Heidegger e Nietzsche: O Pensamento Metafísico como Visão e Enigma

Neste artigo, exploraremos, com as orientações de Heidegger, a emblemática figura do Zaratustra de Nietzsche e os ensinamentos fundamentais que o rondam em busca de um caminho ainda não muito explorado para a metafísica, vista como visão e enigma.

Para Martin Heidegger (1889 – 1976), o levantar de um mundo é abrir um confronto (Auseinandersrtzung). Ao estudar uma obra filosófica estamos levantando o mundo de seu autor e, portanto, sua história, conflitos, problemas, pensamentos, ideias. Desta forma, esse levantar, gera um conflito direto entre o nosso mundo e o mundo do autor. Por essa razão, Heidegger diz que fazer Filosofia é entrar em confronto direto com a tradição. Não para apontar seus erros e contradições, mas sim, torna-la viva. Entretanto, é obvio que não se pode reconstituir o mundo de um autor de forma totalmente fiel, pois, sempre seremos homens de nossa era (moderna ou pós-moderna) pensando um homem de outra hera. Portanto, deve-se ter cautela para não nos tornarmos anacrônicos e tirarmos conclusões que não tenham vinculo algum com o pensamento do autor escolhido. É assim que Heidegger desenvolve o método rememorante (Andenken), que consiste em se debruçar em um texto e pensar em conjunto com o autor. Não para refutá-lo ou denegri-lo, mas para que partir desta volta, seja possível desdobrar seu pensamento e, consequentemente, explorar caminhos não desenvolvidos e talvez nem mesmo pensados. Devemos nos entregar ao pensamento de um texto para que seja possível sua compreensão – mesmo que não seja em sua totalidade. Só assim é possível superar a tradição, isto é, mergulhar de forma ainda mais profunda em suas questões.

Aqui, nosso objetivo é confrontar as ideias de Friedrich Nietzsche (1844 – 1900), nos utilizando da visão de Heidegger em seu texto Quem é o Zaratustra de Nietzsche? Para compreender a obra de Nietzsche devemos entrar em seus pensamentos, levantando o seu mundo. Juntamente com o texto de Heidegger passaremos por alguns capítulos da mais famosa e incompreendida obra de Nietzsche: Assim Falou Zaratustra.

Heidegger inicia seu texto de maneira muito interessante: destrinchando o papel de Zaratustra a partir do título. Como sabe-se, o título completo do livro é Assim Falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém (1883 – 1885). Mas como um livro pode ser para todos e para ninguém? É intrigante como Nietzsche desde o princípio soube que sua obra iria causar incômodo. Zaratustra, é de fato um livro para todos, pois, qualquer um pode abri-lo, ler suas páginas e achar um livro pelo menos interessante. Porém, também é para ninguém, pois poucos irão extrair os pensamentos mais profundos do autor, compreender seus ataques e ouvir a voz sua apontando as deficiências do mundo moderno. Muitos fizeram e farão uma leitura superficial da obra, lendo-a como um livro qualquer. Zaratustra é muito mais. É uma obra que incomoda, extremamente atual, de genialidade ímpar e que recusa a mediocridade. Por isso, devemos dar atenção aos pensamentos de Nietzsche com a orquestral orientação de Heidegger.

Avançando no texto, Heidegger continua a “brincar” com as palavras que compõem o título da obra, para assim, dar início a uma série de exposições da filosofia de Nietzsche. Ora, se a obra se chama Assim Falou Zaratustra, deve-se imaginar que esse tal de Zaratustra tem algo a nos dizer, uma mensagem talvez. Mas o que pode ser essa tal mensagem? No capítulo intitulado “O convalescente”, a personagem criada por Nietzsche acorda de sua cama gritando e agonizando. Assim que ouviram os gritos, seus animais logo aproximaram-se de Zaratustra. Vejamos as palavras que Nietzsche tira da boca de sua personagem:

