Alexander Dugin sobre soberania e escalada em um mundo sem regras: Conversa com Alexander Dugin no programa Escalation, da Sputnik TV
Apresentador: Vamos começar discutindo as negociações em Abu Dhabi, que sem dúvida chamaram a atenção do mundo inteiro. Trata-se do primeiro caso, desde o início da Operação Militar Especial, de uma interação trilateral em que representantes da Rússia, da Ucrânia e dos Estados Unidos se sentaram à mesma mesa. Naturalmente, o vazio informativo foi imediatamente preenchido por inúmeras teorias: o que exatamente foi discutido e quais acordos, se é que houve algum, foram alcançados.
Há pouquíssima informação oficial. Temos apenas uma declaração de Volodymyr Zelensky, que mais uma vez levantou a questão territorial e afirma que um documento sobre garantias de segurança para a Ucrânia foi acordado “cem por cento”. Nisso, ele permanece fiel a si mesmo, continuando a difundir sua narrativa habitual. Muito mais interessante, porém, é a posição do lado americano. Representantes dos EUA — Steve Witkoff em particular — falam de um “avanço sério” e descrevem as discussões como construtivas. Autoridades americanas enfatizam que os participantes se trataram com respeito evidente e demonstraram uma disposição genuína para o compromisso.
Isso levanta a principal questão: o que devemos esperar daqui em diante? As reuniões em Abu Dhabi se tornarão esse passo decisivo rumo a um acordo de paz ou são apenas mais uma forma de camuflagem diplomática?
Alexander Dugin: Do meu ponto de vista, esperar paz agora é inútil: as condições em que nos encontramos são totalmente inadequadas para isso. No máximo, pode-se falar de um cessar-fogo temporário. Por trás das declarações lacônicas de nosso lado e dos relatos moderadamente otimistas dos americanos, há um impasse.
Se voltarmos um pouco no processo, às negociações em Anchorage, lembraremos que nosso presidente propôs a Donald Trump as condições sob as quais a Rússia estaria disposta a concordar com um cessar-fogo. É importante compreender que essas condições estavam significativamente abaixo do que realmente exigimos. Foi um gesto de boa vontade, uma prontidão para compromissos substanciais — embora não fatais. Para deter o derramamento de sangue, havia apenas uma saída: aceitar essa proposta russa, para dizer o mínimo, benevolente.
Trump entendeu isso. Ele percebeu até onde Vladimir Putin estava disposto a ir: em essência, o presidente estava pronto para suspender as hostilidades sem alcançar todo o conjunto de objetivos estabelecidos no início da Operação Militar Especial. Naquele momento, nosso plano não previa desnazificação completa nem desmilitarização total. A discussão girava em torno do controle da RPD [República Popular de Donetsk] e da RPL [República Popular de Lugansk], de nossa presença militar nas regiões de Zaporizhzhia e Kherson, e de uma série de outras exigências. Isso era muito menos do que poderia ser considerado uma vitória plena — concessões muito sérias que, por uma série de razões (que o presidente conhece melhor), decidimos fazer.
Trump percebeu isso e começou a promover nosso plano, pois, do ponto de vista dele, era vantajoso para o Ocidente e para a Ucrânia: a Ucrânia permaneceria como sujeito, e nós até concordamos com certas garantias de sua segurança (sem adesão à OTAN e sem a implantação de grandes exércitos). Nossa proposta foi genuinamente generosa em relação ao adversário — dificilmente se poderia desejar algo melhor.
Mesmo assim, isso não os deteve. Começou uma sabotagem aberta de “Anchorage”. A União Europeia, o Reino Unido e, naturalmente, Zelensky passaram a apresentar contrademandas: um cessar-fogo imediato, a introdução de tropas da OTAN no território legalmente reconhecido da Ucrânia e garantias ampliadas. É exatamente isso que Zelensky repete quando afirma que “concordou com algo” (na verdade, mais com os europeus do que com os americanos).
