Hegel à luz da Quarta Teoria Política – um breve esboço

A filosofia do alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel tem interessantes ferramentas para oferecer ao pensamento dissidente. Conceitos como dialética, práxis e Volkgeist, se adaptados à nossa luta, se tornam instrumentos de análise e de ação. Aliás, tal adaptação é fundamental, o que passa também pelo estudo de todo o percurso do pensamento pós-hegeliano, tanto em pensadores considerados de esquerda quanto nos considerados de direita. Ecos de Hegel estão em obras de naturezas tão diferentes como as de Marx, Lênin e Gramsci num oposto e Spengler, Gentile e Schmitt num outro. Essa é a distância que a sombra da influência hegeliana alcança. Nós podemos e devemos beber dessa fonte.

O conceito de dialética nos oferece dupla utilidade. Numa esfera mais ampla, é um auxiliar útil na análise dos fenômenos dentro de uma conjuntura política e até mesmo na marcha dos povos e sociedades dentro do devir da História (ou o próprio devir em si). A dialética atua como uma espécie de juiz, nos mostrando qual posição assumir em momentos de crise. Seus momentos de tese, antítese e síntese, se aplicados à sociedade e à política, podem nos mostrar de forma antecipada e lógica, as situações de reação que se sucedem na batalha pelo poder. Por exemplo, é relativamente comum que um governo considerado como de “direita” seja sucedido por uma resposta, uma reação à “esquerda”. O que é a subida ao poder do Governo Bolsonaro senão uma espécie de reação dialética, uma antítese, ao que foi considerado um mau governo de “esquerda”? O que podemos esperar em seguida? A dialética hegeliana pode nos entregar algumas pistas.

Numa esfera mais cotidiana, a dialética está viva no conceito de práxis. Aqui é importante destacarmos o desenvolvimento do pensamento pós-hegeliano.  Em Hegel, a ideia de práxis se encontra ainda em estágio apenas especulativo e idealista, é um estágio do saber, da autoconsciência do Absoluto. Mesmo assim, podemos encontrar em obras como Fenomenologia do Espírito e na Lógica, breves aspectos da práxis concreta, palpável e humana. Esses aspectos foram desenvolvidos por continuadores de seu pensamento, que transformaram essa práxis teórica e abstrata em algo dinâmico no mundo dos homens. O Absoluto hegeliano foi transformado em sujeito real o conteúdo da práxis deixou de ser teórico para tornar-se efetivo. Feuerbach foi o pioneiro nesse processo.

Ao decorrer desse percurso que a fixava no mundo social dos homens, a práxis se transmutou em teoria aplicada no mundo real, nos meio políticos, meio esse que mostrará o que é válido e o que deve ser mudado nas teorias. É uma relação dialética (tese, antítese e síntese) entre pensamento e prática no mundo real. Toda organização política que pretende ter algum impacto no mundo real deve ter, em suas fileiras, usando um termo gramsciano, “intelectuais orgânicos”. Mentes pensantes que tenham práxis, ou seja, que criem teorias e as apliquem no mundo real, no meio social e político.

Já o conceito de Volkgeist (Espírito do povo) pode ser visto como uma espécie de predecessor de nossas concepções de autodeterminação dos povos e multipolaridade. Volkgeist é o espírito coletivo de um povo, que o diferencia de todos os outros povos. É sua essência singular, sua identidade única enquanto presença social no mundo.  É a síntese das vontades de todos os membros de um povo, que se manifesta em todas as suas idiossincrasias, como por exemplo, nas leis, na cultura e na política. A Laocracia pode ser vista como a culminação política do Volkgeist, o povo, enquanto vontade manifesta, guiando seu próprio destino. Que cada povo possa viver e se determinar de acordo com seu Espírito.

Esses são apenas alguns lineamentos sobre a utilidade do pensamento hegeliano e pós-hegeliano para a dissidência brasileira. Os elementos aqui citados permitem um estudo aprofundado, que torna mais eficaz o ativismo político e o insere justamente no movimento dialético da práxis.

Luiz Campos

Membro da NR-MG, leciona História e Filosofia.

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