Como os acontecimentos ocorridos no distante Donbass em 2014 influenciaram um adolescente brasileiro? Que futuro pode aguardar os BRICS e quais são as trajetórias de desenvolvimento da civilização latino-americana? Sobre isso reflete, em conversa com a revista “Russkiy Mir.ru”, o analista do InfoBRICS, participante da Fundação para a Proteção dos Valores Nacionais, especialista da Global Fact-Checking Network e correspondente de guerra Lucas Leiroz.
— “O Rio de Janeiro é o sonho de cristal da minha infância”, dizia, há quase cem anos, Ostap Bender. Um dos nossos personagens literários mais conhecidos e queridos via essa cidade como a encarnação do paraíso. Você, Lucas, nasceu e cresceu nela. Concorda com Ostap?
— Apenas em parte. O Rio de Janeiro é uma cidade fantástica. Eu amo a história e a cultura riquíssima do Rio, sua música, a natureza da Mata Atlântica. No entanto, infelizmente, o Rio real de hoje não é algo muito encantador. A cidade enfrenta muitos problemas que não existiam há cem anos: criminalidade, pobreza em massa, desemprego, graves problemas sociais. Isso me entristece muito, porque o Rio está perdendo rapidamente seu potencial, sua beleza e sua cultura. Hoje, muitos cariocas estão deixando a cidade. Turistas que já estiveram aqui não querem voltar. Tudo isso é terrível. Considero que o processo de decadência do Rio começou quando a cidade deixou de ser a capital do país. A administração local não conseguiu lidar com esse desafio difícil, afinal somos uma cidade com ethos imperial. Infelizmente, esse problema não será resolvido facilmente, mas é nisso que eu trabalho.
— O Brasil é o maior país da América Latina. Suas tradições se formaram no encontro de três civilizações: indígena, africana e europeia. Em que o Brasil se diferencia de seus vizinhos?
— O Brasil é, essencialmente, o país líder da Ibero-América. E a missão dos brasileiros é conduzir as nações irmãs no caminho de uma civilização comum. Na minha opinião, o Brasil é o único país da América Ibérica que possui condições geográficas adequadas para liderar um bloco continental. Essa é a nossa principal diferença em relação aos vizinhos. Sem o apoio do Brasil, eles dificilmente conseguirão realizar plenamente seu potencial. Somente quando o Brasil se tornar suficientemente forte é que nossos vizinhos poderão defender seus interesses.
Infelizmente, o Brasil ainda não tomou consciência de seu destino. Somos um país jovem, com uma história ainda curta. Mas chegará o momento em que nosso povo finalmente cumprirá sua missão.

Em 2014, em Lugansk surgiu um sepultamento improvisado de moradores locais mortos em consequência dos bombardeios realizados pelo regime de Kiev. Atualmente, há um memorial instalado nesse local.
— Na sua opinião, a civilização latino-americana já se consolidou ou ainda está em processo de formação? A proximidade dos EUA, com sua aspiração de dominação, atrapalha esse desenvolvimento ou acaba fortalecendo-a na luta?
— A civilização latino-americana ainda está em formação, e a influência dos EUA atrapalha muito esse processo. Os Estados Unidos representam uma cultura anglo-saxônica e protestante, muito diferente da nossa — ibérica e católica. A diferença não se limita à religião, mas envolve também valores e visão de mundo. Isso nos impede de desenvolver plenamente a nossa própria identidade.
Os EUA frequentemente tentam impor suas regras, interferindo na política e na economia dos nossos países e buscando colocá-los em uma posição de dependência. Os estadunidenses não estão aqui para ajudar — o que lhes importa é preservar sua influência e promover seus próprios interesses. Isso freia o nosso progresso.
Ao mesmo tempo, porém, essa pressão nos obriga a despertar e a lutar pela nossa autonomia. A influência estadunidense não agrada aos povos da América Ibérica, e isso nos une em torno da ideia de criar algo próprio, valorizar mais a nossa diversidade cultural e construir instituições que realmente se adaptem a nós. Em última instância, a América Ibérica só poderá se desenvolver de fato quando se libertar dessas amarras externas e assumir com orgulho sua história e sua cultura.