O próprio Trump, devido ao seu caráter impulsivo e errático, rapidamente perdeu o foco nesses acordos. Após a captura de Maduro, o escândalo em torno da Groenlândia e em meio aos preparativos para uma nova fase de guerra com o Irã, o plano de Anchorage foi empurrado para a periferia de sua atenção. Por inércia, ele começou a falar conosco em seu estilo habitual: emitindo ordens, ignorando obrigações, aplicando pressão e fazendo ameaças.
Suas mensagens mais recentes se resumiram a exigências de que cedêssemos às demandas dos europeus e de Zelensky: assinar tudo imediatamente, e pronto. Na prática, Trump começou a nos tratar como vassalos. Infelizmente, ele não possui nenhum modelo de parceria ou de relações dignas e aliadas. No mundo dele, há apenas inimigos a serem destruídos ou vassalos e escravos. Como demonstramos boa vontade e disposição para compromissos, na lógica dele não somos inimigos — e, se não somos inimigos, então devemos ocupar o lugar de servos obedientes. Seu pensamento não admite uma terceira opção.
Apresentador: Por que isso se desenrolou exatamente dessa forma? Isso está ligado ao sucesso na Venezuela, à própria captura de Maduro?
Alexander Dugin: A questão é que Trump pensa em ciclos curtos. Como Zelensky e a União Europeia sabotaram com muita habilidade os acordos de Anchorage na fase inicial, arrastando o processo e avançando condições inaceitáveis, conseguiram atrasá-lo e efetivamente diluí-lo. E Trump simplesmente esqueceu o que havia sido acordado. Esqueceu que havia sido advertido: a opção proposta era o limite de nosso compromisso — não iríamos além disso nem discutiríamos nada além.
Sob a influência do sucesso na Venezuela e de sua política ruidosa, de estilo cowboy, quase hooligan, Trump sucumbiu à vertigem do êxito. Seus métodos terroristas em escala global estão dando resultados, e ele sente que não há mais limites. Por isso começou a falar conosco como se fôssemos vassalos. Mas não toleraremos isso. Sim, observamos formalmente o protocolo: enviamos representantes militares a Abu Dhabi para que, com rostos eslavos calmos, olhassem para essa escória frenética, e depois os retiramos. Não comentamos os resultados porque não há nada a comentar.
Nosso presidente cumpre rigorosamente suas promessas e não pode simplesmente declarar a rejeição do “espírito de Anchorage”, mas esse espírito em si já não existe. Estão tentando nos pressionar e humilhar. Um jogo muito sutil está em curso: não nos retiramos do processo apenas para demonstrar nossa capacidade de firmar acordos e não elevar o nível de escalada de forma abrupta. Na realidade, porém, essas negociações estão condenadas. Assim que Trump começou a levar em conta as exigências da União Europeia e da Ucrânia — que são categoricamente inaceitáveis para nós — ele riscou tudo o que havia sido discutido no Alasca. Agora isso é apenas uma rotina que não leva a lugar algum.
Trump está nos oferecendo um modelo humilhante de relações que é inaceitável para a Rússia. No entanto, ainda não estamos prontos para passar ao próximo nível de confronto. E o próximo passo já seria mais do que palavras sobre mísseis. Se a Ucrânia e a OTAN avançarem, esgotaremos o recurso das ameaças. Não poderemos mais ameaçar — teremos de atacar. Até que passemos a esse ataque, negociadores como Witkoff e Kushner podem circular por Abu Dhabi ou vir a Moscou: aqui está limpo, está seguro, eles podem andar livremente. Trata-se de um trilho diplomático completamente estéril.
O problema é que o Ocidente nunca acreditou em nossa soberania geopolítica genuína. Certos fracassos durante a Operação Militar Especial foram interpretados pelo inimigo como prova de fraqueza e de falta de determinação. Em algum momento, perdemos a oportunidade de uma resposta dura, confiando na racionalidade ocidental — mas ela não existe; eles só entendem a força. Tendo perdido a oportunidade de demonstrar essa força em um nível intermediário, agora nos encontramos numa situação em que o próximo passo para afirmar nossa agência geopolítica exige uma escalada extrema das apostas. Neste ponto, não vejo como um conflito nuclear pode ser evitado, porque no Ocidente ninguém mais leva a sério declarações sobre “Poseidon” e “Burevestnik” [sistemas estratégicos russos].
