[Quarta Teoria Política no Peru] Entrevista com Israel Lira, do Movimiento Segunda República:

A Quarta Teoria Política é um projeto multimodal, multidimensional e dinâmico, cuja aplicação diferirá de país para país, de continente para continente, de civilização para civilização. Seu ponto fundamental, no entanto, é o elemento identitário, base fundacional na construção orgânica de um determinado Povo (Narod) e, por conseguinte, força motriz básica a partir da qual este mesmo Povo poderá se autodeterminar.

A América Latina, ou Latino-América, é um terreno historicamente perpassado por uma série de forças. E se é verdade que ela conquistou sua independência política frente aos antigos poderes coloniais, está fora de disputa que, como assevera o professor Dugin em seu O Logos de Ariel, o que sucedeu em nosso continente foi uma verdadeira re-colonização, na medida, em linhas gerias, saímos do arco de influência das potências europeias direto para o raio de influência do domínio anglo-saxão – a partir do que se pode falar em um neocolonialismo (no domínio econômico) e, mais tardiamente, de um Terceiro Colonialismo (no domínio cultural e espiritual).

Esta chave interpretativa nos leva diretamente à necessidade de uma Quarta Teoria Política em nossa civilização latino-americana, isto é, a uma avaliação concreta das possibilidades identitárias subjacentes ao nosso modo de ser como via de autodeterminação política. E é sobre isso que nós, da NR, conversamos com o nosso camarada peruano Israel Lira, do Centro de Estudios Crisolistas e do Movimiento Segunda República, duas importantes iniciativas continentais no campo da Quarta Teoria Política, criadas como alternativas à política dominante (fundamentada no erro e na inautenticidade).

1) Primeiramente, fale um pouco sobre as iniciativas do Centro de Estudos Crisolistas e do Movimento Segunda República: de que se tratam? Qual é a razão de ser de ambos na política do Peru?

Como foi dito rapidamente em uma entrevista concedida à Panamericana Televisión no dia 12 de dezembro de 2017 [ver aqui], para explicar a transcendência política do Movimento Segunda República (e é precisamente nisso que surge a iniciativa do coletivo de Jovens pela Segunda República), antes de tudo, precisamos fazer alguns comentários rápidos acerca do trabalho que tem sido realizado pelo Centro de Estudos Crisolistas (CEC).

O CEC foi fundado como um centro de pesquisas em ciências sociais, no dia 6 de março do ano passado. Composto por profissionais e acadêmicos das áreas da politologia, filosofia, economia, arqueologia, história e geopolítica, tem como principal objetivo e missão, através das diversas pesquisas realizadas nestas áreas, contribuir: para a criação de uma nova visão sobre a Política; para o fortalecimento de uma perspectiva autêntica sobre a democracia e para o desvelamento de uma identidade concreta, de um fator de unicidade para o Peru.

O CEC surge em um cenário específico do Peru, que se configura por um total distanciamento dos cientistas sociais de todo e qualquer projeto político e/ou reforma social: o que tem contribuído para que os partidos políticos, despidos de uma base teórica, tornem-se presas de interesses sectários privados e de lobbies econômicos. Hoje, os partidos políticos de maior expressão popular encontram-se completamente desideologizados – já não contamos com partidos políticos em si, mas com empresas políticas: o que está em bastante sintonia com a visão pós-liberal dominante e vigente.

O CEC surge, assim, como uma organização sem fins de lucro que tem como meta reverter tal situação, assim como contribuir para um retorno dos cientistas sociais à esfera política.

É dentro deste cenário que, em torno do CEC, coletivos de jovens universitários e profissionais, cidadãos de todo tipo, interessados no trabalho de pesquisa que vem se levando a cabo, começaram a se reunir e, fundamentados na produção teórica consolidada ali, a construir as bases para uma proposta política – manifestada como Partido e/ou Movimento. E uma vez que não poderíamos cumprir essa função, na medida em que isto ultrapassaria as finalidades do CEC como entidade acadêmica, essas diversas pessoas tomaram a iniciativa de criar, em meados do ano passado, primeiro um Grupo de Simpatizantes do CEC, que depois se converteria no hoje Coletivo de Jovens pela Segunda República, com o objetivo de transforma-se, em curto prazo, no Movimiento por la Segunda República, que, em linhas gerais, tem dois objetivos claros: a refundação da República e a construção de um autêntico Estado Nacional.

https://cec.pe/

Atualmente, tal coletivo é irmanado ao CEC, e alguns de seus pesquisadores são dirigentes dele. O Coletivo de Jovens pela Segunda República serve, assim, como plataforma de ação conjunta, de modo que as pesquisas tenham a retroalimentação necessária para a construção deste projeto político sob o nome de um Movimento pela Segunda República, que, para a juventude (incluindo nós), representa uma esperança de renascimento sociopolítico perante o fracasso de todas as teorias políticas que surgiram como alternativas a um liberalismo alógeno que, dada a sua visão economicista, tem pavimentado o caminho para as já amplamente conhecidas negociatas – das quais a mais escandalosa é a que envolve a Odebrecht.

