O Poço à luz da mitologia cristã

Repleto de símbolos cristãos, O Poço retrata inferno, céu e a possibilidade de salvação.

Particularmente, acredito que O Poço (2020) é todo ele repleto de simbolismos da mitologia cristã. Não dá para saber a intenção do autor com esses símbolos (que são retratados de maneira macabra e, às vezes, blasfema), mas eles estão claramente postos ali.

Acredito que o autor se inspirou em Dostoiévski também. Começando com o livro que o protagonista escolhe: Dom Quixote. Dostoiévski disse certa vez que, se pudesse escolher um único livro para ler o resto da vida, seria Dom Quixote. É conhecida a sua admiração pelo personagem, que influenciou uma de suas obras mais famosas — O Idiota —, cujo protagonista é uma mescla de Cristo e Dom Quixote.

Dom Quixote é um idealista romântico que quer imitar o heroísmo dos heróis (indo contra o espírito de seu tempo) e tem, ao seu lado, Sancho Pança, que o ajuda a carregar sua cruz.

O protagonista de O Poço, Goreng, é o próprio Dom Quixote, que quer imitar a Cristo, seu herói. Mas ele é, acima de tudo, um homem pecador, falho. Sancho Pança é mais realista, e seu arquétipo aparece principalmente no primeiro personagem que interage com Goreng, Trimagasi, que o traz sempre à realidade dos fatos.

Assim como Dom Quixote é espancado e humilhado, mas nunca desiste de sua “fantasia”, Goreng é humilhado pela fome e espancado, a ponto de quase morrer, mas não desiste de enviar a Mensagem (quem assistiu o filme irá entender): símbolo do caminho ascético que o homem deve percorrer para alcançar a Salvação — que é a Deificação, em uma perspectiva ortodoxa. Em outras palavras, mesmo sofrendo, tanto física quanto espiritualmente, ele não deve desistir da batalha.

Mas a Salvação, do ponto de vista mitológico-cristão, depende de uma coisa mais do que qualquer outra: comungar do Corpo e Sangue de Cristo. Obviamente, isso é simbolizado (macabramente!) pelo canibalismo retratado no longa.

O canibalismo choca, e ele não está ali à toa. Ele é um símbolo-chave. Os judeus se escandalizaram quando Cristo afirmou que deve-se comer de Seu Corpo e beber de Seu Sangue para ter a vida eterna. Nem os apóstolos entenderam, mas após a descida do Espírito Santo, eles absorveram A Sabedoria e compreenderam.

Goreng, obviamente, fica chocado, mas ele come a carne humana quando uma mulher, Miharu, dá a ele na boca. Ali, ela funciona claramente como o arquétipo de Deus Pai e do Sacerdote. É ela quem dá a Goreng o “maná celeste”, a carne embebida de sangue. É ela quem, anteriormente, levou a ele o Conhecimento da Mensagem (Evangelho), que é sua filha (que é Cristo), e agora o faz conhecer sua Sabedoria.

Ele só entende a Mensagem depois de comer da carne e beber do sangue.

Os próprios produtos de sua consciência (pessoas d’O Poço as quais tiveram contato com ele e morreram em meio aos seus devaneios provocados pela fome prolongada) citam a passagem do Evangelho que diz que “quem comer da Carne e beber do Sangue de Cristo terá a vida eterna” e, em uma perspectiva cristã, compartilhará de Sua Natureza divina (isto é, será um deus pela graça).

“Quem comer da minha Carne e beber do meu Sangue estará em Mim e eu nele”.

A Sabedoria desce até ele naquele momento, e a partir daí ele busca a Deificação, imitando a Cristo. Então ele decide descer até o Inferno (até o fundo d’O Poço) para, depois, subir aos Céus (superfície d’O Poço): como Cristo fez.

No caminho da descida ao fundo d’O Poço, ele se encontra com um homem sábio, simbolizando um profeta do Antigo Testamento, que pede a ele para enviar uma Mensagem à superfície: apropriadamente, um Manjar (retratado como um tipo de pudim).

A etimologia da palavra nos diz que “manjar” significa qualquer coisa de comer. É O Alimento propriamente dito. Manjar também significa maná. E Maná era O Alimento enviado por Deus aos hebreus no deserto (no texto veterotestamentário). Indo mais além: o Maná do Antigo Testamento, na mitologia cristã, é a prefiguração do Corpo e do Sangue de Cristo.

No Antigo Testamento, os hebreus só compreendiam as coisas à base da Lei, ou seja, do Leviatã. Quando erravam, só se aprendiam após o castigo divino. Fazer com que os hebreus passassem 40 anos no deserto, por exemplo, foi um castigo de Deus. O mesmo ocorre, no filme: os viventes d’O Poço só obedeciam a Goreng (e Baharat) à base da paulada e da ameaça.

Goreng, então, chega a um determinado nível d’O Poço e, com a ajuda de Baharat (podemos interpretá-lo como arquétipo do Anjo da Guarda), luta contra dois homens (demônios): essa cena pode simbolizar a guerra espiritual contra os demônios e a percepção humana do abandono divino. Assim, quando Goreng pensa que Deus o abandonou, ele pensa em desistir de sua batalha. Mas o anjo o toma pelo braço e o carrega de volta à mesa do banquete, de volta à batalha, à missão de levar a Mensagem e buscar a Deificação.

Quando o protagonista chega ao último andar d’O Poço, ele encontra a menina (Cristo), filha de Miharu (Deus Pai). Ele dá o manjar (Maná) a ela comer e, agora, é ela quem é a Mensagem a ser enviada, simbolizando a troca da Antiga Aliança (Lei) pela Nova (Graça).

A menina é uma criança e não tem força. Ela não precisa de força ou de armas. Ela só é entendida e aceita à base do amor, e não da Lei do antigo Maná.

A menina é Cristo, e o protagonista, que encontra Cristo quando chega ao fundo d’O Poço, somos nós que O encontramos quando estamos lá.

Interessante notar que o último andar do poço é o de número 333. A mesa com o banquete fica em cada andar por 2 minutos. Sendo assim, 2×333 = 666, o número da Besta. O que evidencia ainda mais que o fundo d’O Poço simboliza o Inferno.

Goreng — que imitou a Cristo — desce com a menina mais um pouco, até à escuridão (morte, hades). Então ele desce da mesa do banquete (que subirá aos céus em seguida) e deixa somente a menininha lá. Isso simboliza que ele se fez como criança e deixou o seu velho eu para trás, morto – a menina também simboliza o homem purificado.

“Em verdade vos digo que se não vos fizerdes como crianças, jamais entrareis no Reino dos céus” (Mateus 18:3).

Só Cristo e aqueles que se fazem como crianças podem subir aos Céus.

Totalmente dostoievskiano. Mas não somente por usar uma semiótica cristã, mas por ir até o fundo do poço da existência e da alma humana – como fez Dostoiévski.

Catarina Leiroz

Cristã Ortodoxa, graduanda em Pedagogia e vice-diretora da NR-RJ.

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