Há muitos alvos que poderiam ser atingidos. Por exemplo, poderia-se destruir completamente o bairro governamental em Kiev, de modo que ele simplesmente deixasse de existir. Mesmo que não atingíssemos a liderança político-militar desse regime terrorista, eles ainda assim seriam forçados a se esconder em bunkers e a se deslocar subterraneamente por sistemas de esgoto. Poder-se-ia ir mais longe — esfriar o ardor dos inimigos europeus mais russofóbicos e agressivos. Não creio que ainda tenhamos amadurecido para o uso de armas nucleares estratégicas, mas devemos estar preparados para isso. Se o Ocidente, com o qual estamos lutando na Ucrânia, nos nega o direito à soberania, não temos outra escolha senão prová-la por todos os meios disponíveis.
Formas mais simples de demonstrar nossa seriedade e nosso poder estratégico foram, infelizmente, perdidas por nós, pois acreditávamos que seria possível administrar a situação apenas com armamentos convencionais. Enquanto isso, a escalada continua, avançando para um novo nível: não houve desescalada de nenhum dos lados. Pelo contrário, o inimigo inflama a situação, e somos forçados a responder. Chegou o momento em que todos aguardam nosso golpe. O mundo está congelado em expectativa: por que, como, com que força e com que efeito responderemos? Fazer isso é fundamentalmente necessário.
As ações têm consequências, mas a inação também. Se não atacarmos, confirmamos aos olhos do inimigo nossa incapacidade de agir. Na política contemporânea de interação com o Ocidente, não existe mais o conceito de contenção racional. Há apenas “eu posso” ou “eu não posso”. Ou você transforma seu inimigo em Gaza, ou Gaza se transforma em você. É uma fórmula monstruosa, horrível, que se preferiria nunca ouvir, mas não somos nós que a ditamos. Repito: ou Gaza é seu inimigo, ou Gaza é você.
Tentativas de traçar linhas vermelhas, deslocá-las, fazer declarações ou entrar em compromissos — nada disso funciona mais. Não funciona nem mesmo nas relações entre os Estados Unidos e a União Europeia, muito menos conosco. O único argumento agora é a ação eficaz. As palavras foram desvalorizadas. Trump simplesmente sequestrou o presidente em exercício e soberano da Venezuela, em duas horas efetivamente anexando o país e declarando suas riquezas como suas. Isso é um ato direto de terrorismo internacional, um atropelo de todas as normas, mas Trump afirma abertamente que o direito internacional não existe.
Podemos nos indignar moralmente com isso, mas não temos alternativa senão aceitar essas regras do jogo. O que é moralmente correto agora é aquilo que a Rússia considera moralmente correto. Devemos fazer o que podemos e o que queremos, porque é exatamente assim que nos tratam. Trata-se de uma entrada em um sistema de coordenadas totalmente novo, em que tudo é decidido pela força — demonstrada de maneira convincente e aplicada de forma eficaz. Se não entrarmos nós mesmos nesse sistema, seremos empurrados para ele pela força.
Portanto, as negociações com os Estados Unidos estão completamente esgotadas. Elas continuarão apenas “por forma”, como uma inércia sem sentido do mundo da vida, simplesmente para não irritar psicologicamente Trump mais uma vez. Mas a bola está em nosso campo. Devemos desferir um golpe muito sério, pesado e vívido. Contra quem exatamente — isso cabe ao presidente e aos estrategistas decidir. Mas em uma luta sem regras, quem não ataca acaba sendo atacado. Se você pede paz no momento em que o adversário desfere o golpe, recebe um golpe duplo.
Devemos designar um objeto para uma retribuição justa e demonstrar poder. Nossa inação agora é tão eficaz quanto a ação — apenas no sentido oposto, catastrófico. Atacar é arriscado, mas não atacar é ainda mais perigoso. Continuar a guerra é arriscado, mas detê-la agora significaria reconhecer a catástrofe.
