Bruce Lee sobre a Morte e ser um Artista da Vida

por Maria Popova

O presente artigo apresenta a perspectiva filosófica de Bruce Lee, o entendimento integral da existência, o Lee como Artista da Vida, tomando a vida e a ação como obras de arte.

“O intangível representa o verdadeiro poder do universo. É a semente do tangível. É um vazio vivo porque toda a forma provém dele, e aquele que percebe o vazio é preenchido pela vida, poder e amor de todos os seres.”

“Você precisa de um empurrão? / Você precisa de um pouco de escuridão para prosseguir?” Pergunta Mary Oliver em seu impressionante poema de amor à vida, composto no despertar de um terrível diagnóstico. “Deixe-me, então, ser urgente como um punhal, / e lembrá-la de Keats, / que de tão único de propósito e pensamento, por um tempo, / teve uma vida inteira.”

Pense em Keats quando precisar de um estímulo para viver – Keats, que morreu no auge de sua potência poética, já tendo dado à humanidade mais beleza e verdade em sua curta vida que a maioria daria se tivesse a eternidade. Ou pense em Bruce Lee (27 de Novembro, 1940 – 20 de Julho, 1973) – outro raro poeta da vida, que também perseguiu a verdade e a beleza, ainda que dum modo radicalmente diferente; que também foi ceifado em seu auge, pelo acaso, o titereiro supremo do universo; quem também deixou um legado que modelou para inúmeras gerações a sensibilidade, visão de mundo e despertar para a vida.

No banco em frente a lápide de Bruce Lee no cemitério Lake View de Seattle, onde ele foi sepultado ao lado do filho, também ceifado na juventude, as palavras de tributo aparecem: “A chave para a imortalidade é primeiramente viver uma vida digna de ser lembrada”. Essas palavras são comumente atribuídas erroneamente ao próprio Lee – talvez por causa da proximidade, talvez porque irradiam uma verdade elemental sobre sua vida. O ethos animado dessa vida incomum aparece com novo vigor em Be Water, My Friend, escrito por sua filha, Shannon Lee, e inspirado em sua famosa metáfora sobre resiliência – um pequeno e potente livro, que entrelaça a filosofia atemporal de seu pai com suas próprias reflexões, de sua própria vida corajosa, ao tornar uma perda inenarrável em um caminho de luz e força silenciosa.

No último ano de vida, Lee estava nos estágios finais de uma longa negociação com a máquina hollywoodiana sobre seu velho sonho – um filme capaz de introduzir a filosofia Oriental na cultura Ocidental através do emocionante cavalo de Tróia da ação marcial. Um sonho alcançado por pura força de vontade e visão, já que Hollywood inventara um modelo inicial e muito resistiu aos profundos conceitos que Lee, arriscando perder oportunidades milionárias, recusava abandonar para ser mero ator em um filme de ação estúpido, sem imaginação e reforçando estereótipos; ele insistia com alterações e elevações, que acabaram por não só reescrever o script radicalmente – adicionando, entre muitas outras bases poético-filosóficas, a nova e icônica cena do “dedo apontado para a Lua” – mas dar ao filme o agora icônico título: Enter the Dragon.

Durante toda a experiência, que levou Lee para além dos limites de sua imaginação criativa e existencial anterior, ele começou a desenhar e redesenhar uma obra que ele intitulava “In My Own Process”. Nela, um século depois de Tolstói escrever em seu diário de autodescoberta e desenvolvimento moral que “esta é essência completa da vida: Quem é você? O que é você?”, o jovem rei-filósofo das artes marciais almejava uma “revelação sincera e honesta do homem chamado Bruce Lee”. Ele decidiu:

Eu sei que não fui chamado a escrever qualquer confissão verdadeira, mas eu quero ser honesto – é o mínimo que um ser humano pode fazer… Eu sempre fui um artista marcial por escolha e ator por profissão. Mas, acima de tudo, eu espero me realizar como um artista da vida ao longo do caminho.

Ele não sabia que esse caminho seria tolhido tão cedo; ele não sabia que já era um artista da vida. “As pessoas mais arrependidas,” escreveria Mary Oliver, décadas depois, em um ensaio de surpreendente percepção, “são aquelas que sentiram seu potencial criativo inquieto e nascente, e não lhe deram poder, nem tempo”. Bruce Lee sentia seu potencial inquieto, e embora o acaso intercedesse antes que ele pudesse dá-lo o tempo, ele lhe deu mais poder que podia imaginar. Sua filha cita outra passagem de seus cadernos recheados com ideias, percepções e perguntas a serem respondidas pelo ato de viver – uma passagem que evidencia a fonte de seu poder criativo e existencial para além do tempo:

O intangível representa o verdadeiro poder do universo. É a semente do tangível. É um vazio vivo porque toda a forma provém dele, e aquele que percebe o vazio é preenchido pela vida, poder e amor de todos os seres.

Foi esse entendimento difuso e integrado da existência que conferiu um rico sentido sobre a vida de Lee e o permitiu encarar a morte, sem sabê-lo, sem arrependimentos, sem medo, como um artista da vida plenamente realizado. Em outra anotação, ele escreve:

Eu não sei qual é o sentido da morte, mas não a temo. E ainda que eu, Bruce Lee, morra um dia sem realizar todas as minhas ambições, sigo em frente, sem arrependimentos. Eu fiz o que eu queria, e o que eu fiz, fiz com sinceridade e com toda minha habilidade. Você não pode esperar muito mais da vida.

Complemente isto com o poema de amor à vida da vencedora do Nobel, Louise Glück, escrito à beira da morte, o físico Brian Greene sobre como nossa transitoriedade confere dignidade e significado às nossas vidas, o impressionante antídoto da astrônoma e poetisa Rebecca Elson para o medo da morte e com Walt Whitman, sobre o que faz a vida valer a pena, e depois retorne a Lee sobre a medida do sucesso, suas inéditas reflexões sobre força de vontade, imaginação e confiança, assim como a filosofia e origem do célebre ensinamento que intitula o livro de sua filha.

Fonte: Brainpickings
Tradução: Augusto Fleck

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