Porque a URSS Apoiou o Recém-Criado Estado de Israel?

“O envolvimento da União Soviética nos primórdios do conflito palestino-israelense é um episódio pouco lembrado das páginas da história do século passado. Como essas relações improváveis e inconstantes se deram e o que está por trás dessa breve e frágil aventura compartilhada?”

A cerca da política da União Soviética no Oriente Próximo e no Oriente Médio recorda-se, com razão, que foi pró-árabe, em diferentes graus. Com exceção dos momentos imediatamente pós-Segunda Guerra Mundial: naquele momento, ela posicionou-se ao lado das forças judaicas da Palestina e, posteriormente, ao lado do jovem Estado de Israel. Essa página pouco conhecida da atuação da URSS merece ser relembrada, pois explica em grande medida o fato de o nascente Estado judeu ter derrotado seus vizinhos e, evidentemente, os palestinos na primeira guerra. Os primeiros contatos entre soviéticos e o movimento sionista remontam a 1941, quando a URSS ainda era aliada da Alemanha Nazista (o pacto germano-soviético foi assinado em 28/09/1939. A invasão nazista da URSS ocorreu em junho de 1941). O presidente da Organização Sionista Mundial, Haim Weizmann, reuniu-se com o embaixador soviético em Londres, Ivan Maiski. A discussão prosseguiu com David Ben-Gurion, presidente da Agência judaica. Não se alcançou nenhum acordo, mas, do lado sionista, demonstrou-se um otimismo razoável. Maiski chegou inclusive a considerar a possibilidade de transferir parte da população árabe da Palestina para abrir espaço aos imigrantes judeus. A aproximação foi confirmada com a visita do embaixador soviético à Palestina. De volta a Moscou, Maiski, então nomeado vice-comissário do povo para Assuntos Exteriores, redigiu em 1944 um relatório no qual sugeria que, na ausência de revoluções proletárias naquela região do mundo, seria possível explorar as contradições anglo-americanas. Segundo alguns, na Conferência de Yalta, os Aliados teriam considerado a criação de um Estado judeu na Palestina, mas existem versões que contestam essa interpretação. Na realidade, ninguém sabe com certeza o que foi dito sobre a Palestina, caso o tema tenha sido efetivamente discutido. O fato é que, se a URSS se manteve prudente até 1946, a partir de então passou a envolver-se de maneira clara com as forças judaicas.

1 – Em primeiro lugar, o compromisso diplomático: teve início com o discurso de Andrei Gromyko na Assembleia Geral da ONU, em 14 de maio de 1947, que contribuiu para a decisão pela partilha. O jovem vice-ministro soviético das Relações Exteriores começou lembrando “as desgraças e sofrimentos extraordinários” do povo judeu. “A experiência do passado e, sobretudo, da Segunda Guerra Mundial”, prosseguiu, “provou que nenhum dos países da Europa Ocidental foi capaz de oferecer ao povo judeu a ajuda necessária para a defesa de seus direitos e nem sequer para a proteção de sua existência”. E concluiu: “Isso explica a aspiração dos judeus à criação de um Estado próprio”. Em consequência, anunciou que a União Soviética era favorável à “criação de um Estado judeu-árabe unificado”. Contudo, acrescentou que, “caso se verificasse que as relações entre judeus e árabes na Palestina fossem tão tensas que tornassem impossível assegurar a coexistência pacífica” entre eles, então Moscou apoiaria a “partilha da Palestina em dois Estados, um Estado judeu e um Estado árabe”. David Ben-Gurion, ciente da relevância da declaração, afirmou: “Uma tomada de posição dessa natureza constitui para nós um presente inesperado… A União Soviética é agora a única potência que apoia nossa causa”. De fato, na votação de 29 de novembro de 1947 na Organização das Nações Unidas, Moscou e seus satélites — com exceção da Iugoslávia (por razões que ainda hoje permanecem pouco claras) — apoiaram a partilha. E quando, em março de 1948, a guerra civil na Palestina levou Washington a recuar em relação à partilha — pequeno, mas significativo momento da história —, Gromyko reiterou no Conselho de Segurança da ONU: “O único meio de reduzir o banho de sangue é a criação rápida e efetiva de dois Estados na Palestina”. Até a proclamação da independência de Israel, em 14 de maio, a URSS manteve essa posição.

