Crítica Construtiva da Retirada Tática Russa de Kharkov

O recuo tático russo em Kharkov após a contraofensiva ucraniana demonstra que a OTAN foi capaz de repor a capacidade militar ucraniana graças aos fluxos constantes de armas, munição, equipamentos e mercenários. A Rússia, portanto, precisa elevar seu nível de engajamento e corresponder ao nível da ameaça atlantista.

As forças russas e aliadas estão atualmente realizando um recuo tático da região de Kharkov diante da contraofensiva apoiada pela OTAN em Kiev, que tem tido muito mais sucesso no terreno do que a fracassada em Kherson que a precedeu imediatamente. O autor compartilhou suas ideias sobre este desenvolvimento em um artigo anterior, que responde à questão do quê impulsiona a contraofensiva ucraniana e o que pode vir depois e então conclui com algumas observações gerais sobre o conflito ucraniano.

A presente peça aborda o tema a partir de uma perspectiva diferente, compartilhando críticas construtivas ligadas ao recuo tático da Rússia, com o objetivo de quebrar um pouco do pensamento de manada e quebrar os mitos empurrados pelos quadrantes multipolares da comunidade da mídia alternativa. O Presidente Putin advertiu os membros de suas burocracias militares, de inteligência e diplomáticas (“Estado Profundo”) contra a autoilusão no final de junho, por isso é importante promover essa causa pragmática através de um esforço bem intencionado para avaliar objetivamente o que a Rússia poderia ter feito de forma diferente.

Para começar, aqui estão as principais narrativas da mídia alternativa que são desacreditadas pelos últimos eventos:

  • As forças militares de Kiev foram esmagadas há muito tempo

Muito obviamente, enquanto o conselheiro presidencial ucraniano Alexey Arestovich admitiu no final de março que a Rússia já tinha “praticamente destruído nossa indústria de defesa”, Kiev tem sido capaz, desde então, de se recuperar o suficiente com a ajuda militar da OTAN para fazer progressos no terreno em torno de Kharkov.

  • A Rússia destruiu todas as armas ocidentais que chegavam

Com base no acima exposto, é óbvio que a Rússia não destruiu todas as armas ocidentais que chegaram já que um número suficiente chegou à linha de frente para reequipar com sucesso as forças de Kiev ao ponto de permitir-lhes lançar sua contraofensiva contínua no nordeste.

  • Moscou domina todas as dimensões do campo de batalha

Ao tomar as duas narrativas anteriores como um dado, eles naturalmente começam a supor que Moscou domina todas as dimensões do campo de batalha, embora isso não seja claramente o caso, caso contrário, não estaria se engajando em um recuo tático tão rápida, diferente de qualquer outra empreendida até agora no conflito.

  • O recuo tático é para criar um caldeirão para Kiev

As formas pelas quais a presente manobra de recuo tático está sendo realizada sugerem fortemente que ela não faz parte de uma manobra pré-planejada para cercar as forças de Kiev em um caldeirão, e acreditar que cada passo físico para trás em um conflito é um movimento de “xadrez 5D” é de qualquer forma irrealista.

  • A Rússia está sempre vencendo, não importa o quê

Nenhuma entidade neste mundo é perfeita e nada corre sempre de acordo com o planejado, sendo que a Rússia, como qualquer outro ator internacional (especialmente Kiev, os EUA, a OTAN e o Ocidente Coletivo neste contexto), às vezes sofre contratempos apesar de sinceramente se esforçar para atingir seus objetivos.

A próxima parte da análise descreverá concisamente a realidade por trás dessas narrativas desacreditadas:

  • A OTAN restaurou com sucesso parte das capacidades militares de Kiev

Justamente porque a última fase do Conflito Ucraniano se transformou, sem dúvida, em uma guerra por procuração sem precedentes entre a OTAN e a Rússia, esse bloco liderado pelos EUA fez o possível para restaurar com sucesso algumas das capacidades militares de seus procuradores, apesar da destruição do complexo militar-industrial ucraniano por Moscou.

  • As “linhas de ratos” do Ocidente permanecem em grande parte intactas

Apesar dos melhores esforços da Rússia para destruí-los, os corredores militares-logísticos do Ocidente para seus procuradores ucranianos descritas em abril como “linhas de rato” permaneceram em grande parte intactos e, portanto, funcionam como linhas de vida de Kiev para sustentar o conflito já por mais de meio ano.

