A Paranoia do Povo Eleito

A Torá, texto sagrado e fundamental do judaísmo, descreve leis e fundamentos religiosos, entre os quais “A Aliança” entre Yahweh e seu povo, escolhido como eleito. Aliança e eleição adotadas também pelos Pais Peregrinos, puritanos ingleses, que desembarcaram em Massachusetts em 1620, trazendo ao Novo Mundo o fanatismo calvinista: a doutrina da predestinação e a aliança entre Deus e seu povo. Os predestinados, preescolhidos por Deus que já escolheu a quem salvar, vivem o sucesso e a riqueza como sinal de predileção divina, o novo povo eleito.

Estas normas religiosas provocam a paranóia e um delírio de grandeza que, mantendo a lucidez psíquica, dá a percepção de superioridade moral e intelectual. Portadores da justiça e encarnação do salvador e libertador do mal, a missão do povo predileto de Deus: no caso concreto, os Estados Unidos da América.

Justiça suprema que se manifestou no Processo de Nuremberg e no de Tóquio, onde os inimigos foram julgados pelos vencedores, encarnação do direito divino. Onde pela primeira vez na História o inimigo derrotado se torna o criminoso a ser condenado, com provas de culpa baseadas em leis retroativas, não no direito de nenhuma nação e com limites à ação da defesa. Aqueles que se erigiam em juízes dos derrotados eram os herdeiros do genocídio dos nativos americanos e dos expurgos stalinistas, mas a eleição divina o permitia.

Último episódio em ordem de tempo, mas não em absoluto, a invasão da Venezuela, ato de guerra contra um Estado soberano, culminado com o sequestro do presidente Maduro e da esposa, um líder eleito pelo povo, que levou a Venezuela a uma condição de miséria e desespero, expoente socialista antiglobalista, inimigo jurado da idiotice woke, da usura e da pornografia, mas sobretudo malvisto por Israel devido à contrariedade ao controle do Fundo Monetário Internacional.

Segundo a narrativa da mídia, um marxista inveterado, na realidade um bolivariano, como muitos líderes populistas sul-americanos, enriquecido e corrupto, perseguidor de seus antagonistas e hostil aos EUA. Um presidente que teria direito ao julgamento do povo e de sua magistratura, não dos últimos que podem julgar os outros.

Certamente não um benfeitor da humanidade, encarcerado por gendarmes planetários piores do que ele, não os campeões exportadores de democracia da propaganda progressista, mas agressores e perseguidores seriais. Campeões de injustiças e crimes de guerra, responsáveis pelos bombardeios em tapete sobre alvos civis na Segunda Guerra Mundial, que destruíram Dresden e Leipzig e as cidades italianas, pelo genocídio de Hiroshima e Nagasaki com o conflito já concluído. Pelo massacre de crianças na escola milanesa de Gorla e pela destruição da abadia de Monte Cassino em 1944, fundada por São Bento em 529, detalhe que dá a ideia da cultura dos “libertadores”. Carrascos de seus emissários Noriega e Saddam Hussein, depois traídos e mortos quando não serviam mais, culpados pelas desestabilizações das “Revoluções Coloridas” nos países árabes, do Euromaidan ucraniano prelúdio da guerra fratricida entre Rússia e Ucrânia. Cães de guarda e financiadores de Israel, cúmplices do genocídio palestino, da ruína da Síria e do Líbano, do triunfo dos talibãs no Afeganistão.

A loucura dos paranóicos do povo eleito não se deterá na Venezuela, mas se estenderá ao Panamá, à Colômbia, à Groenlândia, onde quer que interesses do grande capital americano estejam: a democracia que fingem exportar com a violência é o consumismo, a exploração, a vulgaridade cafona.

Às fáceis vitórias militares contra inimigos fracos ou indefesos segue-se a imposição de um modelo econômico e social destrutivo: o pior, o americano, feito de riqueza para poucos e miséria para todos. Do Big Stick de Roosevelt à doutrina Monroe, trata-se de políticas de ameaça militar, autoritarismo e ingerência violenta nos assuntos internos de Estados soberanos.

Para a Itália, nenhum perigo, sendo uma colônia EUA que hospeda dezenas de bases militares estadunidenses com armas atômicas, invadida e subjugada em 1945. Ocupação que perdura até hoje, a humilhante Rendição Incondicional disfarçada de armistício foi o fim inglório da guerra e da Pátria: o preço da traição.

Fonte: Geopolitika.ru

Roberto Giacomelli
Roberto Giacomelli
Artigos: 57

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