Venezuela e o direito do poder

Com a ação estadunidense sobre a Venezuela de sequestro do presidente Nicolás Maduro, foi posto à prova como a premissa de garantia abstrata de soberania por vias legais se torna obsoleta ante à aplicação prática de poder.

Constantin von Hoffmeister explica por que a retórica anti-imperialista se desintegra à medida que os impérios impõem sua vontade.

A Venezuela e Maduro se tornaram a prova mais recente de que slogans colapsam quando o poder entra em cena. A retórica anti-imperialista dominou a mídia e a diplomacia, mas nenhuma ação ainda conseguiu mudar o resultado. Os aliados se mantiveram distantes. Uma regra antiga permanece no centro da política mundial: a força faz o direito. Esta é a realidade vivida na multipolaridade darwiniana.

A ação recente dos Estados Unidos na Venezuela marca um momento decisivo na geopolítica contemporânea. A remoção de Nicolás Maduro pela Força Estadunidense mostra que o poder, ao invés de princípios abstratos, continua a moldar os resultados internacionais. O apelo às normas legais e procedimentos multilaterais retrocedem quando os interesses estratégicos se impõem. Esse episódio confirma um padrão recorrente nos assuntos mundiais: os Estados que detêm a força decisiva definem os limites de condutas aceitáveis, enquanto os atores mais fracos se ajustam às realidades que lhe são impostas.

Esse desenvolvimento reforça uma lógica darwiniana que rege as relações entre potências em uma era multipolar. Sobrevivência, influência e expansão favorecem esses Estados capazes de coerção sustentada e unidade estratégica. A Venezuela se manteve isolada, e o isolamento teve suas consequências. A simpatia regional existia em linguagem e simbolismo, mas não surgiu a assistência material. Como previsto por análises geopolíticas, a solidariedade por si só tem pouco peso quando confrontada por uma força esmagadora.

A América do Sul, assim como o Mundo Islâmico, possui profundidade civilizacional, memória compartilhada e continuidade cultural. Uma civilização por si só, porém, não constitui um pólo de poder. Um Estado-civilização requer coesão, liderança coordenada e a capacidade de projetar força. Na falta dessas qualidades, prevalece a fragmentação. Assim como as nações islâmicas sofrem humilhações repetidas pela desunião em conflitos envolvendo Israel, a América do Sul revelou seus limites estruturais ao não oferecer à Venezuela nem proteção ou auxílio.

O ocorrido revive doutrinas assumidas há muito tempo como obsoletas. A Doutrina Monroe continua a operar como o estado atual das coisas, ao invés de uma relíquia histórica, assim como a Europa Oriental permanece fundamental para o ambiente estratégico da Rússia. Esferas de influência perduram mesmo quando expressas em linguagem contida. O que ganha aceitação em uma região adquire legitimidade em outra. O poder aplica princípios simetricamente quando os interesses se alinham, reforçando padrões familiares às antigas eras imperiais.

A retórica anti-imperialista passa por dificuldades, pois se remete a um mundo que já passou. A ordem emergente se assemelha mais ao Século XIX do que ao final do Século XX, moldada por impérios rivais, hierarquias claras e fronteiras disputadas. No momento, quatro pólos soberanos exercem autonomia genuína: Estados Unidos, Rússia, China e Índia. Cada um governa seu próprio espaço estratégico. O episódio venezuelano sinaliza o retorno de uma era definida pelo poder, interesses e estrutura imperial.

Fonte: Geopolitika.ru

Constantin von Hoffmeister
Constantin von Hoffmeister

Cientista político e tradutor alemão.

Artigos: 56

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