A Geografia Sagrada do Rio de Janeiro

Existe toda uma geografia sagrada tupi nos locais de nascimento da gloriosa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

A formação de morros que vai da Pedra da Gávea ao Pão de Açúcar é conhecida como ”o Gigante Adormecido”, parte de lendas tupinambás em que um deus que guardava a Baía foi punido pela morte de uma índia. Mais tarde, o Gigante da Guanabara vai surgir na poesia do nosso romantismo e participar de vez do imaginário brasileiro, repercutindo até no hino nacional.

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”O Gigante que dorme”, ou o ”Gigante acordou”, se tornou símbolo usado tanto em campanhas getulistas quanto udenistas. Mais recentemente, fez parte de comercial da Johnny Walker, de propagandas da maçonaria e do lavajatismo.

Para os tupis, cada um dos montes que formam o gigante deitado possuía sua própria sacralidade. A Pedra da Gávea, por exemplo, que forma a cabeça do gigante, era chamada de ”matacaranca”, ou ”cabeça coroada”, e durante o Império denominada também de ”Cara do Imperador”. Ela era comparada a uma esfinge e a um leão deitado.

O Corcovado, em que hoje se encontra a Estátua do Cristo Redentor, é o falo ereto do Gigante, e em seu topo contém uma pedra associada a uma mulher grávida — repercutindo assim o mito de origem do Egito Antigo, em que Ísis engravida de Hórus ao tentar ressuscitar magicamente Osíris, pouco antes do desmembramento do cadáver por Seth.

Os três morros que fazem parte do Pão de Açúcar [e incluem o Cara de Cão e o Babilônia] formam os pés do Gigante. No Pão de Açúcar se pode ver uma Íbis Sagrada, pássaro associado ao deus Hermes/Toth, que dizem que levantará vôo quando o Gigante acordar.

Foi aos pés do gigante, entre o Cara de Cão e o Pão de Açúcar, que Estácio de Sá fundou a Cidade de São Sebastião, primeira cidade fundada [indiretamente] pelo Rei Dom Sebastião, o ”Desejado”, que no Sebastianismo está vinculado à figura do Santo Guerreiro Romano, fazendo com que simbolicamente o Santo e o Rei sejam um só.

[Dom Sebastião recebe o nome por ter nascido no dia 20 de janeiro, em que se comemora São Sebastião de Roma, morto alvejado por flechadas, mas ressuscitado; de modo semelhante, o Rei vai desaparecer na Batalha de Alcacer-Quibir, entrando em estado de encantamento. Foi também num dia 20 de janeiro que se dá a batalha decisiva de Uruçumirim, em que tropas luso-tupis derrotam a aliança franco-tamoia, garantindo a posse do Centro-Sul do atual território brasileiro.]

Atualmente se fala em pareidolias, mas estas figuras eram temas de profundos simbolismos portugueses e indígenas. Assim como o nome da cidade, em que se faz referência ao mês de Janeiro.

André Luiz

Historiador, mestrando em História pela UFRJ, cristão ortodoxo e membro da NR-RJ.
 

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