um equilíbrio instável, no qual a dissuasão não elimina o risco de conflito, mas redefine profundamente suas modalidades e seus limiares de ativação.

Nesse contexto, o não acontecimento de um ataque dentro das janelas temporais hipotetizadas não representa uma refutação das análises que haviam sinalizado o risco de escalada. Ao contrário, indica que a opção militar foi objeto de um cálculo político mais complexo, no qual custos, riscos e consequências foram temporariamente julgados superiores aos benefícios esperados. Em termos estratégicos, isso equivale a um adiamento, não a um abandono. A opção guerra permanece dentro do perímetro decisório, pronta para ressurgir caso mudem as condições que hoje desaconselham sua ativação.

A transformação da dissuasão iraniana desempenha um papel central nesse equilíbrio precário. O reforço das capacidades defensivas de Teerã não torna impossível um ataque, mas aumenta sensivelmente seu custo militar, político e simbólico. Ao mesmo tempo, a crise econômica e social interna não produziu um enfraquecimento linear do Estado, mas sim uma maior rigidez estratégica, fundamentada na convicção de que qualquer sinal de cedimento possa ser interpretado como um convite para intensificar a pressão externa.

Daí resulta uma situação paradoxal, na qual todos os atores declaram querer evitar a guerra, mas continuam a prepará-la. Israel mantém a opção militar como instrumento de última instância, os Estados Unidos oscilam entre dissuasão reforçada e ambiguidade calculada, a Rússia e a China observam e sinalizam, prontas para capitalizar os efeitos de uma eventual escalada. O Irã, por sua vez, prepara-se para o pior cenário, convencido de que a prevenção do conflito passa pela demonstração de sua capacidade de resistir e de responder.

Nesse sentido, o risco de guerra não desapareceu, mas se transformou em uma tensão estrutural, destinada a reaparecer sempre que uma variável crítica — nuclear, balística ou política interna — ultrapassar o limiar de tolerância dos atores envolvidos. O Oriente Médio entra assim em uma fase de instabilidade prolongada, na qual a paz não coincide com a resolução do conflito, mas com sua suspensão temporária. Uma suspensão frágil, reversível e constantemente exposta à possibilidade de um novo, e potencialmente mais amplo, confronto armado.

Notas

[1] “The National News”, Trump warns Iran: Israel cleared to act against missiles and nuclear threat, 29 dicembre 2025.

[2] T. Parsi, Israel May Start a New War Against Iran Before December, “Foreign Policy”, 11 agosto 2025.

[3] Dichiarazioni di Sergej Lavrov riportate da Gazeta.ru, Vzglyad e Radio1.ru, 27 settembre 2025.

[4] “The Cradle”, Trump vows to rescue Iranian protesters amid nationwide unrest, gennaio 2026.

[5] “The Cradle”, Iran arrests rioters in possession of weapons and bombs as protests enter second week, gennaio 2026.

[6] “Middle East Eye”, Israeli media and US lawmakers signal Iran intervention following Venezuela attack, gennaio 2026.

[7] G. Repaci, Ristrutturazione dell’equilibrio militare nel Vicino Oriente, “Eurasia – Rivista di studi geopolitici”, 28 luglio 2025.

[8] Army Recognition, Iran conducts first known field test of Russian-made S-400 air defense missile system, 27 luglio 2025; Defence Security Asia, 5 luglio 2025.

Fonte: Eurasia Rivista

Gabriele Repaci
Gabriele Repaci

Colaborador da "Eurasia. Rivista di studi geopolitici". Escreve para a revista científica "Das Andere - L'Altro"; já colaborou com a Associação Político-Cultural Marx XXI e com a Arianna Editrice.

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