2) O que é o Crisolismo?

Dentro deste contexto, o CEC e, particularmente, o Departamento de Estudos em Filosofía y Política (DEFP), viu a necessidade histórica de uma renovação ideológica, na medida em que nenhuma teoria política peruana representava mais qualquer proposta autêntica de mudança – ora por sua falta de atualização ao contexto contemporâneo, ora pelo envolvimento de seus líderes com a corrupção endêmica do sistema político. E é em função da pesquisas do DEFP que começa a se construir uma nova teoria política alternativa, denominada de Crisolismo.

O Crisolismo, desde um ponto de vista praxeológico, configura-se como uma proposta para uma Quarta Teoria Política Peruana, um imperativo do anseio da sociedade peruana por buscar um estado de coisas melhor que o atual. Seu sustentáculo teórico gira em torno da atualização conjunta das categorias de nacionalismo e de democracia. Estas duas categorias, estudadas sob o enfoque crisolista, renovam-se e são purificadas das teorias políticas de onde elas derivaram historicamente (conservadorismo, comunismo, fascismo).

O Crisolismo, desde um ponto de vista semântico, é um neologismo, que faz alusão ao Peru como um espaço onde confluem diversas etnias, raças, cosmovisões, etc., todas contribuindo, num sentido intercultural, com a ideia da peruanidade (culturalmente, espiritualmente, em termos de tradições, costumes, etc.), entendendo esta última no escopo da ontologia de Heidegger, como o Dasein peruano.

Desde um ponto de vista epistemológico, o Crisolismo é o que dentro do pensamento bungiano se chamaria de uma ideologia sociopolítica científica. O projeto bungiano desfruta de aceitação no Peru, no sentido de que a práxis política peruana guia-se muito por apotegmas, sistemas de crenças e declarações de objetivos, sem muita sustentação empírica – sendo que o denominador comum peruano encontra-se justamente em uma política de promessas sem sustentação.

O projeto de uma ideologia sociopolítica científica, por outro lado, exige que qualquer proposta política esteja fundamentada em trabalhos de campo ou em estudos prévios, que possuam capacidade preditiva em termos de programas políticos, ou seja, a política já não é só uma promessa de mudança, mas uma ação minimamente exemplificada. É a imediata implementação de propostas políticas em tempo real, em pequenos cenários, como exemplificação dos benefícios que tais políticas poderiam trazer caso fossem implementadas em uma escala maior.

3) Qual é a relevância do projeto de uma Quarta Teoria Política para a realidade do Peru e de toda a nossa civilização Latino-Americana?

O Crisolismo, considerado em si mesmo, é um projeto em construção, conforme avançam as pesquisas do DEFP.
Para o Peru, o Crisolismo significa a esperança de uma modernidade alternativa, perante o fracasso das perspectivas conservadoras, comunistas e fascistas de fazer frente à perspectiva hegemônica neoliberal.

Atualmente, o cidadão comum encontra-se diante de uma encruzilhada. Diante a experiência internacional das potências liberais norte-americana, inglesa e europeias, juntamente com seus exemplos de desenvolvimento, a sociedade peruana, e latino-americana em geral, deseja obter este mesmo nível de progresso, mas, por sua vez, encontra-se aquém da essência economicista de tal proposta (desarraigada das identidades, dos valores cívicos e da valoração cultural, nas palavras de Alain De Benoist). Assim, ao se identificar apenas parcialmente com a idiossincrasia latino-americana, frente a uma ética protestante das nações anglo-saxãs, a proposta neoliberal latino-americana tem se caracterizado pela confusão entre desenvolvimento social e desenvolvimento econômico. Como resultado disso, o que se vê são políticas sustentadas no PIB, e não na real melhora da qualidade de vida e no bem-estar social.

Tal essência economicista tem tornado a política latino-americana em uma empresa econômica, com as já conhecidas consequências em torno da corrupção, de modo que, hoje, não se concebe outra modernidade além daquela emoldurada no sonho neoliberal, que vê à corrupção como um mal menor inevitável para o tão sonhado progresso.

