Entrevistamos Svetlana Popova, jornalista, produtora, doutora em Filologia, diretora de documentários e embaixadora do Centro Nacional de Diplomacia Popular da Organização para Cooperação de Xangai (OCX). Sua atuação combina pesquisa acadêmica, produção audiovisual e diplomacia cultural, com foco no fortalecimento dos laços entre a Rússia e os países da Ásia Central por meio da cultura, da história e da memória compartilhada.
Nesta entrevista, Svetlana apresenta seu mais recente documentário, “Turquestão: Eco de Conquistas e Vozes de Amizade”, resultado de uma expedição de cerca de dez mil quilômetros pela Ásia Central. O filme reúne depoimentos de historiadores, escritores e figuras culturais da Rússia, do Cazaquistão, do Uzbequistão e do Quirguistão sobre a história comum da região e os vínculos culturais que continuam unindo seus povos em um momento de profundas transformações geopolíticas.
1. Conte-nos sobre você, sua vida, seu trabalho e sua formação.
Por formação, sou jornalista, produtora e doutora em Filologia. Quanto à minha atuação profissional: sou diretora de documentários e embaixadora do Centro Nacional de Diplomacia Popular da OCX (Organização para Cooperação de Xangai). Vejo minha missão em levar o encanto do mundo russo para o exterior (brincadeira), mas, falando seriamente, acredito que chegou o momento de mudar nossos referenciais de valores não apenas nas palavras, mas na prática.


2. Você atua muito ativamente na diplomacia cultural, trabalhando no setor de cinema, cooperação internacional e outras áreas. Como você acredita que o fortalecimento dos laços culturais entre a Rússia e os países da Ásia Central pode contribuir para o desenvolvimento da região eurasiana?
Vivemos na fratura da ordem mundial habitual: o planeta está se reestruturando, os centros geopolíticos mudam e a multipolaridade cresce. Todas essas perturbações externas na história da humanidade se combinam com um crescimento interior. É hora de pararmos de pensar apenas no sucesso pessoal, apenas na própria carteira, e começarmos a servir às pessoas. Devemos nos perguntar: o que cada um de nós está disposto a oferecer à humanidade, ao seu país, aos seus vizinhos e à sua família? É hora de mudar os referenciais de valores e passar a transmitir ao mundo não a espessura da carteira do pai como principal conquista, mas a generosidade da alma e a profundidade da mente. A partir daí o mundo se reestruturará de verdade. E estas não são palavras vazias de alguma participante de concurso de beleza. Concretamente, procuro promover valores humanos tradicionais por meio de projetos na área da cultura para reduzir a russofobia nos países vizinhos e a migrantofobia na Rússia.
Ao filmar documentários históricos, criar programas de divulgação científica sobre trajes e tradições dos povos da Rússia e da Ásia Central, e realizar fóruns públicos, nossa equipe e eu mostramos: vejam, somos todos diferentes! Mas nossos valores são comuns: família, filhos, respeito à geração mais velha, ajuda mútua, respeito mútuo e continuidade histórica! Não devemos nos odiar por motivos nacionais ou religiosos; precisamos apenas nos unir para nos tornarmos mais felizes e fortes.
É claro que as mágoas interétnicas, assim como a raiva marginal, acumulam-se hoje, ainda mais porque são habilmente inflamadas por ONGs destrutivas e pela mídia de outros atores da fratura geopolítica. No entanto, o bom senso deve vencer. Procuramos lembrar disso e promovemos a amizade entre os povos. Na União Soviética existia o conceito de “amizade dos povos”; depois ele se desvalorizou e foi esquecido, mas era um sentimento maravilhoso e hoje precisa ser revitalizado, nem que seja para desafiar o neonazismo.
3. De onde surgiu o seu interesse pela Ásia Central? Além de ter nascido no Cazaquistão, quais outros motivos influenciaram sua decisão de trabalhar com essa região?
Moro no centro geográfico da Rússia, na capital do Ural do Sul — Cheliabinsk, na fronteira entre a Europa e a Ásia (diretamente sob a nossa cidade corre o rio subterrâneo Igumenka, por onde passa a divisão entre a Planície do Leste Europeu [Russa] e a Planície da Sibéria Ocidental). E nasci e cresci nas estepes do Cazaquistão.
Em nossa região, mais do que em qualquer outro lugar, sente-se o pertencimento à Grande Rota da Seda. Até no brasão de Cheliabinsk há um camelo. Somos uma parada nessa rota antiga, somos os portais da Europa para a Ásia, um cruzamento de culturas antigas e civilizações modernas.





