O Retorno da Geopolítica Profética

Com os acirramentos sucessivos dos conflitos no Oriente Médio fica cada vez mais claro o quão errática e ilógica a atuação das forças ocidentais tem se tornado. Ao olhar superficial pode parecer uma mera questão de desleixo, mas examinando a mentalidade e a visão de mundo da cúpula do poder ocidental mais profundamente pode se captar uma lógica distorcida por trás do show de horrores que se desenvolve diante de nós.

A seguinte transcrição é do último episódio do programa Escalation Show, da Rádio Sputnik, com o Prof. Alexander Dugin.

Apresentador da Rádio Sputnik, Escalation Show: O tópico do programa de hoje está inevitavelmente ligado ao Oriente Médio. Seja qual for o contexto global que considerarmos, toda questão hoje — seja na área da economia ou da política de alto nível — está, de uma forma ou de outra, ligada aos acontecimentos nesta região. Vamos começar com o aspecto mais amplamente debatido no momento: a probabilidade de uma operação terrestre das forças armadas dos EUA contra o Irã. Não estamos mais falando apenas das ilhas. Previsões de um possível ataque à costa ou mesmo a alvos estratégicos diretamente no continente estão se tornando cada vez mais comuns. A situação é paradoxal: do ponto de vista militar, a liderança do Irã afirmou repetidamente que está literalmente “esperando” por essa invasão para poder desferir um golpe decisivo. A liderança política de Teerã projeta confiança, enfatizando que não tem medo da agressão direta. Na sua opinião: quão realista é uma operação terrestre dos EUA no Irã? Isso é um plano deliberado, um blefe ou um jogo arriscado com apostas extremamente altas? E, se realmente acontecer, a qual propósito fundamental um ataque como esse poderia servir?

Alexander Dugin: Aqui, é preciso considerar o contexto mais amplo. As operações americanas envolvendo invasão e mudança de regime nas últimas décadas só tiveram sucesso sob uma condição: tinha que haver uma camada dentro da liderança do país-alvo que já tivesse firmado um acordo de traição e conluio com os americanos. Sem isso, eles nunca tiveram sucesso em nada — tais operações sequer chegavam a ser iniciadas.

O cenário é sempre o mesmo: primeiro, ameaças são feitas, tropas são enviadas e ataques aéreos são lançados. Depois — seja por meio dos americanos, seus aliados locais ou pelas próprias mãos das forças que estão sendo alvo — a figura que encarna a resistência, a soberania e a consolidação é eliminada. Ela sempre é ou desacreditada publicamente ou fisicamente eliminada.

E então vem a traição inevitável. Estou me referindo ao que chamo de “sexta coluna”. Esta não é a “quinta coluna” que vai às ruas protestar — em regimes repressivos, como a China ou o Irã, esses elementos podem simplesmente ser presos, e o assunto está encerrado. A “sexta coluna” é a principal estratégia dos americanos e a mais perigosa. São pessoas nos escalões mais altos do poder, próximas ao governante soberano do Estado. Sempre há alguém disposto a fechar um acordo com Washington para ascender de segundo ou terceiro no comando para primeiro. Como os americanos declaram guerra especificamente ao líder, aqueles na linha de sucessão entram em negociações para mudar drasticamente seu status social.

Essa foi a única coisa que funcionou até hoje. Em todas as situações.

No Irã, no entanto, a situação é diferente. Ironicamente, a potencial “sexta coluna” — aqueles que, em teoria, poderiam ter feito um acordo com os americanos — foi varrida logo pelos primeiros ataques dos EUA e de Israel. Simplesmente não sobrou ninguém na liderança que esteja preparado para negociações extraoficiais.

Identificar a “sexta coluna” é extremamente difícil: formalmente, essas pessoas são absolutamente leais; juram fidelidade ao Estado, mas, na realidade, jogam jogos secretos com o inimigo. Foi precisamente nelas que Washington apostou no Iraque, na Líbia e na Síria; todas as “revoluções coloridas”, da Venezuela ao Oriente Médio, foram construídas sobre esse princípio. Mas hoje, não existe cenário para tal coisa no Irã. Pela primeira vez em muito tempo, os americanos terão que lutar de verdade.

