Diego Fusaro: “O politicamente correto justifica o capitalismo global”

Qual é o papel do politicamente correto na sociedade de classes do capitalismo global e pós-moderno? Em que consiste a verdadeira luta de classes hoje? Sobre esses e outros temas que giram ao redor das contradições fundamentais de nossa época, traduzimos mais uma entrevista do filósofo Diego Fusaro, onde ele aborda a verdadeira natureza do liberalismo cosmopolita pós-moderno.

Acredito que Diego Fusaro deve receber um grande crédito, independentemente das considerações cansativas dos haters. Ele conseguiu chamar a atenção do público em geral para toda uma série de temas que, caso contrário, não teriam encontrado espaço na informação geral. Ele, com sua linguagem inquestionavelmente de ruptura, foi capaz de transmiti-los. Se devemos então considera-lo a Chiara Ferragni da filosofia é realmente uma questão ociosa – entre uma influencer como a garota em questão e aquele que, para o bem ou para o mal, para dizer de forma suave, abriu algum livro, além de ter, por exemplo, retraduzido Marx, na minha opinião não há nem mesmo os extremos para uma comparação vaga. Para além de todas as possíveis críticas de que o academicismo e a midiaticidade não seriam conjugáveis, as questões que ele traz para a mesa não são irrelevantes. E, na verdade, não é que haja milhões de filósofos na Itália que lidam com essas questões – nem mesmo dezenas, para ser honesto. Por todas estas razões, estamos muito felizes por tê-lo novamente como nosso convidado no Pangea, desta vez para nos falar de seu último livro, Glebalizzazione. La lotta di classe al tempo del populismo [Glebalização. A luta de classes na era do populismo] (Rizzoli, 2019).

A nova ordem mental impõe uma certa prática discursiva, o politicamente correto. A isto se contrapõe o que você chama de uma luta de classes cultural, na qual os dominados gostariam de chamar as coisas pelo seu nome. Poderia descrever isso brevemente?

Hoje a luta de classes é entre uma elite financeira apátrida, por um lado, e as massas nacionais das classes trabalhadoras e médias, por outro. Ela não é apenas material, ou seja, voltada para a gestão da economia e da sociedade, mas também cultural – Gramsci docet. O objetivo da classe dominante, através de seus intelectuais e dos arquitetos das superestruturas, é assegurar que os dominados não o sejam apenas a nível estrutural, mas também na esfera cultural, aceitando suas próprias correntes e estando dispostos a lutar por elas. Essencialmente o politicamente correto é a grande ordem mental que justifica a sociedade de classes planetária do capitalismo global. Os dominados, portanto, têm todo o interesse em chamar as coisas pelo seu próprio nome: “exploração” em vez de “competitividade”, “apropriação voraz dos recursos públicos” em vez de “privatização”, “destruição programada das democracias” em vez de “cessão de soberania”. Finalmente, o olhar de baixo é o que revela a verdade da relação de classe. No livro, parto precisamente de uma citação de Pasolini na qual ele diz: “devemos parar de falar a língua dos nossos inimigos”. Este é o ponto fundamental, se reapropriar das gramáticas de classe.

Você fala de uma globalização da desigualdade e, neste aspecto, cunha o neologismo da glebalização. Em que consiste isto?

A globalização é um projeto fantástico do ponto de vista da classe dominante, startuppers e deslocalizadores, agentes de finanças e admiradores do sistema bancário. Observada do ponto de vista da classe dominada, por outro lado, é o pior que pode existir. Consiste na glebalização, ou seja, um massacre de classe que, através da alavancagem da competitividade global, torna as classes trabalhadoras cada vez mais pobres, subordinadas e sem direitos. Acontece que o pequeno empresário burguês de Vicenza é varrido pelos grandes gigantes do comércio eletrônico, pela competitividade desleal realizada por meio de produtos de baixo custo e baixa qualidade. Ao mesmo tempo, o trabalhador da Fiat-Mirafiori também perde seus direitos sociais, suas conquistas, para ser competitivo com aqueles em Bangladesh ou na Índia que fabricam os mesmos itens a preços mais baixos e sem direitos. A glebalização é a lei da competitividade global que determina a destruição da classe média e das classes trabalhadoras que são reduzidas a uma condição neo-servil.

