Dugin — Teses Sobre o Anticristo

Para um ortodoxo (e para os cristãos, em geral), acreditar no Anticristo é um dado obrigatório. Ele pode ser interpretado de diferentes formas, mas apenas um materialista/ateu não consideraria a existência do Anticristo: trata-se de um elemento da cosmovisão e da dogmática cristã. E sendo o Apocalipse parte das Sagradas Escrituras, tudo o que é dito por ele é legitimado pelo Espírito Santo.

A figura do Anticristo está relacionada com a compreensão cristã do tempo. Cristo vem ao mundo antes dos últimos tempos, antes do fim do mundo. Mas depois de Sua vinda, depois d’Ele edificar sua Igreja, depois de seus discípulos espalharem Sua mensagem para toda a humanidade, em algum momento, chega o tempo do Anticristo: mal começamos a discutir o assunto – alguém diz que ele já chegou. Mas o fato dessas suposições sobre o seu tempo não terem sido confirmadas, não cancela a vinda do Anticristo – significa apenas que os cálculos estavam errados. Em outras palavras, a concretização e a interpretação da figura do Anticristo, em conexão com os eventos históricos, podem estar erradas, mas o erro recai sobre aqueles que alçam tais interpretações, e não sobre as Sagradas Escrituras.

Por outro lado, a estrutura da compreensão cristã do tempo é simples: Cristo vem, vive 33 anos entre as gentes, funda a Igreja. Em seguida, o mundo cristão começa a ser construído, culminando no processo de cristianização do Império, isto é, na proclamação do imperador romano – o Katechon. E então, o Anticristo vem.

Do ponto de vista ortodoxo, o Katechon (isto é, o imperador romano, o Império Bizantino) é aquele que resiste a vinda do Anticristo. Na Segunda Epístola aos Tessalonicenses, o Apóstolo Paulo descreve a vinda do Anticristo: “Porque o mistério da iniqüidade já está em ação, apenas esperando o desaparecimento daquele que o detém”. Ou seja, Katechon. Ele também é responsável por guardar o limiar da história. O Tsar Ortodoxo é aquele que se situa na última linha antes do Anticristo. E quando ele cai, e a lacuna no Ser é perfurada, o Anticristo vem.

A vinda do Anticristo, neste sentido, está acontecendo agora. Não importa se acontecerá em uma semana, um mês, 10 ou 100 anos. Ninguém sabe quando o Anticristo virá, mas ele certamente virá, porque o sentido da compreensão cristã da história – em seu penúltimo acorde – assim o afirma. E a história cristã é um conjunto de afirmações lógicas: o Paraíso, a Queda, a luta entre os justos e os pecadores pela dominação da cultura, da sociedade e da época, e depois a salvação. Trata-se de uma perspectiva da história dos significados, não dos fatos.

O Anticristo vem depois que o Cristianismo deixa de ser dominante – quando deixa de ser imperial. Quando o rei cai, então se abre uma lacuna ontológica: e o anticristo entra. E isso é exatamente o que está acontecendo. Vivemos sem reis e impérios. Vivemos a partir de uma cosmovisão materialista e imanentista – que aflige do Oriente ao Ocidente. Alguns, no entanto, percebem essas coisas passivamente (como nós, lamentando), enquanto outros dão saltos de alegria: os globalistas americanos, Soros, os liberais. Esses últimos não apenas não sofrem com o Anticristo, como também estão na vanguarda de seu exército. São eles que matam o Katechon, que abrem uma fissura na Grande Muralha, pavimentando o caminho para sua chegada: e quando o Anticristo o romper por completo, não haverá mais uma linha clara de barricadas. O que haverá para proteger quando ele já tiver entrado?

Nós somos aqueles que sofrem com a vinda do Anticristo – eles são os que se alegram. 

Aleksandr Dugin

Filósofo e cientista político, ex-docente da Universidade Estatal de Moscou, formulador das chamadas Quarta Teoria Política e Teoria do Mundo Multipolar, é um dos principais nomes da escola moderna de geopolítica russa e um dos mais importantes pensadores de nosso tempo.

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