Alberto Buela: “Mais que golpe de Estado, motim”

Fonte: http://www.tradicionviva.es/2019/11/11/motin-mas-que-golpe-de-estado/

Tradução: João C.

Há muitos anos, José Luis Torres (1901-1965), pesquisador da Década Infame, me presenteou com o livro do maior pensador político boliviano, Carlos Montenegro, “Nacionalismo y coloniaje”, onde ele argumenta que “a extraordinária proliferação do motim se alimenta de um antagonismo incurável, que não foi resolvido pela Guerra da Independência… o motim está no subsolo da terra natal como uma semente apenas coberta pela camada de terra da ordem republicana. O motim é uma das formas de expressão que leva à luta das duas tendências, a colonial e a nacional, desde a fundação da Bolívia”.

Evo Morales reagiu bem a princípio, falando, como boliviano, de um motim, mas depois, colonizado pelos mass media, começou a falar de golpe de Estado, porque sua vida se esvai, e ele fugiu para o exterior.

A diferença entre o golpe de Estado e o motim é a seguinte: o golpe é algo planejado, onde cada golpista sabe qual aparato do Estado ocupará, ao passo que o motim é espontâneo, carece de condução e seu objetivo é a cabeça do presidente. Aconteceu com Berzú, Villaruel e tantos outros.

Pretender buscar por trás do motim, sempre espontâneo e violento, a mão do imperialismo, como quer a esquerda, é um exagero. O motim é a forma política extrema do “cholo” (“mestiço”), que aguenta até que exploda, e exploda em qualquer lugar e em todos os lugares. É por isso que o motim não tem condução como no caso do golpe de Estado, e por não ter condução produz, no geral, a caça às bruxas e a perseguição indiscriminada dos adversários. É por isso que Evo pediu pelas famílias no momento de sua renúncia. A ordem republicana não pode fazer nada contra o motim, cumprindo apenas uma função reivindicatória, como acontece com o Grupo Puebla e seus progressistas unidos.

O motim boliviano é como o estado de exceção dos europeus: dura pouco, mas é extremamente violento e cruel. Lembro que, estando em La Paz, convidado por meu amigo Andrés Soliz Rada, que falando sobre esse tema me disse: “O motim é o ‘Fuenteovejuna’ de Lope de Vega: são todos ou nada”.

Seria desejável que um jornalista e um cientista político sábio estudassem um pouco o assunto antes de falar.

Alberto Buela

Filósofo argentino de matriz peronista, ligado a Quarta Teoria Política e que trabalha temáticas como metapolítica e teoria do dissenso.

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