A “Terceira Guerra Mundial” como Problema Conceitual

Assim que começou a Guerra Epstein (ou Guerra do Irã) várias pessoas perguntaram: “Será que isso pode levar à Terceira Guerra Mundial?” Mentalmente eu pensei: “Levar? O que mais falta acontecer para todos entenderem onde estamos?”

O Lucas Leiroz fez um bom artigo analisando o mesmo tema de uma perspectiva tática e estratégica, eu vou comentar sobre o mesmo assunto, mas enfrentando o próprio conceito e as expectativas depositadas nele.

Quando se falar numa possível futura “Terceira Guerra Mundial” quase sempre se pensa numa guerra nuclear ou numa guerra total de mobilização geral permanente, com hordas e mais hordas de soldados se lançando uns contra os outros, e os vários Estados se livrando de todas as limitações e autocontroles com o objetivo de massacrar o maior número possível de inimigos.

Mas aqui nem entrarei no mérito da exepcionalidade histórica dessas características, mas no próprio fato de que a imagem se apoia num mito, numa guerra inexistente, puramente conceitual: a “Segunda Guerra Mundial”.

Por que a “Segunda Guerra Mundial” é uma farsa? Porque ela foi construída em gabinetes de historiadores como uma “grande narrativa” para amarrar a “nova ordem” ocidental do pós-guerra. O que eu quero dizer com isso? É simples. Se historiadores de outras eras fossem convocados a acompanhar os vários teatros e campanhas militares entre 1936 e 1945, sem receberem o “rótulo” de “Segunda Guerra Mundial”, eles teriam identificado uma miríade de guerras e não apenas 1 (com 4 pré-campanhas).

A Guerra do Pacífico é, claramente, uma outra guerra específica e categoricamente separada do resto. Isso é mais fácil de ver. Mas também a Grande Guerra Patriótica foi uma guerra isolada e circunscrita das outras. Mesmo a Guerra da Europa penso poder ser dividida em 2 guerras, a primeira vencida pela Alemanha, a segunda vencida pelos EUA. Mas se existe, porém, uma “Segunda Guerra Mundial” como grande narrativa, então obviamente a Guerra Civil Espanhola, a Guerra do Inverno, a Guerra da Etiopia e a Guerra Sino-Japonesa deveriam ser incluídas nela.

Costuma-se usar o “sistema de alianças” como justificativa para amarrar as várias guerras numa guerra conceitual, mas isso não significa muita coisa. Se pegarmos, por exemplo, aquele período que vai entre o início do século XVIII e o início do século XIX, franceses e britânicos estiveram em guerra de forma quase ininterrupta e em pelo menos 2 continentes diferentes, sem que tudo isso fosse considerado uma única guerra. A Guerra de Independência dos EUA, por exemplo, com apoio francês, foi travada em concomitância com a Guerra Bourbon, sem que elas fossem consideradas a mesma guerra.

Quando pegamos o período das Guerras Napoleônicas é o mesmo. A noção de “guerras napoleônicas” é puramente artificial. Várias guerras diferentes foram travadas nesse período. O mesmo vale para o caos dos conflitos nos quais os Habsburgos se enfiaram, cada uma tomada como uma guerra separada e autônoma.

O que eu quero dizer com isso é que as pessoas se apegam tanto aos conceitos que não percebem que esses conceitos são construções instrumentais para a produção de narrativas, pensadas muito tardiamente por historiadores falando após os fatos.

Situando isso um pouco melhor: quando os franceses invadiram a Gasconha inglesa em 1338 nenhum camponês conscrito para a infantaria de algum senhor pensou: “Pois é, começou a Guerra dos Cem Anos”. Levou 500 anos (!) para que alguém se referisse às três guerras anglo-franceses travadas entre os séculos XIV e XV como “Guerra dos Cem Anos”.

O que isso significa? Que a depender da eclosão de mais umas e outros conflitos regionais, mais ou menos amarrados e mais ou menos duradouros, em qualquer espaço entre 100 e 500 anos futuros historiadores podem passar a se referir ao período que começa, talvez, com a operação especial militar ou com a Guerra do Donbass como “Terceira Guerra Mundial”. E nem estaremos vivos para saber. Futuros historiadores podem entender que as guerras são travadas nos termos tornados necessários pelas tecnologias militares da época, de modo que uma guerra numa época de, simultaneamente, proliferação nuclear, avanços balísticos e invenção de drones, só pode ser dessa foram, alternando entre guerras proxies e disparos à distância.

Agora, enfim, a visão popular de como “deveria” ser a tal Terceira Guerra Mundial, na verdade, como eu falei tem muito de obsessão pela forma da Primeira e Segunda Guerras Mundiais, mas também muito de expectativa escatológica velada. Ninguém se satisfaz com uma “Terceira Guerra Mundial” que não vá além da amarração narrativa entre conflito russo-ucraniano e israelo-iraniano e que não contenham um pouco de mortandade em massa e risco de “fim do mundo”.

Raphael Machado
Raphael Machado

Advogado, ativista, tradutor, membro fundador e presidente da Nova Resistência. Um dos principais divulgadores do pensamento e obra de Alexander Dugin e de temas relacionados a Quarta Teoria Política no Brasil.

Artigos: 57

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