Analiso cuidadosamente a imprensa ocidental e americana. A situação na Ucrânia não me preocupa — ali tudo já está claro: Zelensky sabotará qualquer paz até o fim, pois a guerra é o único meio de sua sobrevivência física à frente do regime. Acredito que devemos destruir esse regime terrorista e toda a sua liderança o mais rápido possível, por quaisquer meios e a qualquer custo. Esse é o caminho mais curto para a paz, para a vitória e para a defesa da soberania. A era dos ataques preventivos chegou. Quem desferir o primeiro golpe eficaz ganhará não apenas tempo, mas o futuro.
Um golpe poderoso e corretamente direcionado contra o inimigo pode ser a única maneira de encerrar esta guerra.
Apresentador: Mas aqui está a questão: haverá algum futuro se todos os lados começarem a desferir tais golpes preventivos?
Alexander Dugin: Se todos começarem, o futuro provavelmente não chegará. Mas o problema é que, se nos atrasarmos nesse processo, então o futuro não chegará precisamente para nós, enquanto para eles muito bem pode chegar.
Este é um ponto criticamente importante e fundamental: já estamos dentro da Terceira Guerra Mundial. Sim, tudo pode terminar da forma mais trágica possível. Mas, para nós, o desfecho será catastrófico de qualquer maneira se não alcançarmos a vitória. Essa é a essência: ou os detemos, ou simplesmente não existiremos.
Apresentador: Gostaria de falar um pouco mais sobre a transformação da ordem mundial, em que o direito internacional deixa de funcionar e tudo passa a ser decidido exclusivamente pela força. Assim, todos agora são compelidos a provar seu direito a um lugar ao sol por meio da ação, e a Rússia não é exceção.
No entanto, um conhecido ditado vem imediatamente à mente: não discuta com um tolo, ou ele o arrastará ao seu nível e depois o esmagará com a experiência. Algo semelhante pode acontecer aqui? Os Estados Unidos objetivamente se tornaram mais descarados, especialmente após o sucesso na Venezuela. Vemos seus apetites em relação à Groenlândia, ao México, a Cuba e ao Irã. Se entrarmos nesse jogo pelas regras deles, não perderemos justamente essa autocompreensão de nós mesmos como uma força racional e, se quiser, “correta” neste mundo?
Alexander Dugin: Provar que somos racionais em um manicômio é o empreendimento mais inútil que se possa imaginar. Lidar com um idiota agressivo observando todas as regras de polidez e correção, dirigindo-se a ele formalmente e advertindo-o sobre consequências — isso, por sua vez, também é um sinal de idiotice. Se o direito internacional não existe mais (e ele não existe mais, é isso), então apelar a ele é inútil. Ele está morto, porque os principais atores decidiram que ele não existe.
Para estabelecer novas regras, primeiro precisamos vencer essa briga. Em uma ala de pacientes violentamente insanos, para reivindicar o papel de enfermeiros ou médicos, é preciso primeiro colocar todos os pacientes de volta em seus lugares. E eles agora estão fora das enfermarias, cada um agindo segundo sua própria estratégia. Algo diferente está se formando agora: uma ordem jurídica internacional terminou, e uma segunda está sendo delineada neste exato momento — não por meio de declarações, mas por meio de ações concretas.
Hoje, o que tem sucesso se torna a norma. Trump teve sucesso ao sequestrar o presidente de um país soberano. Portanto, isso agora é a norma. Desafiá-la é inútil. Para sermos ouvidos, precisamos sequestrar algum presidente ou algumas figuras-chave da mesma forma relâmpago e dizer: “Veja, Trump, é isso que você faz, e aqui estão as consequências. Também podemos jogar esse jogo. Vamos trocar seus vassalos por nossa gente”. Não podemos permitir que um lado mude a situação mundial por meio de seu comportamento maníaco. Se tudo ficar impune para Trump (e até agora ficou), então o novo “direito internacional” se tornará exatamente esse “Conselho da Paz” para o qual ele convida todos: Trump e seus vassalos, prontos para aplaudir qualquer gesto agressivo de Washington.