Falando em cosmopolitismo liberal, você teme uma união sagrada entre a direita do dinheiro e a esquerda do costume. Mas, então, estes são dois lados da mesma moeda?

Absolutamente. A direita financeira do dinheiro é aquela que quer destruir os Estados nacionais para eliminar os direitos sociais e as democracias; deportar escravos da África para os explorar sem piedade e reduzir o custo da força de trabalho; e que visa eliminar a família como último bastião de uma micro-sociedade que não se apresenta sob a forma de mercadoria. A esquerda liberal e cor-de-rosa do costume, em vez de se opor a este projeto de classe, justifica-o a nível teórico dizendo que aqueles que defendem o Estado nacional são fascistas regressivos; aqueles que apoiam a família tradicional são homofóbicos patriarcais e, mais uma vez, aqueles que se opõem às práticas de deportação em massa, chamadas imigração em massa, são xenófobos. Tudo o que a direita do dinheiro faz a esquerda cor-de-rosa do costume justifica. Elas são as duas alas do mesmo sistema liberalista e cosmopolita.

Como é que a esquerda pôde passar do internacionalismo socialista para o globalismo?

Isso exigiu um longo processo, cuja gênese eu colocaria em 68 e cujo espírito é bem encarnado pela canção de John Lennon, Imagine: “E o mundo será como um só”. Esta canção é o sonho do globalismo. O mundo se torna um só, porque triunfa um único mercado sem fronteiras. As esquerdas que passaram do vermelho ao cor-de-rosa, da foice e martelo ao arco-íris, abandonaram o internacionalismo proletário do trabalho e passaram – de fato, venderam-se, no fundo sem mesmo o saber, em muitos casos – ao cosmopolitismo liberal do capital. Por isso, continuam a chamar internacionalismo àquilo que na realidade é, essencialmente, o globalismo capitalista. Este é o drama que os leva a confundir as duas realidades, sem compreender que o cosmopolitismo capitalista luta contra os Estados nacionais para impor o mercado único. Em vez disso, o internacionalismo socialista pressupõe os Estados nacionais e implica uma relação entre eles, não a sua destruição.

Qual é o significado da soberania nacional e por que razão, na sua opinião, se quer coloca-la em crise para desagregar as democracias?

Depois de 1989, o capitalismo tem apenas um obstáculo à sua frente, o dos Estados nacionais soberanos. Estes são os últimos fortes da democracia, dos direitos sociais, do bem-estar e da luta de classes. Se você retira o Estado nacional soberano, você retira a política – que sempre foi sua prerrogativa – deixando apenas o bellum omnium contra omnes do mercado global. Desta forma, elimina-se a possibilidade da luta de classes, ou seja, o confronto direto entre servos e senhores e a luta pelos direitos. Tudo o que resta é um massacre de classe deslocalizado. Não há democracia na modernidade a não ser no Estado nacional. A classe dominante afirma querer superá-la para evitar o retorno do fascismo. Na realidade, fá-lo para eliminar a democracia e os direitos sociais. Deste ponto de vista, seria necessário combater o cosmopolitismo e o liberalismo através da re-proposição de um internacionalismo soberanista e socialista que lute contra tais tendências.

Quem é essa figura que você chama de “a bela alma globalista”?

