Reino Unido incentiva emigração em Hong Kong para afetar a China

No fim de junho, o Congresso Chinês aprovou a nova lei de segurança nacional de Hong Kong, assinada posteriormente pelo presidente chinês Xi Jinping. A nova lei impõe um regime especial de segurança no território autônomo de Hong Kong, proibindo interferências estrangeiras e impedindo o desenvolvimento de atividades políticas terroristas ou subversivas. As críticas foram imediatas em todo o mundo ocidental, embora o próprio governo regional de Hong Kong apoie as medidas e reconheça suas necessidades atualmente. Os protestos contra a soberania chinesa, marcadamente apoiados pelas potências ocidentais, aumentaram exponencialmente desde que a lei foi aprovada.

Muitos países ocidentais já estão anunciando medidas contra a China devido à situação em Hong Kong. No Reino Unido, o primeiro-ministro Boris Johnson anunciou que se a China prosseguir com a nova lei de segurança, milhões de cidadãos de Hong Kong serão elegíveis para receber o passaporte nacional britânico no exterior. Com esse passaporte, os residentes de Hong Kong poderiam entrar no Reino Unido livremente, sem visto, e permanecer no país por seis meses. Além disso, seria possível a esses cidadãos renovar sua residência por doze meses, adquirindo posteriormente a cidadania britânica. Em outras palavras, Boris Johnson está concedendo cidadania britânica aos residentes de Hong Kong para afetar a China.

Dominic Raab, secretário britânico de Relações Exteriores, disse que a China não pode fazer nada para impedir que cidadãos de Hong Kong partam para o Reino Unido. Segundo a chancelaria britânica, Londres usará toda sua influência diplomática para boicotar a lei chinesa e incentivar a emigração em massa será uma das principais táticas. Raab e o governo britânico não veem essas medidas como violações das promessas e termos mútuos acordados pelo Reino Unido e pela China quando os dois países transferiram a soberania de Hong Kong para Pequim. Por outro lado, a China vê a atitude britânica como neocolonial, expressa Liu Xiaoming, embaixador chinês no Reino Unido, ao publicar em uma rede social: “Hong Kong faz parte da China e os assuntos de Hong Kong são assuntos internos da China. O Reino Unido não tem soberania, jurisdição ou direito de “supervisão” sobre Hong Kong. Longe vão os dias em que Hong Kong estava sob o domínio colonial britânico”.

Enquanto os dois países enfrentam sérias tensões diplomáticas, os protestos nas ruas de Hong Kong se endurecem, com atos cada vez mais violentos por parte dos manifestantes – e, consequentemente, respostas mais severas da polícia. Canhões de água, gás lacrimogêneo, spray de pimenta e outros mecanismos foram utilizados para conter as manifestações, que também foram marcadas por atos de vandalismo e várias ilegalidades.

De fato, o que a China está fazendo não é diferente do que qualquer outro país do mundo faria em uma situação semelhante – mesmo as “democracias ocidentais” –: combater, com medidas de exceção, manifestações secessionistas. O separatismo, em qualquer país, representa uma ameaça à própria existência do Estado Nacional e todo governo tem o direito de introduzir medidas especiais para impedir que seus territórios obtenham independência política, especialmente em situações em que os protestos recebem apoio financeiro e material de potências estrangeiras, como os protestos em Hong Kong, incentivados por vários países ocidentais.

Todas as democracias ocidentais estabelecem medidas excepcionais quando detectam ameaças à segurança nacional. Em razão dos atentados de 11 de Setembro de 2001, há medidas de exceção em vigor até hoje nos EUA, com centenas de suspeitos de terrorismo sendo presos sem direito de defesa a cada ano. Recentemente, diante dos protestos pela independência da Catalunha, a polícia espanhola adotou medidas excepcionais, agindo violentamente contra os manifestantes e, igualmente, não houve comoção internacional. De fato, quando a legalidade e a normalidade não são suficientes para garantir a ordem e há uma ameaça real ao Estado, apelar à exceção é direito de qualquer governo.

Por outro lado, podemos contemplar o novo projeto britânico. Tendo deixado a União Europeia e economicamente impotente diante de um mundo em transição, o Reino Unido começa a desenhar novas projeções globais. E, aparentemente, a atual aposta de Londres é a Ásia. A Embaixada da China está correta ao comparar as atitudes britânicas com um novo colonialismo, pois esse é exatamente o projeto britânico. Também é preciso levar em consideração o interesse na entrada massiva de imigrantes no país: afinal, essa mesma massa formará uma nova classe trabalhadora de mão-de-obra barata e precária, formando algo como um novo mercado de escravos no século XXI.

A projeção asiática britânica e a soberania chinesa são dois projetos que se chocam. Apenas um vencerá nessa disputa. De fato, a China pode fazer com que a medida britânica fracasse simplesmente fechando suas fronteiras e impedindo a emigração. Então, quando isso for feito, qual será o próximo passo de Londres?

Lucas Leiroz

Ativista da NR, analista geopolítico e colunista da InfoBrics.

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