Ele está apagando a antiga ordem mundial e afirmando a hegemonia unipolar. Isso categoricamente não nos convém. E não temos escolha senão confrontar um maníaco agressivo em seu próprio nível. Qualquer outra opção simplesmente não está em pauta. É necessário aceitar as condições de uma luta sem regras, retomar o que é nosso e construir uma nova ordem com base em ações decisivas. A situação é volátil em toda parte. No Oriente Médio, Israel está realizando um genocídio em Gaza — e daí? A indignação universal provocou alguma reação sequer no rosto de Benjamin Netanyahu? Não. Os Estados Unidos estão preparando uma invasão do Irã. Eles são capazes de fazê-lo e procedem em conformidade.
Dizer, numa situação assim, que somos “contra” ou “a favor da amizade” é a lógica do Cheburashka [personagem de desenho animado soviético]. E Cheburashkas são tratados de acordo. Precisamos restaurar o respeito por nós mesmos por meio do medo. Nossa contenção hoje não vale nada; ela é percebida como fraqueza e como um convite à escravização. Estamos sendo empurrados muito rapidamente para uma situação que nem sequer se assemelha à União Soviética, mas ao caos sem sujeito dos anos 1990. Estão tentando nos privar da soberania, oferecendo em troca migalhas de nossos próprios ativos congelados para que, por exemplo, abríssemos o espaço aéreo para uma futura guerra dos EUA contra a China.
Entendo que dentro da elite governante ainda existam camadas — a chamada “sexta coluna” — que estão prontas para concordar com isso, desde que suas contas sejam descongeladas. Mas isso contradiz absolutamente o curso do presidente e o humor da sociedade. Já pagamos um preço alto demais pela soberania para parar no meio do caminho. Temos apenas uma opção: a vitória. Os compromissos estão esgotados.
O direito internacional que existia antes foi o resultado de uma vitória extraordinariamente difícil na Segunda Guerra Mundial. Se Hitler tivesse vencido, a Rússia não existiria e nós seríamos escravos. Trump propõe algo semelhante: “Tornem-se escravos e viverão bem; talvez os chamemos de vassalos felizes”. Não temos escolha. É preciso lidar com um maníaco com dureza. Qualquer tolerância aqui será interpretada como derrota.
Apresentador: Se nos colocarmos no lugar de Donald Trump, a lógica de suas ações parece assustadoramente eficaz. Ao realizar tais movimentos contra a Venezuela, ele certamente calcula as possíveis reações, tanto de Vladimir Vladimirovich [Putin] quanto de Xi Jinping. Ele compreende sua psicologia e como operam dentro de certas regras. Mas a lógica interna das ações de Trump parece quase impossível de prever.
Isso é sequer possível nas condições atuais? Ele está se movendo em uma direção claramente calibrada, ou é caos? E, se for caos, ainda assim pode haver uma única lógica férrea por trás disso? Vemos essa pressão em toda parte: Groenlândia, México, Cuba, Irã. Às vezes parece que ele é simplesmente mais ousado do que todos os outros.
Alexander Dugin: Claro que Trump tem uma estratégia, e por trás de suas ações há uma linha clara que não é tão fácil de captar à primeira vista. Por que ele se sente no direito de sequestrar Maduro, um aliado da Rússia e da China, o presidente em exercício de um país soberano? Porque tem absoluta certeza de que nada lhe será feito, nem por nós nem pela China. Isso se aplica ao Irã e a qualquer outra região. À medida que tais atitudes ficam impunes, que ele não perde nada nem sacrifica nada, o equilíbrio no mapa geopolítico se desloca. Seu comportamento torna-se cada vez mais audacioso e unilateral.
Trata-se da restauração da hegemonia — mas não do Ocidente coletivo, e sim apenas dos Estados Unidos da América. Trump está fazendo isso com sucesso e de forma consistente, o que é verdadeiramente assustador. Ao não encontrar obstáculos, ele conclui que, do lado do mundo multipolar, não há ninguém — ou há alguém tão fraco e letárgico que pode ser ignorado.