Sobe, pensamento abismal, de minha profundeza! Eu sou teu galo e teu alvorecer, verme adormecido! De pé, de pé! Minha voz te despertará como o canto do galo! Desata os grilhões de teus ouvidos: escuta! Pois eu quero ouvir-te! De pé, de pé! Aqui há trovão bastante, até os túmulos aprenderão a ouvir! E limpa o sono de teus olhos, e tudo de imbecil e cego! Escuta-me também com teus olhos: minha voz é um remédio também para cegos de nascença. E, uma vez desperto, deverás ficar eternamente desperto. Não é meu habito acordar bisavós para dizer-lhes que – continuem a dormir! Tute moves, te espreguiças, rouquejas? De pé, de pé! Não deves rouquejar – mas falar! Zaratustra te chama, o sem-deus! Eu, Zaratustra, o advogado [porta-voz] da vida, o advogado [porta-voz] do sofrimento, o advogado [porta-voz] do círculo – chamo a ti, meu pensamento mais abismal! Viva! Estás vindo – eu te ouço! Meu abismo fala, minha derradeira profundeza eu consegui trazer à luz! Viva! Vem! Dá-me a mão – – ah! Larga! Ah! Ah! – Nojo, nojo, nojo – – – ai de mim!

Para compreendermos o que Nietzsche quis dizer na citação, devemos ir por partes. Tomemos o texto de Heidegger como guia. Heidegger cita: “Eu, Zaratustra, o porta-voz da vida, o porta voz da dor, o porta voz do círculo…” (HEIDEGGER, 2008, p. 88). O que é ser um “porta-voz”? O que é essa “vida”? O que é essa “dor”? O que é esse “círculo”? A partir de agora, adentraremos ainda mais fundo nos conceitos da filosofia de Nietzsche.

O que significa ser um “porta-voz”?

Zaratustra, como falamos, é aquele que se anuncia como o porta-voz da vida, da dor e do círculo. Ser um porta-voz implica em passar uma mensagem ou aviso; é aquele que fala por alguém ou por algo; passa determinada mensagem que não foi necessariamente forjada por ele. Em muitas passagens, Zaratustra está acompanhado (seja por seus animais ou discípulos) e falando de algo para alguém, como um mestre. Portanto, Zaratustra é o mestre que anuncia a vida, a dor e o círculo. Sigamos com as palavras de Heidegger:

[…] na linguagem de Nietzsche, ‘vida’ significa: a vontade de poder como traço fundamental de tudo que é e não só do homem. O que ‘dor’, ‘padecer’ significa, Nietzsche diz com as seguintes palavras: ‘Tudo que padece quer viver…’. Tudo, ou seja, tudo que é segundo o modo de ser da vontade de poder. Isto quer dizer: ‘As forças configuradoras se chocam’. ‘Círculo’ é o sinal do anel, cujo anelar-se volta a si mesmo e assim conquista sempre o eterno retorno do igual”

Após essa breve explanação de Heidegger, pode-se concluir que Zaratustra é o mestre porta-voz da vontade de poder e do eterno retorno do igual. Vejamos então o que são esses conceitos dentro da filosofia de Nietzsche.

O que significa vontade de poder?

