O encontro da mulher com seu animus e a afirmação da sua feminilidade através dele.
No século VI a.C., vivia em Betúlia uma jovem e bela mulher chamada Judite, filha de Merari e viúva de Manassés. Havia cerca de três anos que estava de luto pela morte de seu amado marido, encontrando consolo somente na fé. Por causa de sua vida espiritual, era bastante respeitada por todo o povo.
Nesse contexto, Judite procurou os anciãos de Betúlia para exortá-los ao arrependimento e à humildade diante de Deus, depois que eles O haviam posto à prova, tendo prometido entregar sua terra aos assírios se Deus não os socorrece em até 5 dias. Judite recordou-lhes que o sofrimento poderia ser uma prova de fé e que a humildade perante Deus é o que lhes daria força para enfrentar os adversários.
Até então, Judite vivia das lembranças do passado, mas, diante da realidade de ver seus compatriotas caírem aos pés dos inimigos, voltou-se inteiramente para o presente, vislumbrando a libertação de seu povo e da terra de Deus. Sua fé, até então vivida sobretudo no recolhimento e na oração, manifestou-se como vontade e ação.
É justamente a partir dessa mudança que podemos observar a figura de Judite sob a perspectiva junguiana da relação da mulher com o seu animus (o “homem” da mulher).
Judite reúne em si duas dimensões que poderiam parecer opostas: a receptividade e a interioridade, de um lado; e a vontade e a ação, de outro. Seu animus manifesta-se precisamente quando sua interioridade se converte em ação consciente. É o movimento que leva a mulher para fora da pura interioridade, sem prejuízo de sua feminilidade.
Essa harmonia manifesta-se também na maneira como Judite enfrenta o inimigo. Enquanto Holofernes possui armas e poder militar, Judite possui aquilo que lhe é próprio: sua presença feminina. E é justamente por meio de sua beleza que Judite entra no espaço dominado pelo inimigo. Ela não precisa assumir a forma masculina do guerreiro para enfrentar o guerreiro. Sua força guerreira manifesta-se de acordo com sua própria natureza.
O animus de Judite não destrói sua feminilidade, portanto. Ele lhe dá direção e capacidade de decisão. A dimensão afetiva, espiritual e feminina permanece presente enquanto ela age.
Essa unidade torna-se ainda mais evidente no momento decisivo. Depois de seduzir Holofernes e fazê-lo beber até perder a capacidade de resistência, Judite encontra-se diante do ato que havia planejado: cortar a cabeça do comandante inimigo.
Nesse instante, sua humanidade feminina reaparece com toda a força: “Ele me ama, devo matá-lo?”. Judite sente medo. Hesita diante do homem que está prestes a matar. Um homem em seu lugar não pensaria duas vezes.
Ainda assim, é precisamente essa presença do temor que torna sua ação mais significativa. Ela reza, porque também teme a Deus, e finalmente corta a cabeça daquele que comandava o exército que ameaçava sua pátria. Mesmo com as emoções à flor da pele, seu ato nasceu da simbiose de uma vontade própria e racional submetida a uma consciência superior.
E aqui aparece uma dimensão que ultrapassa a própria estrutura junguiana: o Logos divino. O princípio que orienta Judite é mais do que o Logos enquanto razão e pensamento, que lhes são próprios. É também o Logos enquanto realidade divina, Deus que julga com justiça e conduz a história.
Assim, Judite possui inteligência para elaborar o plano, vontade para executá-lo, coragem para enfrentar o inimigo, mas sua ação está subordinada à fé. Ela não se coloca como princípio absoluto de sua própria ação. Antes de agir, reza, preservando sua interioridade, sensibilidade e a abertura ao transcendente.
Desde modo, Judite representa uma feminilidade capaz de agir no mundo sem abandonar sua própria natureza. Seu poder não está na imitação do homem, mas na integração de uma força ativa com aquilo que lhe é próprio enquanto mulher e enquanto integrada ao seu Animus.