Dois dias depois, o ministro das Relações Exteriores de Israel, Moshe Sharett (Moshe Shertok), escreveu ao seu homólogo Viatcheslav Molotov para solicitar o reconhecimento de Israel e expressar-lhe “a imensa gratidão do povo judeu da Palestina e dos judeus do mundo inteiro pela posição firme da delegação da União Soviética na Organização das Nações Unidas sobre a questão da criação, na Palestina, de um Estado judeu independente e soberano, bem como pela defesa dessa posição apesar de todas as dificuldades”. No dia seguinte, 17 de maio, Moscou tornou-se a primeira potência a reconhecer de jure o Estado de Israel.

A União Soviética apoiaria, em seguida, de forma contínua o Estado judeu no âmbito da Organização das Nações Unidas, até sua admissão na organização, em 12 de maio de 1949. É certo que, para obter o ingresso de seu país na nova organização internacional, a delegação israelense na Conferência de Paz de Lausana teve de assinar com os árabes o protocolo de acordo no qual Israel reconhecia a Resolução 181, de 29 de novembro de 1947 — e, portanto, o direito dos árabes palestinos a um Estado —, bem como a Resolução 194, reconhecendo assim o direito de retorno dos refugiados da guerra ou à obtenção de compensação. E, no entanto, mesmo na questão dos refugiados, Moscou defendeu Israel: votou contra a Resolução 194, de 11 de dezembro de 1948, que estabelecia o direito dos refugiados palestinos ao retorno ou à compensação.

2 – Compromisso também político: a União Soviética impôs o apoio ao plano de partilha aos comunistas (judeus e árabes) da Palestina, sem se dar conta das turbulências que essa decisão provocaria, desencadeando assim uma cisão no seio dos comunistas palestinos, assim como em outros partidos comunistas do mundo árabe, que passariam a enfrentar divisões sucessivas em razão desse posicionamento. Tratou-se de um verdadeiro 360 em relação à tradição antissionista, gerando agitação em todos os partidos comunistas árabes. Não, porém, na França, onde L’Humanité exaltava simultaneamente “os Komsomol da União Soviética, os Vietminh do Vietnã e os combatentes da Haganá [https://es.wikipedia.org/wiki/Hagan%C3%A1]”. Por sua vez, a imprensa comunista — e, naquele momento, não apenas a comunista — ignorava completamente os árabes palestinos. Estes não eram apresentados como um povo que via sua terra e sua própria existência ameaçadas, mas apenas como árabes reacionários contra os quais se combatia em nome da grande união de todos os povos do mundo…

3 – Compromisso também — e sobretudo — militar, via Praga. Os primeiros contatos foram estabelecidos já em 1947. Contudo, a negociação decisiva foi conduzida na Checoslováquia por uma pessoa próxima a David Ben-Gurion: Ehud Avriel. Com o apoio de Moscou, Avriel convenceu os dirigentes tchecos a fornecer suas armas não às forças árabes, como haviam começado a fazer, mas às forças judaicas da Palestina. Inicialmente, trataram-se de entregas clandestinas, antes da independência de Israel; posteriormente, estabeleceu-se uma ponte aérea oficial para Israel, com base em Žatec, com vários voos diários. No total, ao longo de um ano, a Checoslováquia forneceu 60 milhões de cartuchos, 25 mil fuzis Mauser, 10 mil baionetas, 5 mil metralhadoras leves, 880 metralhadoras pesadas, 250 pistolas, 22 tanques, 1 milhão de munições anticarro, 84 aeronaves de combate e cerca de 10 mil explosivos. Em 1948, o volume total dos contratos com Praga alcançou 22 milhões de dólares da época — valor que, em dólares atuais, deveria ser multiplicado por mais de mil. Isso sem contar o treinamento no manejo das armas, garantido por instrutores tchecos, inicialmente na Checoslováquia e, posteriormente, na própria Israel.