Um exemplo poderia ser representado por Boldrini. Em geral eu diria aqueles que pensam que, para sermos democráticos e alcançarmos as liberdades de todos, devemos superar os Estados nacionais, criar a democracia e o povo globais, para fazer emergir uma forma de cosmopolitismo das liberdades. Na realidade, não pode haver uma democracia global. A democracia implica sempre a existência do demos e isto nunca é global, mas sempre territorial, enraizado no seu território, na sua história. Da mesma forma, a política nunca pode ser global. Ela está sempre colocada em espaços e territórios precisos. Se você retirar os Estados nacionais e os territórios, você retira a possibilidade de controle democrático. A bela alma globalista é portanto aquela que diz, pelo menos em palavras, que quer alcançar a democracia, mas na realidade ela sempre e só favorece a classe dominante. Em uma palavra, sua característica fundamental é a falta de concretude. Como em Hegel, esta figura se move em um plano totalmente abstrato.

A dialética servo-senhor de Hegel é retomada por você e adaptada ao nosso tempo. É por isso que você fala em um servo populista e soberanista e em um senhor demofóbico e globalista. Peço que você esclareça melhor estes conceitos para os leitores.

O polo dominante tem todo o interesse em destruir os Estados nacionais soberanos, a fim de impor o cosmopolitismo liberal. O senhor é, portanto, certamente inimigo do populismo e do soberanismo, ou seja, da ideia de que o povo se autodetermina no seu espaço territorial – nunca percamos de vista o fato de a nossa Carta Constitucional definir a democracia como soberania popular, no seu artigo 1º. É evidente que o senhor globalista não é soberanista nem populista, mas contra o povo. A parte dominada tem de ser soberana e populista, ou seja, tem de defender a soberania como base da democracia e da reconquista dos direitos sociais. Por isso há tanta demonização do populismo e do soberanismo, porque são os dois principais inimigos do lado dominante. Do seu ponto de vista, não deveria ser o Parlamento a decidir, mas os conselhos de administração das empresas.

Você argumenta que o internacionalismo socialista é compatível com a independência de cada nação. Como é que isto é possível?

Há referências frequentes no meu livro ao tema marxista da questão nacional. Já Engels, em suas cartas, afirma que o internacionalismo pressupõe nações fortes que se relacionam de forma pacífica e solidária. O internacionalismo socialista, ao contrário do cosmopolitismo e do nacionalismo regressivo, pressupõe que o Estado nacional não seja um vetor de agressão contra outros Estados nacionais, mas que seja solidário com eles. O nacionalismo é o individualismo pensado ao nível do Estado, tal como o internacionalismo é o comunitarismo pensado ao nível dos Estados. Na Europa só tivemos nacionalismos regressivos no século XX e, neste momento, temos um cosmopolitismo liberalista da União Europeia. Há uma falta de internacionalismo socialista.

Se não podemos nos chamar de globalistas, ao mesmo tempo também rejeitamos o nacionalismo. Em que sentido estes dois fenômenos devem ser combatidos e que direção tomar para superá-los?

Parto de um ponto muito bonito dos Cadernos do Cárcere de Gramsci, onde ele diz que Goethe e Stendhal eram nacionais, mas não nacionalistas. A Nação não é necessariamente o nacionalismo – que é uma patologia deste. Ele deve ser evitado de todas as maneiras, mas isso não significa que devemos abandonar a Nação, como diz o axioma dos cosmopolitas dominantes. É necessário, na verdade, valorizá-la na sua relação de reconhecimento com as outras, em uma forma de internacionalismo de tipo relacional. Para isso, na minha opinião, é necessário criar um bloco antagonista de Estados socialistas soberanos que se confederam entre si, sem renunciar à sua soberania, reconhecendo-se como parte de uma constelação que se opõe firmemente ao globalismo americano – no livro, defendo que o globalismo é essencialmente um americanismo, uma americanização do mundo.

Não sei se você leu o último panfleto de Christian Raimo, Contra a Identidade Italiana. Em resumo, ele defende a inexistência de identidade nacional, com base no facto de que esta seria basicamente uma construção ex post.