Eles enfrentam um país com uma população de 90 milhões de habitantes e um terreno ainda mais intransponível do que o do Afeganistão. Os iranianos não perdoarão a morte de seus líderes e filhos — o assassinato de 165 meninas por mísseis uniu o povo contra o agressor, mesmo aqueles que não gostavam do regime. Derrotar um povo assim em terrenos de alta altitude, após crimes tão monstruosos do imperialismo americano, parece uma tarefa impossível. Os Estados Unidos simplesmente não têm essa experiência. Se optarem por uma invasão em grande escala, isso se tornará um segundo Vietnã para eles, só que muito mais terrível e prolongado. Essa campanha se arrastará por anos e é altamente provável que termine em desastre.

Além disso, os EUA praticamente não têm aliados para uma operação terrestre. Seu principal aliado, Israel, já está severamente sobrecarregado: as FDI estão sofrendo perdas colossais no Líbano, o ‘Domo de Ferro’ intercepta apenas uma pequena fração dos foguetes, e o próprio território do país está gradualmente se transformando em uma versão alternativa de Gaza sob uma forte barragem de ataques do Hezbollah e do Iêmen. Israel está no limite de suas forças; um êxodo em massa da população está prestes a começar lá — eles não têm tempo para ajudar um aliado. Quanto às monarquias árabes, sua infraestrutura foi comprometida, e elas próprias estão muito acostumadas a uma vida de luxo e especulação financeira para entrar em guerra. Algumas delas, como o Catar, podem muito bem se recusar de maneira inequívoca a se envolver nessa aventura.

A resistência em apoio ao Irã irá se acender em pelo menos quatro grandes focos: Iraque, Iêmen, Síria e o Hezbollah libanês. O que os ocupantes israelenses estão fazendo hoje no sul do Líbano está provocando repulsa não apenas entre os xiitas, mas também em toda a sociedade libanesa, que anteriormente estava preparada para fazer qualquer acordo com o Ocidente. Na Síria, a situação não é menos tensa: mesmo que al-Sharaa tenha chegado ao poder com o envolvimento da CIA e do Mossad, ele é inevitavelmente compelido a responder às aspirações do povo, e as “ruas” sírias são ferozmente anti-Israel.

Esse sentimento antissionista é capaz de agitar o mundo sunita, particularmente em locais como Arábia Saudita, Egito ou Argélia. Basta uma faísca — por exemplo, um ataque à Mesquita de Al-Aqsa. Ontem, o Patriarca Latino Pierbattista Pizzaballa foi impedido de entrar em Jerusalém no Domingo de Ramos. Esse é um ato sem precedentes (o primeiro em mil anos), que provocou uma onda de indignação em todo o mundo católico. Se os sionistas tomarem atitudes radicais contra locais sagrados islâmicos, Israel se verá em uma conjuntura crítica. Como se pode falar em um ‘Grande Israel’ quando a própria existência do Estado está em questão?

E assim, nessa situação catastrófica, tendo fracassado em proteger seus aliados no Oriente Médio e garantir para si seus “Epstein petrolíferos”, as monarquias do Golfo, a América de Trump está se preparando para lançar uma operação terrestre. Isso está ocorrendo tendo como pano de fundo um bloqueio energético global. O fechamento do Estreito de Ormuz está desferindo um golpe colossal nas economias da China, Japão, Índia e Europa. Nós também não podemos — e, para ser franco, não temos o menor desejo — de fornecer recursos aos nossos inimigos.

Trump está tentando justificar a invasão com a necessidade de “abrir” o estreito, mas a realidade é muito mais grave. Na noite passada, forças iranianas atingiram usinas de dessalinização em Israel que abasteciam 47% da água do país. No Oriente Médio, a água é mais valiosa que o petróleo, e agora instalações semelhantes no Kuwait e nos Emirados Árabes Unidos também foram desativadas em resposta aos ataques à infraestrutura energética do Irã.

Lançar uma operação terrestre sob tais condições é suicídio geopolítico. Trump não tem apoio interno consolidado: ele enfrenta oposição não apenas dos democratas, mas também de uma parte significativa do seu próprio eleitorado. Seus índices de aprovação estão no fundo do poço e, assim que os primeiros caixões começarem a chegar aos EUA, o contexto político se tornará totalmente insustentável para ele.

