DEFENDER EUROPE 2020: OTAN SE PREPARA PARA GUERRA COM A RÚSSIA

Tradução de uma entrevista concedida pelo membro da NR-RJ, Lucas Leiroz, à TV Zvezda, canal estatal do Ministério da Defesa da Rússia.

Repórter: Por que você chamou os exercícios do Defender Europe em seu artigo de “Cerco Frio de Kaliningrado”?

Lucas Leiroz: Bem, este programa tem um foco claro nos Bálcãs e na Polônia e, consequentemente, na região de Kaliningrado. O motivo é realmente simples. Estou considerando a palavra “frio” no mesmo sentido de quando falamos sobre uma Guerra Fria. O Defender Europe planeja cercar a fronteira russa com exercícios militares de países ocidentais e milhares de soldados dos EUA. Não há guerra nesta zona, portanto esse cerco é, pelo menos por enquanto, frio. Se haverá uma guerra, não sabemos, mas, atualmente, é um cerco frio.

R: Por que exatamente Kaliningrado?

LL: Esses exercícios são direcionados contra Kalingrado. Existem boas razões para isso. É um território russo fora da Rússia e uma base militar muito importante. Eles querem ocupar esse espaço russo na Europa e neutralizar qualquer possibilidade de usar o Kalinigrado para fins militares em curto prazo. Veja, precisamos analisar levando consideração o planejamento estratégico por trás deste programa. No ano passado, a RAND Corporation publicou um documento chamado Overextending and Unbalancing Russia, no qual uma equipe de diplomatas explora as possibilidades de enfraquecer a Rússia e propõe fazê-lo por terra, ar e mar. Este documento também enfoca a região dos Bálcãs como um ponto estratégico a ser ocupado pelo Ocidente. Assim, analisando o Defender Europe, podemos ver que essa é a materialização do Projeto da RAND Corporation, principalmente por terra e mar, quando temos uma frota naval russa em Kaliningrado e a fronteira é totalmente preenchida por tropas estrangeiras. É simples. Os escritores da RAND estão comprometidos com o Deep State, e o Deep State quer combater a Rússia. Então, por que Kaliningrado? Como Kaliningrado é Rússia e a Rússia é o alvo, é por isso.

R: Você acha que isso é uma provocação?

LL: Sim, claro. É uma provocação irresponsável. Por alguma razão, há um grupo que quer guerra com a Rússia e está forçando os militares a se prepararem para isso. Dia após dia, a OTAN aumenta sua presença militar perto da Rússia para um propósito desconhecido. Mas, este programa parece muito claro em suas intenções de causar reações da Rússia. Esta é uma verdadeira armadilha. Se a Rússia reagir, a sociedade internacional condenará e justificará uma guerra contra Moscou, mas, se a Rússia não reagir, o Ocidente se tornará mais agressivo dia após dia, fazendo de tudo para provocar uma resposta. Penso que o caminho para a Rússia é aumentar sua presença militar na Europa, mais especificamente em Kaliningrado, e iniciar seus próprios exercícios perto da zona ocupada pela OTAN, preservando a paz, não correspondendo às expectativas ocidentais de travar uma guerra, porém, deixando claro que não se curvará a provocações externas.

R: Quais são os objetivos da OTAN?

LL: O objetivo da OTAN é a guerra. A maior questão é “por que guerra?”. Para responder, precisamos lembrar vários pontos. O primeiro é a natureza contemporânea da guerra. No século passado, testemunhamos a ascensão e a queda da chamada guerra total, um tipo de guerra que requer mobilização total de forças, de militares e civis. Essa guerra foi marcada por uma grande mobilização logística e por causar várias vítimas, mortas ou feridas. Esse tipo de guerra foi aquela das guerras mundiais da primeira metade do século passado. Este tipo não corresponde à guerra contemporânea. Atualmente, isso não é lucrativo, nem necessário, nem interessante. A tecnologia mudou a guerra para sempre. A guerra pós-moderna corresponde ao que podemos chamar de Guerra Híbrida ou Guerra “Uberizada”, que é o uso de meios não diretamente militares para se fazer guerra. Hoje raramente vemos uma grande mobilização de tropas, mas é possível ver revoluções coloridas, ataques terroristas, guerras civis e golpes falsamente democráticos. A guerra total é, obviamente, a última opção, e o Ocidente selecionou essa alternativa contra a Rússia. Eu não estou sendo alarmista. Esta é uma questão séria e perigosa. O Defender Europe é a maior mobilização militar da Europa em 25 anos. E isso está acontecendo sem guerra. Tudo o que podemos ver é que a OTAN quer guerra e se prepara para isso. Os EUA querem guerra. E as razões são tão grandes que justificam uma mobilização de tais proporções. Se você me perguntar os motivos, não poderei responder. As razões existem, mas ainda não as conhecemos. Eu penso que a hegemonia americana está em seus últimos momentos e por isso o Ocidente se torna mais reativo dia após dia. Mas reativo a quê? O que a Rússia está fazendo é tão perigoso? Defendendo um mundo multipolar? Isso justifica os exercícios? Eu realmente não sei. Eu acho que querem reduzir a Rússia à insignificância geopolítica. O Ocidente quer reviver os primeiros anos pós-soviéticos e para a Rússia isso é algo a se temer, pensar e prevenir. Certamente, a guerra total não é lucrativa nem necessária, mas o realismo parece não guiar a geopolítica ocidental hoje em dia.

R: Por que a Alemanha está aceitando ser o eixo desses testes, uma vez que isso não lhe é de interesse nacional?

LL: A razão é simples: a Alemanha não é um país soberano. É uma zona de ocupação, uma colônia americana. Um país sem armas nucleares e sem qualquer potencial para fazer valer seus interesses no cenário internacional. As relações entre Moscou e Berlim estão razoavelmente boas atualmente e tendem a melhorar em diversos setores, como demonstra o programa Nord Stream 2, mas, por ser um Estado fantoche, estará disposta a acatar a qualquer ordem “vinda de cima”. A maior esperança é a consolidação de uma cisão entre EUA e EU, como está começando a se desenhar com Trump. A menos que essa separação ocorra, a Alemanha continuará sendo um Estado inexpressivo e submisso.

Entrevista original em: https://m.tvzvezda.ru/ 

Lucas Leiroz

Ativista da NR, analista geopolítico e colunista da InfoBrics.

Deixe uma resposta