Byung-Chul Han: Como os objetos perderam sua magia

Por Gesine Borcherdt

Por vezes taxado como um pessimista cultural por ecoar as preocupações tão presentes em Nietzsche e Heidegger sobre a crise do mundo contemporâneo, Byung-Chul Han faz uma dura e profunda crítica como o mundo da informação que se sobrepõe às relações com o outro e com os objetos, que pela força de nossa força vital, adquirem presença.

No outro dia eu acidentalmente derrubei um bule de prata decorativo que era meu companheiro constante há 20 anos. O dano foi imenso, assim como meu lamento. Sofri com a insônia até encontrar um prateiro que me prometeu ser capaz de arrumá-lo. Agora aguardo impacientemente o retorno, temendo que, quando ele retornar, não será mais o mesmo. No entanto, essa experiência me fez pensar: por que eu me desfiz dessa forma?

“As coisas são pontos de estabilidade na vida”, afirma Byung-Chul Han, em seu novo livro Undinge. “Objetos estabilizam a vida humana tanto quanto dão-lhe continuidade”, descreve Han. Matéria viva e sua história conferem ao objeto uma presença, que ativa o seu entorno. Objetos – especialmente os elaborados e historicamente carregados, não necessariamente artísticos – podem desenvolver propriedades quase mágicas. Undinge é sobre a perda dessa magia. “A ordem digital desobjetifica o mundo ao torná-lo informação”, ele escreve. “É a informação, e não os objetos, que regulam o mundo vivo. Nós não habitamos mais a terra ou o céu, mas a Nuvem e o Google Earth. O mundo está se tornando progressivamente intocável, enevoado e fantasmagórico”.

Este tipo de posição crítica ao presente, escrita em frases claras e zen, são características da escrita de Han. Desde Sociedade do Cansaço até The Disappearance of Rituals, ele descreve nossa realidade contemporânea como uma em que as relações com o outro – seja humano ou objeto – estão se perdendo; como uma em que o deslizar de um dedo no smart-phone substitui o contato real e relacionamentos reais. A efêmera qualidade da informação e da comunicação virtual, que oblitera, através da amplificação, qualquer sentido profundo ou permanência, desloca o objeto – seja um jukebox no apartamento do autor, ou um telefone da infância de Walter Benjamin, notoriamente ‘pesados como halteres’ – cuja presença física é residência do componente humano, ou uma aura, que torna o objeto vivo e misterioso.

Segundo Han, a informação, por outro lado, não ilumina o mundo. Ela o deforma, horizontalizando a fronteira entre o real e o falso. “O que importa é o efeito de curto prazo. A efetividade substitui a verdade”, ele escreve. Para Han, nossa cultura de estímulo pós-fatual é uma que transborda valores que consumam o tempo, como lealdade, rituais e comprometimento. “Hoje nós corremos atrás de informação sem adquirir conhecimento. Tomamos nota de tudo, sem adquirir visão. Comunicamos constantemente, sem participar comunitariamente. Possuímos dados e mais dados, sem memória. Acumulamos amigos e seguidores, sem encontros. É assim que a informação desenvolve uma forma de vida: inexistente e impermanente.”

Han fala da infosfera que se sobrepõe aos objetos. A atmosfera que se desenvolve no espaço real através de relações com os outros e o que ele chama de “coisas próximas do coração” desaparece em favorecimento a telas com touchscreen, que sugerem experiências breves e incorpóreas. São essas posições que renderam a Han a fama de pessimista cultura – de ser um romântico reacionário e lamurioso que adora a autocitação. Sim, naturalmente o botão de “Like”, o “Inferno da Similitude” e Martin Heidegger como a antítese terrena de nosso mundo afirmativo e virtualmente definido são tópicos para os quais retornar. Esses mantras – há uma qualidade quase meditativa em sua escrita, que fornecem percepção e entendimento sem forçar o leitor às esferas superiores – devem ser entendidos como âncoras para conceitos básicos, deixando um horizonte a se expandir com a leitura.

Mesmo não sendo um alemão nativo, Han é fascinantemente capaz de dissecar a morosa semântica de Heidegger, o filósofo da Flores Negra, em sua análise do contemporâneo, assim como é capaz de lapidar as palavras de um modo que elas pareçam possuir uma qualidade tipicamente física que quase permite que se tornem elas mesmas, objetos. De fato, muitos artistas são atraídos pelo trabalho de Han exatamente por sua elisão de forma e significado: a linguagem pictórica mínimo-existencial que ele utiliza tão pontualmente, de modo similar ao melhor tipo de arte. Também é notório que Han não tenha precisado esperar pela pandemia para descrever como estamos voluntariamente amarrados aos nossos computadores, como exploramos a nós mesmos no modelo home-office, como isso nos faz sentir criativos, espertos e conectados enquanto encobrimos nossa sensação de precariedade com deslizes de tela e curtidas; ele fez isso há mais de uma década.

Agora ele atingiu o estágio de abordar o comprometimento e a responsabilidade, citando passagens d’O Pequeno Príncipe: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa”, como diz a raposa. Além de “só se vê bem com o coração.” Ademais, Han o faz de um modo tão desarmante que você pode entender porque outros filósofos fazem-lhe desfeita. Numa disciplina que se revela na complexidade e falta de contato com a realidade, alguém como ele não pode se dar bem. No entanto, devemos observar que enquanto aqueles que estoicamente agarraram a urtiga sempre foram picados, na maioria das vezes suas ações acabaram provando que estavam certos.

Fonte: ArtReview
Tradução: Augusto Fleck

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