Apresentador: Compartilho plenamente do seu ceticismo quanto ao sucesso de uma operação como essa. Se apenas olharmos para os números: no Afeganistão, o efetivo máximo do contingente americano chegou a 110 mil soldados, e sabemos o resultado. Aqui, no entanto, a força do contingente destacado mal chega a 50 mil, e mesmo tendo isso em mente o Irã é uma tarefa muito mais complexa, tanto estratégica quanto geograficamente. Parece uma equação deliberadamente insolúvel. No contexto de seus comentários sobre os ataques de Tomahawk contra alvos civis, surge uma questão lógica: certamente Washington não poderia ter deixado de entender que reação isso provocaria no Irã. O país inteiro se uniu em uma grande comoção de pesar e luto nos funerais das crianças que morreram, e o ódio ao agressor se tornou absoluto. Então, esse ataque não seria um erro, mas uma questão de lógica fria? O verdadeiro objetivo não seria provocar o caos total no Oriente Médio que estamos testemunhando agora, após as ações retaliatórias de Teerã? Na sua opinião, essa conflagração é um fim em si mesmo para os EUA e Israel, ou eles simplesmente perderam todo o controle sobre as consequências de seus atos?

Alexander Dugin: É exatamente esse o caso. Mas gostaria de acrescentar mais um fator que torna qualquer operação terrestre hoje extremamente problemática: é a mudança radical na própria tecnologia da guerra. Nos últimos quatro anos, percebemos por experiência própria que os sistemas não tripulados — tanto por ar quanto, não menos importante, pelo mar — estão alterando completamente o equilíbrio do uso dos meios de combate tradicionais.

Hoje, um exército de 50 mil homens, com drones modernos à sua disposição, pode ser efetivamente reduzido às capacidades de uma unidade de 5 mil soldados. Encontramos isso durante nossa Operação Especial: esta é uma guerra para a qual ninguém estava preparado; ela está mudando seus parâmetros diante dos nossos olhos. Onde estão aqueles tão alardeados tanques Abrams em que todos tanto apostavam? Eles foram destruídos em algumas semanas; não resta nada deles. E agora estão mantendo silêncio sobre eles. Por que enviar “metal” de milhões de dólares para a destruição contra um pequeno drone de madeira compensada?

O mesmo se aplica à marinha. Drones submarinos modernos permitem afundar um destróier de bilhões de dólares por míseros 10 mil dólares. Essa tecnologia foi usada contra nós e nós, para nosso grande pesar, sofremos perdas. Mas isso é um jogo para dois. Os iranianos estão estudando nossa experiência de perto. Pode até ser possível capturar a Ilha de Kharg, mas na costa iraniana, as tropas americanas estariam altamente expostas. O número de baixas que sofreriam é incalculável. Nós mesmos passamos por algo semelhante com a Ilha das Cobras: é fácil capturá-la, mas mantê-la significa sofrer perdas incomparáveis aos benefícios de manter uma presença ali. É suicídio.

Além disso, Trump não tem objetivos positivos nessa guerra, além de tentar “abrir” o Estreito de Ormuz, que ele mesmo fechou. Mesmo que alguém tentasse imaginar esse sucesso altamente duvidoso, é difícil chamar uma situação de vitória quando você primeiro quebra tudo e depois, ao custo de gastos colossais, tenta consertar aquilo que você quebrou apenas parcialmente. Trump, é claro, contará qualquer coisa como um sucesso.

Fui solicitado a avaliar as ações e declarações do presidente americano com moderação, e estou atendendo a esse pedido. Acho que nosso povo tem metáforas suficientes para descrever o comportamento dele de forma apropriada. Respeitaremos as normas diplomáticas, mas tudo o que Trump faz parece cada vez menos um “plano astuto” e mais o suicídio sistemático do Ocidente.

Alguns analistas ocidentais, entre os oponentes de Trump, de repente se lembraram do ‘Russiagate’. Eles dizem: ‘Nós avisamos que Trump é agente de Putin! Olhe o que ele está fazendo: está destruindo a economia ocidental, minando o poder dos Estados Unidos e transformando a própria instituição da presidência em motivo de chacota, zombado pelo mundo inteiro.’ Não desejo aqui fazer julgamentos pessoais sobre ele — isso é o que seus oponentes dizem. Talvez alguns o considerem um grande homem, digno até de adoração, mas parece que hoje ninguém pensa assim — nem nos EUA nem no restante do mundo.