Contrariamente, casos como o dos BRICS estão dando exemplos de modernidades alternativas à visão do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional. O Crisolismo pretende se construir dentro destas experiências e mostrar à sociedade peruana que, sim, pode-se conquista desenvolvimento e progresso social fora destas concepções geralmente aceitas, e que cada nação deve criar sua própria modernidade, a partir dos seus próprios esquemas e contextos, tal como é o caso dos já mencionados BRICS, assim como de nações como Cingapura ou Coreia do Norte – que, em termos comparativos, parecem não gozar do sucesso econômico das outras nações mencionadas (o que está ligado a diversos fatores, que Alejandro Cao sustenta que são culturais): isso também é um caso de transmodernidade.

Por outro lado, o Crisolismo, como modernidade alternativa, é também uma proposta de consolidação de um projeto identitário, inacabado, começado e exposto com a dissolução do Vice-Reinado do Peru e com a instauração das repúblicas independentes, mas nunca concluído em toda sua essência. O Crisolismo considera que a base da integração latino-americana tem de começar primeiro por uma cabal compreensão de nossa essência identitária: o que se converterá numa integração interna, nacional, base mínima, sem a qual uma integração maior não pode se realizar no nível de toda Latino-América.

Esta compreensão identitária deriva do fato de que, tanto no caso do Peru, como no caso da Latino-América em geral, nossa identidade é consequência de um sincretismo cultural, composto pelas tradições hispânicas/europeias e pelas as tradições indígenas, amazônicas e africanas, com maior proporção em umas ou outras, dependendo de cada contexto. É por isso que filósofos como Alberto Buela falam de uma Indo-Ibero-América como um conceito mais exato que o de Ibero-América, e este por sua vez, mais exato que o de Latino-América.

Israel Lira e Alberto Buela

A partir da compreensão correta deste panorama identitário, pode-se trabalhar numa identidade maior, contrariando ao dilema alienante que existe em certas nações, exemplificado no já conhecido debate Hispanismo-Indigenismo: as nações da Latino-América devem optar a uma visão sintética. No caso do Peru, opta-se pelo Peruanismo, que é precisamente a síntese entre tais visões, aparentemente contrárias, cujo conflito palpável viu-se numa luta encarniçada entre o campo e a cidade no período de 1980-1990. Caso pacífico, comparado com o anterior, mas similar em essência, é o referendo boliviano de 2008 – que Santa Cruz é um dos municípios da Bolívia com maior presença de cultura hispânica.

Em todo caso, não importa se falamos de uma colombianidade (quando sabemos que ela identifica-se quase que em sua totalidade com uma visão hispanista) ou de uma bolivianidade (quando sabemos que a visão indigenista é a majoritária), o importante é reconhecer o sincretismo, e estas categorias semânticas coadjuvam a sua vizibilização, que é a base para conceber a identidade maior de toda Latino-América.

Movimiento por la Segunda República em uma manifestação de rua.

4) Fale um pouco sobre a necessidade de uma integração ampla e de alto nível entre os países da nossa civilização Latino-americana, com o objetivo de fazer frente aos intentos sionistas e imperialistas no nosso continente.

Na mesma linha de argumentação, tendo compreendido a identidade menor de cada nação de sul-americana, base da identidade maior, poder-se-á chegar a uma real integração dos povos da nossa América – que, hoje, produto da visão economicista aludida, possui apenas um caráter econômico e/ou administrativo. CAN, MERCOSUR, UNASUR, etc.

Sem integração cultural, identitária, não pode haver integração real. Evidência clara disso é a histórica da aproximação do Chile aos interesses anglo-saxões e sionistas, desde a Guerra do Pacífico até o conflito das Ilhas Malvinas. Isso se deu porque o Chile não se sentia parte da Latino-América. Como bem diria a poetisa Isabel Allende: “O chileno tem um complexo de faz muito tempo, racialmente quer ser argentino e culturalmente peruano”.

Esta integração real poder-se-ia plasmar-se num futuro, numa necessária Confederação Livre de Nações Latino-Americanas, com o surgimento de um só bloco geopolítico para a real e autêntica defensa dos interesses, aspirações e soberanias dos povos da Latino-América frente aos embates com o imperialismo, muito conhecidos por nós – mencionando exemplos concretos – através da enorme presença de bases militares norte-americanas ao longo de tod o continente sul-americano (como lembranças vividas do Plano Cóndor, da Escola das Américas e da Doutrina de Segurança Nacional durante a Guerra Fria), bem como da intermitente presença de militares israelenses na Patagônia Argentina e Chilena.

Frente ao Imperialismo das Talasocrácias, ou poderes marítimos, cujo único objetivo é a abertura de rotas comerciais e de controle econômico, as nações da Latino-América devem contrapor a ideia de Império ou Imperialidade, oriunda suas sociedades ancestrais, que se manifesta sob forma de difusão cultural, espiritual e civilizacional.

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