Acho que chegou a hora de responder desafio com desafio. Trump levou Maduro? Muito bem — então levaremos Zelenskyy. Ou, digamos, sequestrar Netanyahu pelo que ele fez aos palestinos, e então decidir se o devolveremos ou não. Poder-se-ia trocar Zelensky por Maduro. Nem se trata de personalidades — poderíamos levar Kaja Kallas diretamente da Estônia, junto com a própria Estônia. O que importa aqui é o princípio: se um desafio fica sem resposta, o placar se torna 1–0 a favor deles, e então a derrota completa se avizinha. Estamos lidando com um adversário calculista. Quanto mais lhe permitimos agir com impunidade, mais tributos ele exigirá, e menos peso nossa palavra terá.
Trump pode ser lido: ele age estrategicamente em prol dos interesses dos Estados Unidos, restaurando a Doutrina Monroe no Hemisfério Ocidental. Mas ele se intromete no Hemisfério Oriental e no Oriente Médio apenas porque ninguém o impede. Agora é necessário criar problemas colossais para o Ocidente como um todo. Talvez não possamos alcançar a própria América no momento, mas há muitos outros alvos. Trump toma uma de nossas peças — tomemos uma das deles, como Jolani, por exemplo. Por que não prendê-lo por crimes na Síria? Isso nem sequer nos ocorre, mas deveria.
Agora nos assemelhamos a uma galinha em torno da qual foi desenhado um círculo de giz. Ela é fisicamente capaz de ultrapassá-lo, mas fica hipnotizada pela linha e morrerá de fome, sem ousar cruzá-la. Estamos limitados por muros que não existem. Seguimos regras que não existem mais e que ninguém segue. O principal é despertar e aceitar as realidades do novo mundo. Isso não é um chamado à crueldade cega; é um chamado a ações simétricas ou assimétricas. A inação hoje também é uma ação, apenas com consequências negativas. Em algumas situações, adiar torna-se criminoso.
Precisamos sacudir-nos e realizar várias ações que restaurem não apenas o respeito, mas o terror diante do poder russo. Esse será o argumento para qualquer diálogo futuro. Sim, estamos avançando na frente, mas para o Ocidente isso é pouco convincente. Usamos o Oreshnik [míssil hipersônico russo], mas ele foi esquecido em quinze minutos. Precisamos de eventos que não possam ser ignorados. Em princípio, a cidade de Kiev já deveria ter deixado de existir há muito tempo se agíssemos pelos métodos de nossos adversários. Perdemos nossas cidades e as vimos destruídas durante a Grande Guerra Patriótica quando estavam sob ocupação. A história não pode ser enganada.
Continuamos a viver em ilusões: ordem mundial, potência nuclear… Mas potências nucleares perdem guerras se suas armas não são um argumento real, respaldado pela disposição de usá-las. No Ocidente, eles se lembram de como rastejamos de joelhos nos anos 1990, e nos tratam de acordo. Após o colapso da União Soviética, perdemos a face. Ao arrastar a Operação Militar Especial, fizemos o inimigo acreditar que somos fracos. Se não restaurarmos nossas posições agora, esse rótulo ficará fixado permanentemente.
Resulta que não estamos apenas defendendo a soberania; estamos lutando pelo próprio direito de tê-la. À medida que fica claro, aquilo que antes considerávamos soberania não era soberania alguma. Nossa reivindicação de independência encontrou resistência furiosa. Dizem-nos: “Vocês não são soberanos — provem o contrário”. Essa prova só pode vir por meio de uma ação em larga escala e inequívoca.
Glorificamos o Oreshnik, e eles não o percebem. Se um golpe não é percebido, então ele não aconteceu. Mas o sequestro de Maduro em duas horas — isso é um tapa que não pode ser ignorado. A apreensão de nosso petroleiro, a detenção de nossos marinheiros — amanhã todos farão o mesmo se não houver uma resposta decisiva.
Precisamos jogar essa carta, mesmo que em território ucraniano, mas de tal forma que todo o Ocidente estremeça. Eles não nos amarão, mas voltarão a nos temer — e, portanto, a nos respeitar e a levar nossos interesses em conta.