Na verdade, sob o pretexto de fortalecer a hegemonia americana, Trump está a destruindo de uma vez por todas. Surge a pergunta: como isso se tornou possível? Tenho apenas uma explicação: um fator escatológico entrou em jogo. É o que no Ocidente se chama de profecia. Hoje, um enorme número de analistas sérios está usando esse termo para analisar a situação geopolítica no Oriente Médio.

Netanyahu e sua comitiva, especialmente radicais como Ben-Gvir, acreditam sinceramente que a vinda do Messias está próxima. Eles estão preparando o terreno para o Terceiro Templo e o projeto da ‘Grande Israel’ — e isso não é metáfora, mas um chamado direto à ação. Nos EUA, sionistas cristãos sucumbiram ao mesmo impulso: para eles, a guerra em Israel é a batalha final antes da Segunda Vinda de Cristo. Pete Hegseth, chefe do Pentágono, fala abertamente sobre isso. Ele diz às tropas: ‘Vocês vão morrer pela Segunda Vinda; vocês estão indo para uma Cruzada.’

A maior parte da humanidade — incluindo muitos americanos e israelenses — não acredita nisso. Mas isso se torna uma motivação irracional e poderosa para certas forças-chave no Ocidente. A geopolítica da profecia é o único fator que explica uma série de movimentos inconsistentes. Se aceitarmos esse fator, tudo se encaixa: o caos e a destruição não devem ser temidos, pois são uma etapa necessária da tribulação (outro termo usado pelo sionismo cristão). Da perspectiva dos sionistas cristãos, um cataclisma que recai sobre a humanidade é um prólogo necessário para a Segunda Vinda de Cristo e, para os judeus, para a primeira vinda do Messias.

Apresentador: A troca de ataques contra infraestrutura crítica não está apenas continuando; está se intensificando: de acordo com os últimos relatos, uma refinaria de petróleo em Haifa está em chamas, instalações petroquímicas iranianas sofreram sérios danos, e ontem uma das maiores usinas de alumínio do Bahrein foi atacada. Mas o que é verdadeiramente alarmante é que edifícios universitários no Irã também se tornaram alvos. Teerã já prometeu uma resposta à altura contra centros educacionais semelhantes nos estados do Golfo. Nesse contexto, uma declaração altamente ressonante foi feita pelo deputado iraniano Alaeddin Boroujerdi: ele enfatizou que a adesão do Irã ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) não faz mais sentido, dado que os EUA e Israel estão efetivamente ignorando quaisquer normas internacionais. Isso levanta uma questão lógica: se o Irã está falando sério sobre retirar-se do tratado, isso não significa que o ‘limiar nuclear’ já foi ultrapassado? Afinal, a lógica sugere que um país se retira de um acordo quando este começa a dificultar a realização de um potencial existente. Você acredita que estamos à beira de reconhecer oficialmente o Irã como uma potência nuclear?

Alexander Dugin: Essas são perguntas para as quais ninguém conseguiu dar uma resposta direta por décadas.

Apenas muito recentemente Donald Trump reconheceu abertamente a posse de armas nucleares por Israel, embora analistas já discutissem isso há anos, enquanto a própria Tel Aviv apenas insinuasse. Se Israel as usará ou não — ninguém sabe. O status nuclear pode permanecer nessa ‘área cinzenta’ por muito tempo, até que certas circunstâncias forcem que as cartas sejam mostradas.

O Irã possui armas nucleares? Podemos ver que Teerã possui excelentes sistemas de mísseis com grande alcance. Tecnicamente, não seria particularmente difícil transportar uma, vinte ou cem ogivas nucleares por mar a partir da Coreia do Norte, enquanto essa rota ainda não estiver sob controle total, ou transportá-las através do Mar Cáspio a partir do nosso território, ou entregá-las a partir do Paquistão.

Se os iranianos fossem um povo atrasado lutando com arcos e flechas, alguém poderia argumentar sobre o tempo necessário para desenvolver a tecnologia. Mas com uma infraestrutura militar tão poderosa, uma tecnologia de mísseis avançada e um sistema de segurança profundamente estratificado, é apenas uma questão de vontade. A guerra já dura um mês; o espaço aéreo é amplamente controlado pelos americanos, e ainda assim mísseis continuam caindo metodicamente por todo o Oriente Médio a partir de túneis escondidos nas montanhas, e o Irã permanece inabalado.