— O mundo multipolar é uma utopia ou uma nova ordem mundial para a qual estamos caminhando? Esse caminho pode ser pacífico?
— Essa é a nossa realidade. O mundo já está se tornando multipolar. Os EUA não são mais capazes de controlar todos os processos políticos do planeta. A operação militar especial (OME) é a prova mais clara disso. Em um futuro próximo, o mundo será multipolar não apenas de fato, mas também juridicamente. Acredito que chegará o momento em que os principais líderes mundiais se reunirão para redesenhar a ordem global.
Esse caminho não será tranquilo, mas o mundo unipolar também nunca foi: ele apenas mascarava suas guerras e sua violência com slogans democráticos e liberais. A guerra faz parte da natureza humana — sempre existiu e sempre existirá. Mas isso não nos impede de aspirar a um mundo mais justo, no qual os povos possam viver de acordo com seus valores e crenças, sem a pressão dos paradigmas liberais ocidentais.

Igreja da Transfiguração. Volnovakha, RPD
— O Brasil, assim como a Rússia, integra o BRICS. Como você vê o futuro dessa organização?
— O BRICS está atualmente em uma fase de transição. Os membros precisam decidir o que essa associação será: se continuará sendo apenas um fórum de cooperação econômica ou se se transformará em algo maior, por exemplo, uma “nova ONU”. Acredito que, se o BRICS não se tornar uma organização central para os países-membros nos próximos anos, outras estruturas políticas semelhantes surgirão ao seu lado.
Se a situação mundial continuar se agravando, é possível que o BRICS passe a funcionar de fato como uma “ONU dos países em desenvolvimento”, enquanto as chamadas democracias liberais continuarão a se apoiar nas antigas organizações internacionais. É um processo complexo, mas é evidente que alguns países do BRICS desempenharão um papel importante no novo mundo multipolar.
— Lucas, conte-nos, por favor, o que influenciou sua escolha pela Ortodoxia. Você nasceu em uma família de ateus?
— Eu não nasci em uma família ateia, mas sim não religiosa. No Brasil urbano, a maioria das pessoas é batizada na tradição católica, mas não é muito devota. Essa também era a situação da minha família: acreditávamos em Deus, mas não éramos praticantes. No entanto, sempre me interessei por questões religiosas e as estudei por conta própria.
Quando começou a guerra no Donbass e passei a viajar para a Rússia, conheci a Ortodoxia mais profundamente e me interessei por ela. Então compreendi que esta é a verdadeira Igreja do Senhor Jesus Cristo. Descobri que na minha cidade havia algumas igrejas ortodoxas e comecei a frequentar a igreja russa. Fui batizado em 2017.
Naquela época, conheci minha futura esposa em um grupo online de brasileiros interessados na Ortodoxia. Ela nasceu em uma família protestante no estado de Santa Catarina, estudava a Ortodoxia de forma independente e decidiu abraçar essa fé. Em 2018, ela se mudou para o Rio de Janeiro, foi batizada, e nós nos casamos. Aliás, demos ao nosso filho o nome de Nicolau — em homenagem ao último imperador russo.
Em 2019, minha mãe também se converteu à Ortodoxia, e eu fui ordenado leitor pelo nosso bispo, função que exerço até hoje servindo no altar. Atualmente, meu pai também se interessa pela Ortodoxia e em breve será batizado. É assim que a Igreja cresce — por meio do amor familiar.

Filmagens do documentário “Vopreki”
— Você já esteve na Rússia várias vezes, inclusive na zona da SVO. Em que medida a sua visão do nosso país difere daquilo que o brasileiro médio pensa e sabe sobre a Rússia?