4. Conte-nos um pouco sobre o seu projeto «Portais Eurasiáticos». Do que se trata esse projeto e quais são suas principais áreas de atuação?





A região de Cheliabinsk e a minha região natal de Kostanay possuem a mais longa extensão de fronteira terrestre entre a Rússia e o Cazaquistão.
Há 4 anos, em parceria com a Universidade Estadual de Cheliabinsk, começamos a realizar na filial de Kostanay o fórum imersivo internacional «Portais Eurasiáticos» para fortalecer a cooperação fronteiriça. Este ano, ganhamos pela primeira vez um subsídio presidencial para a realização desse fórum, e nossa plataforma agora se expandirá: Bisqueque (capital do Quirguistão) também será incluída, onde abriremos mais um «Portal Eurasiático» com base na Universidade Eslava Quirguiz-Russa.
O «Portais Eurasiáticos» é o único fórum não político e não governamental na Ásia Central. É uma das primeiras plataformas de verdadeira diplomacia popular, em que a sociedade civil desperta e compreende que a boa vizinhança pode ser fortalecida por nós mesmos. Que os políticos e diplomatas trabalhem profissionalmente; nós, cidadãos comuns, desenvolveremos em paralelo uma comunidade internacional civil. No fórum, costumamos ter 5 eixos: educação, ecologia, negócios, mídia e cultura — as pautas mais importantes para o cidadão comum. Pessoas de diferentes países compartilham seus projetos, histórias, pesquisas científicas e resultados. Nós nos conhecemos, criamos projetos conjuntos e o nosso sonho de amizade entre os povos torna-se realidade aqui.




5. Conte-nos um pouco sobre o seu filme «Turquestão». Do que trata esse filme e o que os espectadores verão?
Uma vez por ano, viajo pela Ásia Central para conhecê-la melhor e, ao mesmo tempo, gravo um documentário por lá. Este ano, passamos três semanas na única cidade litorânea do Cazaquistão — Aktau, na incrivelmente bela e quase cósmica península de Mangystau — e gravamos lá um filme sobre o Mar Cáspio, que hoje está secando e se afastando da costa por centenas de metros. O atlas do Mar Cáspio abrange cinco países, incluindo a Rússia, e os entrevistados buscam no filme uma resposta sobre como enfrentar essa tragédia juntos. O filme será lançado no próximo ano e se chamará «A Canção do Mar Nômade».




Este ano, lançamos o filme «Turquestão: Eco de Conquistas e Vozes de Amizade». Percorremos 10 mil quilômetros pela Ásia Central para registrar a opinião de historiadores, escritores e figuras culturais de 4 países — Cazaquistão, Uzbequistão, Quirguistão e Rússia. As pessoas compartilham pensamentos sinceros sobre a nossa história comum, sobre as conquistas, a convivência na União Soviética, o colapso e a independência. O filme é muito emocionante, os espectadores choram, e as vozes das pessoas se fundem em uma só: todas falam de amor e amizade entre os povos; isso está gravado no subconsciente, são laços históricos inquebráveis.
6. Na sua opinião, quais são hoje as principais questões geopolíticas relacionadas à Rússia e à Ásia Central? Quais oportunidades você considera mais importantes, quais problemas são os mais graves e como, a seu ver, eles podem ser resolvidos?
Mas que cinema existiria sem conflito, e que vida sem drama! É claro que hoje existem questões geopolíticas controversas, ressentimentos históricos e a incitação ao ódio interétnico em âmbito local, o que às vezes lembra brigas infantis. Mas é preciso entender uma coisa: a Rússia e a Ásia Central são vizinhas, não iremos a lugar nenhum longe uma da outra, somos muito próximas. Temos fortes laços econômicos — oleodutos compartilhados, elevado volume de comércio — e também sólidos laços cultural-históricos, com valores e mentalidade comuns. Entendemo-nos em russo. O mais importante é lembrarmo-nos disso com mais frequência e contar isso às crianças, para que os jovens dos nossos países se valorizem e se respeitem mutuamente.