Quando buscamos na tradição filosófica o significado de vontade, percebemos que o conceito está presente desde a época da Filosofia Clássica. Em Aristóteles, a vontade aparece nos tratados De Anima e Ética a Nicômaco: vontade é uma apetição racional voluntária da faculdade da alma intelectiva humana. Em Nietzsche temos vontade de poder, algo novo em relação às outras interpretações da tradição. Não se pode cristaliza-la como uma faculdade da alma. O significado de Vontade aqui é para além do homem – tanto que Nietzsche direciona uma crítica para Schopenhauer afirmando que ele reduziu a vontade à uma antropologia. Na concepção de Nietzsche, a vontade de poder tem caráter cosmológico, ela atravessa tudo que possui vida; vê-se: onde há vida, há vontade de poder, é a vontade pela vontade. Vontade é um eterno devir: subir e descer; nascer e padecer; criar e destruir, sem fim. É aquilo que tudo abarca e a tudo dá sentido, mesmo ir contra essa vontade é afirma-la, pois tudo ela move. Vontade de poder aqui é o dizer sim para vida, aceitar a vida como ela é. Aqui, vale-se destacar outro conceito fundamental de Nietzsche que é anunciado por Zaratustra pela primeira vez em seu prólogo: o super-homem. Zaratustra ao descer as montanhas que habitava quando completara trinta anos, avista uma cidade e decide aproximar-se. Ao chegar à cidade, ouve que um equilibrista fora anunciado, e logo começa a falar: “Eu vos apresento o super-homem. O homem é algo que deve ser superado. Que fizestes para superá-lo? […] Vede, eu vos ensino o super-homem! O super-homem é o sentido da terra. Que a vossa vontade diga: o super-homem seja o sentido da terra!” (NIETZSCHE, 2011, p. 13-14). Em Nietzsche, o super-homem é aquele que supero o homem, o para-além-do-homem. O super-homem é aquele que permanece fiel a terra e não se projeta para vidas supra-terrenas. Ele ama a terra, ama a vida da forma que ela é, seja na dor seja no gozo. O super-homem é aquele que faz a transvalorização dos valores, ou seja, ele cria seus próprios valores sem torná-los dogmas, e que, por isso tem a necessidade de constantemente abandoná-los e criar novos valores. Ele não cristaliza a vida, ele a torna fluida. Zaratustra logo a frente – ainda na cidade – diz: “O homem é uma corda, atada entre o animal e o super-homem – uma corda sobre o abismo.” (NIETZSCHE, 2011, p. 16). Essa passagem significa que o homem – como já foi dito – é algo que deve ser superado, ele é uma ultrapassagem. O homem é a ponte entre o animal e o super-homem, deve possuir declínio pois só assim chegará ao outro lado. O homem diz sim a vida e essa afirmação transborda-o. Aproprie-se da força (ou Vontade) que move o universo, constitua-se no movimento da auto-superação, aceite-se, destrua-se e torne-se novamente.

Que é, pois, o eterno retorno do igual?

Na citação extraída de Assim Falou Zaratustra, logo no início, Zaratustra diz: “Sobe, pensamento abismal, de minha profundeza!” (NIETZSCHE, 2011, p. 207). O que é esse pensamento mais abismal de Zaratustra que o faz retrair-se e agonizar? No capítulo intitulado “Da visão e do enigma”, Zaratustra conta a seus discípulos sobre um encontro que teve com um anão. Zaratustra estava subindo uma montanha e, em certo momento, encontrou seu maior inimigo, o espírito de gravidade aqui encarnado na figura de um anão, o qual pediu para que carregasse-o nas costas. Ao aceitar, o pedido do anão, Zaratustra colocou-o em suas costas e pôs-se a caminhar. Depois de um certo tempo de caminhada, ambos encontraram um portal com o nome de “Instante”, e logo Zaratustra indaga o anão sobre os dois caminhos que se encontra na face do portal. Zaratustra diz que ninguém trilhou os caminhos e questiona o anão se ele acha que em algum momento eles se encontrarão ou se contradizem eternamente. O anão rapidamente responde: “Tudo o que é reto mente”, e ainda, “Toda verdade é curva, o próprio tempo é um círculo” (NIETZSCHE, 2011, p. 150). Zaratustra ao ouvir tais palavras enche o peito de fúria e grita com o anão dizendo que ele está simplificando e dando uma resposta rápida e medíocre para sua pergunta. Nesse capítulo, o eterno retorno – o pensamento mais abismal de Zaratustra – nos é mostrado. Para o nosso filósofo “[…] o homem deve ser isso para o super-homem: uma risada, ou vergonha” (NIETZSCHE, 2011, p. 14) . Em outros momentos, Nietzsche fala que o homem é um animal que sente vergonha. O que isso quer dizer? O homem não consegue ao menos escutar sua voz sem sentir ódio. Ele constantemente foge de si, seja para outros mundos, planos, eras, lugares. Ele não aceita a realidade como tal. O eterno retorno , nesse caso, é a aceitação de si, aceitação da realidade e, em especial, da vida. Mas não só aceitação, é o anseio por ela. Conforme já explicitado, quando tratamos da vontade de poder, que é justamente algo que ultrapassa as coisas que possuem vida – uma vontade cósmica – é necessário ter o anseio pelo eterno retorno. “Torna-te aquilo que és” a passagem de Píndaro que Nietzsche constantemente retoma torna-se ainda mais evidente. Aceite-se e, portanto, ama-te para que possa superar-se. Porém, no fim – como acentua Heidegger – o eterno retorno ainda permanece como visão e enigma, como mistério. É um pensamento que, do mesmo modo que agimos com um mestre, deve ser questionado e deixado em aberto, sujeito a novas interpretações.