Por muito tempo, a fatwa do falecido Imam Khomeini que proibia a posse de armas nucleares permaneceu em vigor. Os iranianos são um povo sábio e espiritual; eles entendiam que essa é uma arma infernal, uma arma de Satanás, que traz apenas a autodestruição. Eles tinham razões espirituais convincentes para não recorrer a ela. Mas em uma situação crítica, quando a própria existência do país está em jogo, eles ou recuperarão as ogivas já escondidas ou as obterão a qualquer momento. Adaptar uma ogiva já pronta em um míssil iraniano, que tem garantia total de atingir seu alvo, estaria assim ‘a um palmo de distância’.

Não possuo informações confidenciais, mas, como analista e filósofo, arriscarei um palpite: eles as têm. E usarão essas armas se a necessidade surgir. Muito provavelmente não atingirão o território dos EUA, mas um ataque será lançado contra bases americanas no Oriente Médio – que já foram pelo menos 50% destruídas – e contra Israel. Teerã é capaz de garantir que, por cem anos, não reste nada nesta terra além de Chernobyl e mutantes. Eles são capazes disso – se não agora, com o tempo.

As pessoas nos EUA e em Israel que estão fazendo pressão por uma escalada não têm qualquer perspectiva positiva. Mesmo que alguém imaginasse uma vitória local sobre o Irã — o que duvido, dadas as defesas iranianas — o resultado seria catastrófico: o Oriente Médio e Israel em ruínas, a economia global em coma, e a imagem dos EUA não evocando nada além da mais profunda repulsa na humanidade afora. Israel é odiado por todos. Nos próprios EUA, surgiu uma tempestade de antissemitismo como não se via nem nos dias de Henry Ford.

O nível de hostilidade em relação ao lobby israelense, ao AIPAC e aos sionistas cristãos é algo sem precedentes hoje.

E o que Trump ganhou? — Em vez de fortalecer a Grande Israel e sua própria hegemonia, ele foi arrastado para uma guerra que já perdeu — moral, política e economicamente. Pete Hegseth, chefe do Pentágono, lançou a ideia de uma Grande Estados Unidos da América, incluindo a Groenlândia e o Canadá — aparentemente para desviar a atenção do fiasco no Oriente Médio. Mas isso já é um escândalo sem nenhuma base na realidade.

Em vez de resolver problemas internos, Trump se viu em uma armadilha. A menos que se acredite na hipótese de que ele está deliberadamente minando as bases da dominação ocidental, resta apenas uma explicação: ele e sua comitiva se tornaram reféns de uma profecia. Essas são ações suicidas. Existem guerras bem-sucedidas, como a captura de curto prazo do Iraque, embora até isso tenha se transformado em uma prolongada ação desmoralizante. A destruição da liderança iraniana foi um sucesso tático, mas a reação negativa que isso causou superou todas as expectativas. No longo prazo, não há nenhum vestígio de prospectos positivos aqui para os EUA.

É simplesmente autodestruição. Se nos lembrarmos da “geopolítica profética”, então todas as catástrofes atuais fazem sentido no cenário escatológico dos protestantes dispensacionalistas que agora estão no comando da Casa Branca. O lugar é administrado por pessoas como Paula White – uma pastora que fala em línguas demoníacas e pratica hipnose. Essas figuras fanáticas, em aliança com políticos israelenses tomados pela mania messiânica, estão criando um bloco completamente irracional à frente do Ocidente coletivo. A Europa recua horrorizada diante disso: até mesmo políticos leais como Viktor Orbán admitem que impedir o Cardeal Pizzaballa de entrar no templo é simplesmente inaceitável.

Apresentador: Aliás, Netanyahu acabou emitindo uma permissão permitindo que o cardeal entrasse no templo. Acontece que ele só o fez no dia seguinte ao Domingo de Ramos.

Alexander Dugin: Para os católicos, hoje já é Segunda-Feira Santa, o primeiro dia da Semana Santa, enquanto a nossa Páscoa Ortodoxa este ano será uma semana depois da católica. Mas em questões espirituais, é vital fazer tudo no momento certo. Se uma pessoa não pode comparecer à festa de celebração ou, digamos, prometem a ela acesso ao Fogo Sagrado no dia seguinte — isso é um banho de água fria.

