A distopia pós-liberal de ‘Her’:

Her narra a história de um homem que se apaixona por ninguém menos que seu computador, Samantha. 

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Embora desosse a temática das relações subversivas entre o homem e a máquina (temática já consagrado no cinema e na literatura, e de potencial aparentemente inesgotável), Her não é exatamente uma distopia.

Em primeiro lugar, porque a trama, ainda que claramente futurística, é ambientada em um futuro bem próximo, talvez só há alguns poucos anos de nossos dias. Em segundo lugar, porque as relações apontadas pela película não jogam com possibilidades meramente formais, estruturadas em um horizonte de absurdos à parte da situação concreta do mundo atual. Em outras palavras, o que é visto é Her poderia muito bem estar acontecendo agora mesmo, literal ou analogamente, no Japão, nos Estados Unidos ou em algum país da Europa.

Afinal, o quão – patologicamente –  distantes estamos de uma sociedade onde pessoas se apaixonam (ou desenvolvem vínculos amorosos e eróticos) pelas vozes artificiais emitidas pelos dispositivos de som de seus notebooks, tablets, smartphones e celulares? Perto? Consideravelmente perto? E se tais vozes fizessem parte de uma maquinaria computacional complexa, que, ao invés de simplesmente obedecer a uma métrica de programação rígida, tenha sido criada para performar emoções, percepções, empatia, dentre outras modalidades cognitivo-afetivas genuinamente humanas? 

Pois bem, se a relação das pessoas com seus celulares, hoje, já beira à simbiose, não fica muito difícil de se imaginar o quadro de um mundo em que computadores, melhor dizendo, sistemas operacionais, sejam capazes de, literalmente, pensar, sentir e agir de modo relativamente independente. Em linhas gerais, a pessoalização da máquina conduziria a uma impessoalização das pessoas, uma vez que representaria uma ruptura nas amarras sociais e um afundamento da realidade humana numa individualidade desmoronada sobre si mesma. Transtornos de pânico e de personalidade, somados a um aumento exponencial dos índices de depressão e suicídio, seriam alguns dos sintomas desta sociedade, que – repito – é a nossa sociedade.

Situando o problema em termos conceituais, a atomização das pessoas em bolhas de pseudo-autossuficiência é uma consequência drástica do projeto liberal – e da própria radicalização da noção liberal de supremacia do Indivíduo. Obviamente, não do liberalismo em seu sentido corriqueiro, bruto, daquela filosofia política sistematizada em manuais de ciência política, ou daquela doutrina econômica favorável à diminuição do Estado (como um liberal poderia objetar), mas do liberalismo como, nas palavras de Aleksandr Dugin, “um fato existencial, uma ordem objetiva das coisas” [1]. Um “liberalismo instintivo” [2], elevado ao status de lente pela qual o mundo deve ser concebido e interpretado – conforme prescreveu Francis Fukuyama com sua tese sobre o Fim da História, a saber: as sociedades liberais como o destino histórico global incontornável da humanidade [3].

Porque o liberalismo é, antes de tudo, filosófico, e só depois econômico. 

Dugin chamará tal liberalismo crônico, enraizado nas mentes e nos corações, psicossocialmente hegemônico, fenômeno de massas, este folk liberalism, de pós-liberalismo – que nada mais é que o estágio político-histórico no qual o liberalismo vai se desideologizando progressivamente e na mesma medida em que vai se naturalizando no tecido social, perdendo seu caráter doutrinário e se transformando em uma visão de mundo difusa, social e culturalmente englobante.

Her é uma fotocópia deste liberalismo fundacional e, diga-se de passagem, tóxico. O filme emana a melancolia e a solidão de sujeitos que, uma vez que atordoadas pelo esvaziamento dos vínculos humanos, isolados em seus apartamentos grandes, porém vazios (localizados, como pontos nevrálgicos, em gigantescos arranha-céus), vão se perdendo em um emaranhado de circuitos replicantes, engolidos por uma técnica cuja funcionalidade é fragmentar e isolar.

Com uma atmosfera lírica levemente comovente, o futuro que Her apresenta evidencia o lado decadente e obscuro da tecnologia e do desenvolvimento histórico da técnica nas sociedades pós-liberais. Um futuro espantosamente próximo de nós, pós-humano, inautêntico, em que o fator autenticamente salvífico não poderia residir noutro lugar senão na própria condição humana originária, estruturada, segundo Heidegger, como Mitsein (ser-com). Heidegger, que nos recordará que todo ser “é sempre ser-com, mesmo na solidão e no isolamento”, uma vez que, independente das contingências, o “mundo sempre é um mundo compartilhado” [4]

OBS: Her é de 2013 e, em 2017, a Arábia Saudita concedeu cidadania a um ciborgue, a robô Sophia, capaz de reproduzir modalidades de ação humanas. O quão perto estamos?       

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[1] Aleksandr, Dugin. A Quarta Teoria Política. 2ª Ed. Austral: Curitiba, 2012, p. 16.

[2] Ibidem, p. 202.

[3] Francis, Fukuyama. The End of History and the Last Man. Nova York: The Free Press, 1992.

[4] Martin, Heidegger. Ser e Tempo (Parte 1). 15ª Ed. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2005, p. 319.

Isaque Santos

Psicólogo, ativista político e membro da NR-RJ.

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