Mas, afinal, quem é o Zaratustra de Nietzsche?

Como vimos, os conceitos da filosofia de Nietzsche estão conectados entre si. Mas ainda falta uma peça fundamental: Zaratustra. Zaratustra é o que anuncia o eterno retorno e a vontade de poder. Vontade de poder, eterno retorno e super-homem estão conectados. Aqui, Zaratustra é o anunciante do eterno retorno. O super-homem é anunciado pelo mesmo no prólogo da obra. Mas a vontade de poder é senhora de si mesma, é soberana. Mesmo que a neguemos, ainda estamos dentro dela, somos perspectivas da vontade de poder, que constantemente aquece e esfria nossos corações. Dela não há escapatória. Então, Zaratustra é o mestre que anuncia a vontade de poder e o super-homem. Ele é a chave para que seja possível compreender as lições. Ele é a ponte que deve ser atravessada. Portanto, Zaratustra é aquele que ensina o eterno retorno e o super-homem; aquele que anuncia o super-homem e o eterno retorno. Ademais, Zaratustra só é o mestre que anuncia o eterno retorno pois ele é o anunciante do super-homem. Portanto, “as doutrinas se co-pertencem num círculo” (HEIDEGGER, 2008, p. 104).

Mas todo mestre precisa ser superado e toda ponte deve ser atravessada. Para Nietzsche, a maior vergonha de um aluno é não superar seu mestre. Os ensinamentos de Zaratustra, são a síntese de toda uma tradição metafísica. Mesmo que Nietzsche tente fugir disso ele acaba mergulhando nas profundezas do pensar metafísico. Os pensamentos do filósofo acabam levando a metafísica ao seu extremo, ele vai além. Mas esse “ir além” não significa um progresso, mas sim, um retornar; e o retornar não é uma retração, mas um ir ainda mais fundo que se torna um salto para além do pensamento. Portanto, confrontar Nietzsche, não é refutá-lo, mas, ir até o cerne de seus pensamentos, é pensar novamente com ele. Os pensamentos de Nietzsche trazem a consumação da metafísica, ou seja, tornam ela ainda mais extrema. Mas o pensamento metafísico levado ao extremo, consequentemente gera algo impensado, ou seja, como visão e enigma.

É justamente por serem vistos como visão e enigma que devemos constantemente revisitar Nietzsche. Pensar novamente com ele pode nos revelar algo ainda velado. Não devemos deixar de lado o ainda não pensado. É justamente por ser este não pensado que devemos persegui-lo ainda mais. Os pensamentos do grande filósofo alemão abrem novos caminhos para o pensamento metafísico. Muitos deles ainda não trilhados e estão nos esperando.

REFERÊNCIAS
HEIDEGGER, M. Ensaios e Conferências. Petrópolis: Vozes, 2008
NIETZSCHE, F. W. Assim Falou Zaratustra. São Paulo – Companhia das Letras: 2011
HEIDEGGER, M. Marcas do Caminho. Petrópolis: Vozes, 2008

João Silvério

Membro da NR-MG e estudante de Filosofia.

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