A Díade Direita-Esquerda perante a Metafísica do Populismo

Os melhores analistas políticos já perceberam que a distinção direita/esquerda é obsoleta. Ela, na prática, sempre foi uma simplificação artificial, mas hoje mesmo essa simplificação não serve mais para pensar a política contemporânea. Vivemos a era do populismo, em que líderes patrióticos (ou pelo menos com discurso patriótico) dotados de uma relação pessoal com as massas enfrentam instituições políticas alinhadas com a promoção do globalismo.

Direita e esquerda são categorias artificialmente construídas por convenção social para designar comunidades políticas de traços convergentes ou análogos sobre uma ideia nevrálgica referencial mínima que permita identificar pessoas, sistemas de pensamento e movimentos dentro de um espaço político. Definindo o espaço político como “a área do conflito político que está na base da relação entre eleitores e partidos de um determinado sistema político em um certo momento histórico. Todo sistema político é caracterizado por um certo número de conflitos: conflitos sobre a distribuição da renda, sobre a intervenção do Estado na economia, sobre as relações entre Estado e Igreja, ou conflitos de natureza linguística, étnica, etc.” (Bobbio, 1998:530).

De modo geral, a dinâmica da díade esquerda-direita, como simplificação uninominal, tem sido geralmente considerada como sendo caracterizada por uma ambivalência inerente, ou seja, que ela varia de acordo com o acordo mútuo (expresso ou tácito) do momento sociopolítico, como principal razão para sustentar – em nível coloquial – sua natureza ultrapassada no que concerne tentar refletir, de forma fidedigna, os fenômenos políticos contemporâneos. Neste sentido:

“Doutrinas que entre si são muito diferentes umas das outras são cobertas sob as respectivas bandeiras da esquerda e da direita. Pelo menos se houvesse um elemento fixo e permanente, mas comum entre estas doutrinas, que permitisse sua oposição sob designações diferentes, ainda poderíamos falar com propriedade e dizer que elas representam conceitos diferentes. Nada fixo e permanente, no entanto, caracteriza a direita e a esquerda. O cristianismo primitivo hoje poderia ser chamado de esquerdista em relação à ordem hegemônica da antiguidade pagã; o mesmo cristianismo seria direitista diante da rebelião da Reforma e do humanismo que surgiu no início da história moderna. O liberalismo revolucionário e esquerdista de 89 é hoje uma atitude burguesa e direitista se confrontada com os movimentos epilépticos do comunismo bolchevique” (Pico, 1928:103).

É verdade que esta ambiguidade denotada é evidente, no entanto, esta não é a razão da aludida caducidade ou não em seu sentido pleno, como veremos a seguir, pois independentemente desta aparente entropia incoerente com a qual a díade nos é mostrada em diferentes cenários, é possível identificar aquela ideia nevrálgica referencial mínima, que nos permite até hoje, continuar a falar de esquerda e direita.

Esta ideia flui da práxis histórica dos atores cuja ação política vêm dando sentido aos respectivos setores no espaço político, e que se projetou (com as nuances do caso) em tempo e forma ao longo dos últimos dois séculos. Da direita como aquela comunidade política caracterizada em defender a manutenção de um status quo ou ordem de coisas (um sistema sociopolítico ou econômico ou moral) com mudanças mínimas; e da esquerda como a mudança profunda das estruturas subjacentes a essa ordem de coisas. Na mesma linha:

“A esquerda representa uma reação contra qualquer tentativa de estabilidade ou fixação; uma renovação das formas que procuram se manter contra a corrente destrutiva do tempo. Em contraste, devemos entender o significado da palavra direita… (…) do homem da direita e o do homem da esquerda. O primeiro está ligado ao presente ou ao passado próximo, na medida em que é presente ou passado próximo; o segundo julga o futuro como bom pela simples razão de ser novo. Uma atitude instintiva ou sentimental, uma mera expressão de um temperamento primário, é posteriormente decorada com o aparecimento de doutrinas fundamentadas que selam a diferenciação doutrinária do instinto” (Pico, 1928:104).

Essas abordagens são as que, para alguns, sustentam que a díade, embora não sem seus problemas inerentes devido a sua natureza dúctil, ainda é útil para a representação gráfica, em termos gerais, da dinâmica política atual. Esta é a posição de Norberto Bobbio (1998) e Giovanni Sartori (2005).