“As armas tchecas salvaram o país (…) Constituíram a ajuda mais importante que recebemos. Duvido muito que, sem elas, tivéssemos conseguido sobreviver aos primeiros meses”, reconheceu, vinte anos mais tarde, David Ben-Gurion. De fato, a chegada de armamentos foi crucial entre abril e maio de 1948. Em uma primeira fase, contribuiu para que as forças judaicas executassem o Plano Dalet [https://es.wikipedia.org/wiki/Plan_Dalet], que lhes permitiu assumir o controle da maior parte das grandes cidades da Palestina. Em uma segunda etapa, esses recursos possibilitaram ao jovem Israel enfrentar, simultaneamente, cinco contingentes árabes — Egito, Síria, Iraque, Transjordânia e Líbano — em um período no qual seu exército ainda não estava plenamente equipado. Se a correlação de forças militares [em favor das forças judaicas] tornou-se esmagadora a partir do verão de 1948 — em particular graças às armas provenientes do campo comunista —, nas primeiras semanas a situação permaneceu relativamente equilibrada. Cabe lembrar que os Estados Unidos decretaram um embargo de armas à Palestina em dezembro de 1947.


O biógrafo de David Ben-Gurion, Michel Bar-Zohar, relata sobre o primeiro pouso em 28 de março de 1948: “Naquela noite, produziu-se um verdadeiro milagre quando um grande avião — o primeiro a chegar sem escalas desde a Checoslováquia — aterrissou em um aeródromo secreto. As armas que transportava foram imediatamente distribuídas aos combatentes. Outro milagre ocorreu no dia seguinte: o Nora (…) rompe o bloqueio inglês e se ancora no porto de Tel Aviv”. Com essas armas, de forma imediata, a Haganá pôde iniciar a ofensiva para abrir o caminho até Jerusalém, durante a qual ocorreria o primeiro grande massacre: o de Deir Yassin, em 9 de abril de 1948. O fornecimento de armas checoslovacas prosseguiu até fevereiro de 1951.

Mais surpreendente — e ainda pouco conhecido — é o fato de que, como explica Laurent Rucker em sua obra fundamental, Praga chegou a enviar uma brigada de judeus comunistas checoslovacos para combater ao lado da Haganá — após terem previamente doado seus bens ao Estado tcheco. Sugerida pelo secretário do Partido Comunista israelense, Shmuel Mikunis, aceita por David Ben-Gurion e pelo futuro líder soviético Georgy Malenkov, a iniciativa concretizou-se em Praga no outono de 1948: em dezembro, 2 mil voluntários chegaram a Israel. Com a guerra praticamente encerrada, contudo, a brigada foi dissolvida, e seus integrantes integrados de forma dispersa ao exército israelense.

4 – Compromisso também demográfico — talvez ainda mais fundamental que o militar. A população judaica da Palestina representava então cerca de 600 mil pessoas, isto é, um terço do total da população palestina. Os dirigentes sionistas precisavam alterar a correlação de forças a seu favor. A União Soviética contribuiu de maneira decisiva: ao longo de 1946, permitiu a saída de mais de 150 mil judeus poloneses rumo às zonas de ocupação americana e britânica na Alemanha, onde passaram a integrar os campos de pessoas deslocadas. Os sobreviventes provenientes dos campos nazistas praticamente não tinham outra opção senão dirigirem-se à Palestina. Os Estados Unidos se recusaram a acolher esses refugiados em seu território e não lhes concederam vistos. Nessas circunstâncias, os campos de deslocados se transformaram em um verdadeiro celeiro para as organizações sionistas.

Antes de 1948, a União Soviética apoiou, direta ou indiretamente, as operações de imigração clandestina organizadas pela Agência Judaica a partir de países da Europa Oriental. Dos 60 mil judeus que ingressaram na Palestina entre 1946 e 1948 — metade deles de forma clandestina —, 96% provinham da Europa; destes, 80% eram oriundos da Polônia, Romênia, Checoslováquia e Hungria. Após 14 de maio de 1948, a questão da imigração tornou-se ainda mais vital: a jovem Israel necessitava urgentemente de novos soldados e trabalhadores. Assim, entre 1948 e 1951, mais de 300 mil judeus provenientes da Europa Oriental chegaram a Israel — ou seja, mais da metade do total de imigrantes no período. Única exceção: nesse intervalo, a URSS autorizou a emigração para Israel de apenas 500 judeus (segundo fontes soviéticas; as autoridades israelenses contabilizavam mais de 8 mil, mas mesmo esse número permanece mínimo quando comparado ao total da população judaica na União Soviética).

