Até o fim, até a vitória: uma perspectiva sobre a longa crise ucraniana

A crise ucraniana tem sido tema de debates, análises e “torcida” ao longo de quase 10 anos, com idas e vindas, muito sangue derramado, vidas perdidas e uma disputa histórica e geopolítica levada ao limite. Diante disso, muitos oscilaram em suas perspectivas sobre o resultado final da disputa, mas sabemos que no horizonte da guerra pelo destino de um povo, não há espaço para dúvida, somente para a vitória.

Acompanhei a crise ucraniana desde o começo, desde o final de 2013. Ou seja, inclusive desde antes da existência da Nova Resistência.

Na prática, eu e mais alguns confrades e camaradas que construímos a Frente Brasileira de Solidariedade com a Ucrânia éramos a principal fonte de informação sobre o tema no Brasil.

Mergulhamos de cabeça, o envolvimento no tema era total. Fizemos campanha para a expedição de voluntários, conheci alguns pessoalmente. Desenrolamos todos os contatos e pontes necessárias. Fizemos a cobertura dos voluntários.

Fazíamos sitrep diário com as movimentações militares e as novidades. Junto a outros camaradas estrangeiros, fizemos inclusive uma rede nacionalista internacional, para garantir que aqui no Brasil não achassem que o Donbass era “comunista”, que o conflito era “comunistas vs nazistas” ou qualquer besteira do tipo. Nossa propaganda triunfou, graças a nós, os anarquistas e antifas têm “medo” e “nojo” do Donbass.

Eu fui parar em listas de “trolls”, tive meu nome mencionado no julgamento do Lusvarghi em Kiev. Minhas fotos apareceram em um programa de TV de um “Datena” ucraniano.

Apesar de sucessos iniciais, tivemos que ver a queda de Mariupol, Sloviansk, Lisichansk, Artyomovsk, depois uma ponta de lança tentando separar Donetsk e Lugansk e os combates se tornaram “quadra a quadra”. Naquela época, eu tive que ouvir gente do “nosso lado” assumir tons irônicos e derrotistas. Eu segui a linha, pregando a inevitável vitória. Cá entre nós, desprezo total por derrotistas, pessimistas, niilistas, etc. Aqui propagamos a vitória e erguemos a bandeira, mesmo enquanto estivermos cercados em um único prédio enquanto as bombas caem.

Depois uma reviravolta, caldeirões que destruíram parcelas consideráveis das FAs ucranianas e dos batalhões paramilitares. Cessar-fogo. Uma falsa paz. Farsa. Os ucranianos continuavam atacando, mas o conflito estava congelado. Putin não faria nada para libertar o Donbass, apesar de oferecer toda ajuda civil e humanitária aos cidadãos.

Então, começaram os assassinatos, muito suspeitos, muito inexplicáveis, de heróis e comandantes do Donbass.

A Guerra do Donbass deixou um gosto amargo na minha boca. Conheço voluntários que dizem ter “se arrependido” de lutar lá, camaradas que dizem que “foi uma perda de tempo”, outros ficaram em um “deixa disso”. Eu, no mínimo, vinha ignorando o conflito há um tempo, porque me incomodava ao extremo a situação não resolvida, o “abandono”.

O reconhecimento da independência de Donetsk e Lugansk é um bálsamo. Nada foi em vão. Houve grandes desvios de rota, mas uma espécie de vitória, ainda pequena, mas que pode crescer, se manifestou. Os heróis caídos, anjos empunhando espadas, podem repousar (ainda que eles certamente preferirão seguir guiando seu povo).

Nós que gastamos tanto tempo, recursos e saúde mental naquela época, podemos brindar.

Raphael Machado

Advogado, ativista, tradutor, membro fundador e coordenador-geral Nova Resistência, é um dos principais divulgadores do pensamento e obra de Aleksandr Dugin e de temas relacionados a Quarta Teoria Política no Brasil.

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