Imagem espelhada

O Prof. André Luiz questiona discurso fácil e simplista acerca de Elomar, Chico Buarque, Suassuna, indústria cultural, contracultura e rock, que pode vir tanto da esquerda como da direita.

O dualismo e certo maniqueísmo têm seu lugar, mas nem todo lugar e tempo é apropriado pra dualismos. Um anjo tropeça numa nuvem e cai dos céus sempre que o dualismo acontece em um âmbito e momento inapropriado.

O terreno da arte e da música popular é um dos terrenos mais afetados por esse tipo de desvio.

Uma coisa é dizer que o posicionamento político de Elomar é uma merda. Outra é dizer que isso afeta minimamente o significado de sua obra, sua genialidade e a reverência que devemos a ele. Esse tipo de patrulhamento ideológico é a imagem espelhada daqueles liberais que cercaram Chico Buarque num bar da Zona Sul carioca pra cobrá-lo por suas adesões petistas.

Lembro de um antigo moderador da comunidade para-oficial do Olavo de Carvalho, no antigo Orkut, passando o vexame de demonizar Ariano Suassuna por ele ser socialista. Na cabeça do sujeito, se Suassuna era comunista, então não pode ter sido um gênio. As contribuições de Eisenstein pro cinema seriam imbecilidades, então. Glauber Rocha não teria significado nenhum.

Ainda que uma obra de arte esteja repleta de pressupostos ideológicos e questões classistas, ela não pode ser corretamente compreendida por meio apenas de sociologismos e historicismos, a não ser que se tenha uma visão muito pobre do próprio significado e dimensão da arte.

E isso vale também para a indústria cultural de massas. Ainda que a indústria seja ruim e tenha um sentido político funesto, a arte que se veicula por meio dela pode ter grande qualidade. [Suassuna acertava na sua avaliação mais geral sobre a pasteurização do gosto médio, que deve ser combatida, mas errava ao aplicar um juízo negativo a priori contra toda e qualquer obra surgida desse processo.]

A mesma coisa acontece quando se fala da cultura norte-americana. Estamos falando da sociedade mais detestável e antitradicional da história conhecida, e cuja exportação de valores é o principal instrumento do cramulhão pra demolir barreiras contra seus artifícios. Mas achar que isso basta para explica o jazz, o blues, o country, o soul, ou o cinema, ou a literatura ianques é de uma cegueira atroz.

Não existe contraposição absoluta em entender os beatniks como fruto da degeneração burguesa que, no fim das contas, deu em merda, e ao mesmo tempo admirar a profundidade de certas visões e estilos estabelecidos pelo nascimento da contracultura.

Os Beatles, e mais especificamente John Lennon, são também alvos ”fáceis”, até pela posição central que ocupam na consolidação do rock e da música pop internacional, e também no surgimento da indústria de consumo adolescente e na revolução cultural dos anos 1960. Mas musicalmente os Beatles são luz, e não há neles treva nenhuma.

Parece o erro de Tinhorão ao pretender analisar Tom Jobim e a Bossa Nova por conteúdo de classe. Então, se a música é feita por gente rica da Zona Sul, é ruim. Se é feita por populares e pobres, então é boa. Se dialoga com a experiência da classe média, é música ruim. Se dialoga com a experiência do morro, então é genial.

Mas a Rosa floresce no ponto de encontro das hastes da Cruz, seja ele qual for.

André Luiz

Historiador, mestrando em História pela UFRJ, cristão ortodoxo e membro da NR-RJ.
 

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