Nada havia de clandestino nesse aspecto. O campo comunista demonstrou abertamente seu apoio à imigração. Perante o Conselho de Segurança da ONU, o delegado ucraniano Vasili Tarasenko declarou, em 27 de maio de 1948: “A questão da migração para Israel é um assunto interno do Estado de Israel. O Conselho de Segurança não tem nem o direito nem a capacidade de interferir nos direitos soberanos de um Estado (…). Alguns delegados levantaram, perante o Conselho, o argumento de que essa migração ameaça a segurança dos Estados árabes. Quero sublinhar, antes de tudo, que não conhecemos nenhum exemplo de incursão das forças armadas de Israel no território de outro Estado, exceto nos casos de autodefesa, quando se viram obrigadas a repelir ataques das forças armadas de outro país em território israelense. Tratava-se de autodefesa no pleno sentido da palavra”. E Andrei Gromyko, exercendo seu direito de veto, rejeitou a demanda britânica de suspender a migração de homens em idade de combate.

Esse apoio maciço e multidimensional da União Soviética em favor das forças judaicas constituiu, evidentemente, uma surpresa. O dirigente sionista Nahum Goldmann expressou, em suas memórias, sua “grande surpresa, pois tanto os meios judaicos quanto os não-judaicos estavam habituados a considerar os soviéticos como inimigos vorazes do sionismo”.

Os comunistas — em particular os soviéticos — sempre se opuseram à doutrina do sionismo. Em essência, sustentavam que os judeus não constituíam um povo e que deveriam assimilar-se por meio da revolução, que os libertaria, assim como ao conjunto dos demais cidadãos.

No início do século XX, Vladimir Lenin, polemizando com o partido operário judeu socialista Bund, escreveu no jornal Iskra: “Absolutamente inconsistente do ponto de vista científico, a ideia de um povo judeu especial é, por seu alcance político, reacionária (…). A hostilidade contra as camadas alógenas da população só pode ser eliminada quando deixarem de constituir um elemento estrangeiro, quando se fundirem na massa da população. É a única solução possível para a questão judaica, e devemos apoiar tudo o que contribua para pôr fim ao particularismo judaico.” Essa foi a linha defendida por Lenin e que seria igualmente sustentada pelo Partido Comunista ao chegar ao poder.

Quando chegaram ao poder, os bolcheviques proclamaram a igualdade dos judeus e aboliram todas as discriminações de que eram vítimas sob o regime dos czares: a zona de residência obrigatória, a exclusão de numerosas profissões, as cotas de acesso às universidades, a proibição do culto, sem falar dos pogroms. Durante a guerra civil, os Bolcheviques combateram o antissemitismo criminoso dos Brancos. Em 1932, a nacionalidade judaica passou a constar nos passaportes. Foi inclusive criada uma “Palestina soviética” em Birobidjan, região autônoma instituída em 1934 no Extremo Oriente, com o iídiche como língua oficial. O presidente do Comitê Executivo Central da União Soviética declarou com satisfação: “Pela primeira vez em sua história, o povo judeu viu realizar-se seu ardente desejo de fundar uma pátria, de construir um Estado nacional”. É possível medir a contradição teórica entre essa declaração e a posição de Vladimir Lenin.

Contudo, as proclamações grandiosas mal disfarçam o fato de que, ao longo dos anos 1930, o Partido Comunista soviético optou pela instrumentalização do antissemitismo, sem dúvida profundamente enraizado na sociedade russa. Sob o pretexto da luta antirreligiosa e antinacionalista, Joseph Stalin ordenou a confiscação de bens comunitários judaicos, proibiu e perseguiu rabinos, impôs a perseguição das escolas em iídiche e deportou bundistas e sionistas. Paradoxalmente, a Yevsektsia (seção judaica do Partido Comunista) atuou na mesma direção, exigindo que “se ponha fim às hesitações da atitude oficial em relação ao partido sionista”. Stalin era antissemita? A questão pode ser amplamente debatida, mas, em todo caso, ele mobilizou o chauvinismo grão-russo e, consequentemente, o antissemitismo.

