Infância, sexo e tradição

Um assunto ao qual sempre retornamos e insistimos, até por sua importância, é o da sexualidade como potência e ato, em suas amplas dimensões que transcendem a biologia e abarcam também cultura, psicologia, ética, simbologia, etc.

Na prática, ainda que praticamente todo mundo nasça homem ou mulher, essa sexualidade masculina ou feminina existe, na criança, em potência. As características sexuais primárias e secundárias ainda vão se desenvolver e fixar, o que demarca biologicamente a passagem da infância à idade adulta.

Mas o homem não é mero animal, e essas características e transformações biológicas existem em paralelo com uma série de outras dimensões existenciais.

A um ser homem biologicamente, portanto, deve corresponder uma série de papéis e comportamentos sociais masculinos, o cultivo de determinados valores masculinos, a recordação de exemplos masculinos, um pensar masculino, uma ética específica masculina, e o mesmo vale para a mulher. Sexo não é apenas (ou mesmo primariamente, se você não for materialista) biologia.

Essas dimensões da sexualidade, na infância, são bastante difusas. A ideia de muitas culturas é que a criança não tem realmente sexo. É por isso, por exemplo, que no Ocidente, por alguns séculos, meninos e meninas pequenos utilizavam o mesmo tipo de roupa, sem diferenciação sexual clara. Outras culturas também enxergam algum tipo de indefinição sexual na infância e registram isso de alguma maneira.

Isso tem uma série de implicações: em todas as sociedades tradicionais, você se TORNA homem ou mulher. Você não nasce um. Sem exceção, as culturas tradicionais possuem ritos de passagem que identificam, consagram e garantem o tornar-se homem ou o tornar-se a mulher, status ao qual não raro também está associada a cidadania ou participação política e social plena na comunidade.

Em uma sociedade antitradicional como a nossa, onde não existem ritos de passagem, se proliferam “coachs” de masculinidade que ensinam a “ser homem”. Algumas pessoas ignorantes reagem como se fosse absurdo “ensinar” a ser homem, como se você “nascesse” homem e ser homem fosse simplesmente um fato biológico e não se pudesse ser menos homem ou mais homem. Ao contrário, por milênios, nos cinco continentes, sempre se ensinou a “ser homem”.

O fato de que quase todos os tais “coachs” de masculinidade só digam asneiras não muda o fato fundamental de que um menino precisa aprender a ser homem e que em todas as sociedades históricas essa função de conduzir o menino por essa jornada era função do pai, de um mestre, de um bando, etc. Em uma sociedade sem iniciação, a pedagogia masculina vira business capitalista.

Isso é um pouco diferente do caso feminino, em que a feminilidade aflora de maneira mais ou menos orgânica com a chegada da menstruação. Em certo sentido, a mulher é mais “natural” que o homem, o que possui uma série de outras implicações, até mesmo tecnológicas e artísticas que não vamos abordar aqui. É bom que as meninas se beneficiem do conhecimento e sabedoria de mães e avós, mas uma menina pode virar mulher plena sem isso. Um menino virar um homem sem guia e exemplos é mais difícil.

Outra implicação é que a indefinição sexual da infância demarca as crianças como alvos ideais da engenharia social LGBTQ. A sexualidade infantil existe em potência. Ela é difusa e algo que vai se desenvolvendo, construindo e reforçando tanto biologicamente como socialmente e culturalmente. Na infância não é raro que uma menina goste de atividades masculinas ou que um menino não goste de atividades masculinas, sem que isso afete seu desenvolvimento como mulher ou homem heterossexuais, caso não haja intervenção progressista em suas educações.

É importante ter tudo em mente para que possamos criticar esses vários fenômenos modernos.

A sexualidade, na infância, ainda não está desenvolvida e é por isso que não se deve tentar interferir de forma contrária à natureza nela e é precisamente por isso que os progressistas querem interferir e cooptar crianças. Ao mesmo tempo, é importantíssimo que voltemos a ter formas legítimas e formais de conduzir rapazes da infância à virilidade adulta, sem o ridículo do coaching capitalista de pseudo-masculinidade.

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Raphael Machado

Advogado, ativista, tradutor, membro fundador e presidente da Nova Resistência. Um dos principais divulgadores do pensamento e obra de Alexander Dugin e de temas relacionados a Quarta Teoria Política no Brasil.

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