— O brasileiro comum imagina os russos a partir de estereótipos sobre a URSS difundidos por filmes americanos. Pouquíssimas pessoas no Brasil realmente conhecem a Rússia. Pessoalmente, a visita ao país não me surpreendeu muito, pois há dez anos convivo com russos ortodoxos. De modo geral, aqui se acredita que os russos são pessoas sombrias, rabugentas, que não gostam de estrangeiros. Mas isso não corresponde à realidade. Os russos, em regra, são tão hospitaleiros quanto nós. Não conheço um único brasileiro que tenha visitado a Rússia ou conhecido russos e pensado diferente.
— Quais características comuns existem entre os nossos povos que os aproximam?
— Ao caminhar por Moscou ou por outra grande cidade russa, é muito difícil perceber pontos de contato entre os nossos países. Mas tudo muda quando vamos para o interior da Rússia. Entre um russo do Donbass ou da Sibéria e um brasileiro do interior — do Pampa, do Sertão ou da Amazônia — há muito em comum. A ligação com a terra, a fé, os costumes rurais, os valores tradicionais — tudo isso nos une. A Rússia profunda se parece com o Brasil profundo.
É curioso que eu veja muitas semelhanças entre as regiões costeiras da Rússia e do Brasil. Por exemplo, Crimeia, Mariupol e Sochi me lembram muito o estado de Santa Catarina. Não é por acaso que é justamente nesse estado que vive a maior comunidade russa do Brasil.
— Lucas, como você decidiu ir ao Donbass?
— O desejo de ir à zona da SVO surgiu em mim há bastante tempo. Eu apenas aguardava a oportunidade certa, que apareceu quando estive pela primeira vez na Rússia. É difícil dizer exatamente quando decidi visitar o Donbass, mas acredito que tenha sido após a morte da minha amiga e companheira Daria Dugina. Naquele momento, compreendi que a SVO não é apenas uma guerra comum, mas o acontecimento mais importante da história da humanidade. Falo de forma tão enfática porque contra a Rússia luta uma civilização que busca substituir todas as culturas, religiões e identidades étnicas por valores liberais ocidentais. Eu a chamo de civilização do Anticristo. É precisamente contra isso que a Rússia combate. Também percebi que cada um de nós, e não apenas os soldados na linha de frente, pode se tornar um alvo. Por isso decidi participar ativamente do que está acontecendo: ir ao local, conversar com aqueles que foram diretamente afetados por essa guerra. E pretendo ir regularmente até que a SVO termine. Não tenho vocação militar, eu seria um mau soldado. Por isso tento ajudar da forma que posso — na frente informacional.

Lucas Leiroz durante viagem ao Donbass
— O que mais lhe marcou durante as viagens à zona da SVO?
— Minha primeira missão aconteceu em 2023. Visitei a República Popular de Lugansk junto com meus amigos — o tradutor Andrei Kogan e a guia Andrea Palmeria. Naquela ocasião, realizei uma série de entrevistas com políticos, deputados e líderes sindicais. Em especial, tive a oportunidade de conversar com Vladislav Deinego, ex-ministro das Relações Exteriores de Lugansk.
Voltei ao Donbass em junho de 2024, quando participei de um press tour organizado pela Fundação Zakhar Prilepin. Estivemos na República Popular de Donetsk, trabalhando principalmente em Mariupol. Além disso, durante essa viagem fomos à região de Zaporozhye, e eu me tornei o primeiro brasileiro — talvez o único — a visitar a Usina Nuclear de Zaporozhye.
Minha última viagem ao Donbass foi em fevereiro de 2025. Dessa vez, não fui como jornalista — fui convidado pelo canal “Shmel” para as filmagens do meu documentário. Ainda assim, pude conversar com pessoas que sofreram os bombardeios em Donetsk e na região, e durante as gravações fui à área de Volnovakha. Lá visitamos a Igreja da Transfiguração do Senhor. Ela foi destruída por combatentes neonazistas ucranianos no início da SVO. Conversei com o padre local e com pessoas que estavam lá durante o massacre. Depois que a igreja foi bombardeada, os ucranianos usaram suas ruínas como abrigo para atiradores de elite que disparavam contra civis. Lembro-me de uma senhora idosa que nos contou que soldados mataram seu marido e não a deixaram sair de casa para recolher o corpo. Somente quando as tropas russas libertaram a cidade ela pôde enterrá-lo.