Durante a Segunda Guerra Mundial, evidentemente, o regime atenuou essas suas posições diante do genocídio hitlerista. No final de 1942, o governo soviético autorizou inclusive a criação do Comitê Antifascista Judaico (CAJ), com o objetivo de mobilizar os judeus do mundo em favor da União Soviética e arrecadar fundos para o esforço de guerra soviético. A comunidade judaica norte-americana era o principal alvo dessa campanha, esperando-se que ela ajudasse a pressionar o governo dos Estados Unidos a abrir uma segunda frente na Europa. A viagem do grande ator Solomon Mikhoels e de Itzhik Fefer ao Ocidente, entre maio e dezembro de 1943, foi amplamente bem-sucedida. Contudo, eles retornaram com duas propostas que provocariam conflitos graves e duradouros: a redação de um Livro Negro sobre os crimes nazistas contra os judeus da URSS e a criação de uma República Autônoma Judaica na Crimeia.

A “lua de mel” entre o regime e a população judaica, de fato, não duraria muito. Já em 1943 surgiram os primeiros relatórios hostis ao nacionalismo burguês do Comitê Antifascista Judaico (CAJ). Eles se multiplicaram e tornaram-se mais inquietantes em 1946. A partir de 1948, por iniciativa de Andrei Zhdanov, desenvolveu-se uma ampla campanha repressiva denominada campanha anticosmopolita. O ano de 1948 começou tragicamente: em 13 de janeiro, foi assassinado o presidente do Comitê, o grande ator Solomon Mikhoels, e numerosos de seus camaradas foram presos. O CAJ foi dissolvido, seu jornal e sua revista foram fechados. Como consequência do processo secreto contra o Comitê, realizado entre maio e julho de 1952, todos os acusados — com exceção de uma mulher — foram condenados à morte e executados. A quase totalidade das instituições judaicas foi proibida. Seguiu-se um expurgo maciço e violento, que se intensificou até o chamado “caso das blusas brancas” — os médicos judeus soviéticos acusados de tentar assassinar Joseph Stalin e outros dirigentes soviéticos. Apenas a morte do Grande Marechal, em 5 de março de 1953, pôs fim a essa loucura. A etapa seguinte previa a deportação em massa de judeus soviéticos para a Sibéria (fato que se tornou conhecido após a abertura dos arquivos).

O momento-chave dessa contradição entre o apoio a Israel e a repressão simultânea contra os judeus soviéticos ocorreu com a chegada de Golda Meir como primeira embaixadora israelense. Ela foi calorosamente recebida na grande sinagoga de Moscou por 20 mil judeus moscovitas, em 11 de setembro de 1948 — número muito superior aos cerca de 2 mil fiéis, no máximo, que costumavam reunir-se nas grandes ocasiões. A mobilização repetiu-se em 4 de outubro, por ocasião do Rosh Hashaná (Ano-Novo judaico), e em 10 de outubro, no Yom Kippur (Dia do Perdão).

No entanto, em 18 de setembro, o escritor judeu Ilya Ehrenburg fez um alerta no jornal Pravda: “O futuro dos trabalhadores judeus de todos os países está ligado ao do socialismo. Os judeus soviéticos, juntamente com todo o povo soviético, trabalham na construção de sua pátria socialista. Não olham para o Oriente Próximo, mas apenas para o futuro. E creio que o povo trabalhador do Estado de Israel, que não padece do misticismo dos sionistas, volta-se agora para o Norte, para a União Soviética”. A esposa do ministro das Relações Exteriores, Vyacheslav Molotov, que teve a ousadia de conversar em iídiche com a dirigente sionista durante a recepção oficial, foi presa, forçada a divorciar-se do marido e enviada a um campo…

Nessas condições, as estreitas relações entre Moscou e Tel Aviv não poderiam perdurar por muito tempo: foram se deteriorando progressivamente até a ruptura diplomática, em 12 de fevereiro de 1953, após o atentado contra a delegação soviética em Tel Aviv.

Por que houve esse período de apoio soviético ao movimento sionista?

