Dugin − Sobre os significados da História

Falemos sobre a História.

Em nossa sociedade, a crença mais comum acerca da História é de que esta se trata do conhecimento dos fatos passados. No entanto, essa não é só uma definição incorreta, como também completamente falsa: na realidade, não se trata nem de conhecimento, nem de fatos, nem do passado. O âmago da questão reside em outro lugar.

O homem vive no Tempo e, simultaneamente, em meio a um nexo de pensamentos. Pensamento e Tempo estão estreitamente vinculados, inextricavelmente entrelaçados entre si, de modo que são inseparáveis. Em outras palavras, todo pensamento (em um sentido lógico ou em um sentido geral) necessariamente se constrói a partir de um eixo princípio-e-fim, da premissa à conclusão. Logo, qualquer raciocínio, qualquer pensamento, é na verdade uma micro-história, caracterizada por um início, um processo de resolução, um resultado final e − o que é mais importante − um significado. O pensar pressupõe significado.

Neste sentido, a História (a história da civilização, da religião, do país, da nação ou das pessoas) diz respeito fundamentalmente à instância do significado: não dos fatos, do passado ou dos saberes, mas do significado. Se nos deparamos com um fato cujo significado não é inteligível, ele não tem qualquer relação com a História: a História começa onde começa o significado.

Desta forma, cada história, seja real ou imaginária, se configura também como uma História do Pensamento, dando testemunho per si da própria existência humana − existência que é, acima de tudo, histórica (na medida, é claro, em que possui um significado).

O passado é apenas parte da História, que nos é relevante enquanto premissa, começo, enquanto fonte originária de parâmetros estruturais − como um vetor primário a partir do qual (no passado) se inicia o pensar. Por outro lado, o passado somente se converte em passado histórico se compreendemos o seu significado: despido de um significado, o passado se torna nulo, descartável, nada. E ainda assim, o entendimento do passado não é um fim em si mesmo: sua razão de ser está no entendimento do presente. Dizendo de outro modo, o passado deve ser compreendido para que o presente e o futuro façam algum sentido.

Se estamos presos em um mundo sem passado, sem princípio, sem uma fonte, não sabemos nem quem somos e nem para onde vamos − somos uma mera presença quântica irracional e sem significado, e não seres humanos. Mas na medida em que o passado possui um significado, então sabemos quem somos: um Povo com uma cultura, uma Civilização, uma Igreja, um Estado. O passado histórico, neste sentido, nos explica sobre nós mesmos e, graças a ele, nosso ser se torna pleno, isto é, historicamente existente − existindo, enquanto tal, no presente.

Assim, se sabemos quem somos,  sabemos também o que fazer, para onde ir e, o que é mais importante, como ser. Porque ser é mais importante do que fazer ou ir. Não obstante, ser uma pessoa não é o mesmo que ser um animal ou uma pedra. Uma pessoa não pode ser sem pensar − e tampouco sem pensar no ser. Logo, nossa própria existência é histórica e, por essa razão, a História engloba também o presente.

A História é hoje. Mas o hoje só tem significado se há o ontem: o silogismo só pode ser concluído se soubermos a premissa − ainda que sua conclusão, fundamentada em nossas raízes e em nossa identidade, se situe no presente.

E por último, a História também engloba o futuro.

O futuro é gerado desde um presente fundamentado em um passado. Um determinado vetor é dado pelo passado e explorado pelo presente − ele pode se transmutar e mudar de direção (dependendo do fato do presente ser realmente presente ou uma realidade artificial, falsa), mas de qualquer maneira, a História se dirige para o futuro, cujo fundamento está fixado no passado. Portanto, o futuro também pressupõe a História: uma vez que acessado pela via correta e autêntica, é nele que está a resolução, a conclusão, o resultado.

A História, neste sentido, se dá simultaneamente a partir de três modalidades de tempo, passado, presente e futura, estruturadas em uma unidade semântica interconectada. Por conseguinte, o futuro também possui sua própria história, que não se escreve apenas quando o futuro chega e se converte em passado: a história do futuro se escreve agora, ainda que seus significados elementares tenham sido escritos no passado, quando o Povo, a cultura, o país, a Igreja tiveram início, isto é, quando viemos a ser enquanto tais. As profecias, os diagnósticos e todos os projetos intencionais estão, em última instância, baseados nesta realidade.

Todas essas considerações apontam para uma história do futuro não é menos relevante que as histórias do presente ou do passado. Tudo está ligado inextricavelmente. Tout se tient. As três temporalidades. Somente através da unidade é que se dá a História.

A História, portanto, deve ser o objeto principal da Educação. É através dela que tudo se aprende: o pensamento, a cultura, a tradição e a identidade. A História é mais do que um campo profissional. A História somos nós mesmos, nosso destino.

Aleksandr Dugin

Filósofo e cientista político, ex-docente da Universidade Estatal de Moscou, formulador das chamadas Quarta Teoria Política e Teoria do Mundo Multipolar, é um dos principais nomes da escola moderna de geopolítica russa e um dos mais importantes pensadores de nosso tempo.

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