Vou ser honesto, a vida é curta e há muita leitura interessante para fazer. Eu leio Spinoza, Fichte. Sinceramente, lerei o Sr. Raimo, se me sobrar tempo, em uma vida futura. Eu conheço bem as posições dos especialistas do cosmopolitismo liberal. Que as identidades nacionais são historicamente determinadas e não dadas naturalmente é tão óbvio que Christian Raimo poderia ter poupado o papel em que ele escreveu isso. Partindo do pressuposto de que as nações têm o seu próprio valor cultural e histórico, pessoas como ele vêm afirmar que elas devem ser superadas e que devemos ir contra as várias identidades. Absolutamente errado. Além disso, a identidade nacional italiana é tal que não exclui aquele que tem uma certa cor de pele, ou que nasceu em outro lugar. O inclui desde que este se reconheça nela, aceite os seus valores e se torne parte de uma comunidade, que não é uma comunidade de sangue e de solo, mas histórica e social, constituída por pessoas que se reconhecem e são reconhecidas. O discurso de Raimo é uma espécie de avatar de mil outros discursos que se reproduzem como o do agente Smith na Matrix. São as posições do cosmopolitismo liberalista, dos blindados do pensamento único da classe dominante. O único mérito que eles têm, graças ao qual ocupam “a frente do palco”, é que são os intelectuais certos no momento certo para defender a ordem dominante. Se estivéssemos no Ventennio do fascismo, eles estariam usando a camisa negra em apoio à ordem estabelecida. Em vez disso, hoje, no mundo do cosmopolitismo liberalista cor-de-rosa, eles usam uma camisa de cores diferentes e se tornam as brigadas cor-de-rosa que justificam o novo porrete invisível da economia de mercado. Eles usam o antifascismo como um instrumento para poder agir de forma fascista, com um squadrismo que faz exatamente o que o fascismo fez no seu tempo, que é impedir a liberdade de expressão. E, para eles, quem não aceita o pensamento único, torna-se fascista. Infelizmente, o fascismo ainda não morreu, mas passou de negro a cor-de-rosa. Hoje é o fascismo do cosmopolitismo liberalista e do mercado, do qual as personagens que você mencionou são, para todos os efeitos, uma expressão.

Você também menciona Giacomo Leopardi como uma antítese ao cosmopolitismo. Esta tese foi também avançada por Adriano Scianca, em La Nazione Fatidica. Como justifica esta oposição?

Li com prazer o livro de Adriano Scianca e partilho inteiramente a tese sobre o Leopardi não cosmopolita. Mas tenha cuidado, porque o autor de L’infinito ainda era um filho crítio do seu tempo. Ele certamente foi contra um cosmopolitismo abstrato, mas não era sequer um nacionalista irredento. Em qualquer caso, certamente Leopardi reconhece que o cosmopolitismo produz uma espécie de individualismo absoluto. Não cria uma grande pátria, mas quebra as já existentes e transforma cada indivíduo em uma ilha.

No que diz respeito ao que vai além do seu livro, o que você acha sobre a censura das páginas da Casapound no Facebook?

Se eu não me engano no dia seguinte à censura das páginas da Casapound no Facebook, o mesmo aconteceu com as contas comunistas cubanas no Twitter. Hoje vivemos em uma espécie de totalitarismo que nos permite ser o que quisermos, desde que sejamos liberais. Você simplesmente não pode ser outra coisa senão isso e Pasolini já havia entendido isso bem. É vergonhoso, no entanto, como o poder vence de lavada: quando as páginas dos fascistas da Casapound são censuradas, a esquerda comemora; quando as páginas dos comunistas cubanos são censuradas, os fascistas fazem o mesmo. Este é o grau máximo do idiotismo sectário.

Fonte: http://www.pangea.news/diego-fusaro-intervista-matteo-fais/?fbclid=IwAR0V0bHkj1bVbInHCIxLi12_FIK9NCQuhE1P99YPsy6VNsqpz-uZsRcKgr4

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