Explicar o que está acontecendo de qualquer forma além da “geopolítica profética” é, na minha opinião, simplesmente impossível. Mas veja: há uma lógica interna nessa loucura. Se alguém acredita sinceramente no momento messiânico — como acreditam os sionistas cristãos, como aqueles ao redor de Trump, como Pete Hegseth, Paula White e Lindsey Graham, ou como acreditam os radicais israelenses ao redor de Netanyahu — então cada ação que eles tomam é justificada.

Eles estão vivendo “pelo empréstimo” dos tempos escatológicos que virão. Eles estão gastando o “capital do Messias”, que, em sua profunda convicção, está prestes a aparecer. Todas as suas ações são realizadas no limite do aceitável. É como se estivessem pulando de uma torre alta na esperança certeira de que serão pegos no último momento. Lembre-se de como Satanás tentou Jesus Cristo: “Atira-te daqui abaixo, porque está escrito: Ele dará ordens a seus anjos a teu respeito, e eles te susterão nas mãos”.

O que Trump e Netanyahu, a América e Israel estão fazendo agora é precisamente esse salto das alturas. Eles acreditam que os anjos do inferno os pegarão em sua queda e lhes concederão a dominação mundial. Esta é uma tentação satânica muito real. Portanto, a geopolítica da profecia não é fantasia, mas uma força ativa e extremamente perigosa.

Apresentador: Mudemos de assunto para abordar uma figura cuja estatura é incomparavelmente menor do que a dos líderes mencionados do Ocidente e do Oriente, mas que constantemente tenta se manter na pauta das notícias. Refiro-me ao presidente andarilho da Ucrânia, que viajou subitamente ao Oriente Médio e até assinou certos acordos nos Emirados Árabes Unidos — supostamente sobre o fornecimento de diesel e outros assuntos. Está claro que, em escala global, essa questão é muito menos significativa, mas para nós, para a Rússia, no contexto da Operação Militar Especial em curso, continua relevante. Qual é a sua opinião sobre o aparecimento de Zelensky no Oriente Médio — exatamente neste ponto de convulsão e bifurcação global? Por que ele foi para lá e quais objetivos políticos está perseguindo na situação atual? E o mais importante — ele os alcançará? Afinal, muitos especialistas concordam que as pessoas simplesmente pararam de prestar atenção nele em meio a todas essas convulsões globais.

Alexander Dugin: De fato, as pessoas certamente pararam de prestar atenção nele. Quando os demônios gigantes entraram em jogo, ninguém mais ousou se importar com os demônios menores e com zé-ninguéns como Zelensky. Ele está tentando se encaixar na coalizão desses grandes demônios, lembrando as pessoas de sua existência, dizendo que ele também pode causar problemas e matar. Mas essas são meras tentativas desesperadas. Anteriormente, quando as forças principais estavam apenas se aproximando, uma enorme lupa foi colocada diante dele; ele foi projetado como um holograma nas telas do mundo; parlamentos o aplaudiam. Isso foi apenas um aquecimento. Agora, no entanto, com a chegada dos grandes demônios, ele, é claro, mostrou-se insignificante em comparação a eles.

A “ajuda” dele, é claro, não tem efeito algum. Alguns drones chegaram — os iranianos imediatamente os destruíram junto com os operadores ucranianos.

Uma coisa é lutar contra nós em território conhecido, onde eles vêm se entrincheirando há anos desrespeitando os Acordos de Minsk. No Oriente Médio, a paisagem é diferente: lá eles estão completamente expostos; lá, eliminar seus especialistas e o próprio Zelensky é mais fácil do que fácil. Depois de tudo o que passaram, os iranianos dispensaram as formalidades desnecessárias.

Você tocou em um tópico importante: por que os americanos e israelenses, como verdadeiros genocidas e maníacos, estão atacando universidades, matando pensadores, acadêmicos e estudantes? Porque esta é uma guerra do espírito, uma guerra das trevas contra a luz. Eles entendem: a força do Irã não está apenas nos mísseis, mas nos corações e mentes, na educação e na cultura. Nós também deveríamos prestar atenção nisso. O inimigo está bem ciente de que a ciência e a educação soberanas são os recursos fundamentais da sociedade, sobre os quais tudo se sustenta.