  • Nenhuma das partes em conflito exerce o domínio militar

Nem a Rússia, Kiev, nem os aliados da OTAN desta última exercem o domínio militar, não sendo surpreendente a falta de tal status por parte dos primeiros, considerando os muitos Estados que estão lutando por procuração, enquanto que o fracasso do bloco liderado pelos EUA em alcançar o mesmo sugere que a capacidade defensiva de Moscou é mais forte do que eles pensavam.

  • O ritmo, a escala e o tempo dos últimos movimentos da Rússia sugerem surpresa

Os três fatores acima mencionados associados ao recuo tático da região de Kharkov sugerem muito fortemente que a Rússia, seus aliados do Donbass e, especialmente, os civis ficaram verdadeiramente surpresos com as últimas dinâmicas militares e que não há um plano de “xadrez 5D” em jogo.

  • Este recuo tático é quase certamente um retrocesso inesperado

A verificação da realidade anterior leva à provável conclusão de que o processo descrito está se desenrolando devido à pressão externa e, portanto, não foi iniciado voluntariamente pela Rússia, ao contrário do que aconteceu anteriormente com seus recuos táticos do norte da Ucrânia e da Ilha da Serpente, o que, portanto, faria disso um revés inesperado.

Com estas verdades amargas em mente, aqui estão suas possíveis consequências iminentes:

  • Kiev continuará lutando até o Ocidente fechar a torneira militar

Não há dúvida de que as forças de Kiev são mantidas exclusivamente pelo apoio militar ocidental, mas o fato de a ajuda estrangeira já ter resultado na restauração de suas capacidades o suficiente para lançar a última contraofensiva com algum sucesso no terreno sugere que esta guerra por procuração continuará.

  • Espera-se que o Ocidente bombeie mais e melhores armas para a Ucrânia

A menos que a contraofensiva de Kiev termine em sua derrota esmagadora contra a Rússia ou Moscou faça algo assimétrico para remodelar a dinâmica do conflito, espera-se que o Ocidente se sinta encorajado mesmo por um impasse ao redor de Kharkov para bombear mais e melhores armas para a Ucrânia.

  • Recuperar o terreno perdido permanecerá difícil para a Rússia

A Rússia terá dificuldade de recuperar o terreno perdido, considerando a paridade militar prática entre ela e Kiev, devido ao forte apoio de muitos Estados da OTAN, o que significa que o atual revés provavelmente não será revertido em breve, na ausência de uma grande (e possivelmente prolongada) batalha.

  • É provável que haja represálias contra civis simpáticos à Rússia

Kiev provavelmente realizará uma cruel caça às bruxas em plena coordenação com seus patronos da OTAN contra todos aqueles civis locais que não conseguiram fugir dos territórios rapidamente recapturados, o que poderia levar a abusos de direitos humanos em larga escala que o Ocidente previsivelmente negaria, apesar de possíveis provas.

  • A Rússia deve aceitar a realidade em torno de Kharkov ou mudá-la

Existem apenas dois caminhos para a Rússia quanto a Kharkov: 1) ou aceitar a realidade do inesperado revés que acabou de sofrer pelas razões que foram explicadas anteriormente; ou 2) trabalhar ativamente para mudá-la, preparando-se para lutar uma grande e possivelmente prolongada batalha para recuperar seu terreno perdido.

Para encerrar tudo isso, o autor gostaria de lembrar ao leitor a razão pela qual ele publicou estas críticas construtivas ligadas à retirada tática da Rússia de Kharkov. A rápida evolução dos acontecimentos em torno daquela região desacreditou de forma convincente a interpretação prevalecente do Conflito Ucraniano que até agora foi empurrada pelo quadrante multipolar da mídia alternativa. Considerando tudo o que aconteceu nos últimos dias, agora é hora de os principais influenciadores reavaliarem muito do que eles tomaram como certo se eles sinceramente aspiram a obter uma compreensão tão objetiva quanto possível de tudo.

Assim como na introdução, é pertinente na conclusão recordar a cautela do Presidente Putin em se entregar a um pensamento desejoso, para que todos possam se debruçar sobre isso como sua impressão final. Não só os cantos de sereia associados a essa mentalidade infectaram a mídia alternativa, mas também influenciaram alguns membros do “Estado Profundo” russo que são responsáveis pela operação militar especial de seu país na Ucrânia. Se há algum lado positivo neste revés, é que esses oficiais aprenderão com esta verificação da realidade, corrigirão suas falsas percepções e, consequentemente, formularão políticas mais eficazes.

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Andrew Korybko

Analista político e jornalista do Sputnik, é também autor do livro "Guerras Híbridas".

Artigos: 6

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