1 – Segundo algumas pessoas (Hélène Carrère d’Encausse), Stalin teria alimentado a expectativa de que Israel se tornasse um Estado socialista: “Os princípios socialistas que animam as colônias judaicas, o passado dos dirigentes do Estado judeu — muitos dos quais haviam passado por partidos comunistas do Leste europeu ou lutado ao seu lado — bem como sua vontade de modernização, permitem supor que, em um Oriente Médio marcado por estruturas congeladas no tempo, Israel seria uma ilha de modernidade, de progresso e em última instância um modelo revolucionário”.

Essa teoria soma-se à de uma certa propaganda da direita norte-americana, baseada, segundo Peter Grose, no fato de que o partido de David Ben-Gurion “surgiu da União Soviética e de seus Estados satélites, mantém laços de parentesco com essas regiões e, ideologicamente, situa-se muito mais próximo da União Soviética do que dos Estados Unidos”. O escritor fortemente anticomunista Ray Brooks evocava, por exemplo, “o estabelecimento de um Estado comunista desesperado no coração do Oriente Médio” e manifestava apreensão diante de “uma população atraída da Europa Central e Oriental, onde apenas o comunismo fornece a organização e as armas que permitem conter a resistência do inimigo futuro”.

No entanto, a meu ver, trata-se de uma hipótese pouco convincente: Stalin era, em essência, antissionista e pouco propenso à ingenuidade. Ainda que tenha nutrido ilusões, estas se dissiparam rapidamente diante da evolução da jovem Israel: nas eleições de 1949, o Partido Comunista obteve apenas 3,5% dos votos, ainda que o partido sionista de esquerda Mapam tenha alcançado quase 15%; e, em 1950, Israel alinhou-se ao campo ocidental no primeiro conflito armado da Guerra Fria — a Guerra da Coreia.

Em agosto de 1948, David Ben-Gurion recebeu o embaixador norte-americano afirmando: “Israel saúda o apoio russo nas Nações Unidas. Mas não tolerará nenhuma dominação soviética. Israel não apenas é ocidental em sua orientação, como nosso povo é democrata e está convencido de que só pode fortalecer-se e permanecer livre por meio da cooperação com os Estados Unidos”. E, no início de janeiro de 1949, Israel obteve — não por acaso — um empréstimo norte-americano de 100 milhões de dólares. Gromyko praticava, portanto, o chamado método Coué (baseado na autossugestão e na autohipnose ndt) ao declarar: “O povo de Israel não tolerará que seu país se converta em uma base militar anglo-americana”. Para o primeiro-ministro israelense, segundo seu biógrafo, “a partir de agora, Israel será o bastião do Ocidente no Oriente Médio”.

A ideia de uma aproximação [entre a União Soviética e o movimento sionista ndt] não remonta a 1947. Já em 1943, um diplomata soviético escrevia: “Nos anos 1920, só podíamos considerar o sionismo como uma agência do imperialismo (…) Porém, agora toda a situação mudou. Não apenas a Grã-Bretanha e o sionismo parecem estar em disputa permanente, como também nossa visão sofreu uma evolução significativa. Se a Rússia soviética deseja interessar-se pelo futuro do Oriente Médio, é evidente que os judeus avançados e progressistas da Palestina representam mais promessas para nós do que os árabes atrasados controlados pelas cortes feudais de reis e efendis [senhores]”.

2 – Outra tese sustenta que Moscou, ao apoiar Israel, esperava conquistar a simpatia das comunidades judaicas e, por meio delas, criar um lobby capaz de influenciar a política dos países onde a população judaica era numerosa. Hoje, quando as ideias da direita sionista se tornaram dominantes na maioria das comunidades judaicas, é difícil imaginar tal cenário. Na época, contudo, o papel da União Soviética na Segunda Guerra Mundial na libertação dos campos de concentração e no apoio a Israel contribuiu para formar uma opinião amplamente positiva em relação à União Soviética entre as e os judeus.

Também é preciso ter em conta que, para todos os atores americanos e europeus, tanto do Leste quanto do Oeste, o genocídio dos judeus tem um peso enorme. A opinião pública e os dirigentes estão profundamente abalados pela recente descoberta dos campos de concentração e de extermínio. Isso também é verdadeiro na União Soviética, onde a aniquilação dos judeus foi particularmente horrível: ao menos um milhão de vítimas na chamada “Shoah pelas balas”, levada a cabo pelos Einsatzgruppen. No total, os judeus representaram 2,5 dos 25 milhões de mortos soviéticos, quando, em 1940, constituíam apenas 2,5% da população.