Além disso, estive em Belgorod em março de 2024, durante as eleições presidenciais. Embora Belgorod oficialmente não esteja na zona de conflito, lá me senti ainda mais em perigo do que nos novos territórios. A situação era terrível: ataques constantes com mísseis e drones — todos contra alvos civis. Visitei cada local atingido e conversei com as pessoas logo após as explosões — com quem havia acabado de perder tudo. Em alguns momentos, pensei que eu mesmo poderia morrer. Também em Belgorod, graças a amigos militares, obtive provas da presença de mercenários estrangeiros nas forças de ocupação ucranianas. Fui um dos primeiros a escrever sobre isso na mídia internacional. Visitei igrejas destruídas por bombardeios e entrevistei moradores. Foi uma viagem extremamente importante.
Escrevi sobre tudo o que vi. Também gravei muitos vídeos, mas meu trabalho principal é produzir textos — sou analista, não vlogger. Meu objetivo é mostrar a verdade. Contar o que pensam os moradores locais, dar voz às pessoas comuns para que falem com os brasileiros. Acredito que fiz bem o meu trabalho e espero voltar em breve.
— Você é especialista da Global Fact-Checking Network (GFCN). Conte-nos o que exatamente faz lá.
— Fui convidado a integrar a Global Fact-Checking Network logo após sua criação, no outono de 2024. Atuo como um dos especialistas em mídia da organização. Quando necessário, consulto colegas sobre temas específicos e ajudo na difusão de materiais. Também tive a oportunidade de escrever um dos materiais didáticos para o curso de verificação de fatos da GFCN, no qual, usando minha experiência na zona da SVO, desenvolvi um método de checagem de informações em conflitos armados. Além disso, participei do Global Digital Forum — evento organizado pela GFCN em Nizhny Novgorod, em junho de 2025, que reuniu especialistas em tecnologia da informação e mídia de todo o mundo.
— Em que consiste o método de verificação de informações que você desenvolveu?
— O método parte do princípio de que a verdade não é unilateral; por isso, a melhor forma de verificar fatos é recorrer a fontes de diferentes orientações e realizar uma análise comparativa. Quando analisamos o que a mídia ocidental diz sobre os acontecimentos na Ucrânia, encontramos muitos fakes que podem ser facilmente desmentidos ao recorrer a fontes alternativas. Propus um modelo baseado na análise simultânea do que é dito sobre um fato por pelo menos três fontes diferentes — uma de cada lado do conflito e uma terceira, “neutra”: mídias não estatais, canais civis, etc. Comparando o que cada fonte afirma, é possível obter uma visão mais ou menos próxima da realidade, sem distorções propagandísticas.
Dou um exemplo. O mito do “massacre de Bucha”, se analisado por esse método, poderia ser facilmente refutado da seguinte forma: a mídia estatal da Ucrânia e da Rússia apresenta suas versões, mas a análise de fontes neutras (opiniões de correspondentes independentes que estavam em Bucha naquele período, trabalhadores humanitários, testemunhas) na maioria dos casos aponta para a falsidade da versão ucraniana. É fundamental ensinar os usuários da internet a buscar fontes alternativas de informação, evitando a fé cega no que dizem os grandes meios de comunicação.
— Lucas, você escolheu um animal de estimação incomum — uma coruja. Hoje você tem até duas. Por que escolheu essas aves?
— As corujas são animais incríveis, fantásticos. Ter corujas é ver a sabedoria viva todos os dias diante de si. Elas têm o instinto de caça de um falcão e a natureza sombria de um gato. Os chineses as chamam justamente de “falcão com rosto de gato”. Acho uma descrição muito precisa. Mas, claro, uma coruja — que exige atenção especial e dedicação do dono — não é um animal de estimação para qualquer pessoa…