Mas o que acontece quando a população mundial (e o Peru não é estranho a isto) se sente cada vez mais distante dos políticos e partidos, e mais próxima de suas famílias, seus amigos, seus colegas de trabalho e seus clientes como meios de construir opiniões políticas, distanciando-se assim da política partidária de esquerdas e direitas. Esta é a verdadeira razão pela qual atualmente temos posições conflitantes sobre se este díade continua sendo confiável para a categorização de programas e propostas políticas, assim como a posição de pensadores como Alberto Buela, Diego Fusaro e Aleksander Dugin. Este é um fato sintomático, onde a população exige justiça social e defesa dos direitos dos trabalhadores dos políticos de esquerda, mas obtém a defesa dos direitos LGBT, feminismo radical, aborto e eutanásia irrestrita; ou exige ordem e estabilidade dos políticos de direita, mas obtém corrupção, negociatas e políticas econômicas para o benefício exclusivo do grande empresariado. Em outras palavras, há uma ruptura entre o que o eleitorado espera dos políticos de acordo com sua localização no espaço político, e a realidade política onde parece que (apesar das frações dissidentes) a esquerda e a direita se liberalizaram. A este respeito, o pensador russo Aleksander Dugin (14.12. 2019) identifica a situação como a decomposição estrutural das esquerdas e direitas, no sentido de que houve uma dissociação entre direita e esquerda com respeito a suas narrativas econômicas e políticas, com o aspecto econômico tendo precedência na direita (em detrimento da defesa dos valores e tradições populares como princípios políticos), e o aspecto político à esquerda (em detrimento do aspecto econômico de classe em favor dos trabalhadores), e é precisamente esta perturbação que cria o sentido de identidade ou semelhança entre esquerda e direita. É esta situação que lançou as bases para a emergência do chamado fenômeno do populismo contemporâneo como o progressivo distanciamento das massas populares em relação à díade esquerda-direita e sua aproximação com alternativas consideradas periféricas deste díade (o que explica a validade e ascensão de opções messiânicas (a), nacionalistas (b) e conservadoras (c) na política peruana, como por exemplo o etnocacerismo a.1, o FREPAP a.2, a Unión por el Perú b.1, a RUNA b.2, o Perú Libre b.3 e o Renovación Popular c.1, como alguns exemplos concretos). A este respeito:

“O populismo está no espaço ideológico onde a luta dos trabalhadores contra os capitalistas, esquecida pela esquerda liberal, e a defesa e luta pelos valores tradicionais, esquecida pela direita liberal, se encontram. (…)

…George Bernanos disse que enquanto a burguesia é de esquerda e direita, o povo não o é. O povo é integralmente povo, ele é inseparável. O povo quer justiça social e valores tradicionais. O povo não se importa se isto é coerente ou corresponde às ideologias dominantes da esquerda ou da direita. O povo quer uma sociedade baseada nos princípios da justiça e quer preservar sua identidade e suas tradições, suas instituições…” (Dugin, 14.12.2001).

Entretanto, o próprio Dugin afirma a existência de populismos de direita e esquerda (o que nos leva a afirmar que estamos em uma fase de transição e que a díade ainda é útil, embora contingentemente), mas que, por sua natureza muito popular, eles são capazes de alcançar pontos de convergência comum pelas mesmas razões que agora nos parece que esquerda e direita são a mesmice política. Isto endossa o fato de que a metafísica inerente ao populismo, ou seja, a causa primária deste fenômeno está em “…que por trás da luta da reação populista está uma ideologia de populismo integral que une a justiça social e a defesa dos valores tradicionais” (Dugin, 14.12.2019).

Fonte: Diario La Verdad

Israel Lira

Bacharel em Direito e Ciência Política pela Universidade de Lima. Diretor Adjunto do Centro de Estudos Crisolistas (CEC) e chefe do Departamento de Estudos em Filosofia do CEC, membro do Conselho Diretivo da Sociedade Peruana de Filosofia (SPF) para o período de 2019-2020, Coordenador Geral do Coletivo de Jovens pela Segunda República, investigador independente, colunista e ensaísta. Assessor Técnico-Legal em Contratações com o Estado, Mediação e Junta de Resolução de Disputas.

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