3 – Tese mais crível, na minha opinião: a vontade soviética de utilizar a Palestina para expulsar os britânicos dali e minar sua influência, já vacilante, no Oriente Médio. Por outro lado, os Estados Unidos tinham exatamente o mesmo objetivo: assumir o lugar da Grã-Bretanha no Oriente Médio. Essa convergência traduziu-se no apoio de Moscou e Washington ao plano de partilha da Palestina, algo que se torna incompreensível se esquecermos que, em 1947, a Guerra Fria ainda não havia começado formalmente: É o chamado Golpe de Praga, em fevereiro de 1948, a chegada ao poder do Partido Comunista em Praga, que marca o verdadeiro ponto de partida do período. Tanto a União Soviética quanto os Estados Unidos avaliavam perfeitamente o caráter estratégico do Oriente Médio: constitui a grande via de comunicação entre Europa, Ásia e África, concentra as maiores reservas de petróleo do mundo e representa o cinturão meridional da URSS.

Naqueles momentos, a Grã-Bretanha está arruinada pela guerra e só escapa da falência graças aos empréstimos e arrendamentos dos Estados Unidos: 39 milhões de libras. Nessas condições, o mandato britânico é caro demais. O terrorismo sionista obriga Londres a manter estacionados 100 mil soldados, entre os quais ocorrem 758 mortes entre 1945 e 1948. Além disso, o Reino Unido já tinha muito trabalho na Índia. Então, não lhe restou outra alternativa senão entregar o mandato da Palestina à ONU. E, como consequência, a estratégia de Moscou e de Washington triunfou muito além do que esperavam. O fracasso da Grã-Bretanha na Palestina acarretou seu declínio progressivo em toda a região: desde a revolução dos Oficiais Livres no Egito (1952) até a derrubada da monarquia em Bagdá (1958) e a saída do último soldado britânico do Golfo Arabo-Pérsico (1971). Mas, de forma clara, beneficiou mais os Estados Unidos do que a União Soviética: o sistema defensivo montado pelos Estados Unidos (com França e Grã-Bretanha), da Declaração Tripartite (1950) ao Pacto de Bagdá (1955), iria literalmente cercar a URSS, mobilizando seus aliados: Turquia, Iraque, Irã, Paquistão…

4 – De fato, a vontade do Kremlin de libertar o Oriente Próximo e Médio do domínio britânico foi acompanhada da desestabilização do mundo árabe reacionário. Como escreve Laurent Rucker: “Os diplomatas soviéticos, como mostram algumas de suas declarações perante seus homólogos israelenses, consideravam que a derrota na Palestina dos exércitos árabes não deixaria de afetar profundamente as sociedades árabes (…). Em contrapartida, a ideia de um amplo plano de Moscou para criar uma situação revolucionária no mundo árabe por meio do apoio à criação de Israel termina sendo mais problemática”.

5- Última observação: o ano de 1948 também esclareceu a natureza da repressão contra as pessoas judias naquele momento na URSS. Certamente não se deve subestimar o antissemitismo russo e sua instrumentalização pelos dirigentes soviéticos em determinados períodos. Mas o regime temia, acima de tudo, ver uma minoria, neste caso a judia, escapar à estrutura piramidal do poder e adquirir autonomia. Laurent Rucker cita esta significativa carta de maio de 1943 ao secretariado executivo do Sovinformburo, de um tal Krujkov, que escreveu: “Penso pessoalmente que a direção do CAJ se intromete em assuntos nos quais não deveria se intrometer. Considero politicamente danoso o fato de que este receba cartas de cidadãos judeus soviéticos que dizem respeito a todo tipo de solicitações de caráter material ou sobre as condições de vida, e se preocupe em satisfazer essas demandas escrevendo aos órgãos do Partido e do Estado soviético”.