Apresentador: Primeiro, deixe-me fazer a ressalva necessária: o Estado Islâmico é designado como organização terrorista na Rússia. Mas, à luz de suas palavras sobre a necessidade de realizar atos concretos de retaliação, estamos agora testemunhando uma ameaça extremamente séria ao Irã por parte dos Estados Unidos. O senhor acredita que seja possível considerar, como um desses “atos de afirmação da soberania”, por exemplo, a participação direta de nossas forças armadas na defesa do Irã?
Alexander Dugin: Sem dúvida, isso seria a coisa certa a fazer. Em nenhuma circunstância devemos abandonar o Irã. Mas como isso pode ser feito? Muito recentemente, apareci na televisão iraniana e disse diretamente: a única maneira de resistirem a uma nova guerra é criar um Estado-união russo-persa nos moldes da Rússia e da Bielorrússia. Não há nada de imprudente nisso. Olhem para Trump — ele está dando passos muito mais radicais. Precisamos agir rapidamente: estabelecer o status de Estado aliado e garantir a soberania do Irã com nossas armas nucleares. Caso contrário, acabou, e todo o resto virá em seguida.
Vocês veem o que está acontecendo na China? Uma conspiração contra Xi Jinping está se formando ali. Xi personifica a soberania, e ainda assim uma parte significativa da elite chinesa — incluindo elementos do exército — parece estar trabalhando para um adversário geopolítico. Na China, onde o Partido Comunista governa, onde existe uma rígida vertical de poder e uma ideologia, as redes de influência ocidentais atingiram um nível tal que uma tentativa de golpe de Estado foi empreendida. Ela foi impedida e reprimida apenas outro dia.
Se isso está acontecendo lá, então o que dizer de nós? Conseguem imaginar a condição de nossas elites governantes, que foram pró-ocidentais até o último momento? Os riscos para o presidente, para o país e para nossa soberania são enormes. No Irã também, as coisas foram arrastadas por muito tempo, com ameaças verbais dirigidas a Israel, mas quando a guerra começou, mostrou-se incapaz de sustentar essas palavras com ações. E agora chegou um momento crítico: os americanos estão preparando uma agressão militar contra o Irã. Na prática, isso é uma agressão contra nós. Venezuela, Síria, Líbano, Iêmen — tudo isso é direcionado contra a Rússia. Não se pode fingir que isso não nos diz respeito.
Devemos ajudar o Irã, mas primeiro precisamos provar que somos capazes de algo. Precisamos fazer algo que deixe claro para todos: é melhor não nos provocar. Não creio que simplesmente enviar um contingente limitado mude a situação. São necessários meios mais eficazes — meios capazes de esfriar o ardor dos inimigos e deter Trump. Sim, ele tem ideias sobre a Groenlândia que abrem uma cunha entre os Estados Unidos e a União Europeia, e isso pode ser apoiado. Mas, estrategicamente, a compra da Groenlândia também trabalha contra nós: é uma tentativa de impedir que nossos mísseis desdobrem suas ogivas sobre a ilha no caso de um conflito nuclear. Não podemos ser masoquistas políticos e nos alegrar por estarmos cercados.
Concluindo, gostaria de parabenizar a grande Índia pelo 77º aniversário de sua independência. É um feriado maravilhoso. A Índia é um dos polos mais importantes do mundo multipolar; temos excelentes relações e objetivos comuns no âmbito do conceito de Viksit Bharat1. Não percamos aqueles que ainda permanecem nossos amigos. Precisamos nos engajar mais ativamente na política externa: proteger os nossos, defender aliados e desferir uma resposta decisiva aos inimigos.
Vamos construir um mundo multipolar e buscar parceiros genuínos nesta tarefa histórica extremamente difícil.
- Nota do tradutor: Viksit Bharat significa “Índia Desenvolvida”. Trata-se de uma visão estratégica nacional articulada por Narendra Modi e pelo governo indiano, geralmente apresentada em torno do objetivo de transformar a Índia em um país plenamente desenvolvido até 2047 (o centenário da independência indiana). ↩︎