Os ataques às universidades não são meramente loucura ou uma violação de convenções. O inimigo atinge diretamente o coração, porque esta é uma guerra de ideias. De um lado está a profecia deles; do outro, a iraniana, ou a nossa própria visão de onde a Rússia deve se posicionar nesta era crítica do fim dos tempos. A ideia de profecia não é um conceito vazio. Eles a enquadraram de uma maneira; os iranianos, de outra. Nós, no entanto, temos nossa própria missão: o papel do Katechon, aquele que detém a vinda do Anticristo. Nossos governantes herdaram esse papel de Bizâncio.

Cada participante do conflito atual — tanto na Ucrânia quanto no Oriente Médio — tem seu próprio mapa dessa batalha final. E se o inimigo está atacando as universidades, isso significa que o pensamento independente é um componente crucial desta guerra. Precisamos tirar muitas conclusões dos acontecimentos no Oriente Médio, mas esta — sobre o significado do pensamento e do espírito — é, em minha opinião, de importância primordial.

Apresentador: E, finalmente, uma pergunta interessante que nos chegou pelo nosso canal no Telegram. Diz respeito à possibilidade de uma chamada “trégua de Páscoa”: O que você acha, Alexander Gelyevich, poderia este grande feriado — seja a Páscoa católica, que está sendo celebrada agora no Ocidente, ou a nossa Páscoa ortodoxa — ter algum impacto na intensidade dos combates? É possível algum gesto do Irã ou de Israel relacionado a essas datas, ou essas tréguas são agora impensáveis, dada a atual tensão escatológica?

Alexander Dugin: Acho que não. Absolutamente não. Quanto à Ortodoxia — é a nossa fé, a fé dos nossos povos, e os cristãos ortodoxos não estão diretamente envolvidos nesta escalada específica no Oriente Médio. Quanto aos católicos, eles condenam esta guerra, e a perseguição contra eles agora está efetivamente começando na América. Os católicos estão sendo novamente acusados de antissemitismo, sendo transformados em uma espécie de bode expiatório no quadro da nova política radical-messiânica dos EUA. Daí as proibições, daí o escárnio dirigido a eles.

O Papa recentemente impôs uma proibição estrita de orar por aqueles que desencadearam esta carnificina. “Suas mãos estão manchadas de sangue”, disse o pontífice, “nós não oramos por eles.” Este é um ponto muito importante: a tradição cristã universal deixa um precedente para que se ore por todos, pois a alma e o coração de uma pessoa são um mistério, e é o Senhor quem deve julgar, não nós. Mas se o chefe da Igreja Católica – a maior denominação, que reúne um bilhão e quinhentos milhões de fiéis – reconheceu que é proibido orar por Trump, Netanyahu e pelos sionistas que começaram esta guerra, então este é um sinal extremamente sério. Em tal atmosfera, não pode haver qualquer matéria de cessar-fogo.

Apresentador: Então, resumindo: a Páscoa não deterá os ataques do Irã a Israel, e não devemos esperar qualquer trégua?

Alexander Dugin: A tradição judaica rejeita fundamentalmente Cristo, portanto os feriados cristãos não têm influência sobre essa tradição. Os muçulmanos, por sua vez, não celebram a Páscoa — eles têm seu próprio calendário e seus próprios locais sagrados. Assim, os principais atores desse processo não estão mental ou espiritualmente ligados à Páscoa. E a “civilização de Epstein” na forma dos Estados Unidos modernos não tem absolutamente nenhuma conexão com este grande feriado. Estou convencido de que a Páscoa não tem qualquer significado sagrado para nenhuma das partes diretas deste conflito. Dentro de seus quadros de referência, não faz sentido cessar as hostilidades neste contexto. O calendário cristão não é de forma alguma um fator para esta guerra.

Fonte: Geopolitika.ru

Aleksandr Dugin
Aleksandr Dugin

Filósofo e cientista político, ex-docente da Universidade Estatal de Moscou, formulador das chamadas Quarta Teoria Política e Teoria do Mundo Multipolar, é um dos principais nomes da escola moderna de geopolítica russa, bem como um dos mais importantes pensadores de nosso tempo.

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