Na reação do poder soviético e, por certo, de Stalin, há em primeiro lugar, um ódio pela ideia de que as e os judeus pudessem se aproveitar da ajuda a Israel para adquirir esse papel singular no sistema soviético. E a repressão não se limitaria apenas à Rússia. Na mesma época ocorreu o processo contra László Rajk (Hungria, 1949) e, frequentemente, os processos de Praga dos anos 1951/1952 tiveram como alvo judeus apresentados como esse caso ou como sionistas. Em Praga, responsáveis pela ajuda militar a Israel foram julgados durante o processo Slánský em 1952: Mordechai Oren, dirigente do movimento sionista de esquerda Hashomer Hatzair, que havia coordenado a operação, foi condenado a 15 anos de prisão (só cumpriu 4).

A partir de 1950, as relações soviético-israelenses se deterioraram. Há sucessivas queixas dos embaixadores da URSS em Tel Aviv de que Israel se adentra, pouco a pouco, no campo ocidental e já nem sequer manifesta o reconhecimento que deveria manifestar pela ajuda da URSS.

Laurent Rucker invoca vários fatores para a mudança: em primeiro lugar, Israel perdeu todo interesse estratégico para a URSS, que já não pode instrumentalizá-lo para aprofundar as contradições interimperialistas; depois, há o fator interno da URSS, onde o sionismo volta a ser o inimigo, assim como o imperialismo ou o titoísmo. É a razão pela qual, citando Rucker: “a contradição entre a política interna, de repressão aos judeus da URSS, e a política externa, de neutralidade passiva em relação a Israel, tornou-se insuperável”.

A mudança decisiva se dá em 1955: a URSS se volta para o mundo árabe e, em uma primeira etapa, conclui um contrato de entrega de armas com o Egito de Nasser.

Diante do Soviete Supremo, Nikita Khrushchev parece amnésico: “Compreendemos as aspirações dos povos árabes que lutam por sua plena libertação da dominação estrangeira. Por conseguinte, não podemos senão condenar as ações de Israel que, desde os primeiros dias de sua existência, tem ameaçado seus vizinhos e adotado uma política hostil em relação a eles. Está claro que essa política não serve aos interesses de Israel e que aqueles que a adotam contam com o apoio das potências imperialistas (…). Estas aspiram a utilizar Israel como um instrumento contra os povos árabes, com o objetivo de explorar implacavelmente as riquezas da região”.

E o ministro israelense de assuntos exteriores, Abba Eban, tira as seguintes lições: “Em 1948, Moscou nos havia apoiado porque éramos os melhores garantidores da saída dos britânicos da Palestina. Uma atitude idêntica por parte dos países árabes em relação à Grã-Bretanha e seus aliados levou posteriormente os russos a adotar uma atitude pró-árabe”.

Pouco depois, durante a Guerra de Suez, Moscou estará ao lado dos árabes. E, durante trinta anos, Moscou será o grande aliado do mundo árabe contra o antigo aliado israelense…


*Este texto é a tradução/transcrição da conferência que Dominique Vidal proferiu na Universidade Popular do IREMMO em 4 de fevereiro de 2017. O vídeo pode ser encontrado em https://www.youtube.com/watch?v=__wHX1yEEvA. De acordo com comentário de Dominique Vidal, esta conferência se baseia em particular em Dominique Vidal, « L’URSS “sioniste”? Moscou et la Palestine 1945-1955 », La Revue d’études palestiniennes, n° 28, verão de 1988; e sobretudo em Laurent Rucker, Staline, les Juifs et Israël, PUF, 2001, assim como Michel Réal, « Quand l’Union soviétique parrainait Israël », Le Monde diplomatique, setembro de 2014 https://mondiplo.com/cuando-la-union-sovietica-apadrinaba-a-israel. Ndt.

Dominique Vidal, jornalista e historiador, antigo redator-chefe adjunto do Le Monde Diplomatique, também foi diretor internacional do Centre de formation et de perfectionnement des journalistes (CFPJ). Participa das atividades do IREMMO (Institut de Recherche et d’Études Méditerranée Moyen-Orient, http://iremmo.org). É também autor de vários livros, em particular sobre o conflito palestino-israelense, entre eles: Les 100 Clés du Proche-Orient, com Alain Gresh, Fayard, 2011 (1986), Un Autre Israël est possible, com Michel Warschawski, ed. de l’Atelier, 2012 e Palestine : le jeu des puissants, (dir.), Sindbad, 2014.

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Dominique Vidal
Dominique Vidal

Ensaísta francês.

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